Matéria que fiz para o JB em abril de 2005, tendo como gancho o boom dos eventos e casas de espetáculos patrocinados por telefônicas aqui no Rio. Deu bastante trabalho para apurar e terminar o texto (que por sinal ficou bem capenga, com erros de gramática e tropeções de estilo, devidamente corrigidos aqui. O fechamento foi para lá das duas da madrugada, se isso vale de desculpa). Publicada numa sexta-feira, na revista Programa, a reportagem me deu uma satisfação extra. No dia seguinte, uma matéria EXATAMENTE COM O MESMO GANCHO foi capa do Segundo Caderno! Até a ilustração da página estava parecida! Imagino a cara dos coleguinhas da Irineu Marinho ao ver a Programa, um dia antes…
Âpideites: de 2005 pra cá, a Vivo construiu sua própria casa de espetáculos, o Vivo Rio (uma construção cercada de polêmicas, conforme retratado em uma boa reportagem publicada na Piauí deste mês), instalado no Museu de Arte Moderna. Com a inauguração da casa, o TIM Festival foi corrido do MAM e agora se abriga na Marina da Glória. A etapa carioca do Claro que É Rock, realizado em setembro de 2005, foi um dos maiores fiascos da história do entretenimento brasileiro – quem foi, lembra. A mesma operadora abriu mão do antigo Metropolitan, que passou a se chamar Credicard Hall Citibank Hall. O Canecão não tem mais a chancela da Embratel e agora se chama oficialmente Canecão Petrobras. O PercPan também está ao lado da Petrobras, tendo dispensado a associação com a TIM.
Num passado nem tão remoto, a única associação possível entre telefonia e diversão era o ato de ligar para os amigos e combinar algum programa. Alguém se lembra dessa época? Nos últimos anos, porém, ficou impossível dissociar os grandes eventos culturais da cidade das onipresentes companhias de telefonia móvel – semana sim, semana também, as quatro gigantes do ramo anunciam novos shows e festivais. Em comum, dimensões gigantescas, muito marketing e atrações que jamais passam despercebidas.
Neste fim de semana, é a vez de TIM e Vivo batalharem pela atenção do público. A primeira empresta a logomarca e dinheiro ao tradicional PercPan, encontro multinacional de percussionistas que já existe há mais de uma década – suas principais atrações são Gilberto Gil e grupos da Tanzânia e do Congo, que se apresentam nesta sexta no Teatro Carlos Gomes. Já a Vivo abre o cofre no Vivo Open Air (a um custo de R$ 10 milhões), um festival que reúne filmes ao ar livre num telão gigantesco e uma programação de bares e festas transados no Jockey Club, na Gávea. Daqui a três semanas, a Claro contra-ataca com a grande atração internacional do mês, a cultuada banda de rock Placebo.
Essa movimentação das telefônicas na agenda cultura carioca encerrou um hiato de grandes atrações internacionais na cidade, que perdurou por um par de anos depois que uma lei, em 2002, proibiu a vinculação de marcas de cigarro a eventos para o público jovem, como os extintos Hollywood Rock e Free Jazz Festival. Desde a entrada das operadoras no mercado, esse vácuo vem sendo preenchido. Nos últimos dois anos, já passaram pela cidade White Stripes, k.d.Lang, Chrissie Hynde, Iron Maiden, Coldplay, Macy Gray e, mais recentemente, Norah Jones e Lenny Kravitz – sempre associados a uma das quatro companhias de telefonia móvel, direta ou indiretamente.
- A participação das telefônicas ampliou esta cena. Tivemos alguns anos carentes de eventos superproduzidos por falta de quem pudesse entrar com patrocínio – elogia o músico Rogê, produtor do festival Claro Rio de Verdade nas Quintas de Janeiro, na Marina da Glória, que desde seu lançamento em 2001 conta com o apoio da operadora de celulares.
Não falta, contudo, o coro dos descontentes. Gente que desafina com as festas e passa à margem dos eventos mais badalados da cidade – alguns por falta de convite; outros por falta de vontade. Coordenador da Fundição Progresso, o veterano agitador cultural Perfeito Fortuna mantem com as teles uma relação amistosa – mas distante. E garante que há vida inteligente disassociada dos telefones celulares.
