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NOVA ÁREA DE COBERTURA.

Setembro 5, 2007

Matéria que fiz para o JB em abril de 2005, tendo como gancho o boom dos eventos e casas de espetáculos patrocinados por telefônicas aqui no Rio. Deu bastante trabalho para apurar e terminar o texto (que por sinal ficou bem capenga, com erros de gramática e tropeções de estilo, devidamente corrigidos aqui. O fechamento foi para lá das duas da madrugada, se isso vale de desculpa). Publicada numa sexta-feira, na revista Programa, a reportagem me deu uma satisfação extra. No dia seguinte, uma matéria EXATAMENTE COM O MESMO GANCHO foi capa do Segundo Caderno! Até a ilustração da página estava parecida! Imagino a cara dos coleguinhas da Irineu Marinho ao ver a Programa, um dia antes…

Âpideites: de 2005 pra cá, a Vivo construiu sua própria casa de espetáculos, o Vivo Rio (uma construção cercada de polêmicas, conforme retratado em uma boa reportagem publicada na Piauí deste mês), instalado no Museu de Arte Moderna. Com a inauguração da casa, o TIM Festival foi corrido do MAM e agora se abriga na Marina da Glória. A etapa carioca do Claro que É Rock, realizado em setembro de 2005, foi um dos maiores fiascos da história do entretenimento brasileiro – quem foi, lembra. A mesma operadora abriu mão do antigo Metropolitan, que passou a se chamar Credicard Hall Citibank Hall. O Canecão não tem mais a chancela da Embratel e agora se chama oficialmente Canecão Petrobras. O PercPan também está ao lado da Petrobras, tendo dispensado a associação com a TIM.

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Num passado nem tão remoto, a única associação possível entre telefonia e diversão era o ato de ligar para os amigos e combinar algum programa. Alguém se lembra dessa época? Nos últimos anos, porém, ficou impossível dissociar os grandes eventos culturais da cidade das onipresentes companhias de telefonia móvel – semana sim, semana também, as quatro gigantes do ramo anunciam novos shows e festivais. Em comum, dimensões gigantescas, muito marketing e atrações que jamais passam despercebidas.

Neste fim de semana, é a vez de TIM e Vivo batalharem pela atenção do público. A primeira empresta a logomarca e dinheiro ao tradicional PercPan, encontro multinacional de percussionistas que já existe há mais de uma década – suas principais atrações são Gilberto Gil e grupos da Tanzânia e do Congo, que se apresentam nesta sexta no Teatro Carlos Gomes. Já a Vivo abre o cofre no Vivo Open Air (a um custo de R$ 10 milhões), um festival que reúne filmes ao ar livre num telão gigantesco e uma programação de bares e festas transados no Jockey Club, na Gávea. Daqui a três semanas, a Claro contra-ataca com a grande atração internacional do mês, a cultuada banda de rock Placebo.

Essa movimentação das telefônicas na agenda cultura carioca encerrou um hiato de grandes atrações internacionais na cidade, que perdurou por um par de anos depois que uma lei, em 2002, proibiu a vinculação de marcas de cigarro a eventos para o público jovem, como os extintos Hollywood Rock e Free Jazz Festival. Desde a entrada das operadoras no mercado, esse vácuo vem sendo preenchido. Nos últimos dois anos, já passaram pela cidade White Stripes, k.d.Lang, Chrissie Hynde, Iron Maiden, Coldplay, Macy Gray e, mais recentemente, Norah Jones e Lenny Kravitz – sempre associados a uma das quatro companhias de telefonia móvel, direta ou indiretamente.

- A participação das telefônicas ampliou esta cena. Tivemos alguns anos carentes de eventos superproduzidos por falta de quem pudesse entrar com patrocínio – elogia o músico Rogê, produtor do festival Claro Rio de Verdade nas Quintas de Janeiro, na Marina da Glória, que desde seu lançamento em 2001 conta com o apoio da operadora de celulares.

Não falta, contudo, o coro dos descontentes. Gente que desafina com as festas e passa à margem dos eventos mais badalados da cidade – alguns por falta de convite; outros por falta de vontade. Coordenador da Fundição Progresso, o veterano agitador cultural Perfeito Fortuna mantem com as teles uma relação amistosa – mas distante. E garante que há vida inteligente disassociada dos telefones celulares.

- Por definição, somos artistas livres desse tipo de compromisso. Temos nossa própria marca a zelar, que é a independência. Apesar dos apertos momentâneos, preferimos continuar com essa resistência. Neste sentido, me sinto como um dinossauro, até – brinca o produtor, que já abrigou na Fundição espetáculos apoiados por telefônicas, mas não tem a mínima intenção de associar o tradicional espaço multicultural da Lapa ao nome de patrocinador algum.

Perfeito, é bem verdade, deve ser visto como a exceção que confirma a regra. Alguns até recebem o convite; a maioria, no entanto, bate na porta das telefônicas a fim de associar seus eventos às marcas das operadoras. Beth Cayres, organizadora do TIM PercPan, afirma que não seria possível a etapa carioca (a “matriz” do festival fica em Salvador) se não houvesse a participação da telefônica. Em 2002, apenas com a cara e a coragem, a versão carioca do evento ficou mais pobre, apenas com os shows e sem as oficinas e os encontros entre músicos, suas marcas registradas. O empresário Alexandre Accioly foi outro que não hesitou em apresentar o projeto que ressuscitaria o Noites Cariocas, no Morro da Urca, às teles.

- Se não tivesse o patrocínio, das duas uma: ou dobrava o preço do ingresso, ou teria de colocar quatro mil pessoas lá em cima, em vez de duas mil. Em ambos os casos, seria impraticável para o público e para a casa – afirma Accioly, que turbinou o projeto com a verba e o nome da Oi.

A correria pelo patrocínio é justificada por cifras milionárias. Nenhuma empresa chega a divulgar números de investimentos na área, mas é possível ter alguma dimensão dos valores. A TIM, por exemplo, anunciou um investimento de R$ 25 millhões em 2003 no projeto Música sem Fronteiras (que inclui o TIM Festival). Verbas como essa são suficientes para sacudir qualquer mercado.

Na maior parte dos casos, as companhias não apenas põem verba no evento, mas também empresta seu nome. Esse conceito tem uma denominação chique – naming rights, ou “direitos de nome”. Na prática, é o procedimento pelo qual uma empresa tem a opção de dar seu nome a qualquer iniciativa apoiada por ela. No Rio, esse turbilhão começou em 1999, quando a Claro (então ainda chamada ATL) passou a patrocinar o Metropolitan, tradicional casa de shows instalada no shopping Via Parque. O lugar mudou de nome, primeiro para ATL Hall e transformando-se em outubro de 2003 no Claro Hall. Quando a TIM assumiu a tutela do antigo Free Jazz Festival, que a partir de 2003 passou a se chamar TIM Festival, o carioca já estava habituado a este tipo de associação. Depois vieram Vivo Open Air, Claro Solo e Oi Vert Jam, entre outros.

Tantos eventos em tão pouco tempo atestam o vigor das telefônicas e a validade da estratégia de marketing. Na avaliação de profissionais do mercado de mídia, o nome das teles está se tornando sinal de qualidade para o público. Porém, o processo é mais lento do que os departamentos de propaganda gostariam que fosse.

- Antes de ligar sua marca a um dado evento, toda empresa deve primeiro definir sua identidade. Primeiro vem essa identidade, depois é que deve vir a experiência, ou seja, os eventos através dos quais o público toma contato com a marca. As telefônicas têm de ter em mente, de uma forma muito bem definida, o tipo de pessoa a que estão se dirigindo – explica o publicitário Márcio Beauclair, um dos diretores de criação da Ana Couto Branding & Design, firma que tem no currículo a realização de festivais como o Coca-Cola Vibezone.
Outra busca eterna é a qualidade das iniciativas organizadas pela companhia.

- As pessoas já associam o nome das telefônicas a shows e festivais grandes, bem organizados. Isso é inegável e contribui para o sucesso desses eventos – afirma Alberto Blanco, diretor de marketing do grupo Telemar, que responde pelos patrocínios da Oi.
Rogê pensa diferente. Para o dublê de músico e produtor, a mera associação do nome de uma telefônica não empresta automaticamente qualidade a um espetáculo.

- O cara se liga mais no formato da festa ou do show, dos talentos que estão envolvidos, e não no nome da operadora. A companhia telefônica é um provedor de recursos para que o evento aconteça, mas não chega a ser uma grife.

Há também revezes na batalha das telefônicas. O conflito de marcas pode atrapalhar ou até impedir a realização de espetáculos na cidade. Caso recente foi o da série Vivo Divas da Música. Impedidos de realizar shows no Canecão (que tem patrocínio da concorrente Embratel) e no Claro Hall (por motivos óbvios), os organizadores tiveram de empurrar as apresentações de Macy Gray e Norah Jones para a distante Ribalta, nos confins da Barra da Tijuca, sob uma chuva de reclamações do público e da mídia. Pegou tão mal que o show seguinte do projeto, com a americana Diana Krall, nem passou pela cidade. Para seguir com o projeto (cuja próxima estrela será Maria Bethânia), o departamento de marketing da Vivo estuda lugares alternativos, como a Marina da Glória ou palcos na praia.

Apesar de ter tocado uma vez no TIM Festival, o DJ Marlboro, rei do funk carioca, dono de dois celulares e refém de uma agenda concorridíssima de apresentações, prefere trilhar um caminho à margem dos megaeventos e lembra que a verba não pode ser pré-requisito para a criatividade:

- Se não houvesse patrocínio, o pessoal que faz os eventos teria de quebrar mais a cabeça. E fazer as coisas de um modo mais em conta. Não haveria tanto glamour, tanta área VIP, mas seria possível. Foi assim que os bailes funk sobreviveram e se firmaram, sem patrocínio de ninguém – aponta, já puxando a sardinha para sua brasa. Afinal, propaganda é a alma do negócio.

Os perfis

Claro - É a telefônica do rock. Sentindo uma carência de investimentos da área das guitarras, a Claro mirou no público roqueiro. O resultado é o Claro que É Rock, projeto idealizado pelo falecido produtor Tom Capone. Reunindo bandas independentes, o festival será realizado no Rio em setembro. Mas o reforço de peso vem ainda este mês: o grupo inglês Placebo, um dos mais cultuados pelos indies na atualidade, abre os trabalhos do evento com uma turnê nacional, que vai passar pelo Claro Hall no dia 29.

Oi – É a telefônica da carioquice. O braço celular do grupo Telemar investe prioritariamente em eventos que valorizem as belezas naturais da cidade e um estilo bem carioca de ser. Por isso, o carro-chefe das promoções da empresa é o Oi Noites Cariocas, ícone da cultura jovem nos anos 80 e que foi revitalizado em 2004. Este ano, a casa retoma as atividades em novembro, tendo agendados shows de Jota Quest (na abertura), Skank, Ivete Sangalo, Barão Vermelho e Lulu Santos (fechando a temporada no fim do verão de 2006)

TIM - É a telefônica dos eventos consagrados. Em vez de apostar em projetos novos, ainda sem público definido, a TIM prefere acolher iniciativas já testadas e aprovadas. Daí o envolvimento da empresa com o PercPan, com seus 11 anos de tradição. E também o apoio dado ao Prêmio TIM (que já foi Prêmio Sharp e, por um único ano, Prêmio Caras) da Música. E, evidentemente, o TIM Festival. Em novembro, o antigo Free Jazz terá sua sede no Rio (ano passado foi em São Paulo), no MAM.

Vivo – É a telefônica do cinema. Com todas as outras operadoras centrando fogo nas atrações musicais, a empresa do bonequinho resolveu investir na sétima arte. Além da tremenda vitrine que é o Open Air (ou “o evento multimídia mais inovador do Brasil”, como eles nada modestamente definem), a companhia também tem um programa de apoio a festivais de cinema. A idéia da antiga Telefonica é expandir ainda mais o projeto do cinema ao ar livre, chegando a novas capitais. Antes do Rio, o Open Air esteve em São Paulo e daqui vai a Brasília.

AS PRECIOSIDADES SONORAS DA LOJA VIRTUAL DIZCANTANDO.COM.

Agosto 21, 2007

Costumava receber (sem nunca ter solicitado) emails informativos dessa loja virtual de discos, a Dizcantando.com. Fui lá dar uma olhada e, pasmo, constatei que o site tinha uns artigos que realmente mereciam o epíteto de raridades. A reportagem resultante foi publicada no Jornal Musical, março/2007.

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Lojas virtuais de venda de discos existem várias pela internet. Mas e no dia que você quiser comprar, digamos, um disco de 78 RPM com duas gravações da Banda da Casa Edison, lançado originalmente na primeira década do século 20? Não será em qualquer megastore virtual que você vai encontrar seu objeto de desejo. O produtor musical Mauro Silveira sabe bem disso – e ele confirma que um público ainda pequeno, mas fiel e que cresce a cada dia, vem acessando seu site Dizcantando atrás de raridades de nossa história fonográfica. Não há na internet (e possivelmente, mesmo no “mundo real”) uma loja que concentre tamanho acervo de gravações históricas, cobrindo todo o século passado: cerca de 3 mil títulos, a grande maioria em 78 RPM. Em tempo: o tal disco da Casa Edison citado lá em cima, gravado e lançado em data indeterminada entre 1904 e 1907, está sim à venda no site.

