Arquivos para 'Yaddayaddayadda'Categoria

CRISE? QUE CRISE?

Dezembro 10, 2007

caixa.jpg

Sim, quem vive da venda de discos vai mal. Mas quem vive da venda de música – direta ou indiretamente – vai bem. É algo que venho dizendo há tempos: o mercado fonográfico está em crise, mas é errado pensar que “mercado fonográfico” = música. Ainda é possível ganhar muito dinheiro com música, especialmente numa era na qual a música está em todos os lugares. Raciocine comigo: qual negócio em crise se daria ao trabalho de promover uma festa de fim de ano, com direito a comes refinados e bebes importados?

Eu matutava sobre essas e outras questões enquanto o gelo no meu scotch oito anos dançava caprichosa e lentamente. Estava apreciando a vista da orla da Zona Sul carioca, instalado à varanda de um dos mais exclusivos clubes da cidade. Consegui que meu nome fosse inserido na lista de convidados da confraternização de fim de ano de uma editora musical intimamente ligada a uma das quatro gravadoras multinacionais operantes no país. Não era, obviamente, uma “festa da firma” qualquer. Reunidos no evento estavam os chefões da editora, o presidente da gravadora-mãe (e seus respectivos puxa-sacos) e uma constelação dos principais compositores administrados pela empresa. Compareceram roqueiros, sertanejos, emos, sambistas, “populares”, ou seja, a fauna e flora das TVs, FMs e AMs.

Discreto, mas marcante, pude testemunhar cenas interessantíssmas. Como uma improvável reunião de três escalões diferentes de roqueiros da safra oitentista: um superstar consagrado, outro um legítimo one-hit wonder e o terceiro, não mais que um obscuro cult hero. Todos papeavam animadamente, sem diferença de castas. Um hitmaker brega-pop dos anos 80, que anda tentando uma (nova) reentrada no mercado, surpreendeu a todos com sua boa forma. “Puxa, o Fulano de Tal está inteiraço, bem conservado… se bem que está fungando e coçando o nariz demais pro meu gosto…” Um astro (ascendente ou cadente?) do breganejo pavoneava sua camisa com padronagem de zebra, carregando a tiracolo uma namorada com uma blusa quase idêntica. Um camarada meu, band-leader de um grupo muito simpático, também estava lá, acompanhando a esposa (ela é filiada à editora, ele não).

Enfim. Entre uma bicadinha na terrine de foie gras e outra mordiscada na tapioca com bobó de camarão, eu pensava. Os caras devem estar felizes com o resultado deste ano, né? Porque a tal gravadora-mãe, que empresta o nome à editora musical, acabou de passar por um período muito turbulento. Abalos financeiros, troca de comando, etc. Em outras palavras, muito pouco a comemorar. E, vejam vocês, cá estava o braço da corporação no ramo de publishing, gastando os tubos e fazendo festinha. Qual o segredo?

Não há segredo. Editoras musicais não trabalham com vendas de discos, e sim com arrecadação de direitos autorais. Ou seja, eliminam (ou ignoram) o intermediário e unem diretamente produtores (os compositores) e consumidores primários (rádios, TVs, internet) e secundários (o ouvinte). Essa cadeia alimentar funciona a pleno vapor, cagando para a pirataria e para a queda das vendas. As editoras se beneficiam de uma verdade que as gravadoras ignoraram por muito tempo: as pessoas sempre darão um jeito de ouvir sua música favorita. Elas não vão deixar de ouvir rádio ou de ver seus artistas favoritos na TV. Só deixarão de comprar o CD ou o DVD, se não estiver a seu alcance financeiro. Mas isso não importa para a editora. Tocou, arrecadou – seja no celular, no site da internet, na trilha sonora do filme ou no radinho de pilha. Essa visão me foi confirmada pela opinião do presidente da Som Livre, a quem entrevistei há pouco tempo (em breve posto a conversa por aqui).

Então, volto a afirmar: sempre haverá dinheiro a ser feito no mercado de música. Pode (já) não estar (mais) na venda de CDs, pode (ainda) não estar no download legalizado. Mas os cofres do Ecad não param de arrecadar.

* * *

O amigo Ricardo Schott teve a fineza de me entrevistar sobre este blog e outros assuntos quetais. Prestigiem: http://www.interney.net/blogs/dbasica/2007/11/30/entrevista_marco_antonio_bart

DIÁRIO (OU QUASE) DO FESTIVAL DO RIO 2007 (epílogo).

