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MARCO ANTONIO BARBOSA JUNIOR – Um currículo

Novembro 4, 2009

MARCO ANTONIO BARBOSA JUNIOR

marcobarbosa@gmail.com

http://telhadodevidro.wordpress.com

Telefones de contato: (21) 3017-3288 / (21) 9648-2318

Data de nascimento: 21/01/1974

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Atividades atuais:

Sou, desde maio de 2008, editor da revista PROGRAMA, do JORNAL DO BRASIL (RJ), guia semanal de cultura e entretenimento voltado para o público carioca. Coordeno uma equipe de oito repórteres na redação e mais 11 colaboradores fixos fora do jornal, cuidando de prazos, qualidade dos textos e fotos e demais tarefas relacionadas à edição final da revista. E me reporto diretamente à direção do jornal a respeito do resultado final. Também escrevo críticas de cinema e reportagens para a revista e para o CADERNO B, suplemento cultural do JORNAL DO BRASIL, do qual fui editor-assistente entre dezembro de 2007 e maio de 2008, supervisionando um número similar de repórteres.

Experiência profissional:

Fui um dos editores da revista SET, especializada em cinema, durante os três meses em que a publicação foi produzida pela redação do Jornal do Brasil (de maio a agosto de 2009). Em três edições da revista, escrevi reportagens e críticas de filmes; também editei e redatei reportagens e críticas de colaboradores e demais membros da equipe.

Trabalhei na redação da TEMPESTADE COMUNICAÇÃO (RJ), empresa que produz conteúdo voltado para o mercado de seguros e pequenas e micro-empresas, entre junho e setembro de 2007. Produzi textos e boletins de notícias para empresas como BB Seguros e Previdência e Bradesco Seguros.

Entre agosto de 2006 e maio de 2007, fui o editor executivo do site JORNAL MUSICAL (www.jornalmusical.com.br), dedicado à cobertura de notícias atuais e ao resgate da memória da música brasileira. Trabalhei sob a coordenação do crítico de música Tárik de Souza, um dos mais respeitados nomes do Brasil na área. Na redação do site, eu era responsável por escrever reportagens e resenhas e supervisionava o trabalho de duas repórteres e de vários colaboradores.

De novembro de 2004 a junho de 2006, trabalhei como repórter da revista PROGRAMA, do JORNAL DO BRASIL (RJ), escrevendo reportagens sobre música, cinema e comportamento, além de críticas de cinema.

Entre maio e agosto de 2004, trabalhei no portal GLOBO.COM como sub-editor do site do reality show “Fama”, então em sua terceira edição. Coordenei uma equipe de três pessoas (um repórter, uma fotógrafa e um editor de vídeo).

Por cerca de três anos (maio de 2001 a março de 2004) fui o editor do site CLIQUEMUSIC (www.cliquemusic.com.br), especializado em música brasileira e considerado até hoje referência no campo da MPB na internet. O site ainda está no ar, mas está sem atualizações significativas desde 2004.

Durante este mesmo período, trabalhei por quatro vezes distintas como repórter da revista VEJA RIO (RJ), cobrindo férias e uma licença-maternidade. No total, entre 2002 e 2004, passei oito meses na redação da revista, fazendo matérias de cultura (música, teatro, artes plásticas, vida noturna) e comportamento.

Entre maio de 2000 e maio de 2001, fui repórter do caderno SESSÃO EXTRA, do jornal EXTRA (RJ). Lá, fiz reportagens sobre música, cinema, televisão e comportamento. Nos últimos meses de minha passagem pelo jornal, passei a ajudar meus editores no fechamento do caderno, revisando textos e coordenando o trabalho dos outros repórteres.

De março de 1997 a maio de 2000, trabalhei no caderno TRIBUNA BIS, do jornal TRIBUNA DA IMPRENSA (RJ). Como repórter, cobria as áreas de cinema e música. Voltei ao jornal duas outras vezes, em 2001 e 2004, para cobrir férias como editor-assistente do caderno.

Como jornalista free-lancer, já publiquei reportagens no jornal VALOR ECONÔMICO, nas revistas VOCÊ S/A, SET, ROCK PRESS, LABORATÓRIO POP, ROCK LIFE e DYNAMITE e na editoria de cultura do portal de internet TERRA.

Formação acadêmica:

Graduado em Jornalismo pela UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE, em abril de 2000.

Outras atividades / áreas de interesse:

Leio, converso e escrevo na língua inglesa com bastante fluência.

Tenho experiência em informática com aplicativos gráficos (Photoshop, Corel Draw) e em demais programas fundamentais no ambiente Windows, como editores de texto, navegadores web e aplicativos multimídia.

Durante minha passagem pela Universidade Federal Fluminense, trabalhei por dois anos como estagiário na assessoria de imprensa do Centro de Artes UFF, o complexo de atividades culturais da instituição, produzindo releases para espetáculos teatrais, shows de música, exposições e mostras de cinema.

Também na UFF, trabalhei como aluno-monitor da disciplina “Argumento e Roteiro”, sob a supervisão do professor Tunico Amâncio, na faculdade de Cinema.

Sou filiado à Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. Como tal, participei do Júri da Crítica Internacional do Festival do Rio de 2006 e apareci como convidado em programas de debates cinematográficos na TV Brasil (CURTA CINEMA, CADERNOS DE CINEMA).

BRASIL DESCOBRE O DOWNLOAD PAGO.

Março 8, 2008

Ainda este mês, a ABPD deve divulgar o balanço do mercado fonográfico do ano de 2007. Antecipando o relatório, materinha que publiquei no Jornal do Brasil em 25 de janeiro sobre o boom do download legalizado de MP3 no ano passado. Já havia abordado o assunto nessa reportagem aqui, ó.

Desde o começo deste terceiro milênio, as gravadoras multinacionais dizem que o futuro da música passa pela internet. Aparentemente, em 2007 o público brasileiro afinal passou a acreditar nisso. O mesmo ano que viu a banda inglesa Radiohead chacoalhar as relações entre artista, ouvinte e gravadoras e registrou uma multiplicação inédita de formatos na web também testemunhou um avanço inédito no mercado de música digital no Brasil. Num salto surpreendente, a receita com vendas de canções virtuais (via computador ou telefonia celular) aumentou 185% em 2007. E o mercado digital passou a representar 8% do total das vendas de música no Brasil, contra meros 2% cravados em 2006. Os números foram divulgados ontem pela ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Disco), como parte do Relatório de Música Digital produzido pela IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica).

O percentual ainda é menor do que a média mundial; em termos globais, 15% do mercado são ocupados pelas vendas digitais. Mas já indica que o Brasil parece ter finalmente acordado para o fato de que se pode comprar música fora das tradicionais lojas de CD.

– O aumento foi significativo e acompanhou a tendência mundial de expansão da música digital – aponta Paulo Rosa, presidente da ABPD. – Mais importante foi o crescimento das vendas pela internet. Se em 2006 os downloads feitos via celular representavam 96% do mercado, agora se restringem a 76%. Mais gente está usando o computador para comprar música.

Alexandre Schiavo, presidente da Sony-BMG, multinacional líder do mercado no Brasil, também festeja os indicadores: – Foi um ano promissor e importante. O movimento aumentou de tal forma que tivemos de criar uma divisão interna só para o mercado digital.

O chefão da gravadora (que teve 6% de suas vendas provenientes dos downloads) exemplifica a emergência do segmento:

– Fizemos uma promoção com uma marca de telefones para vender celulares com músicas do Jota Quest em MP3 na memória. Em menos de três meses, com um mínimo de marketing, foram mais de 200 mil aparelhos vendidos.

Por sua vez, a Universal Music avisa que só Ivete Sangalo (dona do disco mais vendido de 2007, Multishow ao vivo no Maracanã) vendeu mais de 3 milhões de canções digitais no ano passado, boa parte em promoções similares à do Jota Quest.

O relatório da IFPI mostra que o mercado digital vem se expandindo de forma galopante. Se em 2003 as vendas do setor eram desprezíveis no cômputo geral, em 2006 já representavam 11% do mercado e em 2007 ficaram em 15%, movimentando US$ 2,9 bilhões (R$ 5,18 bilhões). A roqueirinha adolescente Avril Lavigne foi a campeã mundial de downloads pagos: sua canção Girlfriend foi baixada 7,3 milhões de vezes. No Brasil, a ABPD só divulgará os valores de mercado e os artistas mais vendidos em março, junto com o relatório geral sobre 2007. Paulo Rosa enumera algumas razões para o bom desempenho do segmento digital:

– Quatro novas lojas virtuais chegaram ao mercado: Ideas Music Store, Tim Music Store, Vivo e Baixahits. Houve maior investimento em marketing e mais promoções ao longo do ano. E o aumento de vendas de computadores pessoais, depois das medidas de incentivo tomadas pelo governo em 2005, também se fez sentir.

