Materinha sobre os novos rumos da Som Livre, a gravadora das Organizações Globo. O que me inspirou a caçar esta pauta foram os elogios que vinha ouvindo de vários artistas nos últimos meses – indicando que o selo realmente estava mudando. Como bônus-track, uma entrevistinha com o Vanguart, confirmando que a banda está negociando com a gravadora. Publicado no Jornal do Brasil, 09/12/2007 (Som Livre) e 21/11/2007 (Vanguart). Âpideite: a tal noite dos indies patrocinada pela TIM na Fundição Progresso, anunciada para este mês, pelo jeito não vai rolar este ano…

O “S” estilizado, logotipo da gravadora Som Livre, tem sido visto em lugares inusitados. Como a contracapa de CDs de artistas novos e bem cotados, como o cantor carioca Jonas Sá e o grupo Tom Bloch. E até em festivais dedicados a revelações do rock a marca tem aparecido. Mas a Som Livre não era aquela companhia que só lançava CDs da Xuxa e trilhas sonoras de novelas da Globo e só se envolvia em projetos especiais?
- Nosso negócio principal ainda é, como sempre, trabalhar para a Rede Globo, povoar a grade da rede com música. Mas estamos atentos às novas cenas musicais que vêm surgindo pelo Brasil e queremos ajudar essas caras novas a ganhar projeção. A oferta é tremenda, temos inúmeros artistas interessantes batendo à nossa porta – explica Leonardo Ganem, presidente da Som Livre, que põe na rua, com força, o selo Som Livre Apresenta, criado oficialmente este mês com o lançamento dos discos Anormal (Jonas Sá), Magical fingers (do cantor Mariano San Roman) e 2 (do Tom Bloch).
Chicas entram no elenco
A etiqueta também assumiu a distribuição de Quem vai comprar nosso barulho?, disco de estréia do grupo Chicas, lançado em 2006 de forma independente. Para os primeiros meses de 2008, estão previstos álbuns dos grupos Coffee D’Amour, Companhia Itinerante e Os Irreversíveis (este com a cantora Carol Monte, irmã de Marisa Monte). Em negociações avançadas, também para o ano que vem, estão o sul-matogrossense Vanguart, revelação de festivais como Mada, em Natal, e a jovem cantora Shirle de Moraes.
Leonardo Ganem diz que a vontade de investir em novos talentos nasceu de uma observação atenta ao mercado fonográfico.
- A vendagem dos grandes nomes vem caindo muito. Mas a faixa dos artistas médios e pequenos ainda constitui um bolo fabuloso.
Outra necessidade sentida pela empresa era a de uma mudança de imagem.
- Já ouvi dizer que a Som Livre era uma gravadora de frente para o mar e de costas para o Brasil. Agora temos uma série de informantes em todas as regiões do Brasil, apontando os novos destaques das cenas regionais. E queremos ampliar essa rede – diz Ganem, que entrou no lugar de Gustavo Ramos.
Igualmente importante era a aproximação com a novíssima geração de ouvintes, gente que compra cada vez menos CD, mas ouve cada vez mais música.
- Miramos no público universitário, entre 17 e 24 anos, pessoas que sabem como baixar música pela internet e se informam sobre as novidades. Eles são o alvo do Som Livre Apresenta.
Os reflexos dessa nova orientação da Som Livre – única gravadora brasileira capaz de competir com as multinacionais do ramo – se fizeram sentir na classe artística. Hélio Flanders, do Vanguart, é uma testemunha da mudança.
- As conversas que estamos mantendo com a gravadora são muito animadoras. Nota-se que eles realmente querem trazer coisas boas ao mercado.
Para Carol Monte, a iniciativa da Som Livre não tem paralelos.
- Eles estão fazendo o que nenhuma gravadora tem feito: investir em novidade.
Outro grupo a ser “apresentado” pela Som Livre em 2008 é a banda Voltz, formada em São José dos Campos (SP). O quarteto foi o vencedor do GAS Festival, concurso de bandas realizado em setembro em São Paulo e que contava com o apoio da gravadora. Saíram de lá com a promessa de um CD, confirmada pelo selo.
- Estávamos gravando nosso segundo CD por conta própria. O apoio da Som Livre será importante para nós, já que vivemos numa cidade fora do eixo pop – afirma Glauber Ribat, vocalista do Voltz.
Leonardo Ganem detalha o envolvimento da gravadora no GAS Festival:
- Fizemos a seleção das bandas concorrentes e estamos negociando nossa participação na edição 2008 do evento. Os festivais são mais um mecanismo que o mercado encontrou para se reinventar, e nós queremos participar disso.