Outubro 5, 2007

Acabou o Festival do Rio (na verdade, tem repescagem com alguns dos filmes mais procurados) e eu posto minha última batelada de microrresenhas.

Pindorama – A verdadeira história dos 7 anões – Roberto Berliner, Lula Queiroga & Léo Crivelare
Berliner (o diretor de A pessoa é para o que nasce) volta a enfocar indivíduos com necessidades especiais, que se viram para encarar um mundo não preparado para eles. No caso, os anões do título, que comandam um cirquinho itinerante em viagens pelo Norte e Nordeste. Os diretores evitam a condescendência e o sentimentalismo, mas chegam perigosamente perto do freakshow. O filme se safa pela espontaneidade do registro e da simpatia dos personagens. Na sessão do Festival, o público aplaudiu e riu como se estivesse mesmo num circo.

Maré, nossa história de amorLucia Murat
O cheiro de arroz queimado vinha de longe. Murat, diretora talentosa mas politicamente correta demais, fez um samba (ou um rap) do crioulo doido em seu novo longa. Mistura Romeu e Julieta, street dance, ação afirmativa nas favelas e guerra do tráfico em um musical (!) passado na comunidade da Maré. As boas intenções são evidentes, assim como a dolorosa obviedade da trama e a ruindade (de grande parte) dos atores. E Marisa Orth pagando de gostosona a essa altura ninguém mais merece, né não?

Controle, a história de Ian Curtis - Anton Corbijn
Esse era o único filme de todo o Festival que eu REALMENTE estava a fim de ver. Consegui, não sem algum sacrifício. Valeu a pena. Corbijn, com a ajuda da fenomenal incorporação do ator Sam Riley, conseguiu mergulhar nas complexidades da personalidade de Curtis – incluindo seu passado de adolescente glam, o casamento prematuro e infeliz e o contraste entre as tentações do circo pop e a vidinha medíocre que levava em casa. A fotografia, num P&B altamente estilizado, é primorosa. Ainda tem Samantha Morton, vivendo a viúva do suicida.

Condor - Roberto Mader
Documentário quadradinho, mas muito bem feito, sobre a Operação Condor. Em meio a vários filmes abordando temas semelhantes – ditadura, tortura, militância – o longa de Mader se destaca justamente por dar voz ao outro lado: o da repressão. Bons depoimentos (como o de Jarbas Passarinho e do chileno Manuel Contreras) e um trabalho de pesquisa bem-feito evidenciam o background jornalístico do diretor. Mas é aquela coisa: é pra se ver na TV, não há grandes vôos visuais e/ou de linguagem que justifiquem a tela grande.

Corpo – Rubens Rewald & Rossana Foglia
Selecionado na mostra Novos Rumos (para cineastas estreantes), este longa paulistano intrigou e confundiu a platéia em doses parecidas. No começo, parece que o protagonista Leonardo Medeiros vai repetir os maneirismos de seu personagem de Não por acaso, mas ele afinal consegue dar novas nuances à sua interpretação. O problema é que o roteiro abusa da implausibilidade. E o filme, como um todo, sofre com a falta de um tom narrativo bem definido, desperdiçando a originalidade de sua premissa inicial.

Meu nome é Dindi – Bruno Safadi
Longa de estréia do jovem diretor, formado em Cinema pela UFF, minha alma mater. Peixinho de Julio Bressane, Safadi conta a história de uma jovem quitandeira (Djin Sganzerla, herdeira de outro cineasta cultuado, Rogério Sganzerla) afogada em dívidas e sufocada por um cotidiano medíocre. O ritmo é lento e desigual. Muita gente saiu no meio – e no começo, e no fim – da projeção. O contraste entre o realismo seco da primeira parte do filme com o clima onírico e teatralizado da segunda desorienta (e desanima) um pouco.

DIÁRIO (OU QUASE) DO FESTIVAL DO RIO 2007 (PARTE III):

Setembro 28, 2007

Sem mais delongas, duas novas microrresenhas.

AndarilhoCao Guimarães
Cao é autor de um dos filmes mais chatos da história do cinema: Acidente. Com seu novo documentário, recupera a moral sem abrir mão de seu estilo peculiar. O diretor parece ser obcecado pela aleatoriedade. E aqui encontra o tema perfeito: as andanças (e as filosofanças bem doidas) de três mendigos anônimos pelas estradas de Minas. É cabeçudo, cansa um pouco (por conta da câmera paradona e bem abstrata, quase videoarte), mas diverte e faz pensar. Muita gente foi embora no meio da sessão, infelizmente.