Diretor de tecnologia do portal iMusica – pioneiro na venda de música pela internet no Brasil e parceiro das maiores gravadoras do país – Roberto de Brito Nunes confirma a bonança digital. – A oferta se multiplicou. As operadoras de telefonia todas têm suas lojas virtuais, o que ampliou muito o mercado – diz. A maior parte do faturamento do iMusica vem do download de ringtones e truetones para celulares. Mas, Nunes acredita, a internet já merece atenção. – As vendas pela web são relativamente pequenas, mas vêm crescendo de modo constante. Só neste mês, comercializamos mais músicas via internet do que durante todo o ano de 2005.

O prognóstico para 2008 é risonho, na visão da ABPD.

– Há uma tendência mundial de se vender canções em arquivos sem DRM ( sem proteção anticópia), que deve chegar também às lojas virtuais brasileiras. Isso ajuda a popularizar mais a venda digital – diz Rosa.

Nem tudo são flores. Os maiores males do mercado fonográfico nacional, a pirataria e os preços altos, também contaminam o meio digital. Para cada música baixada legalmente, 20 são copiadas de forma ilegal. E sobre os preços nas lojas virtuais (R$ 1,99, em média), ainda altos para o poder aquisitivo do brasileiro, incide uma gorda carga tributária.

– Sobre as músicas em MP3, os impostos passam de 20%. Para os ringtones, podem passar de 40% – reclama Rosa. – Quanto à pirataria, nossas pesquisas indicam que os novos internautas, que estão chegando agora, são mais receptivos à idéia do download legalizado.

BUENA VISTA NO EXÍLIO.

Março 1, 2008

Blog, para mim, sempre foi sinônimo de “tempo livre à disposição”. Nos últimos três meses, o que eu menos tenho tido é tempo livre. Não sei se vocês sabem mas, no começo de dezembro, fui promovido ao posto de editor assistente do caderno de cultura do jornal em que trabalho. Na prática, isso vem rendendo (muito) mais responsabilidades, (muito) mais trabalho, (muito) mais esporros – a dar e a levar – e (só um pouco) mais de dinheiro. Somado a isso, ainda há os atropelos tradicionais de fim/começo de ano e uns frilas me atazanando a paciência. Resultado: t.d.v abandonado por mais de dois meses. Peço desculpas à minha compreensivelmente mirrada audiência pela falta de atualizações.

A entrevista que posto agora é bastante simbólica de minha rotina atribulada. Logo assim que Fidel pediu o boné, resolvemos correr atrás de uma entrevista com alguma figura proeminente da cultura cubana, para comentar o fato. Decidimo-nos por tentar entrevistar Juan de Marcos González, diretor artístico dos Afro-Cuban All Stars (o grupo que foi formado a partir da turnê/disco/filme Buena Vista Social Club). Eu mesmo fiquei encarregado de fazer o contato. Depois de trocar uns emails com o homem, pedi que ele me passasse seu telefone, para conversarmos. De Marcos só se manifestou por volta das 23h de sexta. Ficamos com o jornal todo pronto, só à espera da entrevista (o jornal de domingo é fechado na sexta à noite) – afinal, seria nossa capa de domingo, a edição mais nobre da semana. E só consegui bater o papo com o cubano, que estava no México, lá pra meia-noite. Segue o resultado logo abaixo.

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O grande sonho de Juan de Marcos González era abrir uma casa de espetáculos que pudesse ser um templo para a música cubana; o tipo de música que ele, como integrante e diretor musical do grupo Afro-Cuban All Stars, ajudou a popularizar em todo mundo, viajando com a geração Buena Vista, de Compay Segundo a Ibrahim Ferrer. A rigidez da economia estatal de seu país natal, contudo, o fez mudar de planos – e inaugurar seu projeto na Cidade do México, onde mora, e não em Havana. A casa a ser inaugurada por Gonzáles até o fim do ano na capital mexicana terá capacidade para cerca de 500 pessoas e se chamará, claro, Buena Vista Social Club.

- Com Fidel Castro no poder, seria impossível abrir uma casa noturna particular em Cuba – diz Gonzáles ao JB, por telefone, da Cidade do México, ele que é uma espécie de produtor executivo do Buena Vista Social Club e está em estúdio gravando um novo CD do Afro-Cuban. – Quero que meu clube seja uma referência mundial da música e da cultura cubana.

A renúncia de Fidel, anunciada na última quarta-feira – depois de 49 anos no poder – deve arejar a vida musical de Cuba, que equilibra uma grande riqueza de talentos e ritmos com uma estrutura mercadológica notoriamente precária. Para Gonzáles, de 54 anos, as mudanças virão, mas de maneira lenta.

- Acredito que levará uns 20 ou 30 anos para a economia cubana se acertar. Raúl (Castro), que vai assumir o poder agora, vai mudar as coisas passo a passo. É preciso abrir a economia sem perder a independência de nosso povo – sustenta o músico, que visita a ilha uma vez por mês.

Admiração por Fidel

As dificuldades econômicas enfrentadas pelo regime socialista fizeram a cena cubana encolher nas últimas décadas. González, cujo pai, Marcos González, era um famoso cantor na era pré-revolução, testemunha:

- Não é difícil gravar um disco em Havana, hoje em dia há muitos estúdios caseiros. O problema é que não existem lugares para tocar ao vivo. Isso faz com que os músicos abandonem o país. Muitos, inclusive, acabam parando no Brasil; quando estive em São Paulo, encontrei vários cubanos.

A precariedade do cenário não impede que ele declare sua admiração pelo presidente afastado.

- Admiro Fidel Castro – revela. – Ele foi o líder único macho o suficiente para enfrentar o imperialismo. Pode ter tomado o caminho errado na economia, mas sempre foi honesto, confiável. Não é como o cara da Venezuela – diz, referindo-se ao presidente venezuelano Hugo Chávez.

Líder dos Afro-Cuban All Stars sobre e fora do palco, González agora comanda um grupo bastante renovado em relação à turma de veteranos celebrizada pelo filme de Wim Wenders. A banda começou em meados dos anos 90 como uma espécie de tributo à velha guarda da música cubana, organizado pelo próprio González e reunindo nomes como Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Ruben González, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. Descobertos pelo guitarrista americano Ry Cooder, gravaram Buena Vista Social Club, o disco, em 1997 – sucesso mundial amplificado pelo documentário subseqüente.

- Bem, os originais agora estão quase todos mortos – lembra González, recordando as despedidas a Ruben e Compay (em 2003) e Ferrer (2005) – Já houve uma segunda geração dos All Stars e agora há uma terceira. Quando comecei no grupo eu era o mais jovem. Agora sou um dos mais velhos. É excelente poder compartilhar com os novos membros as lições que os antigos mestres deixaram.

“Viramos um fenômeno pop”

Uma das veteranas originais – Omara Portuondo, hoje aos 77 anos – está mais viva e ativa do que nunca. Está prestes, inclusive, a lançar um disco em dupla com Maria Bethânia.

- Amo Omara e amo Bethânia. É a minha cantora brasileira favorita – conta González, que já veio ao Brasil várias vezes com seu grupo.

Para o músico, o grande sucesso que o Buena Vista Social Club fez, há quase 10 anos, teve um lado bom e um ruim:

- Viramos um fenômeno pop. Por algum tempo, parecia que os sons tradicionais de Cuba estavam em todo lugar. Isso tornou as coisas difíceis para as gerações posteriores, que faziam outros tipos de música. Só queriam saber do Buena Vista.

Mesmo depois do auge da popularidade, os Afro-Cuban All Stars ainda são bastante requisitados. O disco que estão gravando agora no México (onde González está construindo seu próprio estúdio) sai no fim do ano pelo selo londrino Globe Star Recordings. Antes disso, o grupo se apresenta em festivais na Europa, EUA e Canadá, durante o verão no Hemisfério Norte.

OS NOVOS RUMOS DA SOM LIVRE + VANGUART

Dezembro 20, 2007

Materinha sobre os novos rumos da Som Livre, a gravadora das Organizações Globo. O que me inspirou a caçar esta pauta foram os elogios que vinha ouvindo de vários artistas nos últimos meses – indicando que o selo realmente estava mudando. Como bônus-track, uma entrevistinha com o Vanguart, confirmando que a banda está negociando com a gravadora. Publicado no Jornal do Brasil, 09/12/2007 (Som Livre) e 21/11/2007 (Vanguart). Âpideite: a tal noite dos indies patrocinada pela TIM na Fundição Progresso, anunciada para este mês, pelo jeito não vai rolar este ano…
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O “S” estilizado, logotipo da gravadora Som Livre, tem sido visto em lugares inusitados. Como a contracapa de CDs de artistas novos e bem cotados, como o cantor carioca Jonas Sá e o grupo Tom Bloch. E até em festivais dedicados a revelações do rock a marca tem aparecido. Mas a Som Livre não era aquela companhia que só lançava CDs da Xuxa e trilhas sonoras de novelas da Globo e só se envolvia em projetos especiais?