Fundada há cerca de seis meses, a Dizcantando vem se tornando ponto de encontro de colecionadores da música brasileira. “Existem dois perfis de comprador. Há aqueles que já possuem um acervo e estão ampliando. Outros são jovens, gente de 14 a 30 anos, que está iniciando uma coleção. Curioso é que existem muitos colecioadores segmentados, pessoas que só compram discos de Carmen Miranda, ou só de Francisco Alves, só de Vicente Celestino…” narra ao Jornal Musical Mauro Silveira, 55 anos, que chama seu site de “vitrine” na qual expõe uma coleção de discos reunida, segundo ele, “durante toda a vida”. Mauro conta: “Fui guardando os antigos discos de 78 RPM. Sempre aceitava as doações daqueles que iam jogar os discos no lixo. Há dois anos eu tentava dar um destino aos discos, oferecia a alguns amigos, mas a pilha de discos não diminuía. Resolvi anunciá-los num site de vendas e consegui vender dez unidades. Foi aí que tive a idéia de criar a loja virtual”.

Numa rápida olhadela pelas seções do site, podem-se encontrar bolachas que fariam qualquer colecionador salivar incontrolavemente. Aracy Côrtes cantando “Baianinha” num disco de 1929 (R$ 100); Francisco Alves em uma versão do tango “El dia que me quieras”, traduzida para o português por Haroldo Barbosa, em 1945 (R$ 25); Bidú Sayão, acompanhada pela Orquestra Victor Brasileira, entoando “Cantiga” e “A casinha pequenina” (R$ 58)… O acervo ainda inclui uma recheada seção de LPs de vinil e curiosas obras de arte feitas com discos pintados – um exemplo é “No meu pé de serra”, de Luiz Gonzaga, lançado em 1946 (R$ 55).

A parte do leão, porém, fica mesmo com os 78 RPM. Por exemplo, o anônimo aficionado por Carmen Miranda citado no segundo parágrafo certamente se animaria ao encontrar um 78 juntando Carmen ao grupo vocal Andrew Sisters em duas canções do filme Romance carioca (1950): “Baião ca-room-pa-pa” e “Ips ai-o” (R$ 82). E o apaixonado por Vicente Celestino se depara com nada menos que seis títulos, como o grande sucesso “Porta aberta” (R$ 28) e a serenata “Os milhões de Arlequim” (R$ 25). Quem dispuser de R$ 145 pode arrebatar a gravação original de “Aquarela do Brasil” (1939) com Francisco Alves. Por R$ 45, leva-se o disco de 1931 com “Que será de mim” e “Arrependido”, com o duo Mario Reis & Francisco Alves. A coleção de discões está organizada por categorias (cantoras e cantores, duplas caipiras, conjuntos, erudito, orquestras…) e é, segundo Silveira, a área mais acessada do website.

“Os discos das décadas de 1920 e 1930 são os mais requisitados, pela raridade efetiva que têm. Mas tem gosto para tudo. Já vendi um disco da Dupla Zoológica – um duo caipira de São Paulo, que gravou nos anos 50 ‘O casamento da cabra’, no qual imitavam os sons dos animais”, exemplifica o dono da loja virtual. Segundo ele, as peças mais raras à venda no site são um par de discos da banda da Casa Edison (a pioneira das gravações musicais no Brasil: um com a valsa “Ciumenta” e o xote “É mentira de você” e outro com os hinos (ou, segundo a grafia da época, hymnos) nacionais do Brasil e da França, ambos lançados entre 1904 e 1907. Preço? R$ 980 cada um. “Mas acho que o mais valioso 78 RPM que vendi, ao menos em importância histórica, foi um com Noel Rosa cantando ‘Com que roupa’”, diz Silveira.

Para Mauro, a carreira como dono de sebo virtual foi um prolongamento de um interesse vitalício pela música brasileira. Ator de teatro que se tornou produtor e diretor de espetáculos, criou na TV Educativa do Rio de Janeiro os programas Cena aberta e Especial musical. Em 1989, fundou o grupo Diz Isso Cantando, especializado em peças musicais com ênfase no humor. Dirigiu, em 2002, um espetáculo em homenagem ao centenário do sambista Carlos Cachaça e, como pesquisador do Museu do Folclore, organizou a exposição Pinta Nelson Sargento, dedicada à faceta de artista plástico do compositor. “Agora, além da Dizcantando, elaboro o projeto da montagem do espetáculo A vingança da cigana, escrita em 1792 por Domingos Caldas Barbosa e que é a primeira ópera brasileira”, anuncia Silveira. Como ouvinte, naturalmente faz a linha tradicionalista. “Sou apaixonado pelo samba. Gosto daqueles com letras bonitas, cadenciados, tipo Geraldo Pereira, Wilson Baptista, Ismael Silva e o mestre de todos, Noel Rosa. Adoro o humor na música”, conta.

O próximo passo é expandir a base de clientes da Dizcantando, que, segundo Silveira, já chama a atenção de compradores de fora do Brasil. “Há um grande interesse de americanos, portugueses, franceses, italianos, mexicanos, argentinos e espanhóis, principalmente nos discos de artistas daqueles países lançados aqui no Brasil, com selo de indústria brasileira”, confirma o dono do site. Além dos colecionadores, Mauro também atende a artistas (ou seus descendentes) que buscam recompor seus acervos. “Recentemente fiz uma doação à família de Mario Lago. Além de oferecer discos com música do compositor, doei uma gravação de Francisco Alves com uma canção do pai de Mário Lago, o maestro de teatro Antônio Lago”, diz.

SMD AJUDA BANDAS INDEPENDENTES A DECOLAR.

Agosto 12, 2007

Mais uma do Jornal Musical. Publicada em fevereiro/2007. Âpideite: desde que escrevi essa reportagem, saiu também em formato SMD o disco de estréia dos The Feitos, Na cabeça da chorona. Recomendo!

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O selo carioca Bolacha Discos acaba de entrar no mercado, disputando uma vaguinha na disputada seara das gravadoras independentes. A turma pôs no mercado os álbuns de estréia dos grupos Binário e Songoro Cosongo, e o segundo trabalho do coletivo Digital Dubs Sound System. Com um site ainda em construção (www.bolachadiscos.com.br) e uma página no portal MySpace (www.myspace.com/bolachadiscos), a jovem gravadora espera conseguir um lugar ao sol usando um slogan no mínimo convincente: “Na nossa mão é R$ 5″. É isso aí: por utilizarem a tecnologia SMD (semi-metallic disc, ou disco semi-metálico), os álbuns da Bolacha podem ser postos à venda por um preço de dar inveja aos camelôs. A iniciativa do selo confirma uma tendência. Um número crescente de selos independentes está apostando no SMD como forma de baratear radicalmente o custo final de seus discos, matando o motivo principal da proliferação da pirataria – o alto preço do CD.

“O SMD é o primo socialista do CD. Na fábrica, a diferença de preço entre um SMD e um CD é de mais de 100%”, afirma Carol Monte, produtora musical e idealizadora da Bolacha Discos, junto ao músico Bernardo Palmeira. A dupla se conheceu, por ironia, nos corredores de uma gravadora multinacional, a Sony BMG, quando Carol trabalhava num remix e Bernardo, no departamento de A&R do selo. Eles voltaram os olhos para o cenário dos novos grupos pop cariocas, pinçando o experimentalismo do Binário (com o álbum Nereida), o reggae-dub eletrônico do Digital Dubs (Diáspora riddim) e o som dançante e latino do Songoro Cosongo, um septeto que reúne músicos do Brasil, Argentina, Venezuela, Colômbia e Chile (e que lançou o álbum Misturando com cachaça fica muito bom).

Os caminhos que a Bolacha usa para chegar ao público são os mesmos de outros selos pequenos: divulgação pela internet, venda direta ao consumidor e as populares banquinhas do lado de fora dos shows dos artistas. A diferença é o SMD, que custa apenas R$ 5 (nem adianta pechinchar, pois o preço vem impresso na capa). Mesmo CDs de bandas independentes não costumam sair por menos de R$ 10, em condições semelhantes. “O grande desafio do mercado é a distribuição e a divulgação. Mas hoje o custo de gravação é muito menor. Conseguimos oferecer um produto de qualidade, que pode ser comprado por um preço muito acessível”, diz Carol.

SMD: você sabe o que é?

Vale recapitular a história do SMD para entender a mágica que permite vender discos tão baratos. O semi-metallic disc é uma invenção brasileira, criado pelo goiano Ralf Richardson da Silva – sim, o Ralf da dupla sertaneja Chrystian & Ralf, que além de cantar é inventor. O SMD é, aparentemente, igual a um CD normal. Ele é feito na mesma prensa que os compact discs tradicionais e toca em qualquer CD-player, com a mesma qualidade de som. Só que é feito com uma liga semi-metálica, em lugar do composto de alumínio com que se fabricam os CDs convencionais. A área metálica reservada para dados também é menor (no SMD cabem cerca de 70 minutos de música, contra até 78 dos CDs). No lugar da caixinha de acrílico, o SMD vem embalado em um simples envelope de papel cartão plastificado, sem encarte. Tudo isso deixa o SMD, em média, 30% mais barato de produzir que o CD – e possibilita o preço de R$ 5, que já vem impresso na capa, da fábrica.

Quando anunciou a patente do novo formato, em 2003, Ralf anunciou que seu disco iria “acabar com a pirataria” e que os lojistas que aderissem ao formato teriam lucro de 20% em cada SMD, contra os menos de 5% que o CD rende. “Com esta nova tecnologia, os artistas poderiam voltar a vender milhões de discos”, disse o cantor. Quase quatro anos depois, o novo disco não chegou a decolar como Ralf previa e a pirataria continua rampante. Mas o número de artistas aderindo ao SMD não pára de crescer. Do primeiro punhado de lançamentos em 2004 e 2005, hoje a fábrica do sertanejo inventor exibe um catálogo com mais de 40 títulos, com artistas de diversos gêneros, da eletrônica ao sertanejo (veja mais em http://www.portalsmd.com.br/brasil/page03.htm).

Este ano, além dos lançamentos da Bolacha Discos, já sairam o disco infantil Fantasias, de Rosa de Minas, e o primeiro EP da Orquestra Imperial, que está à venda nos bailes do grupo, no Circo Voador (RJ). E a tecnologia patenteada por Ralf já deu cria: a fábrica também produz o SMDV (semi-metallic disc video, que está para o DVD como o SMD para o CD) e está para lançar o SMDG (semi-metallic disc game, para jogos eletrônicos).

‘Mais barato que uma cerveja’

Os cariocas do Binário estão sempre dispostos a decantar os méritos do disco semi-metálico de Ralf. Vendendo seu álbum Nereida por conta própria nos shows desde setembro do ano passado, o grupo esgotou uma tiragem de mil SMDs e está à espera de outros mil. As vendagens são surpreendentes para uma banda indie. “Já teve show em que vendemos 80 discos. O preço também ajuda muito, claro. Em algumas casas em que tocamos, por R$ 5 não se compra nem uma cerveja”, atesta Lucas Vasconcellos, guitarrista e cantor do octeto. Para Lucas, já existe mesmo dentro do público de rock alternativo um “preconceito” contra o CD. “Vender disco em show por R$ 20 é algo fora da realidade, ninguém compra. Agora, a R$ 5…”

Segundo o vocalista do Binário, Nereida funcionou como cartão de visitas do grupo. “É muito melhor gravar um SMD do que distribuir uma demo em CD-R. O SMD é um produto bonitinho, não dá pau, funciona direito. E o pacote gráfico ainda te permite umas ousadias”, acredita Lucas. O retorno em visibilidade para a banda compensa mais do que o lado financeiro, entretanto; o álbum está sendo usado pelo Binário como peça de divulgação e não como fonte de renda. “Dá para tirar pouco mais de R$ 1 por disco vendido. Como nós somos oito…”, faz as contas Lucas.

PARADAS DE SUCESSO ONLINE: SEMELHANÇAS E MUITAS DIFERENÇAS EM RELAÇÃO AO MUNDO REAL

Agosto 7, 2007

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Publicado no Jornal Musical, abril/2007.

Há muita diferença entre a música que os brasileiros ouvem nas rádios e compram nas lojas de CD e a música que os mesmos brasileiros adquirem online, por meio de download legal e pago. Essa é a conclusão principal que se pode tirar do levantamento feito pelo Jornal Musical junto às quatro maiores megastores – que comercializam faixas de diversas gravadoras – de música online da internet brasileira. A competição entre os sites Sonora (www.sonora.com.br), UOL Megastore (www.uol.com.br/megastore), iMúsica (www.imusica.com.br) e BaixaHits (www.baixahits.com.br) mostram que o mercado brasileiro de música online está se aquecendo cada vez mais, apesar de ainda ter muito o que crescer em relação ao exterior.