Estômago – Marcos Jorge
Talvez o filme nacional mais aguardado do Festival (fora Tropa de elite, claro) o primeiro longa do paranaense Jorge não decepciona. É uma curiosa comédia de humor negro na qual volúpia e morte se irmanam sob uma metáfora: a fome. João Miguel alterna-se entre o hilário e o perturbador como um retirante que vira cozinheiro em uma cela de cadeia. O caminho até a prisão, vê-se ao longo do filme. Apesar da trama contar com situações um tiquinho previsíveis, as boas performances garantem a credibilidade.

DIÁRIO (OU QUASE) DO FESTIVAL DO RIO 2007 (PARTE II)

Setembro 24, 2007

O Festival prossegue e a chapa só esquenta. Não consegui ver filme algum desde o último post – quer dizer, filme algum que eu quisesse ver, por vontade própria. Procês terem uma idéia, ataquei até como mediador de debate! De quaisquer modos, seguem as microresenhas do período. Ah, antes que perguntem: sim, assisti a Tropa de elite, mas como o Marcel me pediu uma resenha do filme, não vou postar nada sobre a fita por enquanto. Esperem a revista chegar às bancas.

S.O.S. saúdeMichael Moore
O novo panfleto de Moore contra a elite neo-con ianque ataca o sistema de planos de saúde nos EUA. O diretor consegue organizar sua narrativa de forma atraente. E claro que a realidade retratada no filme é grave. Mas comparados com o descalabro em que nossa saúde pública se encontra, os problemas que MM relata são, no máximo, aborrecimentos… o que torna o filme inútil (e até irritante) para o público brasileiro. Comparações estapafúrdias e muito sentimentalismo tornam a obra ainda menos tragável.

Nome próprioMurilo Salles
Sim, é o filme extraído dos escritos de Clarah Averbuck, avatarizada (existe isso?) na tela por Leandra Leal (trashy, mas gostosa). As confissões de Camila (Leandra) na verdade não são nem mais, nem menos chocantes que o cotidiano de tantas outras doidinhas soltas por aí. E Salles estica demais o filme, parecendo enlevado além da conta pela personagem. Ainda assim, há um punhado de cenas ótimas – como a seqüência na qual Camila sucessivamente rejeita, seduz, briga e ao final trepa com um playboy de Ribeirão Preto (!).

Memória para uso diário – Beth Formaggini
Documentário sobre o trabalho do Tortura Nunca Mais. A narrativa mostra a luta da organização para descobrir o paradeiro de militantes presos durante o governo militar – e a expansão dessa luta, incluindo agora vítimas de desmandos de violência policial. O uso de vários focos narrativos/dramáticos ajuda a segurar a atenção.Vale ver pelo bom trabalho de pesquisa, que inclui cenas impressionantes da repressão do Exército aos militantes armados (rola até avião tacando napalm nos guerrilheiros do Araguaia).

DIÁRIO (OU QUASE) DO FESTIVAL DO RIO 2007 (PARTE I).

Setembro 18, 2007

Começou a grande bagunça :) )) que o pessoal do Grupo Estação teima em chamar de Festival do Rio. Quer dizer, o festival mesmo só começa na sexta (dia 21), mas as sessões prévias de filmes para a imprensa já estão rolando ferozes. E eu, mais por força do ofício do que por vontade, estou comparecendo. Vou postando por aqui microresenhas de 500 toques – inspiradas no esquema que o Mac criou para lançamentos de CDs – dos títulos que estou assistindo. Considerem esses posts meu diário pessoal da maratona, sem muito compromisso com análises apuradas ou pensatas profundas.

fest.jpg

Eu não quero dormir sozinhoTsai Ming-Liang
Muito choro e ranger de dentes na sessão para a imprensa do novo filme de Tsai Ming-Liang. Em quase duas horas, conta-se nenhum (eu disse nenhum) movimento de câmera, planos longuíssimos e virtual ausência de diálogos (compensada com uma trilha sonora onipresente). É a radicalização da estética seca testada pelo cineasta em O rio e O buraco, que parece querer testar a paciência do espectador ao máximo. Quem sobreviver apreciará uma crônica intrigante sobre a aridez da vida nas metrópoles asiáticas.

