Arquivo para Março, 2008

BRASIL DESCOBRE O DOWNLOAD PAGO.

Março 8, 2008

Ainda este mês, a ABPD deve divulgar o balanço do mercado fonográfico do ano de 2007. Antecipando o relatório, materinha que publiquei no Jornal do Brasil em 25 de janeiro sobre o boom do download legalizado de MP3 no ano passado. Já havia abordado o assunto nessa reportagem aqui, ó.

Desde o começo deste terceiro milênio, as gravadoras multinacionais dizem que o futuro da música passa pela internet. Aparentemente, em 2007 o público brasileiro afinal passou a acreditar nisso. O mesmo ano que viu a banda inglesa Radiohead chacoalhar as relações entre artista, ouvinte e gravadoras e registrou uma multiplicação inédita de formatos na web também testemunhou um avanço inédito no mercado de música digital no Brasil. Num salto surpreendente, a receita com vendas de canções virtuais (via computador ou telefonia celular) aumentou 185% em 2007. E o mercado digital passou a representar 8% do total das vendas de música no Brasil, contra meros 2% cravados em 2006. Os números foram divulgados ontem pela ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Disco), como parte do Relatório de Música Digital produzido pela IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica).

O percentual ainda é menor do que a média mundial; em termos globais, 15% do mercado são ocupados pelas vendas digitais. Mas já indica que o Brasil parece ter finalmente acordado para o fato de que se pode comprar música fora das tradicionais lojas de CD.

– O aumento foi significativo e acompanhou a tendência mundial de expansão da música digital – aponta Paulo Rosa, presidente da ABPD. – Mais importante foi o crescimento das vendas pela internet. Se em 2006 os downloads feitos via celular representavam 96% do mercado, agora se restringem a 76%. Mais gente está usando o computador para comprar música.

Alexandre Schiavo, presidente da Sony-BMG, multinacional líder do mercado no Brasil, também festeja os indicadores: – Foi um ano promissor e importante. O movimento aumentou de tal forma que tivemos de criar uma divisão interna só para o mercado digital.

O chefão da gravadora (que teve 6% de suas vendas provenientes dos downloads) exemplifica a emergência do segmento:

– Fizemos uma promoção com uma marca de telefones para vender celulares com músicas do Jota Quest em MP3 na memória. Em menos de três meses, com um mínimo de marketing, foram mais de 200 mil aparelhos vendidos.

Por sua vez, a Universal Music avisa que só Ivete Sangalo (dona do disco mais vendido de 2007, Multishow ao vivo no Maracanã) vendeu mais de 3 milhões de canções digitais no ano passado, boa parte em promoções similares à do Jota Quest.

O relatório da IFPI mostra que o mercado digital vem se expandindo de forma galopante. Se em 2003 as vendas do setor eram desprezíveis no cômputo geral, em 2006 já representavam 11% do mercado e em 2007 ficaram em 15%, movimentando US$ 2,9 bilhões (R$ 5,18 bilhões). A roqueirinha adolescente Avril Lavigne foi a campeã mundial de downloads pagos: sua canção Girlfriend foi baixada 7,3 milhões de vezes. No Brasil, a ABPD só divulgará os valores de mercado e os artistas mais vendidos em março, junto com o relatório geral sobre 2007. Paulo Rosa enumera algumas razões para o bom desempenho do segmento digital:

– Quatro novas lojas virtuais chegaram ao mercado: Ideas Music Store, Tim Music Store, Vivo e Baixahits. Houve maior investimento em marketing e mais promoções ao longo do ano. E o aumento de vendas de computadores pessoais, depois das medidas de incentivo tomadas pelo governo em 2005, também se fez sentir.

