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O MAGNATA DESAJUSTADO QUER UMA FERRARI.

Novembro 18, 2007

Andei sumido, né? Bem, estive viajando muito e trabalhando muito, não necessariamente nessa ordem. Em breve, mais detalhes por aqui. Publicado no Jornal do Brasil, 16/11/2007.

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Todo mundo sabe que nos créditos de um filme o nome do diretor é o último a aparecer na tela. Já em O magnata, longa-metragem em cartaz no Rio, o nome que finaliza os créditos não é o do diretor estreante Johnny Araújo, mas do roteirista Chorão, líder do grupo de rock Charlie Brown Jr. que também estréia no cinema. A inversão se justifica, já que desde que o projeto foi anunciado, em 2005, sempre foi chamado simplesmente de “o filme do Chorão”.

Na tela, vê-se um coquetel explosivo de (pouco) sexo, (muita) violência e (algum) rock’n'roll, combinados na história do personagem-título, o Magnata, vivido por Paulo Vilhena. Rico, arrogante e desajustado, o Magnata divide seu tempo entre um grupo de hardcore e um irresistível fascínio pelo submundo, que acaba por arrastá-lo para baixo, muito baixo. O próprio ator se encarrega dos vocais da banda.

Chorão e o Magnata têm mais diferenças do que semelhanças entre si. Alexandre Magno, nome verdadeiro do cantor de 37 anos, não nasceu em berço de ouro nem praticou assaltos a mão armada. Entretanto, para boa parte do público o roqueiro santista personifica um estilo de vida casca-grossa que pode causar confusões entre criador e criatura.

- De bandido e de mocinho todo mundo tem um pouco. E às vezes os papéis até se invertem – afirma, dúbio. – Em comum com o Magnata tenho apenas a vivência das ruas e a música. Mas não tenho medo de que me associem à figura dele. No filme sou apenas figuração, parte do pano de fundo musical, noturno, urbano, esportivo…

Na trama, o grupo do Magnata é convidado a abrir um show do Charlie Brown Jr.. Chorão participa, interpretando a si mesmo. Também saídos da vida real estão roqueiros como os grupos Dead Fish e Lobotomia, os rappers SP Funk e o apresentador-grunhidor João Gordo, além do skatista Bob Burnquist. O letrista, que um dia já cantou: “O que eles falam sobre o jovem não é sério / O jovem no Brasil nunca é levado a sério” (na música Não é sério), espera que os adultos vejam a realidade mostrada em O magnata com… saudade.

- Saudade da liberdade, da ousadia, da juventude, das pequenas responsabilidades e até daquelas irresponsabilidades sem maiores conseqüências.

O magnata integra uma safra recente de produções que tentam retratar a juventude urbana brasileira (A concepção, Cão sem dono, Podecrer!, 1972, Proibido proibir) com diferentes abordagens e níveis de qualidade diversos. Chorão, também um skatista, afirma que não gostaria de ver sua (primeira) obra comparada a nenhum dos filmes citados (“Prefiro deixar que o público avalie”). Com igual ênfase, diz que o longa que escreveu não passa de uma história de ficção que esbarra, aqui e ali, na realidade.

- O roteiro retrata um tipo de comportamento específico, muito pessoal do protagonista. Mostra a coragem necessária para se cometer um ato criminoso. Mas também a displicência, a rejeição e o medo na hora de lidar com os resultados desse ato.

Na história, o Magnata rouba uma Ferrari (apenas por diversão, já que é rico) e se vê perseguido por uma gangue em busca de vingança. Mas Chorão prefere ressaltar as entrelinhas do personagem, em vez de focar seu lado violento. A relação com a mãe (Maria Luiza Mendonça), uma dondoca alcoólatra, e o romance com Dri (Rosane Mullholland), analisa o cantor, ajudam a humanizá-lo.

- Na verdade, é uma história bem complexa e intensa, com sutilezas. Ele sofre com sua mãe problemática e ausente e se envolve com uma menina que chega do exterior em fase de questionamentos pessoais e profissionais – diz. Bráulio Mantovani, roteirista que cravou seu nome nos créditos de Tropa de elite e Cidade de Deus, ajudou Chorão na redação final do texto, junto a Messina Neto e outros roteiristas do núcleo de dramaturgia da Gullane Filmes, co-produtora do longa.