I’m a cyborg, but I’m ok - Park Chan-Wook
Park Chan-Wook é mesmo um cineasta surpreendente. Conhecido pela ultraviolência de Oldboy e seu segmento de Três… extremos, o coreano retorna com uma comédia surreal. É a história de uma jovem que cisma ser um robô e é mandada para um hospício, onde vai conhecer figuras tão ou mais loucas que ela. É galhofa pura, mas com direito a um lirismo inusitado, passagens francamente oníricas e, sim, violência (mas no contexto bobão do resto do filme). Um excelente trabalho de câmera/composição visual mantém a atenção.

Um mundo livreKen Loach
É incrível pensar que o mesmo Ken Loach que dirigiu Terra & liberdade e Meu nome é Joe seja o responsável por este longa. Na prática o cineasta não mudou sua abordagem – a dramaturgia e as relações entre os personagens são só pretextos para comentários político-sociais. Mas Loach parece ter perdido a mão, fazendo um filme tão óbvio e didático quanto um episódio do Telecurso. Nem mesmo a conhecida boa mão do inglês com a direção de atores (que se faz sentir, apesar de tudo) confere credibilidade à trama.

Fay Grim - Hal Hartley
Hal Hartley foi um dos meus heróis nos anos 90 – grandes sessões de Confiança e Simples desejo no Cine Arte UFF, quem lembra? Esta é a continuação de Henry Fool (1997) que, se não me falha a memória, nem chegou a ser lançado aqui. Hartley continua na essência o mesmo, mas menos inspirado. O senso de humor fora de tom e o estilo de condução de atores (artificial, peculiaríssimo) estão lá. Entretanto, o roteiro – que começa como uma comédia de espionagem – tropeça, no terço final, no falatório e num clima sombrio demais.

ÂPIDEITES (2).

Setembro 9, 2007

Muitas coisas têm acontecido em minha nada mole vida ultimamente, o que tem me impedido de postar aqui com regularidade. Voltei a trabalhar na redação do Jornal do Brasil, me virando entre o Caderno B e a revista Programa – vamos ver até quando minha exaurida carcaça aguentará o rojão. Outros projetos paralelos também têm exigido minha atenção, sugando meu já exíguo tempo livre.

Minha contribuição à revista Pipoca Moderna está nas bancas, com uma versão editada de minha resenha do filme Alpha dog. Leiam! Em breve também atingirei as bancas com um textinho a sair no próximo número da revista M…, cria do amigo Ulisses Mattos. E estou frenético no JB – estreei fazendo o obituário do Pavarotti, matéria de duas páginas no B.

O t.d.v. atingiu, desde 27 de maio, o total de 10.803 visitas (números de 9/09/2007, atualizados às 13h23, hora local). Sei que existem blogs com audiência estupidamente maior, mas estou feliz com minha repercussão atual. Se eu ganhasse R$ 1 por cada visita, não precisaria mais trabalhar… tanto. Agradeço penhoradamente o apoio do Sr. Marcelo Costa, dono do portal Scream & Yell (ou, como saiu grafado numa filipeta por aí, “Screaming Yell”), nessa disputa pelos cliques dos internautas.

Aproveito para dar um âpideite na lista de termos que o pessoal anda digitando no Google pra chegar até meu modesto recanto virtual.

O troféu Maldita Inclusão Digital! vai para:

“musica para baixa do de grasa”
“amaior imais antiga loja de magicas”
“local onde se compra ingresos para sho”
“w.w.w.baixahits.com.br”
“pessoas que nao sabe perder”

Já o prêmio Interesses Sexuais Heterodoxos fica com:

“filmes de rapazes transando com velhas”
“wagner moura nu” e (inevitavelmente, acho) “lazaro ramos nu”
“bart e lisa transando”
“mocinhas fodendo”
“sharon stone transando” (tá, esse até me interessa)

E no quesito Bizarria Pura:

“banda favorita de Gloria Pires”
“CEARA” + “finatti”
“igreja evangelica de roqueiros de sao paulo”

EU NA COLUNA DO FINATTI.

Agosto 10, 2007

Bateu um email na minha caixa ontem.

