Acabou o Festival do Rio (na verdade, tem repescagem com alguns dos filmes mais procurados) e eu posto minha última batelada de microrresenhas.
Pindorama – A verdadeira história dos 7 anões – Roberto Berliner, Lula Queiroga & Léo Crivelare
Berliner (o diretor de A pessoa é para o que nasce) volta a enfocar indivíduos com necessidades especiais, que se viram para encarar um mundo não preparado para eles. No caso, os anões do título, que comandam um cirquinho itinerante em viagens pelo Norte e Nordeste. Os diretores evitam a condescendência e o sentimentalismo, mas chegam perigosamente perto do freakshow. O filme se safa pela espontaneidade do registro e da simpatia dos personagens. Na sessão do Festival, o público aplaudiu e riu como se estivesse mesmo num circo.
Maré, nossa história de amor – Lucia Murat
O cheiro de arroz queimado vinha de longe. Murat, diretora talentosa mas politicamente correta demais, fez um samba (ou um rap) do crioulo doido em seu novo longa. Mistura Romeu e Julieta, street dance, ação afirmativa nas favelas e guerra do tráfico em um musical (!) passado na comunidade da Maré. As boas intenções são evidentes, assim como a dolorosa obviedade da trama e a ruindade (de grande parte) dos atores. E Marisa Orth pagando de gostosona a essa altura ninguém mais merece, né não?
Controle, a história de Ian Curtis - Anton Corbijn
Esse era o único filme de todo o Festival que eu REALMENTE estava a fim de ver. Consegui, não sem algum sacrifício. Valeu a pena. Corbijn, com a ajuda da fenomenal incorporação do ator Sam Riley, conseguiu mergulhar nas complexidades da personalidade de Curtis – incluindo seu passado de adolescente glam, o casamento prematuro e infeliz e o contraste entre as tentações do circo pop e a vidinha medíocre que levava em casa. A fotografia, num P&B altamente estilizado, é primorosa. Ainda tem Samantha Morton, vivendo a viúva do suicida.
Condor - Roberto Mader
Documentário quadradinho, mas muito bem feito, sobre a Operação Condor. Em meio a vários filmes abordando temas semelhantes – ditadura, tortura, militância – o longa de Mader se destaca justamente por dar voz ao outro lado: o da repressão. Bons depoimentos (como o de Jarbas Passarinho e do chileno Manuel Contreras) e um trabalho de pesquisa bem-feito evidenciam o background jornalístico do diretor. Mas é aquela coisa: é pra se ver na TV, não há grandes vôos visuais e/ou de linguagem que justifiquem a tela grande.
Corpo – Rubens Rewald & Rossana Foglia
Selecionado na mostra Novos Rumos (para cineastas estreantes), este longa paulistano intrigou e confundiu a platéia em doses parecidas. No começo, parece que o protagonista Leonardo Medeiros vai repetir os maneirismos de seu personagem de Não por acaso, mas ele afinal consegue dar novas nuances à sua interpretação. O problema é que o roteiro abusa da implausibilidade. E o filme, como um todo, sofre com a falta de um tom narrativo bem definido, desperdiçando a originalidade de sua premissa inicial.
Meu nome é Dindi – Bruno Safadi
Longa de estréia do jovem diretor, formado em Cinema pela UFF, minha alma mater. Peixinho de Julio Bressane, Safadi conta a história de uma jovem quitandeira (Djin Sganzerla, herdeira de outro cineasta cultuado, Rogério Sganzerla) afogada em dívidas e sufocada por um cotidiano medíocre. O ritmo é lento e desigual. Muita gente saiu no meio – e no começo, e no fim – da projeção. O contraste entre o realismo seco da primeira parte do filme com o clima onírico e teatralizado da segunda desorienta (e desanima) um pouco.
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