CRISE? QUE CRISE?

Dezembro 10, 2007

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Sim, quem vive da venda de discos vai mal. Mas quem vive da venda de música – direta ou indiretamente – vai bem. É algo que venho dizendo há tempos: o mercado fonográfico está em crise, mas é errado pensar que “mercado fonográfico” = música. Ainda é possível ganhar muito dinheiro com música, especialmente numa era na qual a música está em todos os lugares. Raciocine comigo: qual negócio em crise se daria ao trabalho de promover uma festa de fim de ano, com direito a comes refinados e bebes importados?

Eu matutava sobre essas e outras questões enquanto o gelo no meu scotch oito anos dançava caprichosa e lentamente. Estava apreciando a vista da orla da Zona Sul carioca, instalado à varanda de um dos mais exclusivos clubes da cidade. Consegui que meu nome fosse inserido na lista de convidados da confraternização de fim de ano de uma editora musical intimamente ligada a uma das quatro gravadoras multinacionais operantes no país. Não era, obviamente, uma “festa da firma” qualquer. Reunidos no evento estavam os chefões da editora, o presidente da gravadora-mãe (e seus respectivos puxa-sacos) e uma constelação dos principais compositores administrados pela empresa. Compareceram roqueiros, sertanejos, emos, sambistas, “populares”, ou seja, a fauna e flora das TVs, FMs e AMs.

Discreto, mas marcante, pude testemunhar cenas interessantíssmas. Como uma improvável reunião de três escalões diferentes de roqueiros da safra oitentista: um superstar consagrado, outro um legítimo one-hit wonder e o terceiro, não mais que um obscuro cult hero. Todos papeavam animadamente, sem diferença de castas. Um hitmaker brega-pop dos anos 80, que anda tentando uma (nova) reentrada no mercado, surpreendeu a todos com sua boa forma. “Puxa, o Fulano de Tal está inteiraço, bem conservado… se bem que está fungando e coçando o nariz demais pro meu gosto…” Um astro (ascendente ou cadente?) do breganejo pavoneava sua camisa com padronagem de zebra, carregando a tiracolo uma namorada com uma blusa quase idêntica. Um camarada meu, band-leader de um grupo muito simpático, também estava lá, acompanhando a esposa (ela é filiada à editora, ele não).

Enfim. Entre uma bicadinha na terrine de foie gras e outra mordiscada na tapioca com bobó de camarão, eu pensava. Os caras devem estar felizes com o resultado deste ano, né? Porque a tal gravadora-mãe, que empresta o nome à editora musical, acabou de passar por um período muito turbulento. Abalos financeiros, troca de comando, etc. Em outras palavras, muito pouco a comemorar. E, vejam vocês, cá estava o braço da corporação no ramo de publishing, gastando os tubos e fazendo festinha. Qual o segredo?

Não há segredo. Editoras musicais não trabalham com vendas de discos, e sim com arrecadação de direitos autorais. Ou seja, eliminam (ou ignoram) o intermediário e unem diretamente produtores (os compositores) e consumidores primários (rádios, TVs, internet) e secundários (o ouvinte). Essa cadeia alimentar funciona a pleno vapor, cagando para a pirataria e para a queda das vendas. As editoras se beneficiam de uma verdade que as gravadoras ignoraram por muito tempo: as pessoas sempre darão um jeito de ouvir sua música favorita. Elas não vão deixar de ouvir rádio ou de ver seus artistas favoritos na TV. Só deixarão de comprar o CD ou o DVD, se não estiver a seu alcance financeiro. Mas isso não importa para a editora. Tocou, arrecadou – seja no celular, no site da internet, na trilha sonora do filme ou no radinho de pilha. Essa visão me foi confirmada pela opinião do presidente da Som Livre, a quem entrevistei há pouco tempo (em breve posto a conversa por aqui).

Então, volto a afirmar: sempre haverá dinheiro a ser feito no mercado de música. Pode (já) não estar (mais) na venda de CDs, pode (ainda) não estar no download legalizado. Mas os cofres do Ecad não param de arrecadar.

* * *

O amigo Ricardo Schott teve a fineza de me entrevistar sobre este blog e outros assuntos quetais. Prestigiem: http://www.interney.net/blogs/dbasica/2007/11/30/entrevista_marco_antonio_bart

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4 Respostas para “CRISE? QUE CRISE?”

  1. kat Diz:

    pois é, bart. se o ecad não fosse o caos que é, principalmente pra bandas/artistas que não tocam o tempo todo em todo lugar, os cofres deles estariam ainda melhores. mas aquilo ali… do jeito que está… também não sei não.
    eu acho que quem realmente está com cofres cheios são as grandes editoras, vendendo música, em acordos mui atraentes, pra comercial de tv e novelas…

  2. Henrique Diz:

    Num pais onde a arrecadação de direitos é bastante confusa e polêmica essa forma de ganhar dinheiro fica meio comprometida não? Num mundo onde o trabalho que um artista tem para criar, arranjar,gravar… é ignorado (vide o caso Radiohead) como ganhar grana com música? Enfim, imagino que o mercado vai encontrar uma saida sim mas eu não consigo enxergar ela por enquanto. rsrs
    abraço

  3. marcobart Diz:

    Respondendo a ambos os amigos:

    Sim, o Ecad é caótico, mas tem melhorado nos últimos anos, tanto na arrecadação quanto no repasse aos compositores. Essa é uma impressão compartilhada tanto por artistas quanto pelas gravadoras. Claro que as grandes editoras ainda ficam por cima da carne-seca, mas… um passo de cada vez, né :)

    E sim, o mercado vai encontrar uma saída. As majors vão apanhar muito até se ajustarem, perderem os vícios, cairem na real. O exemplo das editoras pode não ser um novo padrão a seguir (mesmo porque se trata de modelos de negócios bem diferentes). Mas serve como um reality check para os apocalípticos que dizem que a música vai acabar. Acaba nada…


  4. Had some thoughts about this a couple of weeks ago, but..as always i tend to forget things like this.


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