“de  …  
 para  marcobarbosa@gmail.com  
 data  09/08/2007 12:11  
 assunto  coluna do Fnatti    
 enviado por  …

Fala Bart,
tu já foi na coluna do Finatti essa semana? alguém postou dois textos seus lá nos comentários! Foi você?

abç
…”

Não tenho o costume de frequentar o site do afamado jornalista paulistano, mui conhecido nas rodinhas indies e uma das mais populares figuras do Orkut. Fui lá dar uma olhada e qual não foi minha surpresa! Alguém copiou minhas criações PALPITEIROS APOCALÍPTICOS & INTEGRADOS  e UMA ABÓBORA DE MAU HUMOR e colou lá na área de comentários da coluna do Finatti! Não foi feita menção à minha assinatura, nem o t.d.v. foi linkado. O primeiro texto foi assinado por alguém chamado Kai, o segundo singelamente creditado a “Bart”. Lá no final, alguém ainda diz que “concorda com o Kai”. Não sei se fico indignado ou lisonjeado. Postei um novo comentário indicando de onde sairam os textos, mas ainda não foi publicado (nem sei se será, na verdade).

Enfim, não sei quem é esse (essa?) Kai, nem que objetivo tinha ao botar um texto meu como sendo um comentário seu. Agradeço, porém, a audiência.  

AHAM… ALÔ? AINDA TEM ALGUÉM POR AQUI?

Julho 19, 2007

Sei muito bem que não ando cumprindo com minha obrigação bloguística. Tenho deixado o site/blog abandonado, não entro nem mais pra conferir o número de acessos. É que, nas últimas semanas, o meu desgosto com o mundo (em geral) e com a minha profissão (em particular) chegou a um paroxismo. De tal modo que esse último texto publicado, sobre o filme Cão sem dono, saiu com muita dificuldade. Se eu pudesse – se eu soubesse fazer outra coisa que não escrever – já teria chutado o balde há muito. Não posso, pois não sei. Então é bola pra frente. E desculpem o desabafo.

Todos modos, prometo para até sexta-feira dois (2) textos novos sobre cinema, coisas que venho batucando por aqui. Na sexta-feira, sai a Programa, do JB, com duas resenhas minhas de filmes (Saneamento básico, o filme e Baila comigo) e uma contribuição pequena, mas crucial, à matéria de capa (que deve criar alguma polêmica…). Enquanto isso, vai mais uma tirinha da série 4 quadrinhos valem mais que mil palavras, resumindo um pouco o meu estado de espírito. A autoria é de Daniel Lafayette (clique na tirinha para ampliar).

tirinha.jpg

ÂPIDEITES.

Julho 3, 2007

Vamos dar uma atualizada em algumas das bobagens que andei escrevendo em posts anteriores.

_______________________________________________

Com o anunciado fim da revista Bizz – aliás, nunca vi um fim tão anunciado – creio que meu artigo GENTE QUE NÃO SABE OUVIR, GENTE QUE NÃO SABE LER merece uma releitura. Né não? Em tempo: a Bizz sai das bancas, mas o site continua.

E por falar em site… Em O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO: O LIVRO QUE INVENTOU UMA GERAÇÃO, eu corrigi um lance na introdução do texto. Passei uma linha sobre o termo “finada revista” que precedia a citação à Rock Press. Fui admoestado pela editora do site – revista eletrônica, revista eletrônica! -, minha amiga Cláudia. Ela afirma que a revista não acabou, apenas saiu do papel. Tá corrigido! Em tempo II: entrou no ar na RP uma enquete sobre os dez anos de lançamento do OK computer.

À luz dos aberrantes ataques feitos por aquela patota de mauricinhos sociopatas da Barra, vale a pena repensar algumas idéias que joguei em KIDS + FARGO = ALPHA DOG. Não há nada mais perigoso que um criminoso jovem – que junta a imaturidade natural àquela sensação de invencibilidade típica da pós-adolescência. Pior mesmo é quando, como no(s) caso(s) em questão, os criminosos têm a certeza da impunidade, garantida pelo $$$ e/ou prestígio de papai & mamãe. Quer dizer, tinham, né? Vale o comentário que ouvi (ou li) um dia desses por aí: “Deixa esses caras trancados dois dias num presídio feminino, pra eles verem o que é bom pra tosse”.

Mais uma sobre a resenha do Alpha dog: a pedido do Marcel Plasse, cedi o texto para publicação na revista Pipoca Moderna. Deve sair no próximo número, em uma versão ligeiramente editada. Cool, innit?