Também para dar humanidade ao personagem entra em cena Marcelo Nova, que atua como sua consciência. O bate-bola entre Paulo e Marcelo, dois amigos de Chorão de longa data, ajuda a colorir a caracterização do protagonista. O líder do Charlie Brown Jr. comenta:

- Marcelo é um dos meus ídolos. Ele compôs grande parte da trilha sonora da minha vida. Ouvi muito o Camisa de Vênus – diz, referindo-se ao grupo fundado nos anos 80 pelo roqueiro baiano. – Sabia que encararia o desafio e acrescentaria muito. Quanto ao Paulinho, pude constatar o grande ator que é e também o cara legal que poucos conhecem.

E como foi a participação de Chorão num set repleto de atores iniciantes e/ou não-profissionais, conduzidos por um diretor igualmente novato, com longa carreira, mas apenas como diretor de videoclipes e publicidade?

- Acompanhei 90% das filmagens. E toda a pré-produção, seleção e preparação de elenco. Inclusive do Paulinho, já que teve que cantar de verdade. Foi um trabalho puxado e intenso, mas me deu experiência para o meu próximo filme, que, sem dúvida, virá por aí.

Bonus-track: a resenha do filme, também publicada no JB.

Admitamos: as credenciais que O magnata trazia antes de chegar às telas davam um certo medo. Roteirizado por Chorão, vocalista do Charlie Brown Jr., e conduzido por um diretor estreante (o clipeiro Johnny Araújo), o filme tinha tudo para ser uma pérola trash. A surpresa é, então, encontrar um longa muito bem filmado, com um pique narrativo que compensa o roteiro fraco e o elenco irregular. O resultado impressiona mais ainda em comparação com a recente safra de filmes nacionais que tentaram retratar a juventude brasileira urbana. Há, claro, situações forçadas e caricatas. Mas a tensão da trama criminal se equilibra bem com a caracterização da porralouquice da molecada – flertando com a marginália de um lado e a inconseqüência do outro. E exibe ousadia ao rejeitar, firmemente, a caretice que sobrou em filmes como Podecrer! ou 1972. Mesmo correndo o risco de glamourizar comportamentos indefensáveis. E do inegável moralismo do resultado final.

“TRAMA NÃO VAI FECHAR”

Novembro 8, 2007

Publicado no Jornal do Brasil, 09/10/2007.

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João Marcello Bôscoli, 36 anos, não agüenta mais ouvir falar que sua gravadora, a Trama, está em crise. A boataria tem razão. Em 2007, o selo praticamente não lançou novos discos. A Distribuidora Independente, um dos braços da empresa, foi fechada. Artistas importantes (Cansei de Ser Sexy, Nação Zumbi, Tom Zé) deixaram a gravadora. E vários títulos do catálogo entopem saldões em lojas virtuais e reais. Seria o fim do projeto que, em 1998, surgiu prometendo revolucionar a música brasileira? O presidente da Trama garante que não. Apostando no que chama de multidisciplinaridade da música, Bôscoli diz que pretende continuar a sacudir o mercado oferecendo novas formas de vender (e de ouvir) música.

Vamos direto ao ponto: a Trama vai acabar?
Estou cansado dessas histórias, sabe? Já ouvi que a Trama vai fechar daqui a seis meses. Que a Trama serve para lavar dinheiro. As pessoas que dizem essas coisas não têm vida própria. O que fulano ou sicrano falaram na imprensa… me desculpa, mas isso não me interessa. Essas histórias são pura falta de educação. Mas tudo bem. Acho importante ser odiado. Sou filho da Elis Regina, não de um diretor de marketing qualquer. Mas em 2007 a gravadora esteve devagar, quase parando, certo? Isso gera rumores… Só lançamos dois discos este ano (Maquinado, de Lucio Maia, e Art, plugs & soul, do DJ Mau Mau). Já houve época em que eu ficava deprimido por conseguir lançar 25 artistas por ano! Mas eu não tenho só uma gravadora. Não estou nessa para vender pedaços de plástico. Vendemos música. O que aconteceu foi que trocamos de fornecedor (de CDs) no começo do ano e precisávamos limpar o mercado dos títulos velhos que ainda estavam em catálogo. Então seguramos os lançamentos. E também fechamos a Distribuidora Independente, que nunca deu dinheiro, só dor de cabeça. A Distribuidora se justificava quando ainda pensávamos em virar a cena, mudar o mercado musical. Mas o mercado está acabando.