- Por definição, somos artistas livres desse tipo de compromisso. Temos nossa própria marca a zelar, que é a independência. Apesar dos apertos momentâneos, preferimos continuar com essa resistência. Neste sentido, me sinto como um dinossauro, até – brinca o produtor, que já abrigou na Fundição espetáculos apoiados por telefônicas, mas não tem a mínima intenção de associar o tradicional espaço multicultural da Lapa ao nome de patrocinador algum.
Perfeito, é bem verdade, deve ser visto como a exceção que confirma a regra. Alguns até recebem o convite; a maioria, no entanto, bate na porta das telefônicas a fim de associar seus eventos às marcas das operadoras. Beth Cayres, organizadora do TIM PercPan, afirma que não seria possível a etapa carioca (a “matriz” do festival fica em Salvador) se não houvesse a participação da telefônica. Em 2002, apenas com a cara e a coragem, a versão carioca do evento ficou mais pobre, apenas com os shows e sem as oficinas e os encontros entre músicos, suas marcas registradas. O empresário Alexandre Accioly foi outro que não hesitou em apresentar o projeto que ressuscitaria o Noites Cariocas, no Morro da Urca, às teles.
- Se não tivesse o patrocínio, das duas uma: ou dobrava o preço do ingresso, ou teria de colocar quatro mil pessoas lá em cima, em vez de duas mil. Em ambos os casos, seria impraticável para o público e para a casa – afirma Accioly, que turbinou o projeto com a verba e o nome da Oi.
A correria pelo patrocínio é justificada por cifras milionárias. Nenhuma empresa chega a divulgar números de investimentos na área, mas é possível ter alguma dimensão dos valores. A TIM, por exemplo, anunciou um investimento de R$ 25 millhões em 2003 no projeto Música sem Fronteiras (que inclui o TIM Festival). Verbas como essa são suficientes para sacudir qualquer mercado.
Na maior parte dos casos, as companhias não apenas põem verba no evento, mas também empresta seu nome. Esse conceito tem uma denominação chique – naming rights, ou “direitos de nome”. Na prática, é o procedimento pelo qual uma empresa tem a opção de dar seu nome a qualquer iniciativa apoiada por ela. No Rio, esse turbilhão começou em 1999, quando a Claro (então ainda chamada ATL) passou a patrocinar o Metropolitan, tradicional casa de shows instalada no shopping Via Parque. O lugar mudou de nome, primeiro para ATL Hall e transformando-se em outubro de 2003 no Claro Hall. Quando a TIM assumiu a tutela do antigo Free Jazz Festival, que a partir de 2003 passou a se chamar TIM Festival, o carioca já estava habituado a este tipo de associação. Depois vieram Vivo Open Air, Claro Solo e Oi Vert Jam, entre outros.
Tantos eventos em tão pouco tempo atestam o vigor das telefônicas e a validade da estratégia de marketing. Na avaliação de profissionais do mercado de mídia, o nome das teles está se tornando sinal de qualidade para o público. Porém, o processo é mais lento do que os departamentos de propaganda gostariam que fosse.
- Antes de ligar sua marca a um dado evento, toda empresa deve primeiro definir sua identidade. Primeiro vem essa identidade, depois é que deve vir a experiência, ou seja, os eventos através dos quais o público toma contato com a marca. As telefônicas têm de ter em mente, de uma forma muito bem definida, o tipo de pessoa a que estão se dirigindo – explica o publicitário Márcio Beauclair, um dos diretores de criação da Ana Couto Branding & Design, firma que tem no currículo a realização de festivais como o Coca-Cola Vibezone.
Outra busca eterna é a qualidade das iniciativas organizadas pela companhia.
- As pessoas já associam o nome das telefônicas a shows e festivais grandes, bem organizados. Isso é inegável e contribui para o sucesso desses eventos – afirma Alberto Blanco, diretor de marketing do grupo Telemar, que responde pelos patrocínios da Oi.