As “paradas de sucesso” de cada uma das megastores refletem, até certo ponto, as paradas oficiais de execução e vendagem no “mundo real”. Nomes como Ivete Sangalo, Capital Inicial e Pitty se repetem várias vezes em ambas as amostragens. Mas em um aspecto fundamental a compra de música online difere da compra física: o mercado de download legalizado é dominado por artistas estrangeiros, enquanto que nas vendas de CDs e DVDs o cenário se inverte e a música brasileira domina. Também é fácil notar que gêneros musicais mais popularescos – forró, sertanejo romântico, música cristã -, predominantes nas paradas de rádios e venda de discos, não têm vez nos sites de download pago. O público desses estilos ainda permanece fiel ao CD por uma série de motivos; e o principal deles é a exclusão digital. O comprador de música das camadas mais pobres, de maneira geral, não tem acesso à internet. Preços ainda altos em relação ao CD físico (e mais ainda em comparação com os piratas) também espantam o povão.

A movimentação no cenário é vista com bons olhos por figuras importantes na indústria, como Felipe Llerena, diretor do iMúsica. “Quanto mais competição, melhor. Aumenta a visibilidade do negócio e melhora os preços para o consumidor”, explica. Mas uma queda significativa nos preços das faixas só será vista quando a base de compradores aumentar. Atualmente, a venda de música online representa menos de 2% do faturamento das grandes gravadoras brasileiras, enquanto no exterior esse porcentual já ultrapassa os 10%. O preço-base das faixas à venda nos megastores é de R$ 2,49, valor que, segundo os representantes da indústria, só deverá cair com a popularização da compra de música na internet.

“O ano de 2006 ficou marcado pelo surgimento de novos parceiros comerciais na internet. Hoje são mais de vinte lojas virtuais devidamente licenciadas vendendo música online no Brasil. As companhias têm lançado seus produtos no mercado digital simultaneamente ao lançamento no mercado físico. O esforço para digitalização de cada catálogo continua, e cada vez mais repertório é encontrado com mais facilidade nas lojas legalizadas”, afirma Paulo Rosa, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Disco (ABPD) sobre a proliferação das lojas de download.

A pesquisa feita pelo Jornal Musical acompanhou as faixas e álbuns completos mais vendidos e os artistas mais populares no período entre 16 e 22 de abril. Estarão listados abaixo apenas os artistas nacionais que emplacaram suas faixas e/ou álbuns nos Top 20 (os títulos mais vendidos) de cada site; o resto das paradas é composto por artistas internacionais. Para referência, foram incluídos os preços de cada faixa e álbum. A comparação com as paradas de execução em rádio e vendagem de CDs foi feita com dados do site Sucesso CD (www.sucessocd.com.br), com dados aferidos entre 18 e 24 de abril (vendas) e 9 e 13 do mesmo mês (execução em rádio).

Sonora
A loja de música do portal Terra é, com o perdão do trocadilho, a terra de Ivete Sangalo. A baiana é a única presença nacional no top 20 do site. Mas em compensação emplacou logo seis faixas: “Never gonna give you up” em 7º lugar, “Deixo” em 8º, “Berimbau metalizado” em 10º, “Quando a chuva passar” em 12º, “Corazon partio” em 15º e “Não me conte seus problemas” em 18º. Cada um dos downloads da cantora sai por R$ 2,49. Todas as canções citadas sairam do CD Multishow ao vivo Ivete no Maracanã, disponível na íntegra por R$ 42,33 – não por acaso, o disco lidera a parada de full albums do site. Na mesma lista estão Pitty (12º lugar, com Anacrônico, R$ 22,50) e Babado Novo (O diário de Claudinha, R$ 34,86). Na parada geral dos artistas mais baixados, nenhuma surpresa: deu Ivete na cabeça de novo. Ela é a única brasileira entre os 20 mais comprados.

UOL Megastore
O pop-rock é o gênero nacional mais presente nas paradas da loja de música do Universo Online. Em 6º lugar entre as músicas campeãs de download estão “Eu nunca disse adeus”, do Capital Inicial (R$ 2,49), seguido por “Na sua estante” (R$ 1,99) de Pitty, em 7º e “Eu vou tentar” (R$ 2,49), do Ira!, em 9º. Entre os álbuns mais vendidos, quatro nomes nacionais. Ira! e Capital retornam, respectivamente em 2º (com Invisível DJ) e 9º (Eu nunca disse adeus) lugares. Seu Jorge (Cru) ocupa a 3º posição, e o grupo Blues Etílicos chega em 10º com Cor do universo. Curiosa é a variação de preço entre os discos cheios. Enquanto os álbuns do Ira! e do Capital Inicial estão à venda por R$ 23, o de Seu Jorge custa apenas R$ 9,90 – e o do Blues Etílicos, irrisórios R$ 3,60. A diferença nos preços só pode ter uma explicação: os discos mais caros são de gravadoras multinacionais (Ira! é da Universal, Capital da Sony & BMG), e os mais baratos, de selos independentes (Seu Jorge é da ST2; Blues Etílicos, da Net Records). No ranking dos artistas, novamente Ira! (5º) e Capital (9º) despontam, com Chico Buarque chegando em 8º.

iMúsica
Mais antiga das lojas de música online do Brasil (ativa desde 2000), a iMúsica também é a que apresenta resultados mais inusitados em suas paradas de sucesso. Artistas que não costumam freqüentar listas de mais vendidos estão bem no site. Mas, ironicamente, no Top 20 de músicas mais compradas não há sequer um nome nacional. O primeiro a aparecer na lista é O Rappa, em 23º, com “Pescador de ilusões” (R$ 1,89). Em seguida, alternam-se Marisa Monte (31º, com “Vilarejo”, R$ 2,49), Pitty (32º, “Na sua estante”, R$ 1,69) e Alceu Valença (33º, “Marim dos caetés”, R$ 2,49). Surpresa é encontrar Ciro Monteiro, e duas vezes: “Se acaso você chegasse” (34º) e “A mulher que eu gosto” (35º), ambas por R$ 2,49. Bezerra da Silva vem em 39º, com “Meu pirão primeiro” (R$ 1,99). Surpresa ainda maior é se deparar, no topo da lista de discos mais vendidos, não com um álbum musical e sim com um audiobook: Yoga, de Rogério Pfaizgraff. Música mesmo só a partir do 2º lugar, com Água (Andrey Cechelero, R$ 19,90); em 3º vem , Caetano Veloso (R$ 22,50) e em 4º O samba da minha terra, Cabruêra (R$ 19,90). No ranking dos artistas mais populares, apenas Chico Buarque (6º) e a dupla de música infanto-juvenil Celelê & Relalá (8º) defendem o Brasil.

BaixaHits
Entre as lojas pesquisadas, o BaixaHits é a que tem a menor porcentagem de artistas brasileiros entre os mais vendidos. Como o site não divulga estatísticas sobre vendas de álbuns inteiros nem de artistas mais baixados, resta dar uma olhada no top 20 de canções. Os únicos brasileiros lá são a dupla Bruno & Marrone, chegando em 10º com “Não posso ter medo de amar” (R$ 2,49) e Pitty, 14º com “Na sua estante” (R$ 1,69).

E no mundo real?

Mais tocadas em São Paulo:

01 Papas da Língua, “Eu sei”; 02 Fergie, “Big girls don’t cry”; 03 Bruno & Marrone, “Não posso ter medo de amar”; 04 Akon & Eminem, “Smack that”; ” 05 Beyoncè, “Irreplaceable”; 06 Nelly Furtado, “Say it right”; 07 Jo Jo, “Too little too late”; 08 Justin Timberlake, “My love”; 09 Zezé di Camargo & Luciano, “Olha eu aí “; 10 Leonardo, “Idas e voltas”; 11 Ivete Sangalo, “Deixo”; 12 Zeca Pagodinho, “Ratatuia”; 13 Belo, “Intriga da oposição”, 14 Jeito Moleque, “Sem radar”; 15 Akon & Snoop Dogg, “I wanna love you”; 16 Exaltasamba, “Livre pra voar”; 17 Ne-Yo “Sexy love”; 18 Ashley Tisdale, “Be good to me”; 19 Pussycat Dolls & Snoop Dogg , “Buttons”, 20 Snow Patrol, “Open your eyes”.

Mais tocadas no Rio de Janeiro:

01 Fergie, “Big girls don’t cry”; 02 Ivete Sangalo, “Deixo”; 03 Beyoncè, “Irreplaceable”; 04 Capital Inicial, “Eu nunca disse adeus”; 05 Jeito Moleque, “Sem radar”; 06 Lobão, “Vou te levar”; 07 Perlla, “Depois do amor”; 08 Snow Patrol, “Open your eyes”; 09 Paolo Nitini, “Last request”; 10 John Legend, “P.D.A. (we just don’t care)”; 11 James Morrison, “You give me something”; 12 Sorriso Maroto, “Futuro prometido”; 13 Corinne Bailey Rae, “Like a star”; 14 Papas da Língua, “Eu sei”; 15 Babado Novo, “Doce paixão”; 16 Ira! “Eu vou tentar”, 17 Jo Jo, “Too little too late”; 18 Revelação, “Velocidade da luz”; 19 Exaltasamba, “Como nunca amei ninguém”; 20 Ana Carolina, “Ruas de outono”.

CDs mais vendidos (parada nacional):

01 Ivete Sangalo, Ivete no Maracanã – Multishow ao vivo; 02 Ricky Vallen Homenagens; 03 Banda Calypso, Vol 10 – Acelerou; 04 Padre Marcelo Rossi, Minha benção; 05 Cesar Menotti & Fabiano, Palavras de amor – ao vivo; 06 Edson & Hudson, Na moda do Brasil – ao vivo; 07 Vários artistas, Paraíso tropical – Nacional; 08 Gino & Geno, Canto, bebo e choro; 09 Amado Batista, Perdido de amor; 10 Evanescence, The open door; 11 Sorriso Maroto, É diferente; 12 Ana Carolina Estampado (CD+DVD); 13 Calcinha Preta Vol. 16 – Como vou deixar você?; 14 Bruno & Marrone Ao vivo em Goiânia; 15 Skank, MTV ao vivo; 16 Cídia & Dan, Duetos românticos; 17 Joss Stone, Introducing Joss Stone; 18 Grupo Revelação, Velocidade da luz; 19 Vários artistas, Bendito o que vem em nome do Senhor; 20 O Rappa, O silêncio Q precede o esporro.

RENASCENÇA PSICODÉLICA BRAZUCA.

Agosto 1, 2007

Hoje, dia 1º de agosto – na verdade, daqui a algumas horas – vai rolar show do Momo no Cinemathèque Jam Club. Pode estar meio tarde para dar o informe a título de agenda, mas aproveito a ocasião para postar dois textos que fiz sobre o cara. Entrevistei-o para o Jornal Musical depois de ouvir (e me entusiasmar) com seu disco de estréia, A estética do rabisco. De bônus, incluo também a resenha que fiz do disco de estreía do grupo Supercordas, outra boa novidade do cenário fluminense, também saída do JM. Todas as três matérias foram publicadas em fevereiro/2007. Junto os três textos em uma espécie de mini-dossiê sobre um suposto resgate da psicodelia, já que tanto o Momo quanto os Cordas plantam firmemente seus pés no terreno da lisergia – lírica, instrumental e melódica. Tune in…

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Rabiscos psicodélicos de Momo

No cenário pop brasileiro atual, é difícil achar algum nome com um som remotamente parecido com o que Marcelo Frota – que também atende pelo codinome Momo, um banda-projeto de um homem só – faz. O próprio cantor e compositor sabe disso. “Não tem muitos artistas no Brasil com quem eu me identifique, não”, admite. A singularidade de seu primeiro disco solo, A estética do rabisco, lançado recentemente pelo selo carioca Dubas, é tanta que, por um momento, o próprio autor temeu pela viabilidade do projeto. “Depois de gravar o disco, chamei um amigo meu, engenheiro de som, para dar uma mão na mixagem. Ele ouviu e disse que não iria mexer ‘naquilo’. Achou muito confuso. Naquela hora eu fiquei meio tenso…” diz Marcelo, em conversa com o Jornal Musical. ‘Aquilo’, como o amigo do compositor definiu o álbum, foi gravado no próprio quarto de Marcelo, usando pouco mais que um computador, uma craviola e um sintetizador de brinquedo. E, com sonoridades que sugerem tanto o folk contemporâneo quanto a psicodelia de antanho, A estética… não é apenas singular: é também uma das melhores e mais intrigantes promessas para o pop brasileiro safra 2007. “Só espero que as pessoas dêem uma chance ao disco. Teve gente que achou meio ’surtado’, outros choraram ao ouvir”, conta o compositor, que também bate ponto na banda Fino Coletivo, liderada pelo alagoano Wado.

As pistas da charada são dadas pelo próprio Frota, que cita artistas gringos como Antony & The Johnsons, Devendra Banhart, Cat Power, Belle & Sebastian e os brasileiros + 2 e Cidadão Instigado como inspirações – além de patriarcas do folk rock como Nick Drake, Tim Buckley e Tim Hardin. “São essas as coisas que me emocionam”, diz. Nas composições de A estética do rabisco ouve-se um pouco disso tudo e mais um pouco, visto que Marcelo, que compõe desde os 18 anos (hoje tem 28), ouviu de tudo um muito em sua vida. “Por influência dos meus pais, ouvia coisas como Willie Nelson, Burt Bacharach e Stevie Wonder quando era mais novo. Depois, quando fui morar nos EUA na época do estouro do grunge – 1991, 92 – comecei a gostar de rock. E mais tarde veio a MPB, Chico, Caetano”. Paralelo a isso e junto a várias mudanças (Marcelo é mineiro radicado no Rio, mas já morou até em Angola), ele tocava seu violãozinho, de leve. “Queria aprender a tocar bossa nova”, conta Frota, que estudou o instrumento por cerca de um ano até perceber que “aquelas firulas todas não eram bem o que eu procurava”.