Diretor de tecnologia do portal iMusica – pioneiro na venda de música pela internet no Brasil e parceiro das maiores gravadoras do país – Roberto de Brito Nunes confirma a bonança digital. – A oferta se multiplicou. As operadoras de telefonia todas têm suas lojas virtuais, o que ampliou muito o mercado – diz. A maior parte do faturamento do iMusica vem do download de ringtones e truetones para celulares. Mas, Nunes acredita, a internet já merece atenção. – As vendas pela web são relativamente pequenas, mas vêm crescendo de modo constante. Só neste mês, comercializamos mais músicas via internet do que durante todo o ano de 2005.

O prognóstico para 2008 é risonho, na visão da ABPD.

– Há uma tendência mundial de se vender canções em arquivos sem DRM ( sem proteção anticópia), que deve chegar também às lojas virtuais brasileiras. Isso ajuda a popularizar mais a venda digital – diz Rosa.

Nem tudo são flores. Os maiores males do mercado fonográfico nacional, a pirataria e os preços altos, também contaminam o meio digital. Para cada música baixada legalmente, 20 são copiadas de forma ilegal. E sobre os preços nas lojas virtuais (R$ 1,99, em média), ainda altos para o poder aquisitivo do brasileiro, incide uma gorda carga tributária.

– Sobre as músicas em MP3, os impostos passam de 20%. Para os ringtones, podem passar de 40% – reclama Rosa. – Quanto à pirataria, nossas pesquisas indicam que os novos internautas, que estão chegando agora, são mais receptivos à idéia do download legalizado.

BUENA VISTA NO EXÍLIO.

Março 1, 2008

Blog, para mim, sempre foi sinônimo de “tempo livre à disposição”. Nos últimos três meses, o que eu menos tenho tido é tempo livre. Não sei se vocês sabem mas, no começo de dezembro, fui promovido ao posto de editor assistente do caderno de cultura do jornal em que trabalho. Na prática, isso vem rendendo (muito) mais responsabilidades, (muito) mais trabalho, (muito) mais esporros – a dar e a levar – e (só um pouco) mais de dinheiro. Somado a isso, ainda há os atropelos tradicionais de fim/começo de ano e uns frilas me atazanando a paciência. Resultado: t.d.v abandonado por mais de dois meses. Peço desculpas à minha compreensivelmente mirrada audiência pela falta de atualizações.

A entrevista que posto agora é bastante simbólica de minha rotina atribulada. Logo assim que Fidel pediu o boné, resolvemos correr atrás de uma entrevista com alguma figura proeminente da cultura cubana, para comentar o fato. Decidimo-nos por tentar entrevistar Juan de Marcos González, diretor artístico dos Afro-Cuban All Stars (o grupo que foi formado a partir da turnê/disco/filme Buena Vista Social Club). Eu mesmo fiquei encarregado de fazer o contato. Depois de trocar uns emails com o homem, pedi que ele me passasse seu telefone, para conversarmos. De Marcos só se manifestou por volta das 23h de sexta. Ficamos com o jornal todo pronto, só à espera da entrevista (o jornal de domingo é fechado na sexta à noite) – afinal, seria nossa capa de domingo, a edição mais nobre da semana. E só consegui bater o papo com o cubano, que estava no México, lá pra meia-noite. Segue o resultado logo abaixo.

cuba.jpg

O grande sonho de Juan de Marcos González era abrir uma casa de espetáculos que pudesse ser um templo para a música cubana; o tipo de música que ele, como integrante e diretor musical do grupo Afro-Cuban All Stars, ajudou a popularizar em todo mundo, viajando com a geração Buena Vista, de Compay Segundo a Ibrahim Ferrer. A rigidez da economia estatal de seu país natal, contudo, o fez mudar de planos – e inaugurar seu projeto na Cidade do México, onde mora, e não em Havana. A casa a ser inaugurada por Gonzáles até o fim do ano na capital mexicana terá capacidade para cerca de 500 pessoas e se chamará, claro, Buena Vista Social Club.