O elenco da Trama também perdeu dois nomes importantes: os grupos Cansei de Ser Sexy e Nação Zumbi. Como foi essa história?
Passamos o contrato que tínhamos com o Cansei, que previa mais dois discos, para a gravadora Sub Pop (EUA). A banda me procurou e disse que não fazia sentido manter o contrato, que a vida toda deles estava lá fora. Mas continuamos amigos, eles vão ensaiar no estúdio da Trama no mês que vem. A Nação, falando francamente, não dava retorno para nós. É uma pena dizer isso, adoro o grupo, acho a Nação a melhor banda do mundo. Mas nós só tinhamos participação na venda dos CDs deles; todo o resto, agenciamento, editora, licenciamento, era feito por eles. E com o dinheiro que eu empregaria num CD deles poderia gravar outras 10 bandas independentes. Então não compensava.

Além de diminuir o elenco, a empresa demitiu funcionários?
Já tivemos quase 100 funcionários. Hoje trabalhamos com 35 pessoas. Conseguimos terceirizar vários departamentos – financeiro, jurídico etc – áreas que, afinal, não tinham a ver com o núcleo do nosso negócio, que é música.

A Trama antecipou várias das estratégias que as grandes gravadoras hoje buscam para driblar a crise. Você se sente um visionário?
Em 1997, nos preparativos para fundar a Trama, já sabíamos que uma empresa de música teria futuro, mas uma gravadora, não. Nosso pulo do gato foi entender que tudo é música. Mochila é música. Camiseta é música. Calendários, pôsteres, revistas… Só 20% de nosso faturamento vêm de CDs e DVDs; o resto chega de outras fontes. Acho que a Trama nem sequer pertence ao mesmo setor que as outras gravadoras. As multinacionais tomaram a comida de bola do milênio ao subestimar a internet. Eu rio quando ouço as gravadoras falando: “Agora a música vai para a web”. A Trama está na web desde 1999! Tem o lado triste, que é ver todo um setor da economia quebrando. É uma crise que tem mais vítimas do que culpados. Estou contente com o nosso retorno. Mas o pouco que ganhamos até agora foi por W.O. (risos)

No manifesto de fundação da Trama constava o compromisso de “incentivar e apoiar o artista nacional”. Vocês ainda estão de olho na renovação da música brasileira?
Neste momento, estamos negociando com seis bandas novas, para gravarem CDs. Nosso telefone não pára de tocar. Cadastramos 1.700 artistas novos todos os meses no portal Trama Virtual. No programa de TV homônimo, já temos mais de 60 artistas independentes gravados. Começo a sentir uma grande empatia por essa galera nova. Acho legal o fato de as bandas novas já nascerem self-made. Eles não contam com coisa alguma, nenhuma benesse de gravadora, correm atrás de tudo por conta própria. É a verdadeira geração punk-samba.

* * *

Faixas de graça pagas por empresas
Duas propostas da Trama – uma prestes a se concretizar, a outra já posta em prática – pretendem mudar a maneira como gravadoras, artistas e ouvintes encaram o ato de consumir música via internet. No começo de novembro, a gravadora lança o Álbum Virtual, um pacote baixável pela web que inclui não apenas faixas musicais, mas também todo o trabalho gráfico. A versão virtual do disco estará à disposição do público (para download gratuito) um mês antes de o CD chegar às lojas. Mesmo com o ouvinte baixando de graça, o artista ganha dinheiro por meio do patrocínio de empresas parceiras da Trama. Inaugurando a proposta, o grupo Rock Rocket, com seu segundo álbum.

– É como assistir à TV. A novela é de graça para quem assiste, os comerciais é que pagam – explica João Marcello Bôscoli.

O Álbum Virtual terá faixas digitais de alta qualidade sem DRM (ou seja, desbloqueadas, sem proteção anticópia) e material extra, como faixas instrumentais e seções multimídia acessáveis por computador. A parte gráfica será completa, com capa, encarte e até o selo do CD, tudo em arquivos imprimíveis. Além do Rock Rocket, os lançamentos que a Trama planeja para os próximos seis meses (Quinteto Branco & Preto, Jair Rodrigues, Karine Alexandrino e Caju & Castanha) devem ser antecedidos por suas versões virtuais.