Depois de estabelecer-se no Rio, Marcelo gravou dois CDs com suas canções, que não chegaram a ganhar distribuição comercial. “Eu passava os CDRs para os amigos, sem qualquer pretensão. Nessa época, eu fazia algo mais próximo da MPB”, relembra. Entre um show aqui e uma jam-session acolá, foram surgindo os embriões do som de A estética…, já influenciados por outras idéias. “Comecei a pesquisar a música folk, tanto os artistas contemporâneos quanto os pioneiros. Durante uma viagem à Espanha, pude tocar em praças e casas noturnas só com voz e violão, o que me ajudou a cristalizar o novo formato”. Em 2004, o amigo Wado – já cultuado como revelação da novíssima safra emepebística – o incentivou a gravar as novas criações. “Sempre fui fã de baladas – canções lentas, arrastadas, quanto mais dramáticas, melhor. E tudo o que eu vinha fazendo acabou pendendo para esse lado”, explica. Letras simples, que segundo o próprio compositor são “autoreferentes”, tangenciam desordens químicas (“Casa quer me desabar/Pro equilíbrio tomo comprimidos”, em “Comprimidos”), reminiscências (“Minha mãe me queria grande (…)/ Meu pai me queria homem/ Eu preferi regar as plantas”, em “Flores do bem”) e reflexões angustiadas (“E todo mundo matando um leão por dia/Vai faltar leão”, em “Leão”).

A sonoridade minimal e surpreendente do disco nasceu tanto do acaso quanto da necessidade. Marcelo queria dar um tempo no violão e resolveu testar uma craviola, instrumento de 12 cordas similar ao violão mas de som mais metálico. “Estava cansado das cordas de naílon, queria um instrumento com cordas de aço. Vi uma craviola usada à venda e comecei a tocar. Aquilo me abriu um caminho!” Munido do novo instrumento e de um Casiotone – minisintetizador a pilha da Casio, pouco mais que um brinquedo – começou a registrar, sozinho, as canções. O “estúdio” foi seu computador. “Era um PC emprestado. Comprei um microfone, uma placa de som e decorei mais ou menos como usar os programas de gravação. Depois esqueci tudo, aprendi só o suficiente para gravar naquela hora, hoje nem sei mexer mais no programa… Também fiz questão de não escutar disco algum como referência de timbres ou de som. Sabe quando o artista chega para o produtor e fala: ‘Pô, quero que a guitarra soe igual à guitarra da banda tal…’? Eu evitei isso”.

O título do álbum veio da estética despojada, aberta ao improviso e à aleatoriedade. “Não editei nem afinei nada depois de gravado. Queria que soasse como um disco ao vivo, fluido”, narra Frota. Com as bases gravadas, os amigos Adriano Barros (guitarra), Bruno Rezende (baixo) e Bruno Braggion (bateria), mais alguns convidados, ajudaram a encorpar o som. Depois mostrar o resultado para Ronaldo Bastos, diretor da Dubas – que aprovou o álbum, classificando-o de “nebuloso” – quase que o esforço vai por água abaixo. “A gravadora queria pagar uma masterização do disco, mas ia deixar tudo pasteurizado. Deixamos como estava”.

Momo, o homem-banda, enfrenta agora o desafio de levar Brasil afora suas introspectivas composições. “Fico acanhado tocando ao vivo. Com o Fino Coletivo é mais fácil, estou ali mais acompanhando. Como Momo eu me exponho muito mais. Me emociono, entro numa viagem na qual nem todo mundo embarca junto. Ainda preciso amadurecer muito esse lado da perfomance”. Frota sonha em fazer um excursão que passe por fora dos grandes centros urbanos, tocando em lugares menores. “Minha música é mais adequada a teatros, espaços mais intimistas. Aqui no Rio então, é impraticável. Casas com festas dançantes, com cerveja, agito, azaração… estou na contramão disso tudo”, suspira.

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A estética do rabisco - Momo (Dubas)

O bom dos discos da gravadora Dubas é que eles vêm explicadinhos, já na capa. Para este A estética do rabisco, a indicação é “File under: Brazil/Folk/Momo”. Momo, codinome do cantor e compositor Marcelo Frota, realmente passeia pelos lados do que se chama, no léxico pop universal, de folk music – sons acústicos, plangentes, com ênfase no violão (aqui substituído por uma onipresente craviola). Momo, no entanto, não se limita a emular Bob Dylan ou, para ficar num paralelo local, Zé Ramalho. Seus arranjos são inventivos, ocasionalmente barulhentos, repletos de efeitos que remetem ao rock psicodélico. A noção é reforçada pela interpretação vocal de Marcelo, suave, às vezes não muito além do sussurrado. Mas o delírio d‘A estética não é daqueles pesadamente alucinógenos. O caminho é da delicadeza, com arranjos limpos e minimais e músicas lentas. O disco é calminho, calminho, mesmo nos momentos mais turbulentos (como na abertura auto-explicativa de “Comprimidos”, carregada de guitarras distorcidas). Na grande maioria das faixas, plácidas e sugestivas, o que sobrevem é a força das belas melodias, caso de “Benditas flores”, “Leão” e “Tempestade”, canções que nasceram de uma aparente paixão pelo rock dos anos 60 e cresceram contaminadas por outras influências: a ala maldita da MPB dos anos 70, a renascença do rock progresssivo pós-Radiohead. Um dia, essa ambiciosa vontade de juntar a lisergia elétrica universal com a vocação acústica brazuca já teve o nome de tropicalismo. E agora, o que será?

Lá pelo final do disco, a faixa “Sem tempo” (composta por Adriano Siri) é a melhor conjunção disso tudo. Antes, ainda vem o clima setentão de “Tão feliz”, com seu som pinkfloydiano completado pelas intervenções vocais de Shahia Karkouti (que também ilumina decisivamente “Bonsuar” e “Soluço a dois”, entre outras faixas); a viajante “Segredo não se diz”, no qual um saxofone definitivamente viajante toma o centro das atenções; e “Flores do bem”, uma das melhores letras do disco. Na longa e desconstruída “Adeus”, que fecha o álbum, aí sim carrega forte no experimentalismo (incluindo um “buraco” de silêncio de mais de dois minutos no meio da faixa, que desemboca numa melodia beatlesca e depois parte para uma queda livre de barulhinhos feitos no Casiotone por Momo).

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Seres Verdes ao Redor: Música para Samambaias, Animais Rastejantes e Anfíbios Marcianos – Supercordas (Trombador Discos)

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A legião psicodélica brazuca é pequena, mas continua a ganhar adeptos. Prova disso é o álbum de estréia do Supercordas, banda já manjada por quem se interessa pelas novidades do pop nacional. Num tempo em que o rock carioca se divide entre clones dos Los Hermanos e emuladores dos sons modernos de Nova York e Londres, o quarteto assume uma bicho-grilagem que chega a ser comovente – em sua recusa a embarcar nas últimas modas. Plácido, relaxante e doce como uma good trip, o álbum prega uma volta à natureza, cantando sobre “Mofo”, “Musgo”, “Fotossíntese” e “Mangue” – sim, esses são títulos de canções. As sonoridades (e aí vai ser impossível evitar o clichê) “orgânicas” dos arranjos se fundamentam em violões e belas harmonias vocais, além de teclados, barulhinhos e instrumentos menos usuais como “guitarras eletrônicas marítimas”, “viola de arame”, “pseudo-mellotron” ou “gaita de R$ 5″. Por trás das supostas esquisitices, fica a impressão de uma banda encafifada em sua própria viagem, mas num bom sentido, já que as boas idéias e a criatividade evidentes dos rapazes não deixam de ser convidativas. Resta ao ouvinte embarcar na onda.

Alienígena em sua terra, o som do grupo tem paralelo nacional no rock gaúcho de nomes como Júpiter Maça e Os The Dárma Lóvers. Uma psicodelia brejeira que pode ter suas raízes no Clube da Esquina, no rock rural setentista ou nos Mutantes – ou na onda revivalista gringa puxada por grupos como Flaming Lips ou Neutral Milk Hotel. Ou, ainda e por que não?, na fonte inesgotável que são os Beatles. Em “Ruradélica” e seu arranjo vocal, ou na levadinha inconfundível de “Sobre o frio”, sente-se a influência de modo marcante. Eles não param por aí. As abstrações de “Musgo” e “Mangue”, duas quase-vinhetas, mostram o potencial dos Supercordas de cravarem sons mântricos, indutores de transe. “E o sol brilhou sobre o verde” tem carinha de potencial hit single – mesmo sem ter letra, só contando com delicados vocalises superpostos. A caipirice bate forte em “Frog rock”, com viola e tudo o mais. Ao final, para não fugir do padrão dos clássicos do psicodelismo, embarcam com tudo na faixa mais longa do disco, “Fotossíntese”, que fecha com uma bela coda vocal embalada por guitarras distorcidas (e que retorna à viola caipira antes de acabar). Som de matuto? Só se for um matuto com um cigarro de palha num canto da boca e um LSD embaixo da língua.

ETERNO CHORO: ONTEM, HOJE E AMANHÃ.

Julho 30, 2007

Voltando ao resgate das melhores reportagens que fiz para o www.jornalmusical.com.br, posto agora um texto que traça um panorama do choro contemporâneo. Deu trabalho, mas acho que ficou bacana. E, de quebra, aprendi que referir-se ao gênero como “chorinho” pega mal entre os experts… mesmo que Candido Portinari tenha usado o termo para batizar o belo quadro reproduzido abaixo. Publicado no Jornal Musical, agosto de 2006.

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Em 1902, quando a indústria do disco surgiu no Brasil, o choro já contabilizava quase 40 anos de história. Não foram poucas as transformações pelas quais o gênero – parte básica do DNA da cultura musical brasileira – passou desde 1867 (ano de lançamento de “Flor amorosa”, composição de Joaquim Calado e Catulo da Paixão Cearense apontada frequentemente como marco zero do choro). Tão notável quanto a permanência e a influência do estilo em nossa música é a série de dogmas que envolvem a composição e a execução do choro. Transformações à parte, o que não falta é gente, de um lado, querendo manter a tradição do choro intocada; e, do outro, novos nomes que partem do choro para outras paragens musicais, aliando o estilo a outras influências e referências. Veteranos que seguem atuando (Joel Nascimento, Altamiro Carrilho, Déo Rian e grupos como Época de Ouro e Galo Preto), seguindo a estrita cartilha determinada ainda na primeira metade do século 20, dividem espaço com músicos de gerações posteriores, que trazem novas abordagens ao estilo. Hoje em dia vale tocar Beatles em clima de choro (como Henrique Cazes fez), incorporar novas influências e inovar na execução instrumental (caso do bandolinista Hamilton de Holanda) e usar o gênero como plataforma de miscelâneas mil (como o precocemente desfeito grupo Tira Poeira).

O fato é que cada uma das duas vertentes – os “fundamentalistas” e os “renovadores” – tentam puxar a brasa para suas respectivas sardinhas. Mas será que é assim mesmo, tão preto no branco? Em conversa com chorões (e outros nem tanto) de várias vertentes, das mais ortodoxas a aquelas abertas a novas experiências, fica claro que ninguém quer ser facilmente rotulado num ou noutro grupo.

O exemplo de Luciana Rabello é emblemático. Cavaquinista com 30 anos de carreira, discípula do mestre Jonas do Cavaquinho e criadora da gravadora Acari Records, ela é vista por muitos como a personificação da ortodoxia no choro. Imagem com a qual a própria Luciana não concorda. “Não há nada de tradicionalista na música que faço. Na Acari há uma preocupação de lançar registros históricos do choro, mas também mostramos a produção contemporânea”, conta a polivalente artista. “Além do mais, essa divisão é simplista demais. Nos anos 50, Radamés Gnatalli tocava choro com guitarra elétrica, bateria e contrabaixo mas não tinha pretensão de ser ‘moderno’”, prossegue.

Entretanto, a própria Luciana esclarece alguns pontos nesse qüiproquó estético. Ela diz: “Se há alguma verdadeira modernidade no choro produzido hoje, isso só vai se constatar daqui a uns 40 anos. Mais ou menos a cada 20 anos surge uma nova geração de músicos de choro. O que eu vejo hoje é uma série de artistas talentosos, mas confusos. Trazer novos ritmos para o choro é um engano. O (clarinetista) Nailor Proveta costuma dizer para seus alunos: ‘Quando vocês estiverem tocando, de cabeça, 200 choros clássicos, aí sim vocês podem pensar em improvisar’. E eu concordo com ele. Não existe futuro sem passado”.