- Nosso negócio principal ainda é, como sempre, trabalhar para a Rede Globo, povoar a grade da rede com música. Mas estamos atentos às novas cenas musicais que vêm surgindo pelo Brasil e queremos ajudar essas caras novas a ganhar projeção. A oferta é tremenda, temos inúmeros artistas interessantes batendo à nossa porta – explica Leonardo Ganem, presidente da Som Livre, que põe na rua, com força, o selo Som Livre Apresenta, criado oficialmente este mês com o lançamento dos discos Anormal (Jonas Sá), Magical fingers (do cantor Mariano San Roman) e 2 (do Tom Bloch).

Chicas entram no elenco

A etiqueta também assumiu a distribuição de Quem vai comprar nosso barulho?, disco de estréia do grupo Chicas, lançado em 2006 de forma independente. Para os primeiros meses de 2008, estão previstos álbuns dos grupos Coffee D’Amour, Companhia Itinerante e Os Irreversíveis (este com a cantora Carol Monte, irmã de Marisa Monte). Em negociações avançadas, também para o ano que vem, estão o sul-matogrossense Vanguart, revelação de festivais como Mada, em Natal, e a jovem cantora Shirle de Moraes.

Leonardo Ganem diz que a vontade de investir em novos talentos nasceu de uma observação atenta ao mercado fonográfico.

- A vendagem dos grandes nomes vem caindo muito. Mas a faixa dos artistas médios e pequenos ainda constitui um bolo fabuloso.

Outra necessidade sentida pela empresa era a de uma mudança de imagem.

- Já ouvi dizer que a Som Livre era uma gravadora de frente para o mar e de costas para o Brasil. Agora temos uma série de informantes em todas as regiões do Brasil, apontando os novos destaques das cenas regionais. E queremos ampliar essa rede – diz Ganem, que entrou no lugar de Gustavo Ramos.

Igualmente importante era a aproximação com a novíssima geração de ouvintes, gente que compra cada vez menos CD, mas ouve cada vez mais música.

- Miramos no público universitário, entre 17 e 24 anos, pessoas que sabem como baixar música pela internet e se informam sobre as novidades. Eles são o alvo do Som Livre Apresenta.

Os reflexos dessa nova orientação da Som Livre – única gravadora brasileira capaz de competir com as multinacionais do ramo – se fizeram sentir na classe artística. Hélio Flanders, do Vanguart, é uma testemunha da mudança.

- As conversas que estamos mantendo com a gravadora são muito animadoras. Nota-se que eles realmente querem trazer coisas boas ao mercado.

Para Carol Monte, a iniciativa da Som Livre não tem paralelos.

- Eles estão fazendo o que nenhuma gravadora tem feito: investir em novidade.

Outro grupo a ser “apresentado” pela Som Livre em 2008 é a banda Voltz, formada em São José dos Campos (SP). O quarteto foi o vencedor do GAS Festival, concurso de bandas realizado em setembro em São Paulo e que contava com o apoio da gravadora. Saíram de lá com a promessa de um CD, confirmada pelo selo.

- Estávamos gravando nosso segundo CD por conta própria. O apoio da Som Livre será importante para nós, já que vivemos numa cidade fora do eixo pop – afirma Glauber Ribat, vocalista do Voltz.

Leonardo Ganem detalha o envolvimento da gravadora no GAS Festival:

- Fizemos a seleção das bandas concorrentes e estamos negociando nossa participação na edição 2008 do evento. Os festivais são mais um mecanismo que o mercado encontrou para se reinventar, e nós queremos participar disso.

A Som Livre mantém os dois pés bem plantados no chão. Não pretende furar o orçamento nem fazer investimentos astronômicos. Uma estrutura modesta e absoluto realismo nas metas comerciais dão a tônica da operação.

- Sabemos que não vamos ter lucros logo de cara. Nosso objetivo é ficar no zero a zero, sem ter prejuízos – afirma o presidente da companhia. – Se conseguirmos gerar um movimento, um bochincho com os lançamentos do selo, já será excelente.

Vendas de ‘negócios-problema’

A atitude é coerente com o momento atual do mercado e da própria gravadora, que iniciou em 2005 um processo que Ganem chama de “uma senhora reestruturação” – justamente na época em que ele entrou na empresa, como diretor financeiro.

- Conseguimos nos livrar de vários negócios-problema. Nosso site (www.somlivre.com.br), por exemplo, não tinha foco: vendíamos até sutiãs! Hoje nos concentramos apenas em CDs e DVDs. Vendemos também a Som Livre Portugal e parte do catálogo da Sigem, nossa editora musical.

Os sinais de recuperação das vendas de CDs e DVDs também foram sentidos pela gravadora carioca. Mesmo que a pirataria ainda abata boa parte dos lucros, especialmente próximo do Natal. A companhia é realista quanto à situação por que passa a indústria.

- A Som Livre é o selo que mais sofre com os piratas – revela Ganem. – Na época da novela América (2005), lançamos várias trilhas diferentes, divididas em temas: sertanejo, urbano etc. Os piratas chegaram na frente e lançaram o América funk, copiando o logotipo da novela!

* * *

Bonus-track: Vanguart negocia com a Som Livre

Na contramão dos prognósticos apocalípticos sobre o cenário pop brasileiro, a ascensão do quinteto Vanguart encantou muita gente e perturbou outros tantos. Em menos de três anos, o grupo liderado por Hélio Flanders saiu de Cuiabá (MT) e ganhou projeção no circuito indie nacional com performances (ditas) arrebatadoras em festivais por todo o país. Tornaram-se darlings de colunistas pop em jornais, revistas e na internet. Os shows catárticos renderam comparações com fenômenos como a Legião Urbana. Foram parar na TV Globo (participando de um especial em homenagem a Raul Seixas). E andaram flertando com grandes gravadoras. Seria, enfim, a redenção da novíssima geração do rock nacional, que ainda parece à espera dos novos Los Hermanos?

- Não acredito em nada do que escrevem sobre o Vanguart por aí. Quando começaram esses papos de “a próxima Legião Urbana” e os boatos sobre contrato disso e daquilo, ficamos meio desconcertados. Boato é f…, né? Mas não nos interessa mais o que os jornalistas dizem. Incomoda um pouco, mas não chega a ser um problema – garante Flanders, que está no Rio com sua banda para tocar no Cinemathèque Jam Club, em Botafogo, hoje, a partir das 23h. A abertura é do duo uruguaio Perrosky, em sua primeira passagem pelo país.

É a chance para mais uma sessão de folk-rock com pinceladas de psicodelia, que já conta com seus mini-hits (Semáforo, Cachaça, Hey ho silver) – que costumam ser cantados em uníssono pelos fãs do grupo.

O vocalista aproveita para dissipar os rumores sobre a ida do Vanguart para uma grande gravadora.

- Tem sempre um pouco de verdade nos boatos… Estamos conversando com a Som Livre. Há um interesse da gravadora há algum tempo. A idéia inicial seria relançar o primeiro álbum (homônimo, que foi lançado pela revista Outracoisa no começo do ano), mas agora o acordo é para um segundo disco, de inéditas, programado para meados do ano que vem – conta.

Os detratores do Vanguart – sim, existem, e em bom número – vibraram com o cancelamento do que seria, possivelmente, o mais importante show da história da banda: a participação no último Tim Festival. A chuva que caiu na cidade na noite do show fez o público debandar e ameaçou a segurança dos artistas.

- Foi frustrante, mas não temos nada a reclamar do festival. O palco era apenas parcialmente coberto e os instrumentos ficaram ensopados, o teclado estava pingando. Se a Cibelle levou choque tocando num palco fechado (na mesma noite, na tenda Novas Divas), imagine a gente! – conta o cantor, que adianta: – No mês que vem, a Tim vai fazer uma noite na Fundição Progresso com o Vanguart, o Montage e o Del Rey, que tocariam no festival.

CHRIS CORNELL: “A INFLUÊNCIA DO GRUNGE NEM SEMPRE FOI UMA COISA BOA”

Dezembro 4, 2007

Voltei, moçada. Depois de quase 20 dias sem pegar (ops) no blog, posto agora a íntegra da entrevista que fiz com Chris Cornell, publicada (como sempre, com vários cortes) no JB do dia 02/12/2007. Aquela coisa, né? Os 15 minutinhos regulamentares, devidamente tesourados pelo assessor da gravadora quando o papo finalmente estava engrenando. O cara, como cês sabem, toca dia 12 no RJ.