O Download Remunerado é a segunda idéia tramada por João Marcello para virar a maré. Todas as músicas disponíveis para download gratuito no Trama Virtual podem render dinheiro a seus respectivos artistas. O valor a ser pago varia de acordo com o que for arrecadado mensalmente com as empresas patrocinadoras. Nos dois primeiros meses do projeto, 2.539 bandas se cadastraram e foram feitos mais de 126 mil downloads. Entre as bandas mais baixadas e que ganharam mais dinheiro estão a Dance Of Days (R$ 2.880), Fresno (R$ 1.250), Superguidis (R$ 1.023), Pull Down (R$ 914) e Rock Rocket (R$ 823).

GROOVES NO LUGAR CERTO; SÓ FALTAM AS MELODIAS (+ BONUS TRACK).

Novembro 6, 2007

Resenha do mais novo disco da Nação Zumbi, Fome de tudo. De faixa-bônus, incluo uma materinha que fiz repercutindo o fato do disco ter vazado em MP3 vários dias antes do CD chegar às lojas. Geralmente não posto esse tipo de texto por aqui – já existe tanta gente por aí nessa onda, né? – mas a intervenção do dileto leitor José Henrique me compeliu ao ato. Zé (posso tratá-lo assim?) é desses fãs que passam o dia no Google digitando o nome de sua banda favorita, em busca de novidades acerca de sua banda favorita. (Eles existem, e como existem…) Ele já dera o ar de sua graça por aqui no post NAÇÃO ZUMBI NA DECKDISC. Nos comentários do post, me admoestava, por considerar que menosprezei a NZ. Neste fim de semana, ele atacou de novo (leia detalhes aqui), certamente após ter trombado, em uma de suas rondas, com a resenha que fiz de Fome para o Jornal do Brasil (publicada dia 30/10/2007). Dei-me conta que, apesar de ter permitido ao rapaz ventilar sua revolta, não incluí no site o texto que o motivou. Então, para quem leu o comentário do Zé e não entendeu nada, lá vai:

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Em seu sétimo disco – o quinto após a morte de Chico Science – a Nação Zumbi dá sinais de que ainda não resolveu o impasse auto-imposto no trabalho anterior, Futura (2005). Os pernambucanos vêm deslocando o eixo de sua música da pancadaria percussiva dos primeiros anos para uma ênfase maior nas harmonias e melodias. Entretanto, a guinada estética não foi acompanhada por mais inspiração nas composições. Não é que Jorge Du Peixe (voz), Lucio Maia (guitarra), Dengue (baixo) e os percussionistas Gilmar, Pupillo e Toca Ogan estejam proibidos de buscar maiores sutilezas em seu som. O problema é que a fartura de grooves e levadas contagiantes não é contrabalançada por brilho melódico ou vocal.

Em comparação com o último disco, Fome de tudo apresenta um trabalho ainda mais minucioso na produção – timbres variados e incomuns, efeitos eletrônicos e instrumentos vintage convivendo bem. A riqueza sonora é provável resultado da colaboração com o produtor Mario Caldato Jr. (Beastie Boys, Marcelo D2). Com o abrandamento dos tambores, mais discretos na mixagem (quando não eliminados de vez), sobressai a ginga instrumental. Mas o desequilíbrio entre forma e conteúdo deixa o resultado irregular. Exemplo claro do descompasso é a faixa “A culpa”. A canção traz uma das melhores levadas de guitarra do disco. Entretanto, a melodia pobre e o estilo vocal de Du Peixe – reto, sem nuances – derruba o bom groove. A mesma sensação contamina outras músicas, como “Bossa nostra”, “Infeste” e “Carnaval”. Ou mesmo “Toda surdez será castigada”, parceria com o compositor conterrâneo Junio Barreto.

À uma segunda ou terceira audição, alguns detalhes se destacam na massa sonora. Em “No Olimpo”, que fecha o disco, o sexteto afinal acerta um refrão cativante, em boa combinação com o arranjo menos frenético. “Inferno”, mais climática, conta com participação da cantora Céu valorizando a melodia sinuosa. “Nascedouro”, enraizada no samba, ganha ares de gafieira psicodélica quando entra a metaleira da Orquestra Popular do Recife. O peso da faixa-título recupera a pegada dos primeiros anos da banda, enquanto a mais eletrônica “Originais do samba” remete às experiências com beats e samplers de Afrociberdelia, o segundo disco, ainda com Chico (1996). E a intervenção vocal de Toca Ogan cai bem em “Assustado”, compensando o timbre mais rascante de Jorge.