No front dos veteranos legítimos, o fervor fundamentalista abrandou-se. Do alto de seus 69 anos de vida (e mais de 50 de carreira), o bandolinista Joel Nascimento já viu muita água passar debaixo da ponte do choro. E diz: “Os músicos de choro já foram muito radicais em relação à forma ‘certa’ de tocar. Antigamente não se admitia, por exemplo, violino no choro. Ou que um músico de choro tocasse jazz. Mas isso vem mudando. Nos anos 70, quando toquei com a Camerata Carioca, já tínhamos uma visão bem aberta”. Ainda assim, o instrumentista (que atualmente se apresenta acompanhado pelos jovens chorões do grupo paulista Quatro a Zero) é cauteloso ao se referir aos rumos contemporâneos do gênero. “Confunde-se a evolução do choro, enquanto estilo musical, com a evolução do músico que toca choro”, analisa Joel. “Não há grandes evoluções no choro. Fazer arranjos novos para músicas velhas, isso todo mundo pode fazer. Mas o choro em si não se descaracteriza”.

Altamiro Carrilho tem uma visão parecida com a de Joel, mas um tanto mais crítica. “As músicas que esse pessoal novo anda tocando são complicadas demais. Daqui a pouco, só músico de jazz vai poder tocar choro. Interpretar choro não é fazer pirueta. É um estilo que vem de black tie, que pede seriedade do músico. Não me considero um sujeito quadrado, mas acho que o choro é a mola mestra de tudo o que já se fez em música brasileira. Então não há necessidade de mudar nada. Como vai se modernizar o que já nasceu moderno?”, indaga o flautista.

Uma noção clara para muitos dos tradicionalistas é a de que o choro é uma “linguagem”. E quem se dispõe a “falar” essa língua precisa aprender primeiro o bê-a-bá, antes de sair recitando discursos complexos. “É preciso conhecer a tradição a fundo. A garotada tem o direito de experimentar, mas há de se respeitar a história”, pondera Mauricio Carrilho, parceiro de Luciana Rabello na Acari e integrante desde os anos 70 de grupos como Os Carioquinhas e a Camerata Carioca. Mauricio (sobrinho de Altamiro Carrilho) prossegue, contemporizando: “Há mais coisa além dessa divisão básica de tradição X modernidade. Eu, particularmente, não me enquadro em nenhum dos campos. Existe muita gente séria fazendo, hoje, boa música sem apelar para fusões. O choro vive hoje uma época próspera”.

Henrique Cazes pode bem representar o paradigma do músico que trafegou de um extremo a outro no choro. Tocou com gigantes como Radamés e Joel Nascimento, mas deu a cara a tapa ao reler Pixinguinha usando instrumentos eletrônicos (no projeto EletroPixinguinha) e ao recriar hits de Lennon & McCartney (com a série Beatles’n'Choro). Sobre o estado atual do choro, ele só vê motivos para comemorar. “Vivemos um momento de liberdade. Os músicos estão à vontade, livre dos dogmas. Antes qualquer mudança era algo absurdo, um sacrilégio. O mais interessante é que ao lado dos novos nomes, a turma da velha guarda também voltou a tocar e gravar mais. Os formatos se multiplicaram”, diz Cazes.

A liberdade de que fala Henrique gerou frutos interessantes. Há toda uma geração de músicos jovens, formados a partir do último “renascimento” do choro (que Cazes situa cronologicamente no final dos anos 80) que usa o estilo como base para toda a sorte de fusões. Um dos nomes mais citados neste campo é o de Hamilton de Holanda. Bandolinista de 30 anos, que já tocou com Deus e o mundo (de Altamiro Carrilho ao roqueiro John Paul Jones, do grupo inglês Led Zeppelin), Hamilton reconhece que deve o que sabe ao choro. Mas que nem por isso se limita somente ao estilo.

“Acho que existem na verdade três caminhos no choro hoje em dia. Há o pessoal mais da tradição, há essa turma nova que gosto de chamar de ‘progressista’, e tem gente que fica no meio, que é o meu caso”, opina Hamilton. “O que eu faço não é choro, tem outros elementos. O músico tem a obrigação de ser livre. Mas as mudanças precisam ser feitas com consciência. Sabendo-se que não dá para reinventar a roda, pode-se experimentar. A menos que surja um novo Pixinguinha ou um talento equivalente, não se pode falar em um ‘novo choro’”, completa o bandolinista. De ouvidos atentos à nova produção, o músico reconhece valor em experiências menos ortodoxas. “O Henrique (Cazes), por exemplo, tem toda a autoridade para fazer coisas novas dentro do choro”, diz.

O violonista Zé Paulo Becker é outro que caminha na linha entre passado e presente. De formação erudita, imerso no choro mas também cultor do samba e da MPB, o instrumentista trafega desenvolto entre estilos e épocas. “Minha geração ouve mais jazz, samba, outras coisas além de choro. Então há essa influência saudável e natural. O mais importante é conhecer a tradição. A turma que chegou agora tem base e bom senso, toca de forma muito profissional”, fala Zé. Na hora do debate sobre os novos rumos do estilo, o violonista assume um discurso mais reverente. “Temos que definir o que é e o que não é evolução. Radamés e Garoto eram e ainda são modernos, em termos de harmonia, e nunca deixarão de ser”.

Em geral, quem emprega o choro como elemento a mais não tem pretensões de remoçar o gênero. A confluência de jazz, samba, MPB (e choro, claro) marca a música do grupo carioca Sardinha’s Club, antes conhecido como Pagode Jazz Sardinha’s Club. Eduardo Neves, flautista e saxofonista do grupo (que reúne uma série de feras, como Rodrigo Lessa e Marcos Esguleba), confirma: “Não buscamos renovar o choro. Eu e Rodrigo aprendemos a tocar na escola do choro tradicional e é isso o que se ouve no Sardinha’s. Quem vai pela tradição costuma acertar mais do que o pessoal que quer inventar muito”.

Uma reflexão feita por um observador insuspeito da cena acrescenta nova luz ao debate. A princípio, o nome de Henrique Filho pode não dizer muito aos chorões. Mas mencione-se a alcunha profissional do músico e produtor – Reco do Bandolim – e a coisa muda. Reco é presidente do Clube do Choro de Brasília, instituição que preserva o gênero com espetáculos, debates, cursos e oficinas. E para ele não faz diferença se o choro a preservar é velho ou novo.

“Nos últimos anos, felizmente acabou essa noção de que ‘choro é só para chorão’ e ninguém mais. Essa divisão só atrapalhava a boa música. A fiscalização que os músicos mais velhos faziam sobre os novatos era muito negativa. Choro é uma coisa viva, não é uma arte para ficar presa em uma cristaleira, pegando poeira”, discursa Reco, que está à frente do Clube há 12 anos. Ele, que já pôs Pepeu Gomes e o Zimbo Trio para tocar choro em seu palco, resume sua visão: “Não há melhor nem pior nessa história, nem quem defende a tradição, nem os que pregam a novidade. Mas é claro que a evolução tem que partir de um profundo conhecimento sobre a obra das gerações anteriores”.

TARDES RADICAIS.

Julho 5, 2007

Heróica reportagem que fiz para o Jornal do Brasil em abril de 2005 (caraca, lá se foram dois anos…), retratando um pouco do agitadíssimo mundo roqueiro dos subúrbios cariocas. O “heróica” não é exagero, dadas as lonjuras que tivemos de percorrer, as dificuldades com a (falta de) estrutura oferecida pelo jornal e até mesmo meu esforço para convencer meus chefes que a pauta valia à pena. Aliás, conto com mais detalhes os bastidores da saga no making-of da reportagem, que incluo aqui como bonus-track do texto original. Ganhei muitos tapinhas nas costas pela publicação e dei até autógrafo (!!!) para uma galera. Juro por Deus.

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Numa velha canção de 1986, o roqueiro gaúcho Humberto Gessinger cunhou a expressão “longe demais das capitais”, referindo-se à distância que separava Porto Alegre do eixo Rio-São Paulo. Todos os fins de semana, milhares de garotos – muitos dos quais nem devem ter ouvido falar em Gessinger – dão um novo sentido à idéia do rock longe demais das capitais. Distante das casas de shows tradicionais, e alheia aos patrocínios milionários e aos empresários consagrados, uma verdadeira legião de roqueiros compõe uma efervescente cena de festivais e eventos na Zona Oeste, Baixada Fluminense e subúrbios da Zona Norte. Organizados muitas vezes em esquemas amadores, esses eventos mobilizam milhares de jovens, quase sempre nas tardes de sábado e domingo. E fazem um tremendo barulho.

No último domingo, por exemplo, cerca de mil pessoas se acotovelavam no Barracão Show Beer, misto de galpão de fábrica com pátio de escola pública, situado no bairro de Itatiaia, em Duque de Caxias. O público agitava ao som pesado dos grupos Insane, Artigo 331, Confronto e Spell. Era mais uma edição do Tomarock, um dos mais tradicionais festivais realizados fora do eixo Centro-Zona Sul.

- Fazemos shows há quatro anos e, não importa quais bandas estejam tocando, sempre recebemos no mínimo 700 espectadores. Já tivemos mais de 1.500 pessoas aqui – diz Carolina Dias, uma das organizadoras.

Festivais como o Casa da Zorra, Todas as Tribos, Rato no Rio e tantos outros servem de ponto de encontro para uma ruidosa patota de meninas e (principalmente) meninos que amam o rock. Plataformas de lançamento de bandas novas, que muitas vezes despontam apenas para o anonimato, eles também recebem nomes fortes da cena carioca – Autoramas, Leela, Skylab, Matanza – e artistas com projeção nacional – Ratos de Porão, Sepultura, Los Hermanos, Detonautas. Não por acaso, o grupo Shaaman, referência brasileira no cenário do heavy metal, deu início à sua turnê brasileira com um show no Clube Aliados Campestre, em Campo Grande, em março passado.

- Por que os shows sempre acontecem aos domingos? Ora, o que mais tem para se fazer na tarde de domingo? Assistir ao Gugu, ao Faustão? – responde Marcelo Mendes, produtor do Rato no Rio, que surgiu em 2001 como uma “resposta” ao Rock in Rio 3. O Rato do último fim de semana, em Campo Grande, mobilizou cerca de mil pagantes que assistiram a 13 (!) bandas.

A baixa média etária é um fator comum a todas as platéias. O que também explica o fato da maior parte dos eventos começar cedo, geralmente por volta das 15h. Como o povo que vai geralmente ainda vive de mesada, os ingressos são sempre bem baratinhos.

- A galera que vai aos shows não tem idade para ficar na rua até mais tarde – atesta André Luiz Oliveira, que há dois anos toca o projeto Rio Cheiroso, sediado em Guadalupe. Além de cobrar bem barato (R$ 1), André ainda pensa no social: seu evento arrecada alimentos para uma ONG que assiste moradores de rua.

E, em uma velha tradição da massa roqueira dos subúrbios, a preferência recai sobre estilos musicais agressivos, com punk rock, hardcore e heavy metal na cabeça. Se rolar cover de bandas internacionais então, a turma vai ao delírio. Segundo Carolina, do Tomarock, a moçada quer mesmo é ouvir os hits dos grupos famosos. Isso resulta numa profusão de eventos com bandas-cover, caso do próprio Tomarock. Na última edição, a banda que fechou o festival foi o Korn Cover, que toca hits da banda americana de nu-metal.

- A garotada vem em massa por causa do cover. Mas sempres escalamos quatro outras bandas novas, com repertório próprio, para tocar antes. Assim, quem veio só para ouvir o cover acaba conhecendo as outras – explica a produtora.

Para Carlos Ribeiro, produtor do Casa da Zorra (que promove shows no Engenho de Dentro e realiza neste domingo a quarta Maratona Rock Fest Zorra) e membro da banda Ardil 22, há uma explicação sociológica para o gosto pelo metal.

- Há muitas músicas de protesto e combate à desigualdade. Creio que a galera de baixa renda realmente se identifica – diz Carlos.

Uma boa amostra demográfica dessa “galera de baixa renda” podia ser encontrada em Caxias, domingo passado. Um dos destaques era uma jovem (que se apresentou apenas como “Natasha, a gótica”) que chamava a atenção trajando uma camiseta do grupo The Cure e lentes de contato avermelhadas, em meio à multidão de rapazes com camisas pretas de grupos heavy. Desde os 15 anos ela freqüenta todos os eventos de rock da região. Um fã mais típico era Ronaldo Dias, tatuador de 25 anos. Fã de rock pesado e morador da Pavuna, ele conta que não perde um festival. Seja lá quem estiver tocando.

- O negócio é vir para encontrar a galera e se possível curtir um som legal também. Só é dura a volta para casa, já que os ônibus páram de passar e fica todo mundo a pé. Quem mora longe sempre se ferra – conta o rapaz.

Se o heavy reina na Baixada e adjacências, os eventos na Zona Oeste agregam o público do hardcore. Exemplo são os shows realizados na Escola Livre de Aprendizagem Musical, a popular Elam, no Pechincha, em Jacarepaguá. Na última edição do Elam Summer Rock, realizada na tarde do domingo passado, uma pequena multidão pulava ao som dos novatos do Colegial – que praticam o tal emocore, rock rápido e agressivo mas com letras sobre amor e relacionamentos.

