Arquivo para Outubro, 2007

O DANÇANTE CATÁLOGO DE SAMPLES DO GIRL TALK.

Outubro 26, 2007

Entrevista com Greg Gillis, A.K.A. Girl Talk, que toca no TIM Festival deste ano. A presente versão traz a íntegra da reportagem, publicada com muitos cortes no Jornal do Brasil, dia 19/10/2007.

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Empregar trechos de músicas alheias para criar novas composições já foi revolucionário. Há tempos, no entanto, a prática foi banalizada por ondas sucessivas de hip hops radiofônicos sem imaginação. O produtor norte-americano Gregg Gillis é o homem que quer recuperar a ousadia e o experimentalismo do sampler. Com 25 anos, ele se apresenta no Tim Festival com o projeto Girl Talk, no qual ultrapassa todas as barreiras no uso criativo e radical do sampling. Em seu terceiro álbum, Night ripper, Gillis empregou mais de 250 samples, de 167 artistas diferentes, para criar as 16 faixas do disco.

– Manipular idéias musicais de outras fontes é a base da tradição da música popular. Acho que meu trabalho faz parte dessa tradição. Samplear outras canções ainda não é considerado um meio “legítimo” de fazer música, mas isso é só uma questão de tempo – diz Gillis ao JB, dos EUA, com datas marcadas para São Paulo (na boate The Week) no próximo dia 26, e, no Rio (Marina da Glória), no dia 27.

Pioneiros como o trio de hip hop De La Soul e o coletivo de produtores The Avalanches fizeram discos inteiros a partir de citações a outras músicas. Entretanto, o Girl Talk se diferencia pela quantidade espantosa de samples usados e pela maneira como os combina. Ouvir Night ripper é como ir a uma festa na qual o DJ “discoteca” combinando trechos de canções que pipocam em emissoras de rádio. Imagine uma canção (“Give and go”) que junta pedaços de canções de Phil Collins, Sonic Youth e Hall & Oates. Ou outra (“Once again”) que mistura The Verve, Eminem e Boston. E que tal Paula Abdul, Chicago e George Benson (“That’s my DJ“)? Britney Spears, Weezer, Elton John, Nirvana, Nine Inch Nails, Public Enemy: cabe de tudo, às vezes de modo reconhecível, às vezes não. O resultado espanta pela coerência.

Gillis teoriza um pouco sobre como o sampler mudou a face da música nos últimos anos:
- Não sei se o Girl Talk pode ser considerado a “nova geração” do sampling. Talvez meu trabalho seja apenas mais um passo nessa estrada. Hoje em dia, cada vez mais os garotos estão fazendo remixes por conta própria e pondo-os na internet. À medida que o ato de samplear se torna mais difundido, vai se tornar um lugar comum em todos os gêneros musicais. Pode-se chegar a tantos lugares diferentes com o sampler que não se pode pensar em uma linha evolutiva simples. Vão aparecer muitos mutantes.

Gillis lembra seus primeiros passos:
– Assim que me formei no ensino secundário, em 2000, comprei meu primeiro laptop e resolvi fazer um projeto musical baseado inteiramente em colagens de músicas de sucesso em FMs – explica Gillis, que, na adolescência, chegou a tocar em bandas de rock experimentais. – As possibilidades são infinitas. Ainda é um meio relativamente inexplorado, em comparação com instrumentos convencionais.

Ele segue:
- Na primeira banda de que participei, lidávamos com eletrônica mas também experimentávamos com formas de apropriação de músicas alheias. Trabalhávamos com CDs, manipulação de gravadores de quatro canais, colagens (com gilete e durex) de fitas cassete e também com rádios.

O produtor diz que levou cerca de um ano para catalogar e editar todos os trechos usados em Night ripper.
– Vivo constantemente sampleando pedaços de músicas e catalogando-os. Não me preocupo se vou usá-los. Nem tenho idéia de quantos CDs possuo, minha coleção é uma bagunça. No meu carro, vou ouvindo rádio e fazendo listas mentais de trechos para usar no futuro. É um processo infinito, de tentativa e erro. Às vezes trabalho por dias a fio sem achar um loop que se combine com os outros. Outras, sampleio um trecho que se encaixa de primeira.