Bônus: DISCO DA NAÇÃO ZUMBI CHEGA À INTERNET ANTES DAS LOJAS

Fome de tudo, o novo disco do grupo Nação Zumbi, era aguardado com tanta ansiedade, mas tanta ansiedade, que os fãs não se contiveram. O álbum – lançado pela Deckdisc, ao preço sugerido de R$ 27,90 – já circulava pela internet, em forma de arquivos MP3, vários dias antes de sua chegada às lojas, no começo da semana passada. Não se sabe pelas mãos de quem o CD “vazou” na grande rede. Entretanto, pela boa qualidade sonora dos arquivos (dos quais o JB pôde obter cópias, baixadas de um dos vários websites anônimos de compartilhamento de arquivos), tudo indica que os MP3 de Fome de tudo foram tirados de um CD já finalizado, igualzinho ao que foi para as lojas.

- Ficamos um pouco chateados, mas sabemos que é inevitável – comenta o guitarrista da Nação, Lucio Maia, sobre o aparecimento prematuro do repertório inédito na internet. Inacessível por telefone ou em contato ao vivo, Maia concedeu entrevista via mensagens de texto SMS, trocadas entre celulares.

Aceitando aquilo que o músico classificou como “inevitável”, a NZ se adiantou à febre do download ilegal colocando, com um mês de antecedência, as músicas do disco novo para audição gratuita (mas não para download) no endereço www.fomedetudo.com. Duas das canções novas também estão à venda na loja virtual da Deckdisc (www.deckpod.com.br), ao preço de R$ 0,99 cada.

- Sabemos e confiamos que apesar de o disco ter vazado, os verdadeiros fãs ajudarão à banda comprando o CD – acredita Maia.

Fome de tudo é o sétimo disco da Nação Zumbi e o primeiro do grupo pela gravadora carioca Deckdisc. Com 12 músicas, todas inéditas, o álbum chega às lojas com uma tiragem inicial de cinco mil CDs. Procurada para comentar o vazamento prematuro do álbum, a direção do selo não respondeu ao JB.

LEIA ANTES DE OUVIR, OUÇA ANTES DE MORRER.

Novembro 4, 2007

Publicado no Jornal do Brasil, dia 20/10/2007. A presente versão traz a entrevista com editor Robert Zimery na íntegra (no jornal sairam só meia-dúzia de frases do cara) e separadas do texto principal.

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Dizem por aí que o álbum musical está em seus últimos suspiros, sucumbindo às facilidades da internet e do MP3. Entretanto, é inegável que, seja em CD, seja em vinil, o álbum – aquele conjunto de canções organizadas numa seqüência mais ou menos temática, com capa e projeto gráfico combinando – foi e ainda é o formato que ajudou a definir a música pop. Servindo ao mesmo tempo como compêndio do formato e possível epitáfio para o apagar de suas luzes, o livro 1001 discos para ouvir antes de morrer (Ed. Sextante, 960 págs.) é um belíssimo resumo da era do álbum, reunindo 1.001 indicações de discos que ajudaram a construir a música popular moderna.

O jornalista Robert Dimery é o editor geral de 1001 discos…. Britânico, colaborador de revistas como Time Out e Vogue e co-autor de livros como Pump up the volume: a history of house, Dimery se debruçou sobre textos enviados por 90 jornalistas, escritores, radialistas e ensaístas (a grande maioria norte-americanos e britânicos) descrevendo a importância e as qualidades dos discos citados, o contexto histórico em que foram lançados e curiosidades sobre seus autores. Ilustrados com fartura, os verbetes estão organizados por ordem cronológica e boa parte deles inclui a capa do disco citado e sua lista de músicas, além de dados como ano de lançamento, gravadora, produtor e até designer gráfico.