Investigando essa adoração da molecada da periferia pelos sons pesados, o fotógrafo Michael Meneses, morador de Marechal Hermes, teve a idéia de escrever um livro. O volume vai tratar da cena roqueira na Zona Oeste através dos anos. Michael chega a apontar um marco histórico para a tradição headbanger do subúrbio:

- Foi um show realizado em Marechal Hermes, no dia 22 de novembro de 1984. Pela primeira vez no Brasil, tocavam juntas no mesmo palco bandas de heavy metal e punk. O show criou um elo entre os roqueiros suburbanos e o som pesado – narra Michael, que conclama a quem possa ajudá-lo com material sobre a história do rock na Zona Oeste para contactá-lo no email michaelmeneses@yahoo.com.br.

Entretanto, nem só de subúrbio carioca vivem os agitos no underground. Caminhando ainda mais, encontramos um animado núcleo que organiza shows do outro lado da Costa e Silva – Niterói e São Gonçalo. O movimento Araribóia Rock ocupa regularmente espaços como o bar Convés, no bairro do Gragoatá, com bandas locais e “gringas” (na gíria dos festivais, grupos vindos de outros Estados). Já o Bar do Blues, em São Gonçalo, tem uma programação non-stop com todos os gêneros (e não apenas o blues).

- Nossa recompensa é o prazer de oferecer bons programas em Niterói e São Gonçalo. Isso é difícil quando se fala em eventos de rock – diz Pedro de Luna, principal incentivador do Araribóia Rock.

Falta de dinheiro, condições de trabalho muitas vezes precárias e confusões mil são outra marca registrada dos eventos nos subúrbios e periferias. Casos pitorescos não faltam. Como o ocorrido com a loja Outside CDs, no Méier. Havia um show da banda Djangos marcado para a tarde do último sábado, dia 23. O dono da loja esqueceu que era feriado (Dia de São Jorge) e encontrou o prédio trancado e as ruas desertas. Não pôde nem entrar na própria loja. O show, óbvio, foi cancelado. Já os shows realizados na Lona Cultural de Guadalupe disputam a atenção do público com um “pega” de automóveis e motos (ao som de funk em volume altíssimo) e a pregação de um templo evangélico. E a imagem “rebelde” associada ao rock costuma causar problemas aos produtores.

- Se você fala que quer alugar uma casa noturna daqui para um show de rock, os proprietários cobram os olhos da cara, alegando que “os roqueiros vão quebrar o lugar todo” – queixa-se André Oliveira, do Rio Cheiroso.

Quanto à escassez crônica de verbas…

- Desde 2001 o preço do ingresso no Convés custa R$ 5. Só que todo o resto aumentou: o aluguel da casa, do som, preço da cerveja e a passagem de ônibus! – diz Pedro de Luna.

- Sou o empresário mais duro que se pode conhecer. Já perdi muito dinheiro organizando show. Mas você acaba viciado nessa vida. É uma coisa louca – diz Marcelo, do Rato no Rio, espantado com a própria persistência.

EU JÁ TOQUEI LÁ

“O público do subúrbio? Ah, eu acho que é o melhor de todos. Eles sempre demonstram claramente se estão gostando ou não do seu som. É uma platéia muito mais quente. Quando você toca na Zona Sul, dá para sentir que o público não interage tanto. Outra coisa: o pessoal da periferia, em geral, dá mais oportunidade para os artistas novos. É uma galera mais curiosa, que te aceita melhor quando você ainda está começando. No Centro ou na Zona Sul isso é mais difícil. Já toquei várias vezes em bairros do subúrbio, Zona Oeste e Baixada. E também fiz shows em lonas culturais e festivais. Tem seu lado ruim, também. As condições técnicas nem sempre são de nível profissional. Os equipamentos às vezes são ruins, falta estrutura nos eventos. Mas é fácil de compreender isso e dar um desconto, afinal o pessoal não tem grana, faz tudo com a cara e a coragem. Fico sossegada e toco assim mesmo” (Mariana Davies, cantora com dois álbuns lançados pela Indie Records. Ela se apresentou na última edição do Elam Summer Rock, em Jacarepaguá)

“O Leela já se apresentou em quase todos os eventos de rock fora do Centro e da Zona Sul. Acreditamos que esses shows foram fundamentais para a banda formar público, amadurecer e ganhar experiência de palco – diante de pessoas que nem sempre estavam lá para nos assistir. Acima de tudo, a gente se diverte muito nesses eventos, já que a platéia é muito animada e adora rock. Achamos muito positiva a recepção que tivemos em todos esses shows e sempre saímos cheios de histórias. Realmente é um perrengue a ida para esses eventos, porque estamos distantes (moramos na Zona Sul) e a volta costuma ser de madrugada, por locais não muito aconselháveis para se trafegar. Faz parte de nossa história ter participado desses festivais e temos orgulho disso. A banda entende as dificuldades de se fazer um evento nessas condições e sempre que pudermos, vamos participar” (Bianca Jhordão, vocalista do grupo Leela, que lançou há pouco seu primeiro álbum pelo selo Arsenal, e que não recusa convite para show onde quer que seja)

EU VOU TOCAR LÁ

“Não é a primeira vez que vamos tocar no subúrbio. Já fizemos apresentações nas lonas culturais de Vista Alegre e Realengo. E sempre voltamos impressionados, surpresos. Mesmo quando estávamos bem no comecinho do trabalho de divulgação do disco, antes de termos música tocando nas rádios, o público das lonas já conhecia tudo e cantava as letras de cor! Ficamos amarradões. Acho que isso não acontece tanto na Zona Sul ou no Centro porque o público desses lugares está acostumado a ir a shows quase todo dia. Então reage de uma forma mais contida. Da primeira vez em que fomos tocar em Vista Alegre, ficamos conversando com o pessoal por mais de uma hora depois do show, numa coisa de amizade mesmo, com muito calor humano” (Gêsta, baixista do grupo Dibob. Eles vão se apresentar neste domingo em Guadalupe, tocando músicas do álbum O fantástico mundo Dibob)

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Bônus-track: o making-of da reportagem

A idéia de fazer uma matéria sobre os festivais de rock suburbanos rondava minha cabeça há tempos. Na verdade, era parte do meu plano de implantar uma coluna sobre rock alternativo & outras paradas na revista Programa (plano que consegui concretizar, ainda que pela metade). Sabia que encontraria uma série de percalços pelo caminho. Primeiro e fundamental problema a resolver: arrumar apoio do jornal. Eu precisaria de um carro e um fotógrafo para ficar comigo (pelo menos) uma tarde inteira, mais boa parte da noite. Quem é do ramo sabe que um dos problemas crônicos do JB é exatamente a falta de motoristas e fotógrafos. A dificuldade era redobrada no meu caso, visto que a reportagem TERIA de ser feita num sábado e/ou num domingo, que é quando os shows rolam – e no plantão de fim de semana a já exígua equipe de apoio da redação fica ainda menor. A chance da chefia liberar um carro e um fotógrafo para uma pauta de suplementos, em pleno domingão, era bem reduzida. Na imagem abaixo, um mapa do roteiro que eu pretendia seguir (e acabei seguindo), indo a três festivais em um só dia.

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Outro problema, ainda mais grave: a falta de, digamos, material humano. O tipo de foto que precisaríamos para a matéria demandava uma finesse que os fotógrafos do Jotinha – excelentes na cobertura do factual, do dia-a-dia – não tinham. Em resumo, eu tinha de arrumar um cara com cancha de fotos de shows, que pudesse capturar o clima do palco e da platéia. Pensei logo no brother Marcos Bragatto, veterano de trocentas coberturas de shows de rock e que sabia o caminho das pedras nesses eventos off-off-Zona Sul. Para ser honesto, a eficácia do Bragattão não foi o único fator a pesar no convite. Como eu sabia que o JB não iria pagar um tostão ao corajoso fotógrafo freelancer que topasse embarcar na aventura comigo, só podia chamar alguém que fosse realmente amigo, e que não se importasse de trabalhar, mais uma vez, de graça (“Vamos lá, vai ser bom pra você aparecer…” “Da próxima vez rola grana, eu juro…”). Bragatto topou.

Resolvido o problema da foto, restava o carro. Não sei o que minha então chefe fez para conseguir que o aquário liberasse um carro para mim, no meio do plantão. Sei que, afinal, o carro estava lá marcado na escala: saída 13h, domingo, dia 24 de abril de 2005. Tudo certo então? Nada. Apenas alguns minutos depois da reunião de pauta na qual finalmente minha editora bateu o martelo e mandou tocar a matéria, Bragatto me liga dizendo que tinha desistido de fazer as fotos. “Mas por quê?!”, perguntei desesperado. Ele murmurou algo sobre estar “mudando de imagem”, não queria mais ser conhecido como fotógrafo… Para não me deixar na podre total, ele me indicou um outro fotógrafo – Luiz Lima, a quem eu não conhecia. Só pensei: “Fodeu…”. Ainda assim, Bragattão se dispõs a me acompanhar na jornada. Ele me passou o email do cara e fez a ponte entre nós dois. Isso na noite de quinta-feira. A matéria teria de ser toda apurada e fotografada no domingo e fechada até quarta-feira cedo.

A sorte é que o Luiz, confirmando a fé que o Bragatto depositava nele, se revelou um ótimo camarada e um fotógrafo melhor ainda. (Rolou até um ciúme entre os fotógrafos na redação, ao verem o resultado do trabalho dele.) Partimos ferozes, eu, ele e Bragatto, mais o motorista, para a primeira parada: Freguesia, nos confins de Jacarepaguá. Era um festivalzinho na Elam, que veio a ser o local mais organizado e com a melhor estrutura. Lá encontramos o Panço (valeu choque!) com sua inefável barraquinha de CDs e pudemos assistir a várias bandas emo (e olha que o troço ainda não estava tão na moda…). Da Freguesia, rumamos para Guadalupe, onde encontramos o Quik (valeu choque! II) e sua banda. O nível de bizarria da viagem aumentou. Primeiro, nos perdemos antes de encontrar a lona cultural, isso numa área à beira da Avenida Brasil com uma aparência bem sinistra. Achando o local, vimos que o caos reinava: o show rolava lá dentro, mas na praça em frente acontecia um animado pega entre carros e motos, ao som dum pancadão frenético no último volume. Tá achando pouco? Para competir com o rock e com os rachadores, uma igreja evangélica metralhava seus hinos também no último volume, no mesmo quarteirão. Dentro da lona, uma banda (não lembro qual) tocava para quase ninguém. Todo mundo estava do lado de fora, na área do bar, assistindo num telão ao vídeo do Guns’n'Roses no Rock in Rio 3…

Quando disse ao motorista que de Guadalupe íriamos para Duque de Caxias, ele me olhou e, sem dizer nada, fez aquela expressão de “Tá de sacanagem, né?” (Não por acaso, nunca mais vi o cara no jornal depois daquele domingo. Foi a primeira e única vez em que fui pra rua com ele.) Chegando ao tal Barracão Show Beer, aí é que o bicho, finalmente, pegou. O local era tosquíssimo; som horroroso, a “luz” (sic) era um único spot amarelo sobre o palco (ou melhor, tabladinho). Quem disse que a molecada se importava? Foi o point mais detonado que visitamos, mas de longe o mais cheio e o mais animado. No pátio lá fora, várias barraquinhas vendendo CDs piratas, caipirinha, tatuagens, piercings, camisetas. Precisamos chegar até ali para realmente experimentar a real maluquice de se organizar (e de frequentar) eventos de rock naquele lugar esquecido, com cara de faroeste. Ainda tivemos fôlego para parar na Lapa e pegar um show (chatésimo) d’Os The Dàrma Lovers, no Odisséia. O freak show dos gaúchos empalideceu diante do real thing que experimentamos mais cedo.

Infelizmente, como sói acontecer no jornalismo contemporâneo, não tive espaço para colocar no papel nem metade do que apurei em campo. Míseras três páginas, fazer o quê? O título que imaginei originalmente, Jovens tardes radicais (parafraseando as “jovens tardes de domingo” do Robertão), também não coube na forma. Mas minha abertura risquè, citando, vejam só, Humberto Gessinger, ficou intacta.

UMA ABÓBORA DE MAU HUMOR.

Junho 24, 2007

E não é que os Smashing Pumpkins, estão de volta, comprovando aquela velha máxima do bigodudo? Zeitgeist, primeiro disco da banda em sete anos, tem data certa (7 de julho) para chegar às lojas dos EUA. Billy Corgan está na estrada novamente, tendo chutado de vez James Iha e D’Arcy Wretzky e mantido apenas o baterista Jimmy Chamberlin a bordo. Pareceu-me um momento auspicioso para reeditar aqui a famigerada (infame?) entrevista que fiz com Corgan em 1998, quando a banda empreendia sua segunda passagem pelo Brasil. Publicada na edição 16 da Rock Press, a matéria resultante logo se tornou um clássico nos anais (ops) da revista. Na época eu não era exatamente um repórter iniciante, mas não tinha muita experiência em entrevistas com superastros do rock internacional. Junte isso a um entrevistado impaciente e reticente e temos… um magnífico fiasco! Hoje, é uma das minhas matérias favoritas. Os comentários em itálico entre as declarações já faziam parte do texto que foi publicado originalmente.

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Uma abóbora de mau humor

Entrevistar o líder dos Smashing Pumpkins: tarefa árdua especialmente para mim, que nunca fui exatamente um cara extrovertido. Entrevista cara a cara, então… as histórias de terror sobre o mau humor e o estrelismo de Billy Corgan são lendárias. O que dizer então, quando, por conta de uma confusão de horários, acabei fazendo a entrevista mais de uma hora depois do horário marcado inicialmente? Bem, o fato é que me sentei diante de Corgan (estranhamente grandalhão, com mãos enormes) um pouco trêmulo, munido de um punhado de questões um tanto superficiais, mas que poderia dar margem a revelações interessantes.