A Som Livre mantém os dois pés bem plantados no chão. Não pretende furar o orçamento nem fazer investimentos astronômicos. Uma estrutura modesta e absoluto realismo nas metas comerciais dão a tônica da operação.
- Sabemos que não vamos ter lucros logo de cara. Nosso objetivo é ficar no zero a zero, sem ter prejuízos – afirma o presidente da companhia. – Se conseguirmos gerar um movimento, um bochincho com os lançamentos do selo, já será excelente.
Vendas de ‘negócios-problema’
A atitude é coerente com o momento atual do mercado e da própria gravadora, que iniciou em 2005 um processo que Ganem chama de “uma senhora reestruturação” – justamente na época em que ele entrou na empresa, como diretor financeiro.
- Conseguimos nos livrar de vários negócios-problema. Nosso site (www.somlivre.com.br), por exemplo, não tinha foco: vendíamos até sutiãs! Hoje nos concentramos apenas em CDs e DVDs. Vendemos também a Som Livre Portugal e parte do catálogo da Sigem, nossa editora musical.
Os sinais de recuperação das vendas de CDs e DVDs também foram sentidos pela gravadora carioca. Mesmo que a pirataria ainda abata boa parte dos lucros, especialmente próximo do Natal. A companhia é realista quanto à situação por que passa a indústria.
- A Som Livre é o selo que mais sofre com os piratas – revela Ganem. – Na época da novela América (2005), lançamos várias trilhas diferentes, divididas em temas: sertanejo, urbano etc. Os piratas chegaram na frente e lançaram o América funk, copiando o logotipo da novela!
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Bonus-track: Vanguart negocia com a Som Livre
Na contramão dos prognósticos apocalípticos sobre o cenário pop brasileiro, a ascensão do quinteto Vanguart encantou muita gente e perturbou outros tantos. Em menos de três anos, o grupo liderado por Hélio Flanders saiu de Cuiabá (MT) e ganhou projeção no circuito indie nacional com performances (ditas) arrebatadoras em festivais por todo o país. Tornaram-se darlings de colunistas pop em jornais, revistas e na internet. Os shows catárticos renderam comparações com fenômenos como a Legião Urbana. Foram parar na TV Globo (participando de um especial em homenagem a Raul Seixas). E andaram flertando com grandes gravadoras. Seria, enfim, a redenção da novíssima geração do rock nacional, que ainda parece à espera dos novos Los Hermanos?
- Não acredito em nada do que escrevem sobre o Vanguart por aí. Quando começaram esses papos de “a próxima Legião Urbana” e os boatos sobre contrato disso e daquilo, ficamos meio desconcertados. Boato é f…, né? Mas não nos interessa mais o que os jornalistas dizem. Incomoda um pouco, mas não chega a ser um problema – garante Flanders, que está no Rio com sua banda para tocar no Cinemathèque Jam Club, em Botafogo, hoje, a partir das 23h. A abertura é do duo uruguaio Perrosky, em sua primeira passagem pelo país.
É a chance para mais uma sessão de folk-rock com pinceladas de psicodelia, que já conta com seus mini-hits (Semáforo, Cachaça, Hey ho silver) – que costumam ser cantados em uníssono pelos fãs do grupo.
O vocalista aproveita para dissipar os rumores sobre a ida do Vanguart para uma grande gravadora.
- Tem sempre um pouco de verdade nos boatos… Estamos conversando com a Som Livre. Há um interesse da gravadora há algum tempo. A idéia inicial seria relançar o primeiro álbum (homônimo, que foi lançado pela revista Outracoisa no começo do ano), mas agora o acordo é para um segundo disco, de inéditas, programado para meados do ano que vem – conta.
Os detratores do Vanguart – sim, existem, e em bom número – vibraram com o cancelamento do que seria, possivelmente, o mais importante show da história da banda: a participação no último Tim Festival. A chuva que caiu na cidade na noite do show fez o público debandar e ameaçou a segurança dos artistas.
- Foi frustrante, mas não temos nada a reclamar do festival. O palco era apenas parcialmente coberto e os instrumentos ficaram ensopados, o teclado estava pingando. Se a Cibelle levou choque tocando num palco fechado (na mesma noite, na tenda Novas Divas), imagine a gente! – conta o cantor, que adianta: – No mês que vem, a Tim vai fazer uma noite na Fundição Progresso com o Vanguart, o Montage e o Del Rey, que tocariam no festival.