Perguntado sobre suas influências primordiais, Gillis cita alguns pioneiros do sampling vindos do hip hop e da eletrônica.
- Toda a música pop que uso me influencia. Minha introdução ao sampler provavelmente foi com o Public Enemy, quando eu ainda era um garoto. Escutei muito hip hop na adolescência, então para mim o sampler sempre foi um instrumento como qualquer outro. Conheci o De La Soul nessa época. Olhando em retrospecto, hoje aprecio o trabalho deles de um modo mais profundo. Toquei com o DLS em um festival no verão passado, foi incrível. Acho que os artistas que me influenciaram diretamente vieram mais do campo experimental, gente como John Oswald, Negativeland e Kid 606. O remix que o 606 fez de “Straight outta Compton”, do N.W.A., realmente abalou meu mundo quando o ouvi, ainda no segundo grau. Foi aquela música que me levou a querer cortar e colar sons no computador.

Também espantosa é a performance do Girl Talk ao vivo. O produtor não trabalha como um DJ convencional. Mouse em punho, combina as batidas e trechos “ao vivo” em seu laptop, mudando radicalmente os formatos das músicas.

– Toda vez que o público ouve uma mudança na música, sou eu mexendo na mão. Cada batida, frase e vocal fica isolado no computador e crio os remixes ao vivo – explica.

O Girl Talk vai tocar no palco Tim Mash-Up, junto ao Spank Rock. O mash-up – ato de juntar duas ou mais músicas para criar uma terceira, geralmente feito de forma não-autorizada e amadora – é uma febre mundial, em pistas de dança e na internet. Gillis diz que está atento ao movimento, ainda que se defina como um artista experimental, e não um criador de dance music.

- Os mash-ups são uma influência definitiva sobre meu trabalho. Mas não me sinto conectado diretamente a qualquer cena. Acho sensacional quando vejo as pessoas dançando com as minhas músicas, mas nunca esperei esse tipo de reação do público. Minha intenção sempre foi fazer música divertida e interessante, mas não necessariamente dançante. Foi uma surpresa para mim o fato de DJs começarem a tocar minhas músicas. Nos EUA, eu náo me apresento em clubes ou boates; toco em casas de rock, e minhas performances são ao vivo. Nesse sentido, me sinto isolado da cultura da dance music.

Em tempos de debates sobre direitos autorais, é natural que o homem por trás do Girl Talk se preocupe com acusações de plágio ou apropriação indébita de composições alheias.

– Até o ano passado, não me importava com isso. O Girl Talk era underground demais para chamar a atenção. Mas agora a possibilidade de sermos processados aumentou. Sei que não estou prejudicando as vendas de quaisquer dos artistas que sampleei em Night ripper. Vejo o disco como uma forma de promovê-los, na verdade – diz Gillis, que, não por acaso, lança seus discos pelo selo Illegal Art (“arte ilegal”).

NENEH CHERRY: ESCONDIDA E ENTRE A FAMÍLIA

Outubro 15, 2007

Publicado no Jornal do Brasil, 11/10/2007.

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É preciso olhar com atenção e estar por dentro da história recente da black music internacional para reconhecê-la. Mas ela está lá, para quem quiser ver: na lista de atrações do próximo Tim Festival pontifica a cantora Neneh Cherry. Ela vem escamoteada, como membro do cirKus, banda que formou em 2006 com o marido, o produtor Cameron McVey, e a filha de 18 anos, Lolita Moon. O grupo toca no Tim nos dias 27 (Rio), 28 (Vitória) e 29 (São Paulo) deste mês.

– Estava cansada de ser sempre o centro das atenções como artista solo. Não quero mais ser a garota do pôster central. Dividir espaços na hora de fazer música é o mais relevante para mim agora – conta Neneh ao JB, por telefone, de Londres, andando pelas ruas entre um buzinar de carros e outro.

Por quase duas décadas, a cantora de 43 anos, nascida na Suécia como Neneh Mariann Karlsson, esteve no olho do furacão. Os mais desligados do universo pop podem achar que sua carreira começou e acabou com o megahit Seven seconds, dueto de 1994 com o senegalês Youssou N’Dour que até hoje segue firme na programação das FMs mais soft. A intérprete – filha adotiva do trompetista de jazz Don Cherry – iniciou a vida artística aos 14 anos, passando por várias bandas new wave na Inglaterra. Em 1989, estouraria como um dos pioneiros nomes femininos do hip hop, após seu primeiro disco solo, Raw like sushi.

– Já tinha ouvido falar do sucesso de Seven seconds no Brasil. Fico feliz por isso. Só que fiz várias outras coisas desde aquela época. Não parei de compor, mas quase nada do que produzi chegou ao CD. Trabalhei como DJ, participei de shows de freestyle rap (rap improvisado) e cantei com muita, muita gente – relembra Neneh, que acrescenta rindo: – E além disso tudo me tornei avó há três anos!