Aguardem mais novidades (incluindo, possivelmente, um texto inédito) no decorrer do período.

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Dos primeiros shows do Soundgarden, em meados dos anos 80 do século passado – antes mesmo da invenção do termo grunge – até a trilha sonora do último filme de James Bond, Chris Cornell trilhou um longo caminho. O cantor norte-americano de 43 anos repassa alguns dos momentos marcantes desse caminho em sua atual turnê solo, que faz duas paradas no Brasil semana que vem (dia 12 no Citibank Hall, no Rio, e no dia seguinte em São Paulo). Legítimo ícone da geração do rock de Seattle, Cornell notabilizou-se como excepcional vocalista, primeiro à frente do Soundgarden, e depois no Audioslave (formado pelos músicos de outro grupo ícone do período, o Rage Against the Machine).

Depois de desmontar o Audioslave em fevereiro, o cantor lançou um álbum, Carry on, e caiu na estrada sozinho… cantando músicas de seus dois ex-grupos. Vários hits do Soundgarden (Outshined, Spoonman, Superunknown, Pretty noose), algumas do Audioslave (Cochise, Show me how to live) e You know my name, o tema de 007 – Cassino Royale. Antes do show, Cornell falou ao JB de sua casa em Los Angeles.

Ouvi falar de seu acidente de moto, como você está agora?
Não me machuquei realmente. Já estou pronto para outra, foram só alguns arranhões.

E a turnê, tem ido bem?
Temos tocado pelo mundo afora. Passamos por toda a Europa, Austrália, Nova Zelândia… países do Norte da Europa, como a Islândia, onde nunca tinha me apresentado. É bom poder repassar canções de todas as fases de minha carreira, algo que eu nunca pude fazer antes. Quer dizer, o Audioslave tocava algumas músicas do Soundgarden, mas algumas outras eu nunca havia cantado ao vivo.

Você sabia que o Soundgarden ainda é muito popular por aqui, especialmente entre os jovens dos subúrbios? Há várias bandas cover tocando as músicas do grupo…
Sabia que o grupo era muito popular. Mas essa das bandas cover eu não tinha ouvido falar… Em 1994 tentamos armar uma turnê pelo Brasil, mas não deu certo.

Você foi integrante do Soundgarden por 13 anos e depois ficou no Audioslave outros seis. Como se sente agora, numa carreira solo “de verdade”?
Na verdade não é muito diferente de estar em uma banda. Eu amo a música que fiz com o Soundgarden e o Audioslave até hoje. Talvez a maior diferença seja a maior carga de trabalho que eu imponho a mim mesmo. Nem sempre é fácil conseguir com que os membros de uma banda se animem a ensaiar, a gravar, ou fazer uma excursão… E eu, pessoalmente, vivo apenas para isso. Todo o meu tempo é devotado à minha família e à música. Agora que estou solo, posso fazer mais shows, gravar mais, compor mais, porque não dependo de mais ninguém.

Essas dificuldades que você citou aconteceram pessoalmente contigo, no Soundgarden ou no Audioslave?
De um certo modo, sim. Às vezes quando os grupos fazem sucesso, eles assumem uma atitude meio burocrática. Ficam acomodados. Eu não; estou sempre cheio de projetos e idéias diferentes, e quero torná-los realidade. Quero escrever novas músicas, em estilos diferentes, que nunca experimentei antes. Isso é o mais importante. Vejo integrantes de bandas de sucesso fazendo de tudo, menos tocar e compor. Os caras viram paraquedistas, pilotos de corrida, roteiristas de cinema (risos). Quer dizer, eu entendo o lado deles, é todo um mundo de possibilidades que se abre, outras formas de expressão.

E como estão suas relações com os antigos membros de suas velhas bandas?
Tenho pouco contato com eles agora. Ainda sou amigo de todos eles, não houve briga. Mas eu moro em Los Angeles e faz mais de um ano desde minha última visita a Seattle. No meu tempo livre, não fico indo a shows e confraternizando com outros músicos; devoto todas as horas de folga à minha família.

Na turnê atual você canta músicas feitas há 12, 15 anos. Essas canções soam diferentes para você, com outra ótica, depois de todo esse tempo?
Agora tenho a chance de apenas cantá-las. Minha banda tem dois guitarristas e eu não preciso tocar guitarra no show, exceto por algumas músicas nas quais toco violão. É bastante diferente interpretar canções do Soundgarden como Rusty cage e Superunknown, concentrando-me apenas nos vocais. Já na época em que as compus, era um desafio tocá-las ao vivo – exigiam muito, tecnicamente falando. Em músicas mais simples, como Loud love, é mais fácil. É só uma questão de tentar recuperar a raiva que havia na versão original.

Sua banda atual precisou mudar muito os arranjos das músicas antigas?
As novas versões não são muito diferentes das originais. Estamos passando por vários territórios diferentes e isso é ótimo. Também há momentos sutis no show. Não se trata apenas de soltar agudos a torto e a direito. Isso é fácil. O negócio é manter a melodia, sem ter uma guitarra distorcida ou uma bateria trovejante por trás. É isso que amo nessa turnê: poder cantar coisas muito diferentes umas das outras, canções lindas e outras bastante agressivas.

Como você enxerga as diferenças entre as duas bandas agora?
Quando (nós no Soundgarden) gravamos Superunknown, estávamos começando a nos interessar por outros tipos de música. Eu queria continuar a fazer barulho, mas também ser capaz de fazer música de verdade. O Audioslave era mais minimalista. Tudo girava em torno do groove, uma estética bem diferente do Soundgarden.

Olhando em retrospecto, qual sua opinião sobre a influência das bandas de Seattle – Nirvana, Pearl Jam – sobre o rock que veio depois?
Hmmm, isso depende do quanto eu quero pensar sobre o assunto (risos). Quando ouço rádio, consigo identificar o rock de Seattle em várias bandas. Tipo assim: “Hmm, acho que já fizeram isso antes”. É natural que jovens músicos se espelhem nas bandas que admiram. O que não é necessariamente uma coisa boa. Bandas como Creed e Nickelback fazem muito sucesso sugando o som das bandas de Seattle, mas no fundo elas não tem vitalidade alguma. Aconteceu antes, com grupos como Van Halen ou The Police. Eddie Van Halen e Andy Summers mudaram o jeito de se encarar a guitarra no rock, para o bem e para o mal. Veja o Led Zeppelin, por exemplo. Muitos dos grupos dos anos 80 e do começo dos 90 se inspiravam no Led, mas eles só enxergaram a postura e a imagem do grupo: os cabelos longos, a performance de palco…

Como se fosse apenas uma caricatura, um arquétipo de uma banda de rock…
Pouca gente parava para ouvir as canções, ou o trabalho de baixo e bateria que o Led tinha. Toda a influência pode se tornar uma má influência, basta que ela seja tirada de seu contexto original.

Você citou o Police. Sabia que eles vão fazer um show no Rio, alguns dias antes de sua apresentação?
Hum, não deve dar tempo para que eu consiga assistir ao show. Ah, eu gostaria de ser o quarto membro do Police (risos). Não sei se eles me aceitariam (risos). Acho que poderia dar certo, eu tocaria guitarra e faria as harmonias vocais com o Sting. Seria demais!

O MAGNATA DESAJUSTADO QUER UMA FERRARI.

Novembro 18, 2007

Andei sumido, né? Bem, estive viajando muito e trabalhando muito, não necessariamente nessa ordem. Em breve, mais detalhes por aqui. Publicado no Jornal do Brasil, 16/11/2007.

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Todo mundo sabe que nos créditos de um filme o nome do diretor é o último a aparecer na tela. Já em O magnata, longa-metragem em cartaz no Rio, o nome que finaliza os créditos não é o do diretor estreante Johnny Araújo, mas do roteirista Chorão, líder do grupo de rock Charlie Brown Jr. que também estréia no cinema. A inversão se justifica, já que desde que o projeto foi anunciado, em 2005, sempre foi chamado simplesmente de “o filme do Chorão”.

Na tela, vê-se um coquetel explosivo de (pouco) sexo, (muita) violência e (algum) rock’n'roll, combinados na história do personagem-título, o Magnata, vivido por Paulo Vilhena. Rico, arrogante e desajustado, o Magnata divide seu tempo entre um grupo de hardcore e um irresistível fascínio pelo submundo, que acaba por arrastá-lo para baixo, muito baixo. O próprio ator se encarrega dos vocais da banda.

Chorão e o Magnata têm mais diferenças do que semelhanças entre si. Alexandre Magno, nome verdadeiro do cantor de 37 anos, não nasceu em berço de ouro nem praticou assaltos a mão armada. Entretanto, para boa parte do público o roqueiro santista personifica um estilo de vida casca-grossa que pode causar confusões entre criador e criatura.