O Nomínimo acabou mesmo, conforme predito em UM LAMENTO E UM ESCLARECIMENTO. Já o site no qual eu (oficialmente, por enquanto) ainda trabalho segue desativado. O S.O.S. que postei em ESCREVO POR UM PRATO DE COMIDA está valendo.

Alguns dias depois de eu ter publicado FIRST ISSUE + METAL BOX, recebi, com gáudio, meu exemplar do Second edition, comprado via Amazon (meros US$ 9,99, na promoção 4-for-3 Music). Fiquei felizão. Mesmo com o extorsivo imposto de 60% que a alfândega bota em cima do valor do pedido – valor BRUTO, incluindo o frete! – ainda valeu muito à pena.

Mais uma da Oi FM. Além de exigir que os ouvintes paguem para saber o nome das músicas que tocam na rádio (conforme relatado em DISQUE OI PARA O JABÁ), a emissora conclama o público a ajudar na programação. Funciona assim: no momento em que você ouve a música, pode enviar um torpedo dizendo se gosta ou não da tal canção. Se a música tiver número tal de votos negativos, sai da playlist. Tudo por um precinho módico, claro: R$ 0,49. Fê-lo-me-nau.

PALPITEIROS APOCALÍPTICOS & INTEGRADOS.

Junho 30, 2007

Vivemos numa época boa para o rock. As bandas que vêm surgindo, aos borbotões, desde a virada do milênio não passam vergonha frente a nenhuma geração anterior da música pop. Posso apontar, sem muito esforço, uma longa lista de artistas bacanas que apareceram de 2000 para cá, que me fazem afirmar sem medo de errar: o rock 00 é tão legal quanto o rock dos anos 50, 60, 70, 80 e 90. Notem bem: “tão legal quanto” não quer dizer, de forma alguma, “tão fundamental quanto”, “tão revolucionário quanto” nem “tão inovador quanto”. (Se é que é possível quantificar esse tipo de coisa.) Enfim, não há dado concreto algum que possa levar à conclusão que o rock contemporâneo seja intrinsecamente “pior” que o rock feito em outras eras. Se algo mudou, foi para melhor. As benesses da comunicação digital possibilitam conhecer quase no ato qualquer artista novo que apareça – derrubando aquele delay que havia nas décadas passadas entre a descoberta (via imprensa) de alguma novidade e a audição efetiva dos discos. Não se trata de uma defesa apaixonada das modernices, nem de um abraço incondicional às propaladas maravilhas que o NME ou o Pitchforkmedia teima em apresentar toda semana. É apenas a constatação de que há boa música sendo feita hoje por aí e que é fácil ouví-la.

Mas, é claro, tem gente que não pensa assim.

O mundo dos palpiteiros pop é composto basicamente de sabichões e caga-regras. Gente que se julga mais esperta que as pessoas que os lêem e/ou assistem. Esse tipo de gente se valeu, desde que o mundo é mundo, do acesso privilegiado que tinham à informação para excercer seu poder. Voltemos, por um instante, aos anos 80. Os Pepes Escobares & Josés Robertos Mahrs da vida tinham status de oráculo, pois só eles e mais uns happy few podiam dar umas bandas pelo Primeiro Mundo, catar discos & revistas & livros e espalhar a luz aos iletrados aqui em Bananópolis. Hoje, como é? Todo mundo tem acesso a tudo que há para se ler ou ouvir. Em geral, de graça. Isso deixa os pretensos Pepes & Mahrs de nossos dias um tanto mal-humorados, rabugentos, de mal com o mundo. Acompanhe o raciocínio (deles): “Antes eu podia dizer que a novíssima banda X, da Escócia, era o máximo, e as pessoas tinham de acreditar em mim. E eu levava o crédito por ‘descobrir’ a banda. Hoje em dia meus leitores ouvem as novíssimas bandas da Escócia ao mesmo tempo que eu – ou antes. Isso não é justo!” É por isso que, para uma determinada facção dos palpiteiros pop, o rock anda tão sem graça.