Isso, claro, se eu pudesse contar com a boa vontade de meu entrevistado. Que não se manifestou. Saca aquelas entrevistas em que as perguntas acabam sendo mais longas que as respostas?

Enfim, segue a íntegra dos quinze minutos de conversa mais duros deste ano para mim.

De que maneira você vê Adore: como uma ruptura ou uma progressão natural na carreira dos Pumpkins?
(Pausa. Ri.) Ruptura… bem, talvez como um pouco de cada. Ruptura não é a palavra certa para definir o álbum.

Por que?
Porque (gravar) o disco foi uma decisão consciente. Não foi um rompimento com coisa alguma.

E por que arriscar tanto, mudando tão drasticamente o som da banda?
Ah… (pausa) Não sei. Porque sempre estivemos dispostos a correr riscos. Quero dizer, o que há de arriscado quando você lança três discos de rock em seqüência, e então lança um quarto disco de rock logo em seguida?

Sim, quero dizer “risco” considerando o público que vocês conquistaram.
Mas algumas de nossas maiores canções não são rocks. “1979″, “Tonight, tonight”, “Disarm”… Então, não chega a ser importante. É só música. Não estamos concorrendo à presidência (risos).

E quanto a suas letras, que soam extremamente pessoais? Você considera uma espécie de exorcismo quando coloca assuntos tão pessoais em suas canções?
Não.

Então você pode dizer por que escreve desta forma?
Porque é desta maneira que eu quer colocar as coisas. Não é catarse, não é exorcismo. Eu escrevo sobre aquilo que compreendo. Quer dizer, se você quiser que eu escreva sobre a sua mãe, eu escreverei. Mas eu não conheço a sua mãe. Então…

(A essa altura, eu já suava frio e lutava para dominar meu inglês, cada vez mais capenga.)

Como você concebeu o som de Adore? Os arranjos, os timbres…
Bem lentamente, pedacinho por pedacinho. Como se fosse… um sonho estranho.

E quanto tempo levou o processo?
Seis meses.

Os arranjos foram surgindo junto com o processo de composição, ou…
Sim. Tudo foi composto e gravado muito rapidamente. Então, levei um bom tempo depois só mexendo botões no estúdio.

Sobre a música eletrônica… você abandonou os experimentos eletrônicos que vinha fazendo entre Mellon collie and the infinite sadness e Adore, que renderam canções como “Eye”…
(Interrompendo) Não considero essas músicas experimentos.

Então como você as define?
Eram o que eu queria fazer. A palavra “experimento” pode sugerir que eu estava jogando com as músicas, ou algo parecido. Mas eu sei o que estou fazendo.

No que, exatamente, a saída do baterista Jimmy Chamberlin afetou o som dos Pumpkins?
Bem, não há baterista no disco. Essa foi a maior mudança.

Mas… (neste ponto, confesso, engasguei. Senti-me um total imbecil). OK.
(Rindo, talvez com pena do repórter) Quer dizer, você entende, não? Não há baterista.

A saída de Jimmy ainda é um assunto delicado para a banda?
Não, não se trata disso. É apenas o que eu disse: quando ele saiu, perdemos nosso baterista.

(Achei melhor não insistir mais nesse ponto.)

Muita gente vem apontando a influência de bandas britânicas dos anos 80 – especialmente New Order e The Cure – na sonoridade de Adore. Você poderia comentar sobre isso?
Eu acho que muitas pessoas mencionam isso, mas não creio que seja tão importante assim.

Mas você sempre foi fã dessas bandas, certo?
Sim; eu sempre disse que éramos fãs desses grupos desde o começo dos Pumpkins, em 1988. Se você pegar todas as nossas entrevistas, vai ver que mencionamos Led Zeppelin, New Order, Bauhaus, The Cure, Black Sabbath, Cheap Trick, tudo isso junto. Então a imprensa pega isso e exagera… não tem tanta importância. As pessoas ouvem uma guitarra com efeito de delay e logo dizem: “Ah, isso soa como The Cure”. É mais um clichê, na verdade. Não estão sacando nada. Se tocamos guitarras barulhentas, então somos o Black Sabbath. Estamos apenas tocando alto. só isso. (Pausa.) Eu acho que as pessoas não entendem Adore. Entáo estão procurando por coisas que possam compreender no disco. A influência dos anos 80 é apenas uma pequena parte de Adore. O disco é mais influenciado pelos anos 40 e 50 do que pelos 80.

Como assim?!
Pelas composições, pelo o que há de folk music nelas.

Algumas canções do disco têm sido radicalmente rearranjadas ao vivo. Como foram concebidas essas mudanças no instrumentação?
A partir do mesmo espírito que guiou o álbum, que é o de estar musicalmente aberto, não se deixar prender em armadilhas na hora de recriar as canções. Apenas tentamos não soar chatos.

Como é ter músicos convidados tocando com você, D’Arcy e James no palco?
Tem sido muito divertido, muito interessante. Muito ritmo, muito som, muitas idéias. Toda a turnê tem se baseado nessa idéia de reinterpretação das canções. Não estamos tentando tocar Adore de uma maneira certinha, nota por nota. Nós nem nos importamos com isso.

Você poderia comentar um pouco sobre seu trabalho como produtor, em discos de artistas como Marilyn Manson ou Hole?
Oh, sei lá. Não me considero um produtor. Não é minha carreira. Acho que provavelmente sou melhor compositor do que produtor.

Qual é a atual situação do grupo em relação à gravadora Virgin?
Não posso comentar sobre isso.

E as vendas de Adore? Tinham atingido cerca de meio milhão de cópias nos EUA, pouco antes de vocês virem para cá…
(Interrompendo) Já vendeu bem mais que isso, até agora.

Mas aqui chegaram notícias sobre um certo desapontamento em relação às vendas do disco…
Nos Estados Unidos. Em todo o resto do mundo está indo tão bem quanto nossos outros discos.

E o desapontamento é da parte de quem? Da banda, da gravadora…?
Oh, tudo mundo está desapontado. Eu mesmo inclusive, é claro. (Pausa. Corgan sorri.) Mas você quer saber por que, ou apenas se estou desapontado ou não?

(Riso nervoso e irônico de minha parte.) É, eu gostaria de saber por quê. Se você puder me contar, é claro.
Porque eu acho que nossos fãs não nos apoiaram. Sabe como é, as pessoas jogam muita conversa fora. Querem que as bandas continuem a fazer a melhor música do mundo, cobram mudanças constantes no som das bandas. E na hora do vamos ver, ninguém aceita isso. No fundo, ninguém quer que você mude. Querem que tudo fique como está, sem mudanças.

Foi por isso que mencionei o risco que os Pumpkins correram ao lançar um disco tão diferente quanto Adore
É claro. E eu fico especialmente desapontado com a mídia, porque os jornais e revistas deveriam nos dar o crédito por termos arriscado, ao menos. Corremos um risco muito grande por querer fazer a coisa certa, musicalmente falando – mesmo que tenha sido a decisão errada em termos de carreira. A mídia deveria ao menos reconhecer – mesmo achando que fomos estúpidos em mudar – que estávamos realmente dispostos a correr riscos, que apostamos nossa carreira nessa virada, e que fizemos a coisa certa em termos musicais,. Fizemos a coisa certa para o bem da banda, e que foi o oposto do que todo mundo faz: lançar a mesma merda de disco de novo e de novo.

Então, para você, esta reação do público se deve ao que tem se lido ou visto na TV sobre o disco?
Sim, absolutamente. Porque quando as pessoas escutam Adore, ninguém acha que é um disco ruim.

Mas se as pessoas nem têm a chance de escutá-lo…
Bem, se ninguém compra o disco, então ninguém pode escutar. Aí você pode ver porque estou decepcionado. Se alguém se diz fã dos Pumpkins mas prefere acreditar no que lê em uma revista, em vez de confiar na palavra da banda – depois de dez anos de carreira – bem, então essa pessoa não é realmente fã.

No entanto, você parece realmente satisfeito com a posição dos Smashing Pumpkins no atual cenário mundial do rock.
Oh, sem dúvida. Eu ainda acredito que somos uma das melhores bandas do mundo, não importa o que qualquer pessoa diga a respeito disso. Não restam muitas bandas de rock de verdade no mundo, hoje em dia. Há um monte de gente imitando as bandas de verdade (risos).

Então você se acha capaz de “segurar a tocha” do rock’n'roll.
Oh, sim. Até que eu decida atear fogo em mim mesmo com ela (risos).

Quando vocês lançaram Mellon collie… você tinha dito que o disco representava o fim da banda…
(Interrompendo) Bem, eu não menti. Metaforicamente falando, claro. E daí?

Então Adore seria um “renascimento”…
Eu acredito que sim.

Mas exatamente de que forma? Estruturalmente, ou no modo de pensar a trajetória do grupo?
Ambos. Acho que gostamos de mudanças, e estamos ficando cada vez mais velhos. Não se pode fingir que se tem 24 anos para sempre. E acho que é muito triste quando as pessoas ficam presas ao passado, de uma forma que não é adequada a ninguém, nem a elas mesmas.

(Outra pausa. Mais longa, dessa vez.)

Vocês estão tocando muito pouca coisa dos outros álbuns nessa turnê…
Só material do Mellon collie.

E por que?
Porque sim… porque sim… porque sim. (Pausa. Corgan ri. Não entendo nada. Me sinto um idiota outra vez.) Acho que já respondi a essa pergunta, quando disse que que estava tentando me mover em direção ao futuro. Não se pode continuar vivendo no passado, se você está se mexendo para o futuro.

E quanto às pessoas que ficam pedindo coisas como “Cherub rock”?
Bem, se os fãs não compram o disco novo, é porque eles não são fãs, certo? Então, quem é que vem nos ver tocar, afinal? Como vai saber se as pessoas que virão ao show não vêm por causa das músicas de Adore? Não se pode continuar fazendo sempre as mesmas coisas só por causa dos fãs.

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Indignado com a recepção que o carecão me deu, escrevi (na mesma edição da RP) uma coluna cheia de expletivas e interjeições. Teve gente que não gostou…

Algumas considerações sobre estrelismo & estrelato. Nesse mês de agosto, tive a oportunidade de conversar com duas figuras que admiro, em níveis diferentes: Billy Corgan (Smashing Pumpkins) e Mac McCaughan (Superchunk) – o primeiro em exclusiva cara-a-cara, o segundo por telefone. E pude comprovar que, quanto mais alto, maior o tombo ou… quanto mais o camarada se acha fodão (por conta de ter um bando de gente repetindo isso para ele todo o tempo), mais ele acha que pode dispensar fãs, jornalistas e todo mundo mais.

Me fiz entender? Bom, Billy Corgan foi certamente o entrevistado mais nojento e duro de encarar em minha curta carreira. Mac, por outro lado, é um camarada super gente fina e atencioso. Por acaso, Corgan é um astro mundial do rock e Mac é um “pobre” independente americano. Agora, o que será que a diferença de status entre os dois tem a ver com a diferença de comportamento? Pode até ser chato ficar sentado recebendo jornalistas um atrás do outro, respondendo basicamente às mesmas perguntas de novo e de novo. Mas não vejo justificativa para a maneira fria, lacônica e irônica com que Corgan se comportou na entrevista. Afinal, se o cara ganha uma fortuna fazendo o que gosta, estava hospedado num hotel 5 estrelas (com praia particular!), é admirado pela crítica e adorado por milhões de pessoas… então, por que o mau humor e a frescura? Não por acaso, ele só se soltou na conversa na hora de reclamar da imprensa e dos fãs (sem os quais ele não seria nada). Dois dias depois, no show no Metropolitan, Corgan repetiu a dose e não deu bis. Depois, deu uma entrevista em SP dizendo que “não gostou do público…”

Que diferença para a entrevista com Mac! O líder do Superchunk não se incomodou em falar por telefone (geralmente é um saco), respondeu a todas as perguntas com a maior disposição e estava superanimado para vir ao Brasil. O Superchunk não vende milhões de discos, não toca na MTV e nem se hospeda em hotéis cinco estrelas. E não se incomoda nem um pouco com isso – daí a postura relax e simoática. Mac sabe muito bem que ter respeito (aos fãs e à imprensa) também ajuda a fazer uma grande banda. O comportamento dele deveria servir de exemplo para certos popstar zilionários que ganham dinheiro se fazendo de coitados, mas que na verdade se acham os reis do mundo. Coube a carapuça?

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Corgan X Bart X Fãs

Conforme disse lá em cima, algumas cartas e emails (todas de garotas) foram publicadas na edição seguinte da RP, me detonando pela sinceridade que apliquei ao retrato que tracei de Corgan. Aqui, trechos de duas das cartas mais explícitas.

“Alô, Rock Press!
Antes de tudo, quero parabenizar a revista pela melhor publicação de rock do Brasil.