Rogê pensa diferente. Para o dublê de músico e produtor, a mera associação do nome de uma telefônica não empresta automaticamente qualidade a um espetáculo.
- O cara se liga mais no formato da festa ou do show, dos talentos que estão envolvidos, e não no nome da operadora. A companhia telefônica é um provedor de recursos para que o evento aconteça, mas não chega a ser uma grife.
Há também revezes na batalha das telefônicas. O conflito de marcas pode atrapalhar ou até impedir a realização de espetáculos na cidade. Caso recente foi o da série Vivo Divas da Música. Impedidos de realizar shows no Canecão (que tem patrocínio da concorrente Embratel) e no Claro Hall (por motivos óbvios), os organizadores tiveram de empurrar as apresentações de Macy Gray e Norah Jones para a distante Ribalta, nos confins da Barra da Tijuca, sob uma chuva de reclamações do público e da mídia. Pegou tão mal que o show seguinte do projeto, com a americana Diana Krall, nem passou pela cidade. Para seguir com o projeto (cuja próxima estrela será Maria Bethânia), o departamento de marketing da Vivo estuda lugares alternativos, como a Marina da Glória ou palcos na praia.
Apesar de ter tocado uma vez no TIM Festival, o DJ Marlboro, rei do funk carioca, dono de dois celulares e refém de uma agenda concorridíssima de apresentações, prefere trilhar um caminho à margem dos megaeventos e lembra que a verba não pode ser pré-requisito para a criatividade:
- Se não houvesse patrocínio, o pessoal que faz os eventos teria de quebrar mais a cabeça. E fazer as coisas de um modo mais em conta. Não haveria tanto glamour, tanta área VIP, mas seria possível. Foi assim que os bailes funk sobreviveram e se firmaram, sem patrocínio de ninguém – aponta, já puxando a sardinha para sua brasa. Afinal, propaganda é a alma do negócio.
Os perfis
Claro - É a telefônica do rock. Sentindo uma carência de investimentos da área das guitarras, a Claro mirou no público roqueiro. O resultado é o Claro que É Rock, projeto idealizado pelo falecido produtor Tom Capone. Reunindo bandas independentes, o festival será realizado no Rio em setembro. Mas o reforço de peso vem ainda este mês: o grupo inglês Placebo, um dos mais cultuados pelos indies na atualidade, abre os trabalhos do evento com uma turnê nacional, que vai passar pelo Claro Hall no dia 29.
Oi – É a telefônica da carioquice. O braço celular do grupo Telemar investe prioritariamente em eventos que valorizem as belezas naturais da cidade e um estilo bem carioca de ser. Por isso, o carro-chefe das promoções da empresa é o Oi Noites Cariocas, ícone da cultura jovem nos anos 80 e que foi revitalizado em 2004. Este ano, a casa retoma as atividades em novembro, tendo agendados shows de Jota Quest (na abertura), Skank, Ivete Sangalo, Barão Vermelho e Lulu Santos (fechando a temporada no fim do verão de 2006)
TIM - É a telefônica dos eventos consagrados. Em vez de apostar em projetos novos, ainda sem público definido, a TIM prefere acolher iniciativas já testadas e aprovadas. Daí o envolvimento da empresa com o PercPan, com seus 11 anos de tradição. E também o apoio dado ao Prêmio TIM (que já foi Prêmio Sharp e, por um único ano, Prêmio Caras) da Música. E, evidentemente, o TIM Festival. Em novembro, o antigo Free Jazz terá sua sede no Rio (ano passado foi em São Paulo), no MAM.
Vivo – É a telefônica do cinema. Com todas as outras operadoras centrando fogo nas atrações musicais, a empresa do bonequinho resolveu investir na sétima arte. Além da tremenda vitrine que é o Open Air (ou “o evento multimídia mais inovador do Brasil”, como eles nada modestamente definem), a companhia também tem um programa de apoio a festivais de cinema. A idéia da antiga Telefonica é expandir ainda mais o projeto do cinema ao ar livre, chegando a novas capitais. Antes do Rio, o Open Air esteve em São Paulo e daqui vai a Brasília.