Muito se reclama dos deslumbrados, e pouco dos (falsamente) desencantados. Claro, aquele rapaz que em maio já postou num blog a lista dos 103 (!!) melhores discos de 2007 é o cúmulo da falta de noção. Só que o outro lado da moeda, o dos colunistas, blogueiros & quejandos que preferem pixar incondicionalmente o rock do terceiro milênio também é de lascar. Essa tchurma blasé se divide em dois subgrupos, classificados (por mim, d’après Umbertão) como apocalípticos ou integrados. Os modos de operação de cada uma das facções são diferentes, mas elas têm vários pontos de contato. O principal: tanto os apocalípticos quanto os integrados se esmeram em procurar “argumentos racionais” para aconselhar seus leitores a evitar tais grupos e adotar outros. Ou pior, arrogância das arrogâncias, para explicar (sic) ao leitor porquê ele mesmo, o leitor, gosta de banda tal. Na maioria das vezes, esses argumentos não levam em consideração o “detalhe” mais importante: a própria música do artista em questão. Esses dois tipos muito específicos de palpiteiros não atacam apenas na mídia escrita e/ou virtual: também são figuras fáceis em listas de discussões e sites de relacionamento.

A seguir, deslindarei algumas características particulares dos dois tipos de palpiteiros do contra.

O palpiteiro apocalíptico (ou o reacionário)
Silogismos favoritos:

“A internet está matando o rock.”
“Pra quê ouvir a banda nova X, se a banda antiga Y já fazia isso há 20 anos?”
“O rock não começou com os Arctic Monkeys (ou com o Arcade Fire, ou com o Bloc Party, ou com os Strokes…). Ouçam aqui como as coisas eram no meu tempo…”

O palpiteiro apocalíptico anseia, a suspirar, pela volta de tempos mais simples. Ele se angustia com os novos tempos – tempos nos quais a informação é descentralizada, democrática… excessiva? Excessiva demais para que eu dê conta dela? Para este tipo de palpiteiro pop, a música pop era boa quando era previsível. Quando havia poucos canais de divulgação, quando poucas gravadoras controlavam a produção dos discos, quando tinhamos de esperar um ano, ano-e-meio pelo “evento” que era o lançamento de um novo disco de uma banda “importante”. O apocalíptico não notou que hoje em dia dia tudo é diferente. Ele não percebeu que as coisas andam mais rápidas. Na verdade, ele percebeu, mas não dá o braço a torcer.

Uma das paranóias do apocalíptico é a “facilidade” com que as bandas novas chegam ao público nos tempos atuais. Perceba como o raciocínio é lapidar seguindo o exemplo:

“Os Beatles, a maior banda de todos os tempos, levaram seis anos (1957-1963) para estourar mundialmente. Os Strokes – desculpe, mas é uma banda muito inferior, não é mesmo? – levaram menos de dois anos para estourar. Eis o sintoma de que há algo muito errado com a música pop em nossos dias! Uma época em que coisas tão medíocres se propagam tão rápido, etc.”.

O apocalíptico não apenas culpa a internet pelo “lamentável” estado de coisas atual. Ele também taxa automaticamente de “descartável” qualquer artista que utilize a web e/ou recursos paralelos para divulgar sua obra. Para ele, só é válido o artista que segue o “caminho natural” das coisas: dois ou três anos de ensaio, muitos shows, um suado contrato com uma gravadora, e enfim o lançamento de um CD. Só assim, segundo ele, uma banda pode realmente tocar os corações de seus ouvintes. Quem parte para o caminho alternativo só pode ser um artista menor, que prefere se escorar no hype a tentar uma comunicação real, palpável, pé no chão, com seu público. Tal e qual Luiz Felipe Scolari, o apocalíptico acredita que bom caráter, trabalho duro e honestidade são preferíveis ao talento. Ele bestifica-se com a sucessão de bandas “vazias” e “irrelevantes” indicadas pelos modernetes de plantão a cada semana. Entretanto, o apocalíptico não se dá ao trabalho de ouvir qualquer uma dessas “melhores-bandas-de-todos-os-tempos”; ele apenas verifica de onde partiu a proclamação e dá de ombros, como quem diz “Ah, é só mais um hype”. O apocalíptico é um equivocado, que confunde o meio (a internet) com a mensagem (a música). Só que ele não entende as possibilidades do meio e ignora, olimpicamente, a mensagem.

Quando alguém que realmente escutou o grupo ousa corroborar pessoalmente a opinião vigente, o apocalíptico se melindra e invoca o santo nome da autenticidade em vão. O argumento preferido do apocalíptico para desancar o rock 00 é a falta de originalidade. “Tudo o que se faz no pop hoje”, diz ele em tom solene, “já foi feito antes, e melhor”. Ora, isso é tão óbvio quanto irrelevante. Pop é reciclagem. Se levarmos esse argumento do “antes-e-melhor” às últimas conseqüências, daqui em breve estaremos todos no Congo, ouvindo batuques tribais. Não foi de lá que saiu a música negra primitiva dos escravos transplantados para a América, que deu origem ao blues, que deu origem ao rhythm’n'blues…? O apocalíptico não concebe a possibilidade de ouvir o antigo e o novo, sem que um substitua o outro. Aliás, essa possibilidade mesmo (a de conjugar velharias e modernidades) é uma das coisas mais fascinantes da era do MP3.