- De bandido e de mocinho todo mundo tem um pouco. E às vezes os papéis até se invertem – afirma, dúbio. – Em comum com o Magnata tenho apenas a vivência das ruas e a música. Mas não tenho medo de que me associem à figura dele. No filme sou apenas figuração, parte do pano de fundo musical, noturno, urbano, esportivo…

Na trama, o grupo do Magnata é convidado a abrir um show do Charlie Brown Jr.. Chorão participa, interpretando a si mesmo. Também saídos da vida real estão roqueiros como os grupos Dead Fish e Lobotomia, os rappers SP Funk e o apresentador-grunhidor João Gordo, além do skatista Bob Burnquist. O letrista, que um dia já cantou: “O que eles falam sobre o jovem não é sério / O jovem no Brasil nunca é levado a sério” (na música Não é sério), espera que os adultos vejam a realidade mostrada em O magnata com… saudade.

- Saudade da liberdade, da ousadia, da juventude, das pequenas responsabilidades e até daquelas irresponsabilidades sem maiores conseqüências.

O magnata integra uma safra recente de produções que tentam retratar a juventude urbana brasileira (A concepção, Cão sem dono, Podecrer!, 1972, Proibido proibir) com diferentes abordagens e níveis de qualidade diversos. Chorão, também um skatista, afirma que não gostaria de ver sua (primeira) obra comparada a nenhum dos filmes citados (“Prefiro deixar que o público avalie”). Com igual ênfase, diz que o longa que escreveu não passa de uma história de ficção que esbarra, aqui e ali, na realidade.

- O roteiro retrata um tipo de comportamento específico, muito pessoal do protagonista. Mostra a coragem necessária para se cometer um ato criminoso. Mas também a displicência, a rejeição e o medo na hora de lidar com os resultados desse ato.

Na história, o Magnata rouba uma Ferrari (apenas por diversão, já que é rico) e se vê perseguido por uma gangue em busca de vingança. Mas Chorão prefere ressaltar as entrelinhas do personagem, em vez de focar seu lado violento. A relação com a mãe (Maria Luiza Mendonça), uma dondoca alcoólatra, e o romance com Dri (Rosane Mullholland), analisa o cantor, ajudam a humanizá-lo.

- Na verdade, é uma história bem complexa e intensa, com sutilezas. Ele sofre com sua mãe problemática e ausente e se envolve com uma menina que chega do exterior em fase de questionamentos pessoais e profissionais – diz. Bráulio Mantovani, roteirista que cravou seu nome nos créditos de Tropa de elite e Cidade de Deus, ajudou Chorão na redação final do texto, junto a Messina Neto e outros roteiristas do núcleo de dramaturgia da Gullane Filmes, co-produtora do longa.

Também para dar humanidade ao personagem entra em cena Marcelo Nova, que atua como sua consciência. O bate-bola entre Paulo e Marcelo, dois amigos de Chorão de longa data, ajuda a colorir a caracterização do protagonista. O líder do Charlie Brown Jr. comenta:

- Marcelo é um dos meus ídolos. Ele compôs grande parte da trilha sonora da minha vida. Ouvi muito o Camisa de Vênus – diz, referindo-se ao grupo fundado nos anos 80 pelo roqueiro baiano. – Sabia que encararia o desafio e acrescentaria muito. Quanto ao Paulinho, pude constatar o grande ator que é e também o cara legal que poucos conhecem.

E como foi a participação de Chorão num set repleto de atores iniciantes e/ou não-profissionais, conduzidos por um diretor igualmente novato, com longa carreira, mas apenas como diretor de videoclipes e publicidade?

- Acompanhei 90% das filmagens. E toda a pré-produção, seleção e preparação de elenco. Inclusive do Paulinho, já que teve que cantar de verdade. Foi um trabalho puxado e intenso, mas me deu experiência para o meu próximo filme, que, sem dúvida, virá por aí.

Bonus-track: a resenha do filme, também publicada no JB.

Admitamos: as credenciais que O magnata trazia antes de chegar às telas davam um certo medo. Roteirizado por Chorão, vocalista do Charlie Brown Jr., e conduzido por um diretor estreante (o clipeiro Johnny Araújo), o filme tinha tudo para ser uma pérola trash. A surpresa é, então, encontrar um longa muito bem filmado, com um pique narrativo que compensa o roteiro fraco e o elenco irregular. O resultado impressiona mais ainda em comparação com a recente safra de filmes nacionais que tentaram retratar a juventude brasileira urbana. Há, claro, situações forçadas e caricatas. Mas a tensão da trama criminal se equilibra bem com a caracterização da porralouquice da molecada – flertando com a marginália de um lado e a inconseqüência do outro. E exibe ousadia ao rejeitar, firmemente, a caretice que sobrou em filmes como Podecrer! ou 1972. Mesmo correndo o risco de glamourizar comportamentos indefensáveis. E do inegável moralismo do resultado final.

“TRAMA NÃO VAI FECHAR”

Novembro 8, 2007

Publicado no Jornal do Brasil, 09/10/2007.

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João Marcello Bôscoli, 36 anos, não agüenta mais ouvir falar que sua gravadora, a Trama, está em crise. A boataria tem razão. Em 2007, o selo praticamente não lançou novos discos. A Distribuidora Independente, um dos braços da empresa, foi fechada. Artistas importantes (Cansei de Ser Sexy, Nação Zumbi, Tom Zé) deixaram a gravadora. E vários títulos do catálogo entopem saldões em lojas virtuais e reais. Seria o fim do projeto que, em 1998, surgiu prometendo revolucionar a música brasileira? O presidente da Trama garante que não. Apostando no que chama de multidisciplinaridade da música, Bôscoli diz que pretende continuar a sacudir o mercado oferecendo novas formas de vender (e de ouvir) música.

Vamos direto ao ponto: a Trama vai acabar?
Estou cansado dessas histórias, sabe? Já ouvi que a Trama vai fechar daqui a seis meses. Que a Trama serve para lavar dinheiro. As pessoas que dizem essas coisas não têm vida própria. O que fulano ou sicrano falaram na imprensa… me desculpa, mas isso não me interessa. Essas histórias são pura falta de educação. Mas tudo bem. Acho importante ser odiado. Sou filho da Elis Regina, não de um diretor de marketing qualquer. Mas em 2007 a gravadora esteve devagar, quase parando, certo? Isso gera rumores… Só lançamos dois discos este ano (Maquinado, de Lucio Maia, e Art, plugs & soul, do DJ Mau Mau). Já houve época em que eu ficava deprimido por conseguir lançar 25 artistas por ano! Mas eu não tenho só uma gravadora. Não estou nessa para vender pedaços de plástico. Vendemos música. O que aconteceu foi que trocamos de fornecedor (de CDs) no começo do ano e precisávamos limpar o mercado dos títulos velhos que ainda estavam em catálogo. Então seguramos os lançamentos. E também fechamos a Distribuidora Independente, que nunca deu dinheiro, só dor de cabeça. A Distribuidora se justificava quando ainda pensávamos em virar a cena, mudar o mercado musical. Mas o mercado está acabando.

O elenco da Trama também perdeu dois nomes importantes: os grupos Cansei de Ser Sexy e Nação Zumbi. Como foi essa história?
Passamos o contrato que tínhamos com o Cansei, que previa mais dois discos, para a gravadora Sub Pop (EUA). A banda me procurou e disse que não fazia sentido manter o contrato, que a vida toda deles estava lá fora. Mas continuamos amigos, eles vão ensaiar no estúdio da Trama no mês que vem. A Nação, falando francamente, não dava retorno para nós. É uma pena dizer isso, adoro o grupo, acho a Nação a melhor banda do mundo. Mas nós só tinhamos participação na venda dos CDs deles; todo o resto, agenciamento, editora, licenciamento, era feito por eles. E com o dinheiro que eu empregaria num CD deles poderia gravar outras 10 bandas independentes. Então não compensava.

Além de diminuir o elenco, a empresa demitiu funcionários?
Já tivemos quase 100 funcionários. Hoje trabalhamos com 35 pessoas. Conseguimos terceirizar vários departamentos – financeiro, jurídico etc – áreas que, afinal, não tinham a ver com o núcleo do nosso negócio, que é música.