O LP de 12 polegadas e 33 rotações e 1/3, o formato que possibilitou a introdução do álbum, surgiu em 1948. Mas historiadores concordam que In the wee small hours of the morning, disco lançado por Frank Sinatra em 1955, foi o marco inicial do álbum como conceito artístico. É justamente este LP que inicia a lista de 1001 discos…, seguindo até o recentíssimo The good, the bad and the Queen (2007), do grupo sem nome formado por Damon Albarn e Paul Simonon. Os outros 999 se concentram basicamente na área do pop-rock anglo-saxão. Mas, entre os campeões, Beatles e David Bowie (cada um com sete discos na lista) e os previsíveis Rolling Stones (seis), Bob Dylan (seis), Pink Floyd (quatro) e Bob Marley (três), há espaço para quase tudo. Jazz (Miles Davis, Thelonious Monk, John Coltrane), metal (Black Sabbath, Metallica, Motörhead), hip hop (Public Enemy, Outkast, LLCool J), country (Johnny Cash, Waylon Jennings, Loretta Lynn), eletrônica (Prodigy, Underworld, Kraftwerk), world music (Miriam Makeba, Khaled, Fela Kuti)…

Nesse mundaréu de discos, seria até injustiça não haver brasileiros na relação. E há. Os medalhões Chico Buarque (com Construção), Caetano Veloso (Circuladô e o álbum homônimo de 1968), Gilberto Gil e Jorge Ben (com o clássico Gil & Jorge) estão lá. E também Sepultura, Tom Jobim, João Gilberto (mais a filha Bebel e as ex-mulheres Miúcha e Astrud), Milton Nascimento… e até Carlinhos Brown, com seu Alfagamabetizado.

Bônus-track: o pingue-pongue completo com Zimery

Primeiro, as questões básicas. Quando surgiu a idéia de fazer o livro? E como o conceito do livro foi se desenvolvendo, à medida em que você compilava os verbetes?
Bem, a idéia surgiu há cerca de três anos. Sempre soubemos que o livro iria girar em torno do rock – quer dizer, o tipo de música popular baseada em guitarras, que tem dominado as paradas mundiais de forma constante desde a década de 1950. E esse conceito básico permanceu intocado até o final. Entretanto, queríamos muito citar alguns álbuns-chave de outros gêneros, que pudessem ser um modo de as pessoas conhecerem outras formas de música. Então você vai achar Frank Sinatra, Ravi Shankar, Manu Chao, Stan Getz e Miles Davis ao lado de Guns’n'Roses, The Smiths e White Stripes.

E como os colaboradores foram escolhidos?
Trabalhei com alguns dos colaboradores americanos e britânicos, então apenas liguei para eles e os convidei. Mas queríamos fazer um apanhado bom de escritores de outros países, então acionamos pessoas que pudessem contactar jornalistas que escrevessem em fanzines, revistas, sites e jornais mundo afora. Conseguimos jornalistas musicais da Espanha, Hungria, África do Sul e Austrália, por exemplo, o que ajudou a formar uma base mais internacional para a compilação. Acho que há muitos artigos realmente bons, apaixonados na lista – o tipo de texto que faz o leitor ter vontade de sair correndo atrás dos discos citados!

Listas de “melhores discos de todos os tempos” são facilmente encontráveis em revistas e sites. Você se diverte lendo-as?
Sim, eu gosto dessas listas todas. Afinal, eu sou um quarentão fã de música, e nossa tribo ama ler e fazer listas. Aquele filme Alta fidelidade é dolorosamente fiel à realidade!

Diria que 1001 discos… é a “lista para acabar com todas as listas?”, então? O que, em sua opinião, o faz acreditar que o livro pode se destacar no meio de tantas outras listas?
Eu provavelmente não escolheria os mesmos 1001 discos se estivesse fazendo o livro agora. O gosto da gente muda o tempo todo. Mas acho que o livro é um excelente ponto de partida para se descobrir mais sobre um pouco da melhor música pop feita nos últimos 50 anos. Acho que o livro se destaca das outras listas porque tentamos cobrir territórios menos previsíveis, juntamente com os inevitáveis Beatles, Dylan e Radiohead de sempre. Eu quis incluir coisas bem inusitadas – disquinhos que não venderam muito quando saíram, material de pequenas bandas independentes, álbuns que não se encaixam em gêneros ou classificações fáceis. Por último, sei que sou suspeito para falar, mas o livro ficou realmente bonito. Muito mais que a maioria dos outros volumes similares, que costumam ter apenas texto, sem fotos. O design foi criado por um cara chamado Tristan de Lancey, que tinha algumas idéias bem decididas sobre como o visual do livro deveria ser. Ele fez um grande trabalho.