- Com Fidel Castro no poder, seria impossível abrir uma casa noturna particular em Cuba – diz Gonzáles ao JB, por telefone, da Cidade do México, ele que é uma espécie de produtor executivo do Buena Vista Social Club e está em estúdio gravando um novo CD do Afro-Cuban. – Quero que meu clube seja uma referência mundial da música e da cultura cubana.

A renúncia de Fidel, anunciada na última quarta-feira – depois de 49 anos no poder – deve arejar a vida musical de Cuba, que equilibra uma grande riqueza de talentos e ritmos com uma estrutura mercadológica notoriamente precária. Para Gonzáles, de 54 anos, as mudanças virão, mas de maneira lenta.

- Acredito que levará uns 20 ou 30 anos para a economia cubana se acertar. Raúl (Castro), que vai assumir o poder agora, vai mudar as coisas passo a passo. É preciso abrir a economia sem perder a independência de nosso povo – sustenta o músico, que visita a ilha uma vez por mês.

Admiração por Fidel

As dificuldades econômicas enfrentadas pelo regime socialista fizeram a cena cubana encolher nas últimas décadas. González, cujo pai, Marcos González, era um famoso cantor na era pré-revolução, testemunha:

- Não é difícil gravar um disco em Havana, hoje em dia há muitos estúdios caseiros. O problema é que não existem lugares para tocar ao vivo. Isso faz com que os músicos abandonem o país. Muitos, inclusive, acabam parando no Brasil; quando estive em São Paulo, encontrei vários cubanos.

A precariedade do cenário não impede que ele declare sua admiração pelo presidente afastado.

- Admiro Fidel Castro – revela. – Ele foi o líder único macho o suficiente para enfrentar o imperialismo. Pode ter tomado o caminho errado na economia, mas sempre foi honesto, confiável. Não é como o cara da Venezuela – diz, referindo-se ao presidente venezuelano Hugo Chávez.

Líder dos Afro-Cuban All Stars sobre e fora do palco, González agora comanda um grupo bastante renovado em relação à turma de veteranos celebrizada pelo filme de Wim Wenders. A banda começou em meados dos anos 90 como uma espécie de tributo à velha guarda da música cubana, organizado pelo próprio González e reunindo nomes como Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Ruben González, Omara Portuondo e Eliades Ochoa. Descobertos pelo guitarrista americano Ry Cooder, gravaram Buena Vista Social Club, o disco, em 1997 – sucesso mundial amplificado pelo documentário subseqüente.

- Bem, os originais agora estão quase todos mortos – lembra González, recordando as despedidas a Ruben e Compay (em 2003) e Ferrer (2005) – Já houve uma segunda geração dos All Stars e agora há uma terceira. Quando comecei no grupo eu era o mais jovem. Agora sou um dos mais velhos. É excelente poder compartilhar com os novos membros as lições que os antigos mestres deixaram.

“Viramos um fenômeno pop”

Uma das veteranas originais – Omara Portuondo, hoje aos 77 anos – está mais viva e ativa do que nunca. Está prestes, inclusive, a lançar um disco em dupla com Maria Bethânia.

- Amo Omara e amo Bethânia. É a minha cantora brasileira favorita – conta González, que já veio ao Brasil várias vezes com seu grupo.

Para o músico, o grande sucesso que o Buena Vista Social Club fez, há quase 10 anos, teve um lado bom e um ruim:

- Viramos um fenômeno pop. Por algum tempo, parecia que os sons tradicionais de Cuba estavam em todo lugar. Isso tornou as coisas difíceis para as gerações posteriores, que faziam outros tipos de música. Só queriam saber do Buena Vista.

Mesmo depois do auge da popularidade, os Afro-Cuban All Stars ainda são bastante requisitados. O disco que estão gravando agora no México (onde González está construindo seu próprio estúdio) sai no fim do ano pelo selo londrino Globe Star Recordings. Antes disso, o grupo se apresenta em festivais na Europa, EUA e Canadá, durante o verão no Hemisfério Norte.