A Trama antecipou várias das estratégias que as grandes gravadoras hoje buscam para driblar a crise. Você se sente um visionário?
Em 1997, nos preparativos para fundar a Trama, já sabíamos que uma empresa de música teria futuro, mas uma gravadora, não. Nosso pulo do gato foi entender que tudo é música. Mochila é música. Camiseta é música. Calendários, pôsteres, revistas… Só 20% de nosso faturamento vêm de CDs e DVDs; o resto chega de outras fontes. Acho que a Trama nem sequer pertence ao mesmo setor que as outras gravadoras. As multinacionais tomaram a comida de bola do milênio ao subestimar a internet. Eu rio quando ouço as gravadoras falando: “Agora a música vai para a web”. A Trama está na web desde 1999! Tem o lado triste, que é ver todo um setor da economia quebrando. É uma crise que tem mais vítimas do que culpados. Estou contente com o nosso retorno. Mas o pouco que ganhamos até agora foi por W.O. (risos)

No manifesto de fundação da Trama constava o compromisso de “incentivar e apoiar o artista nacional”. Vocês ainda estão de olho na renovação da música brasileira?
Neste momento, estamos negociando com seis bandas novas, para gravarem CDs. Nosso telefone não pára de tocar. Cadastramos 1.700 artistas novos todos os meses no portal Trama Virtual. No programa de TV homônimo, já temos mais de 60 artistas independentes gravados. Começo a sentir uma grande empatia por essa galera nova. Acho legal o fato de as bandas novas já nascerem self-made. Eles não contam com coisa alguma, nenhuma benesse de gravadora, correm atrás de tudo por conta própria. É a verdadeira geração punk-samba.

* * *

Faixas de graça pagas por empresas
Duas propostas da Trama – uma prestes a se concretizar, a outra já posta em prática – pretendem mudar a maneira como gravadoras, artistas e ouvintes encaram o ato de consumir música via internet. No começo de novembro, a gravadora lança o Álbum Virtual, um pacote baixável pela web que inclui não apenas faixas musicais, mas também todo o trabalho gráfico. A versão virtual do disco estará à disposição do público (para download gratuito) um mês antes de o CD chegar às lojas. Mesmo com o ouvinte baixando de graça, o artista ganha dinheiro por meio do patrocínio de empresas parceiras da Trama. Inaugurando a proposta, o grupo Rock Rocket, com seu segundo álbum.

– É como assistir à TV. A novela é de graça para quem assiste, os comerciais é que pagam – explica João Marcello Bôscoli.

O Álbum Virtual terá faixas digitais de alta qualidade sem DRM (ou seja, desbloqueadas, sem proteção anticópia) e material extra, como faixas instrumentais e seções multimídia acessáveis por computador. A parte gráfica será completa, com capa, encarte e até o selo do CD, tudo em arquivos imprimíveis. Além do Rock Rocket, os lançamentos que a Trama planeja para os próximos seis meses (Quinteto Branco & Preto, Jair Rodrigues, Karine Alexandrino e Caju & Castanha) devem ser antecedidos por suas versões virtuais.

O Download Remunerado é a segunda idéia tramada por João Marcello para virar a maré. Todas as músicas disponíveis para download gratuito no Trama Virtual podem render dinheiro a seus respectivos artistas. O valor a ser pago varia de acordo com o que for arrecadado mensalmente com as empresas patrocinadoras. Nos dois primeiros meses do projeto, 2.539 bandas se cadastraram e foram feitos mais de 126 mil downloads. Entre as bandas mais baixadas e que ganharam mais dinheiro estão a Dance Of Days (R$ 2.880), Fresno (R$ 1.250), Superguidis (R$ 1.023), Pull Down (R$ 914) e Rock Rocket (R$ 823).

GROOVES NO LUGAR CERTO; SÓ FALTAM AS MELODIAS (+ BONUS TRACK).

Novembro 6, 2007

Resenha do mais novo disco da Nação Zumbi, Fome de tudo. De faixa-bônus, incluo uma materinha que fiz repercutindo o fato do disco ter vazado em MP3 vários dias antes do CD chegar às lojas. Geralmente não posto esse tipo de texto por aqui – já existe tanta gente por aí nessa onda, né? – mas a intervenção do dileto leitor José Henrique me compeliu ao ato. Zé (posso tratá-lo assim?) é desses fãs que passam o dia no Google digitando o nome de sua banda favorita, em busca de novidades acerca de sua banda favorita. (Eles existem, e como existem…) Ele já dera o ar de sua graça por aqui no post NAÇÃO ZUMBI NA DECKDISC. Nos comentários do post, me admoestava, por considerar que menosprezei a NZ. Neste fim de semana, ele atacou de novo (leia detalhes aqui), certamente após ter trombado, em uma de suas rondas, com a resenha que fiz de Fome para o Jornal do Brasil (publicada dia 30/10/2007). Dei-me conta que, apesar de ter permitido ao rapaz ventilar sua revolta, não incluí no site o texto que o motivou. Então, para quem leu o comentário do Zé e não entendeu nada, lá vai:

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Em seu sétimo disco – o quinto após a morte de Chico Science – a Nação Zumbi dá sinais de que ainda não resolveu o impasse auto-imposto no trabalho anterior, Futura (2005). Os pernambucanos vêm deslocando o eixo de sua música da pancadaria percussiva dos primeiros anos para uma ênfase maior nas harmonias e melodias. Entretanto, a guinada estética não foi acompanhada por mais inspiração nas composições. Não é que Jorge Du Peixe (voz), Lucio Maia (guitarra), Dengue (baixo) e os percussionistas Gilmar, Pupillo e Toca Ogan estejam proibidos de buscar maiores sutilezas em seu som. O problema é que a fartura de grooves e levadas contagiantes não é contrabalançada por brilho melódico ou vocal.

Em comparação com o último disco, Fome de tudo apresenta um trabalho ainda mais minucioso na produção – timbres variados e incomuns, efeitos eletrônicos e instrumentos vintage convivendo bem. A riqueza sonora é provável resultado da colaboração com o produtor Mario Caldato Jr. (Beastie Boys, Marcelo D2). Com o abrandamento dos tambores, mais discretos na mixagem (quando não eliminados de vez), sobressai a ginga instrumental. Mas o desequilíbrio entre forma e conteúdo deixa o resultado irregular. Exemplo claro do descompasso é a faixa “A culpa”. A canção traz uma das melhores levadas de guitarra do disco. Entretanto, a melodia pobre e o estilo vocal de Du Peixe – reto, sem nuances – derruba o bom groove. A mesma sensação contamina outras músicas, como “Bossa nostra”, “Infeste” e “Carnaval”. Ou mesmo “Toda surdez será castigada”, parceria com o compositor conterrâneo Junio Barreto.

À uma segunda ou terceira audição, alguns detalhes se destacam na massa sonora. Em “No Olimpo”, que fecha o disco, o sexteto afinal acerta um refrão cativante, em boa combinação com o arranjo menos frenético. “Inferno”, mais climática, conta com participação da cantora Céu valorizando a melodia sinuosa. “Nascedouro”, enraizada no samba, ganha ares de gafieira psicodélica quando entra a metaleira da Orquestra Popular do Recife. O peso da faixa-título recupera a pegada dos primeiros anos da banda, enquanto a mais eletrônica “Originais do samba” remete às experiências com beats e samplers de Afrociberdelia, o segundo disco, ainda com Chico (1996). E a intervenção vocal de Toca Ogan cai bem em “Assustado”, compensando o timbre mais rascante de Jorge.

Bônus: DISCO DA NAÇÃO ZUMBI CHEGA À INTERNET ANTES DAS LOJAS

Fome de tudo, o novo disco do grupo Nação Zumbi, era aguardado com tanta ansiedade, mas tanta ansiedade, que os fãs não se contiveram. O álbum – lançado pela Deckdisc, ao preço sugerido de R$ 27,90 – já circulava pela internet, em forma de arquivos MP3, vários dias antes de sua chegada às lojas, no começo da semana passada. Não se sabe pelas mãos de quem o CD “vazou” na grande rede. Entretanto, pela boa qualidade sonora dos arquivos (dos quais o JB pôde obter cópias, baixadas de um dos vários websites anônimos de compartilhamento de arquivos), tudo indica que os MP3 de Fome de tudo foram tirados de um CD já finalizado, igualzinho ao que foi para as lojas.

- Ficamos um pouco chateados, mas sabemos que é inevitável – comenta o guitarrista da Nação, Lucio Maia, sobre o aparecimento prematuro do repertório inédito na internet. Inacessível por telefone ou em contato ao vivo, Maia concedeu entrevista via mensagens de texto SMS, trocadas entre celulares.

Aceitando aquilo que o músico classificou como “inevitável”, a NZ se adiantou à febre do download ilegal colocando, com um mês de antecedência, as músicas do disco novo para audição gratuita (mas não para download) no endereço www.fomedetudo.com. Duas das canções novas também estão à venda na loja virtual da Deckdisc (www.deckpod.com.br), ao preço de R$ 0,99 cada.

- Sabemos e confiamos que apesar de o disco ter vazado, os verdadeiros fãs ajudarão à banda comprando o CD – acredita Maia.