Agora vou direto ao assunto: sou fã louca, desesperada, descabelada e desequilibrada do Smashing Pumpkins (…) Será que o Marco Antonio poderia ser um pouco mais delicado ao se tratar de nossos ídolos? Tá certo, o Billy sempre foi e será super perfeccionista, arrogante, metido… mas pô, ele não tem seus motivos? (…) Não é fácil (…) ler uma crítica tão dura e infantil na seção Telhado de Vidro. Se o cara é fã do Superchunk e odeia o Corgan, ele que se cadastre num fã-clube e deixe as fãs do Pumpkins em paz, sem suas críticas absurdas!

(…) Marco Antonio, não tenho nada contra a sua pessoa, mas (…) você pisou na bola puxando tanto o saco de uma banda como o Superchunk, que eu nunca ouvi falar (sic) e que não tenho nada contra (sic) e chutando tanto um cara que merece o seu respeito.(…)”

***
“Caro amigo Marco Antonio…(…)

É claro que a minha opinião não significa nada para você, assim como a sua também significa um nada para Billy Corgan (…) Acho que só porque o Billy não falou o que você queria ouvir, não precisaria se referir a ele dessa maneira tão grossa, dizer que o cara é um nojento, uma abóbora de mau humor… Você deveria ter mudado o título da matéria para ‘Um repórter de mau humor’… Ou você queria ser o único repórter do mundo a descobrir confissões sobre os Smashing Pumpkins? (…)
Também achei uma tremenda babaquice (…) compará-lo ao Mac. (…) É claro que sou fã, mas se achasse que estaria sem razão não me manifestaria. E como sou fã, também não me coloco no seu lugar, pois teria coisas mais interessantes a fazer com Billy Corgan do que interrogá-lo…(…)

O FIM DO CD – RELOADED

Junho 16, 2007

Textinho antigo, de 2002. Até onde me lembro, inédito. Achei curioso resgatá-lo agora, num momento em que tanto se fala em morte do CD, etc. Apocalíptico, eu? Prometo escrever um ensaio mais alentado sobre os futuros rumos da indústria fonográfica, para fechar a tampa da série de reportagens sobre a crise da mesma que venho (re)publicando aqui.

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Faça comigo, simpático leitor, doce leitora, um exercício de memória. Quanto tempo levou entre a primeira vez em que você ouviu falar em videocassete e o momento em que você afinal adquiriu um aparelho? Mais: quanto tempo levou entre a compra de seu primeiro VCR e o momento em que você o aposentou, trocando-o por um DVD? Continue a escarafunchar seus neurônios. Quando foi que você leu/viu/ouviu falar de um certo aparelho que tocava disquinhos prateados ridiculamente pequenos e prometia um som “perfeito”, com “a pureza do raio laser”? Quanto tempo se passou até que você pôde afinal comprar um? E em qual momento você começou a jogá-lo para escanteio, substituído por intangíveis arquivos MP3 tocados em aparelhos portáteis ou home-theaters?

A descartabilidade dos formatos e tecnologia de mídia está cada vez mais acelerada, numa correria desesperada rumo, óbvio, ao lucro. Vamos comparar com o passado. É claro que ninguém aqui (nem eu) tem idade para se lembrar da época em que a televisão surgiu, em 1950. Mas sei que no começo era uma coisa cara e complicada, da qual, dizia-se, “nunca vai tomar o lugar do rádio”. Da chegada da TV aos primeiros lares, à sua popularização total e irrestrita, demorou anos, décadas. E apesar de já se falar há um bom par de anos na “próxima geração” da TV – plasma, telas enormes e planas, transmissão digital – há de se admitir: ainda vai demorar um bocado para que essas inovações estejam realmente ao alcance do povão.

Compare agora esse padrão com a ascensão e a queda do VCR, e mais dramaticamente, com a do CD. O videocassete surgiu no começo dos anos 80 como fetiche de endinheirados e avançou pelos anos para dentro dos lares menos abonados – derrotando o videolaser no meio do caminho. Chega ao século XXI reduzido a uma velharia, pela onipresença do DVD (já se fabricam mais DVDs do que fitas VHS no Brasil). Mas acho que o tombo do CD foi ainda pior. Brinquedinho caro em meados dos anos 80, o CD-player varreu as vitrolas e os bolachões de vinil prometendo “som perfeito… para sempre”. O formato ainda ganhou uma sobrevida para além do mercado fonográfico com o advento da multimídia nos PCs, servindo para armazenar, além de música, fotos, programas, jogos, vídeos… E agora? Agora o CD está morto. A pirataria grassa e massacra os lucros das gravadoras e empresas de software, que cada vez mais consideram a hipótese de usar o DVD como mídia preferencial. HDs entupidos de música em MP3, conseguida de graça na Internet, e ouvida em sistemas de som cada vez mais potentes e cristalinos, tornam o ato de comprar um CD um anacronismo. Até nos automóveis: som de carro que se preze hoje em dia TEM de tocar CDRs com MP3.

Toda essa movimentação é orquestrada pela própria indústria, visando o objetivo usual: $$$. Há uma verdade incontestável em toda e qualquer troca de padrão tecnológico: um formato de mídia só é descartado pela indústria quando não tem mais potencial de lucro. O procedimento é o seguinte: ao passo que o formato vai se desenvolvendo, os fabricantes forçam a barra para baixar os preços tanto quanto possível, para popularizar geral. Quando praticamente todo mundo já tiver aderido, eles imediatamente decretam a tecnologia “obsoleta” e apresentam a última novidade. Oferecida, a princípio, a preços altos, que vão caindo enquanto o formato se desenvolve, até todo mundo poder comprar… e etc. Esse tipo de paradigma instalou-se a partir da chegada do CD, e da campanha maciça que se fez para popularizá-lo. E a voracidade com que a indústria consumiu o CD também foi exemplar. O LP em 33 rotações demorou mais de 40 anos para ser decretado obsoleto. O CD apareceu em 1981 e já no fim dos anos 90 estava extinto – a partir do momento em que gravadores de CD-R viraram mania e que CDs virgens passaram a ser vendidos (a menos de R$ 1 a unidade) em camelôs. Esse era o sinal de que a indústria estava pouco se lixando para o destino do CD como mídia viável. A pirataria, contra a qual gravadoras, fábricas de discos e empresas de informática tanto se batem, saiu de controle com total anuência desses setores do empresariado. Eu me lembro da primeira vez em que ouvi falar numa estranha máquina lançada no Japão, que – gasp! – fazia CDs em casa! Soava como bruxaria. Hoje em dia, quem não tem um queimador de CD-R no PC que atire a primeira pedra.

Todos os sinais apontam o DVD como a bola da vez. As grandes softwarehouses já fabricam seus videogames (cada vez mais cheios de recursos e extras) em DVD. As lojas brasileiras já começam a receber os primeiros audio-DVDs, para ouvir no home theater com som surround. E os DVD-players começam a agregar uma série de sacanagenzinhas (a possibilidade de ouvir MP3 e ver VCDs, tudo queimado no computador caseiro). Tudo isso rumo à “pedra filosofal” da indústria da mídia: o hipotético “formato definitivo”, que use apenas um tipo de mídia e um único aparelho para tudo (música/filmes/imagens/jogos/interatividade/textos). Que bem pode ser o DVD. Mas peraí, já não falavam isso do CD? Quanto tempo vai demorar para que a sanha por lucros derrube também o primo mais novo do compact disc? Já surgiram os primeiros queimadores caseiros de DVD, que ainda estão a preços abusivos. Mas já tem DVD virgem no camelô, ao lado dos CDs a R$ 0,90… E recomeça a reinvenção da roda. Que, no caso, é prateadinha, com 12 cm de diâmetro e um furinho no meio.

DA SÍNDROME DE MISOGINIA INVOLUNTÁRIA.

Junho 13, 2007

Dentro de minha modesta produção, este é um dos escritos que mais gosto. Após anos de observação atenta dos complexos rituais de acasalamento da espécie humana, em 2002 escrevi a pequena peça que se segue. Não lembro se já foi publicado em algum lugar, de repente está por aí a vagar pela internet – quem souber, por favor assinale nos comentários.

A história que relatarei a seguir é verídica.

Lá pelos idos de 1992, nos meus loucos anos de faculdade, conheci um cara que até hoje é um dos meus melhores amigos. (Vamos por isso preservar sua identidade; digamos que ele se chame… Jake Barnes). Esse rapaz era estudante de cinema, um sujeito boa-praça, inteligente, tímido e sensível. E, claro, um tanto inexperiente no trato com o sexo oposto. Ele travou contato com uma colega de sala (vamos chamá-la… Lady Brett) e não demorou muito para que os interesses em comum entre os dois gerassem uma singela amizade. Ou algo mais. Papo vai, papo vem, conversa daqui, conversa dali, Jake resolve – em uma festa, já devidamente aditivado alcoolicamente – abrir seu coração para Brett. Não foi a primeira vez, nem será a última, que ouviu-se numa pista de dança as clássicas palavras: “Não, que isso, você tá confundindo as coisas…” A rejeição pegou o rapaz desprevinido. Em sua cabeça, ele não tinha confundido pitomba alguma. Como poderia? A garota era carinhosa com ele, gostava de falar sobre as mesmas coisas, eles tinham opiniões e gostos parecidos, passavam muito tempo juntos no campus… É claro que ela só poderia estar correspondendo ao visível interesse afetivo dele.

Mas não estava. E assim, amigos e amigas, instala-se no coração de mais um incauto a SMI – Sindrome da Misoginia Involuntária.

Misoginia, como vocês sabem (ou não, sei lá), é o termo que define a aversão e /ou desprezo masculino pelas mulheres – não confundam como viadagem, por favor! É uma patologia, um distúrbio mental no qual o camarada, mesmo mantendo sua sexualidade, não consegue controlar seu ódio ao sexo oposto. Cogita-se, por exemplo, que Jack, o Estripador tenha sido um misógino radical.

Mas há uma forma muito mais branda, porém não menos nociva, da misoginia. É a SMI, que geralmente ataca rapazes tímidos e sensíveis e se manifesta depois de decepções amorosas. Não qualquer decepção, claro; tem de ser traumática, humilhante, daquelas que escorcham com a auto-estima do cidadão. O requinte final, que enraiza a SMI mais fundo na alma, são os discursos femininos do tipo “Ah, Fulano é como se fosse meu irmãozinho…”, “Eu gosto de você, mas não ‘desse’ jeito…” e o clássico “Mas a gente é só amigo…”. Destroçado qual um personagem de letra de bolero, o rapaz sente um desejo atávico de mandar à merda tudo quanto é mulher que cruzar seu caminho.

Dois componentes têm de ser analisados nesse processo. Um: o acometido pela SMI não chega, efetivamente, a odiar a mulherada. Uma feijoada de sentimentos contraditórios – tristeza, ressentimento, frustração e dor-de-cotovelo – é o que cria essa aversão ao sexo oposto. Mas é só na superfície. Por dentro, o coitado ainda abriga todo o amor do mundo… só não tem quem o receba. É como o suicida, que se mata não por odiar a vida, mas sim por não conseguir viver a vida do jeito que queria. Dois: que ninguém fique pensando que a mulherada se comporta assim de propósito. Na maioria das vezes, elas simplesmente não têm noção do estrago que fazem na psique do seu ex-futuro pretendente. E muitas vezes, o rapaz, na sua inexperiência, interpreta como “jogo de sedução” (heheh) um comportamento que, para a menina, é absolutamente normal. Ainda mais se a moça for amiga, tiver algum tipo de intimidade, e não for apenas um “alvo”. Atire a primeira pedra o rapaz que nunca achou que aquela mãozinha dada, aquele papinho furado a dois, aquele afago ligeiro no rosto eram sinônimo de: “Ôpa, deu mole, tá doidinha pra que eu pule em cima”… E acabamos todos aprendendo, da pior maneira possível, como interpretar os sinais femininos.

A Síndrome da Misoginia Involuntária não costuma durar para sempre. Em geral, acomete os homens na adolescência e, dependendo do grau de maturidade emocional do indíviduo, persiste até uns 20 e poucos anos. A coisa melhora quando o camarada aprende a encarar o “doce esporte” da maneira correta. Para o pobre e sensivel misógino involuntário, a regra é se apaixonar primeiro e só DEPOIS demonstrar o interesse na mina. A chance de ele se decepcionar amargamente aumenta muito assim. Se ele inverte a equação – demonstrando de cara que está a fim, para depois ver o que rola – tudo flui de modo muito mais simples. (Eu sei disso, por experiência própria.) Persistem seqüelas, entretanto. Eu, por exemplo, jurei para mim mesmo: da próxima vez que eu ouvisse uma garota dizendo “A gente é só amigo” pra mim, a porrada iria comer. Nunca pude por o juramento em prática, graças a Deus.

E o que foi feito de Jake Barnes e Lady Brett? Ele, como eu disse, é meu amigão. E carrega até hoje um profundo ressentimento em relação à rapariga que partiu seu coração – o suficiente para provocar algumas idas ao divã de uma psiquiatra. Sobre ela, soube que se juntou com um professor da faculdade, depois largou-o, depois engordou… enfim. Pior foi saber que, na mesma época em que nosso Jake suspirava por ela (e afogava suas mágoas em conhaque Dreher), ela também suspirava. Mas por outro colega de turma, que, na verdade, era homossexual enrustido. (Ei, será que também existe um equivalente feminino da SMI?). Mulheres, bah.