Já ouviu todos os discos incluídos na lista? Quantos deles você possui, e quais são seus favoritos?
Não, não cheguei a escutar um por um. Embora, se conseguisse uns seis meses de folga num futuro próximo, possa tentar! Devo ter cerca de um terço dos discos que aparecem no livro. Mas é claro que editar um livro como esse realmente te inspira a procurar por nova música. Meus favoritos? Hmm, difícil! Sempre tive uma queda por guitarras jingly-jangly, como os Byrds ou The La’s. Também dou uma nota alta a Rufus Wainwright, um compositor realmente talentoso. E os Pixies foram os Beatles de sua geração, ainda gosto muito deles.

E quais dos discos citados você não suporta?
Odiaria ter de falar mal de qualquer um dos discos da lista! Acho que em cada um dos álbuns citados há alguma coisa interessante, de Britney Spears ao Einstürzende Neubauten, passando pelo Arcade Fire.

Por outro lado, quais discos surgiram como surpresas agradáveis – álbuns os quais você nunca tinha ouvido e descobriu enquanto fazia o livro?
Diria que Sam Cooke é hoje essencial para mim. E o Live at the Star Club Hamburg, de Jerry Lee Lewis, é o mais definitivo disco de rock’n'roll que alguém pode querer ouvir. Já conhecia ambos os cantores antes de começar o livro, claro, mas os considerava artistas de singles. Não sabia que podiam produzir álbuns tão consistentes, também. Eu provavelmente incluiria Night beat, mais um de Cooke, se estivesse fazendo o livro agora. E Missy Elliot. O jeito como ela revigorou o hip hop é extraordinário, e eu não conhecia bem o trabalho dela antes de começar o livro.

A lista de discos que emerge do livro é fortemente baseada em artistas americanos e ingleses. Mas há alguns brasileiros mencionados: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Carlinhos Brown. Você conhece o trabalho deles?
Tenho de admitir que meu conhecimento de música brasileira é muito limitado. Então foi excitante poder conhecer um pouco mais sobre os discos de seu país. Se o livro tivesse saído um ano mais tarde, me sentiria tentado a incluir o Cansei de Ser Sexy na lista; eles estão conseguindo um bom público por aqui. Já conhecia alguns dos discos clássicos de bossa nova, como o de Frank Sinatra com Tom Jobim. E adoro, adoro, adoro os Mutantes. Só no disco de estréia deles, há mais idéias do que na carreira inteira de muitas bandas. A mistura de vanguarda com pop que os Mutantes aperfeiçoaram é impossível de ser ignorada, e ainda influencia pessoas hoje em dia.

Qual seria o “melhor uso” para 1001 discos…? Acha que o livro pode ser usado como ponto de partida para alguém que está apenas começando a conhecer música pop? Ou, ao contrário, seria mais adequado para os colecionadores incuráveis, que já possuem a maioria dos (ou quase todos) álbuns mencionados?
No fim das contas, o livro é realmente uma introdução, para pessoas que já sabem qual é seu tipo de música favorito, mas que querem expandir suas coleções em novas direções. Escolher a lista foi, como você pode imaginar, um grande problema! Há alguns discos no livro que são conhecidos pela maioria das pessoas, mas se não tivéssemos incluido-os na lista, muita gente acharia que seria um jeito de “tirar onda”, excluindo discos clássicos. Como fazer uma lista dessas e não colocar Pet sounds ou Blonde on blonde, por mais que todo mundo já conheça esses discos? Entretanto, sei que os jornalistas que colaboraram com o livro conseguiram acrescentar fatos novos e histórias surpreendentes em seus textos, mesmo quando escreviam sobre os discos mais manjados. Acho que é um livro bastante “pesquisável – você começa a ler sobre um disco e antes de perceber já vai estar pulando páginas, procurando por outro bem diferente. Agora, os leitores podem não concordar com todas as opiniões contidas no livro. Ou mesmo com o conjunto de discos que a lista representa. Mas se mesmo assim, o livro fizer com que as pessoas procurem e descubram mais música, então acho que nosso dever foi cumprido. O livro é só um ponto de partida, daí em diante é com o leitor.