Fome de tudo é o sétimo disco da Nação Zumbi e o primeiro do grupo pela gravadora carioca Deckdisc. Com 12 músicas, todas inéditas, o álbum chega às lojas com uma tiragem inicial de cinco mil CDs. Procurada para comentar o vazamento prematuro do álbum, a direção do selo não respondeu ao JB.

LEIA ANTES DE OUVIR, OUÇA ANTES DE MORRER.

Novembro 4, 2007

Publicado no Jornal do Brasil, dia 20/10/2007. A presente versão traz a entrevista com editor Robert Zimery na íntegra (no jornal sairam só meia-dúzia de frases do cara) e separadas do texto principal.

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Dizem por aí que o álbum musical está em seus últimos suspiros, sucumbindo às facilidades da internet e do MP3. Entretanto, é inegável que, seja em CD, seja em vinil, o álbum – aquele conjunto de canções organizadas numa seqüência mais ou menos temática, com capa e projeto gráfico combinando – foi e ainda é o formato que ajudou a definir a música pop. Servindo ao mesmo tempo como compêndio do formato e possível epitáfio para o apagar de suas luzes, o livro 1001 discos para ouvir antes de morrer (Ed. Sextante, 960 págs.) é um belíssimo resumo da era do álbum, reunindo 1.001 indicações de discos que ajudaram a construir a música popular moderna.

O jornalista Robert Dimery é o editor geral de 1001 discos…. Britânico, colaborador de revistas como Time Out e Vogue e co-autor de livros como Pump up the volume: a history of house, Dimery se debruçou sobre textos enviados por 90 jornalistas, escritores, radialistas e ensaístas (a grande maioria norte-americanos e britânicos) descrevendo a importância e as qualidades dos discos citados, o contexto histórico em que foram lançados e curiosidades sobre seus autores. Ilustrados com fartura, os verbetes estão organizados por ordem cronológica e boa parte deles inclui a capa do disco citado e sua lista de músicas, além de dados como ano de lançamento, gravadora, produtor e até designer gráfico.

O LP de 12 polegadas e 33 rotações e 1/3, o formato que possibilitou a introdução do álbum, surgiu em 1948. Mas historiadores concordam que In the wee small hours of the morning, disco lançado por Frank Sinatra em 1955, foi o marco inicial do álbum como conceito artístico. É justamente este LP que inicia a lista de 1001 discos…, seguindo até o recentíssimo The good, the bad and the Queen (2007), do grupo sem nome formado por Damon Albarn e Paul Simonon. Os outros 999 se concentram basicamente na área do pop-rock anglo-saxão. Mas, entre os campeões, Beatles e David Bowie (cada um com sete discos na lista) e os previsíveis Rolling Stones (seis), Bob Dylan (seis), Pink Floyd (quatro) e Bob Marley (três), há espaço para quase tudo. Jazz (Miles Davis, Thelonious Monk, John Coltrane), metal (Black Sabbath, Metallica, Motörhead), hip hop (Public Enemy, Outkast, LLCool J), country (Johnny Cash, Waylon Jennings, Loretta Lynn), eletrônica (Prodigy, Underworld, Kraftwerk), world music (Miriam Makeba, Khaled, Fela Kuti)…

Nesse mundaréu de discos, seria até injustiça não haver brasileiros na relação. E há. Os medalhões Chico Buarque (com Construção), Caetano Veloso (Circuladô e o álbum homônimo de 1968), Gilberto Gil e Jorge Ben (com o clássico Gil & Jorge) estão lá. E também Sepultura, Tom Jobim, João Gilberto (mais a filha Bebel e as ex-mulheres Miúcha e Astrud), Milton Nascimento… e até Carlinhos Brown, com seu Alfagamabetizado.

Bônus-track: o pingue-pongue completo com Zimery

Primeiro, as questões básicas. Quando surgiu a idéia de fazer o livro? E como o conceito do livro foi se desenvolvendo, à medida em que você compilava os verbetes?
Bem, a idéia surgiu há cerca de três anos. Sempre soubemos que o livro iria girar em torno do rock – quer dizer, o tipo de música popular baseada em guitarras, que tem dominado as paradas mundiais de forma constante desde a década de 1950. E esse conceito básico permanceu intocado até o final. Entretanto, queríamos muito citar alguns álbuns-chave de outros gêneros, que pudessem ser um modo de as pessoas conhecerem outras formas de música. Então você vai achar Frank Sinatra, Ravi Shankar, Manu Chao, Stan Getz e Miles Davis ao lado de Guns’n'Roses, The Smiths e White Stripes.

E como os colaboradores foram escolhidos?
Trabalhei com alguns dos colaboradores americanos e britânicos, então apenas liguei para eles e os convidei. Mas queríamos fazer um apanhado bom de escritores de outros países, então acionamos pessoas que pudessem contactar jornalistas que escrevessem em fanzines, revistas, sites e jornais mundo afora. Conseguimos jornalistas musicais da Espanha, Hungria, África do Sul e Austrália, por exemplo, o que ajudou a formar uma base mais internacional para a compilação. Acho que há muitos artigos realmente bons, apaixonados na lista – o tipo de texto que faz o leitor ter vontade de sair correndo atrás dos discos citados!

Listas de “melhores discos de todos os tempos” são facilmente encontráveis em revistas e sites. Você se diverte lendo-as?
Sim, eu gosto dessas listas todas. Afinal, eu sou um quarentão fã de música, e nossa tribo ama ler e fazer listas. Aquele filme Alta fidelidade é dolorosamente fiel à realidade!

Diria que 1001 discos… é a “lista para acabar com todas as listas?”, então? O que, em sua opinião, o faz acreditar que o livro pode se destacar no meio de tantas outras listas?
Eu provavelmente não escolheria os mesmos 1001 discos se estivesse fazendo o livro agora. O gosto da gente muda o tempo todo. Mas acho que o livro é um excelente ponto de partida para se descobrir mais sobre um pouco da melhor música pop feita nos últimos 50 anos. Acho que o livro se destaca das outras listas porque tentamos cobrir territórios menos previsíveis, juntamente com os inevitáveis Beatles, Dylan e Radiohead de sempre. Eu quis incluir coisas bem inusitadas – disquinhos que não venderam muito quando saíram, material de pequenas bandas independentes, álbuns que não se encaixam em gêneros ou classificações fáceis. Por último, sei que sou suspeito para falar, mas o livro ficou realmente bonito. Muito mais que a maioria dos outros volumes similares, que costumam ter apenas texto, sem fotos. O design foi criado por um cara chamado Tristan de Lancey, que tinha algumas idéias bem decididas sobre como o visual do livro deveria ser. Ele fez um grande trabalho.

Já ouviu todos os discos incluídos na lista? Quantos deles você possui, e quais são seus favoritos?
Não, não cheguei a escutar um por um. Embora, se conseguisse uns seis meses de folga num futuro próximo, possa tentar! Devo ter cerca de um terço dos discos que aparecem no livro. Mas é claro que editar um livro como esse realmente te inspira a procurar por nova música. Meus favoritos? Hmm, difícil! Sempre tive uma queda por guitarras jingly-jangly, como os Byrds ou The La’s. Também dou uma nota alta a Rufus Wainwright, um compositor realmente talentoso. E os Pixies foram os Beatles de sua geração, ainda gosto muito deles.

E quais dos discos citados você não suporta?
Odiaria ter de falar mal de qualquer um dos discos da lista! Acho que em cada um dos álbuns citados há alguma coisa interessante, de Britney Spears ao Einstürzende Neubauten, passando pelo Arcade Fire.

Por outro lado, quais discos surgiram como surpresas agradáveis – álbuns os quais você nunca tinha ouvido e descobriu enquanto fazia o livro?
Diria que Sam Cooke é hoje essencial para mim. E o Live at the Star Club Hamburg, de Jerry Lee Lewis, é o mais definitivo disco de rock’n'roll que alguém pode querer ouvir. Já conhecia ambos os cantores antes de começar o livro, claro, mas os considerava artistas de singles. Não sabia que podiam produzir álbuns tão consistentes, também. Eu provavelmente incluiria Night beat, mais um de Cooke, se estivesse fazendo o livro agora. E Missy Elliot. O jeito como ela revigorou o hip hop é extraordinário, e eu não conhecia bem o trabalho dela antes de começar o livro.

A lista de discos que emerge do livro é fortemente baseada em artistas americanos e ingleses. Mas há alguns brasileiros mencionados: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Carlinhos Brown. Você conhece o trabalho deles?
Tenho de admitir que meu conhecimento de música brasileira é muito limitado. Então foi excitante poder conhecer um pouco mais sobre os discos de seu país. Se o livro tivesse saído um ano mais tarde, me sentiria tentado a incluir o Cansei de Ser Sexy na lista; eles estão conseguindo um bom público por aqui. Já conhecia alguns dos discos clássicos de bossa nova, como o de Frank Sinatra com Tom Jobim. E adoro, adoro, adoro os Mutantes. Só no disco de estréia deles, há mais idéias do que na carreira inteira de muitas bandas. A mistura de vanguarda com pop que os Mutantes aperfeiçoaram é impossível de ser ignorada, e ainda influencia pessoas hoje em dia.