O palpiteiro integrado (ou o cínico)
Silogismos favoritos:

“Don’t believe the hype, except my own”
“O mundinho indie não é tão grande como parece. Eu sei, eu estive lá”
“Já ouviu aquela rádio online californiana incrível que eu indiquei?”

O palpiteiro integrado é mais malandro que o apocalíptico. E, óbvio, mais filhadaputa também. A nostalgia reacionária do apocalíptico é sincera. A postura blasé do integrado mistura, em iguais doses, despeito, pretensão e exibicionismo. Ele sabe muito bem como usar as molezas da vida digital para se informar. Apóia integralmente o file-sharing, os NMEs, as Tramas Virtuais e os MySpaces da vida – afinal, através disso tudo é que ele se mantém bem informado. Entretanto, o integrado prefere ficar em cima do muro. Ele sabe que não pode ser “o” sabichão-mor. Então ele se divide entre indicar as bandecas mais obscuras do mundo, aquelas que nem chegaram no Soulseek, e sacanear os atuais darlings da molecada indie. “Sacumé”, diria ele, enquanto passeia pelas prateleiras de sua lojinha de CDs favorita (no sudoeste dos EUA, claro), “enquanto eu digo que a banda é legal, a banda é legal. Depois que todo mundo passa a achar que é legal, eu digo que não é legal. Ou que já foi legal. Ou que nunca foi legal. Sacumé?”

O esporte favorito do integrado é explanar, timtim por timtim, porque as pessoas apreciam (ou desgostam de, ou deveriam apreciar ou desgostar de) determinadas bandas ou estilos. Na cabeça deles, tudo se resume a uma questão de tiração de onda. Sigam o exemplo:

“O Cansei de Ser Sexy só ficou famoso no Brasil depois de estourar lá fora. Você, brasileiro colonizado e complexado, passou a gostar deles quando achou que eles viraram a sensação indie na Inglaterra. Só que eles não ficaram famosos de verdade aqui, nem estouraram de verdade lá fora; tudo se resume a um buchicho no mundinho alternativo, e só. Agora que eu já provei por A + B a razão de você gostar da banda, posso chochá-los à vontade, pois eu sei como as coisas funcionam no mundinho alternativo lá fora, etc.”

Ao mesmo tempo, o integrado se diverte ao desencavar indicações obscuríssimas dos confins do pop alternativo mundial, contrapondo-as ao que está na crista da onda por aqui. Não serve a bandinha que está no rodapé na quarta capa do NME. “Essa todo mundo já conhece”, pensa o integrado. Só vale aquela coletânea de rock psicodélico aborígene das Filipinas (comprada naquela lojinha do sudeste dos EUA, claro).

A contradição subjacente a este tipo de palpiteiro é que ele não é contrário à construção dos hypes. Ele só não suporta a idéia de não tê-los construído antes de todo mundo. É hilário testemunhar seus ataques contra tal colunista ou tal website, que “plantam idéias” na cabeça das pessoas. Suas próprias sugestões de audições ou leituras, por outro lado, não são hype; são apenas isso, sugestões. Siga quem quiser. Mas lembre-se, daqui a duas semanas eu vou esculachar quem caiu no hype do colunista concorrente em vez de embarcar na minha onda… Ele só não imagina que existe uma coisinha chamada gosto pessoal, que suplanta qualquer hype. Ou seja, se o ouvinte não gostar da música, não há formador de opinião que o convença do contrário. E vice-versa. Supor que seu leitor é burro o suficiente para gostar de um grupo só porque sustentar tal opinião é “moderno” é subestimar criminosamente o critério pessoal de cada um.

O integrado, no fundo, também é um nostálgico. Só que sua nostalgia não é pelos “bons tempos” da música à moda antiga. Ele anseia pela volta daqueles dias em que poucos privilegiados tiravam onda com suas revistas importadas e seus vinis comprados na Virgin Megastore. Ainda bem que esses tempos não voltam mais.