Qual seria o “melhor uso” para 1001 discos…? Acha que o livro pode ser usado como ponto de partida para alguém que está apenas começando a conhecer música pop? Ou, ao contrário, seria mais adequado para os colecionadores incuráveis, que já possuem a maioria dos (ou quase todos) álbuns mencionados?
No fim das contas, o livro é realmente uma introdução, para pessoas que já sabem qual é seu tipo de música favorito, mas que querem expandir suas coleções em novas direções. Escolher a lista foi, como você pode imaginar, um grande problema! Há alguns discos no livro que são conhecidos pela maioria das pessoas, mas se não tivéssemos incluido-os na lista, muita gente acharia que seria um jeito de “tirar onda”, excluindo discos clássicos. Como fazer uma lista dessas e não colocar Pet sounds ou Blonde on blonde, por mais que todo mundo já conheça esses discos? Entretanto, sei que os jornalistas que colaboraram com o livro conseguiram acrescentar fatos novos e histórias surpreendentes em seus textos, mesmo quando escreviam sobre os discos mais manjados. Acho que é um livro bastante “pesquisável – você começa a ler sobre um disco e antes de perceber já vai estar pulando páginas, procurando por outro bem diferente. Agora, os leitores podem não concordar com todas as opiniões contidas no livro. Ou mesmo com o conjunto de discos que a lista representa. Mas se mesmo assim, o livro fizer com que as pessoas procurem e descubram mais música, então acho que nosso dever foi cumprido. O livro é só um ponto de partida, daí em diante é com o leitor.

O DANÇANTE CATÁLOGO DE SAMPLES DO GIRL TALK.

Outubro 26, 2007

Entrevista com Greg Gillis, A.K.A. Girl Talk, que toca no TIM Festival deste ano. A presente versão traz a íntegra da reportagem, publicada com muitos cortes no Jornal do Brasil, dia 19/10/2007.

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Empregar trechos de músicas alheias para criar novas composições já foi revolucionário. Há tempos, no entanto, a prática foi banalizada por ondas sucessivas de hip hops radiofônicos sem imaginação. O produtor norte-americano Gregg Gillis é o homem que quer recuperar a ousadia e o experimentalismo do sampler. Com 25 anos, ele se apresenta no Tim Festival com o projeto Girl Talk, no qual ultrapassa todas as barreiras no uso criativo e radical do sampling. Em seu terceiro álbum, Night ripper, Gillis empregou mais de 250 samples, de 167 artistas diferentes, para criar as 16 faixas do disco.

– Manipular idéias musicais de outras fontes é a base da tradição da música popular. Acho que meu trabalho faz parte dessa tradição. Samplear outras canções ainda não é considerado um meio “legítimo” de fazer música, mas isso é só uma questão de tempo – diz Gillis ao JB, dos EUA, com datas marcadas para São Paulo (na boate The Week) no próximo dia 26, e, no Rio (Marina da Glória), no dia 27.

Pioneiros como o trio de hip hop De La Soul e o coletivo de produtores The Avalanches fizeram discos inteiros a partir de citações a outras músicas. Entretanto, o Girl Talk se diferencia pela quantidade espantosa de samples usados e pela maneira como os combina. Ouvir Night ripper é como ir a uma festa na qual o DJ “discoteca” combinando trechos de canções que pipocam em emissoras de rádio. Imagine uma canção (“Give and go”) que junta pedaços de canções de Phil Collins, Sonic Youth e Hall & Oates. Ou outra (“Once again”) que mistura The Verve, Eminem e Boston. E que tal Paula Abdul, Chicago e George Benson (“That’s my DJ“)? Britney Spears, Weezer, Elton John, Nirvana, Nine Inch Nails, Public Enemy: cabe de tudo, às vezes de modo reconhecível, às vezes não. O resultado espanta pela coerência.

Gillis teoriza um pouco sobre como o sampler mudou a face da música nos últimos anos:
- Não sei se o Girl Talk pode ser considerado a “nova geração” do sampling. Talvez meu trabalho seja apenas mais um passo nessa estrada. Hoje em dia, cada vez mais os garotos estão fazendo remixes por conta própria e pondo-os na internet. À medida que o ato de samplear se torna mais difundido, vai se tornar um lugar comum em todos os gêneros musicais. Pode-se chegar a tantos lugares diferentes com o sampler que não se pode pensar em uma linha evolutiva simples. Vão aparecer muitos mutantes.

Gillis lembra seus primeiros passos:
– Assim que me formei no ensino secundário, em 2000, comprei meu primeiro laptop e resolvi fazer um projeto musical baseado inteiramente em colagens de músicas de sucesso em FMs – explica Gillis, que, na adolescência, chegou a tocar em bandas de rock experimentais. – As possibilidades são infinitas. Ainda é um meio relativamente inexplorado, em comparação com instrumentos convencionais.

Ele segue:
- Na primeira banda de que participei, lidávamos com eletrônica mas também experimentávamos com formas de apropriação de músicas alheias. Trabalhávamos com CDs, manipulação de gravadores de quatro canais, colagens (com gilete e durex) de fitas cassete e também com rádios.

O produtor diz que levou cerca de um ano para catalogar e editar todos os trechos usados em Night ripper.
– Vivo constantemente sampleando pedaços de músicas e catalogando-os. Não me preocupo se vou usá-los. Nem tenho idéia de quantos CDs possuo, minha coleção é uma bagunça. No meu carro, vou ouvindo rádio e fazendo listas mentais de trechos para usar no futuro. É um processo infinito, de tentativa e erro. Às vezes trabalho por dias a fio sem achar um loop que se combine com os outros. Outras, sampleio um trecho que se encaixa de primeira.

Perguntado sobre suas influências primordiais, Gillis cita alguns pioneiros do sampling vindos do hip hop e da eletrônica.
- Toda a música pop que uso me influencia. Minha introdução ao sampler provavelmente foi com o Public Enemy, quando eu ainda era um garoto. Escutei muito hip hop na adolescência, então para mim o sampler sempre foi um instrumento como qualquer outro. Conheci o De La Soul nessa época. Olhando em retrospecto, hoje aprecio o trabalho deles de um modo mais profundo. Toquei com o DLS em um festival no verão passado, foi incrível. Acho que os artistas que me influenciaram diretamente vieram mais do campo experimental, gente como John Oswald, Negativeland e Kid 606. O remix que o 606 fez de “Straight outta Compton”, do N.W.A., realmente abalou meu mundo quando o ouvi, ainda no segundo grau. Foi aquela música que me levou a querer cortar e colar sons no computador.

Também espantosa é a performance do Girl Talk ao vivo. O produtor não trabalha como um DJ convencional. Mouse em punho, combina as batidas e trechos “ao vivo” em seu laptop, mudando radicalmente os formatos das músicas.

– Toda vez que o público ouve uma mudança na música, sou eu mexendo na mão. Cada batida, frase e vocal fica isolado no computador e crio os remixes ao vivo – explica.

O Girl Talk vai tocar no palco Tim Mash-Up, junto ao Spank Rock. O mash-up – ato de juntar duas ou mais músicas para criar uma terceira, geralmente feito de forma não-autorizada e amadora – é uma febre mundial, em pistas de dança e na internet. Gillis diz que está atento ao movimento, ainda que se defina como um artista experimental, e não um criador de dance music.

- Os mash-ups são uma influência definitiva sobre meu trabalho. Mas não me sinto conectado diretamente a qualquer cena. Acho sensacional quando vejo as pessoas dançando com as minhas músicas, mas nunca esperei esse tipo de reação do público. Minha intenção sempre foi fazer música divertida e interessante, mas não necessariamente dançante. Foi uma surpresa para mim o fato de DJs começarem a tocar minhas músicas. Nos EUA, eu náo me apresento em clubes ou boates; toco em casas de rock, e minhas performances são ao vivo. Nesse sentido, me sinto isolado da cultura da dance music.

Em tempos de debates sobre direitos autorais, é natural que o homem por trás do Girl Talk se preocupe com acusações de plágio ou apropriação indébita de composições alheias.

– Até o ano passado, não me importava com isso. O Girl Talk era underground demais para chamar a atenção. Mas agora a possibilidade de sermos processados aumentou. Sei que não estou prejudicando as vendas de quaisquer dos artistas que sampleei em Night ripper. Vejo o disco como uma forma de promovê-los, na verdade – diz Gillis, que, não por acaso, lança seus discos pelo selo Illegal Art (“arte ilegal”).