A cantora não lança disco solo desde 1996, quando fez Man, mas não ficou parada. Ressurgiu como convidada, entre outros, do Pulp, do Groove Armada e do Gorillaz. O cirKus, que mandou para as lojas no ano passado seu álbum de estréia, Laylow (não editado no Brasil), representa a volta oficial de Neneh Cherry ao cenário musical. Além do marido e da filha, Neneh conta com o guitarrista e DJ Matt Kent, namorado de Lolita.

– É realmente como trabalhar em família. Não tivemos que procurar por estranhos e dizer “vamos formar uma banda”. A banda sempre esteve lá – conta a cantora.

Ela segue:
– Gosto da relação que temos uns com os outros e também da nossa postura em relação ao mercado. Construímos nossa música sem pressa, como um quebra-cabeça: uma peça de cada vez. Isso realmente me dá muita alegria. Hoje em dia, se o artista se curva às gravadoras e não consegue um sucesso instantâneo, está perdido. Não é assim que funciona para nós.

Alternadamente dançante e intimista, o som do cirKus mescla batidas eletrônicas a instrumentos reais. Suas apresentações ao vivo podem tanto trazer a energia da dance music e do hip hop quanto abrir espaço para passagens cheias de soul.

– Tentamos reunir os vários tipos de música que nos inspiram e traçar paralelos entre os sons acústicos e a eletrônica. Matt, por exemplo, tem formação em violão clássico, mas é louco por drum’n'bass – define Neneh. – Usamos samplers a serviço das canções. Controlamos os computadores, e não o contrário.

Sobre os shows no Brasil, não entrega o jogo.
– Vamos começar a ensaiar esta semana e devemos incluir algumas inéditas no repertório. Mas também vamos preparar algumas covers-surpresa. Nosso show sobe e desce, tem passagens altas e animadas e outras mais calmas. Somos mais balançados ao vivo do que em disco.

É a terceira vez que Neneh Cherry vem ao Brasil. Ela cantou na encarnação anterior do Tim Festival, o Free Jazz, em 1999. E em 2005 veio a reboque do grupo do irmão, o cantor Eagle-Eye Cherry. Suas lembranças do país não diferem muito do imaginário dos visitantes estrangeiros.
– Conheci gente bonita, ouvi boa música, comi bem e tomei ótimos drinques… O clima do Brasil é bem diferente do que estou encarando aqui agora, nesta Londres chuvosa e cinzenta – brinca.

PEDE PRA SAIR, RESENHA DE ‘TROPA DE ELITE’!

Outubro 6, 2007

Se alguém ainda agüenta ler mais uma punhetagem sobre Tropa de elite, lá vai. Esta é a íntegra do texto que mandei para a revista Pipoca Moderna, que já está nas bancas (a capa é High school musical, hehe)

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Não deve ser por acaso que o filme brasileiro mais comentado, discutido e aguardado desde Cidade de Deus também verse sobre a violência no Rio de Janeiro. Tropa de elite reacende o debate indispensável sobre causas e conseqüências nessa história toda – e, é claro, também o debate sobre culpados e inocentes. Existem inocentes? A chapa é quente aqui na capital do “melhor e do pior do Brasil”. Expor esse calor no cinema já seria o suficiente para tornar o filme de José Padilha uma obra cercada de polêmica. Mesmo se não houvesse toda a grita sobre o lançamento antecipado do longa nas banquinhas dos camelôs amigos.

O difícil é conseguir analisar Tropa como um filme e não como um ensaio sociológico. Ainda mais para o público carioca. Padilha é narrador eficiente, sempre preocupado com a dimensão fílmica em primeiro lugar. As lições de História e Sociologia ficam fora da narrativa principal, assim como o viés ideológico. (Alguém percebeu que o candidato ao Senado que mantém um comitê na favela é do PSDB?) Subentende-se que a realidade vista no filme vem das décadas (séculos?) de descaso/ausência do Estado e da propensão quase patológica que o carioca – de todas as classes sociais – tem de conviver numa boa com a ilegalidade e a marginalidade. Deu no que deu, deu na bandidagem que a PM combate e na bandidagem que se instalou também dentro da PM. Essa dicotomia é o que interessa a Padilha – e também a “terceira via” que o Bope representaria, uma elite que tenta navegar contra a ineficiência, a corrupção e o moral baixo. Ah, e se possível dar um pau nos traficantes, quando dá.

Padilha já tinha feito uma arrepiante crônica da violência carioca: Ônibus 174, documentário sobre o traumático seqüestro do coletivo homônimo, em 2000. Em Tropa, o cineasta concentra-se na ação. Conta sua história por meio dos atos e palavras de seus personagens, sem impor didatismos ao espectador. As cenas de tiroteio nos morros são tensas e às vezes confusas, como devem ser as filmagens de um cinejornal cobrindo um conflito armado. Em sua estréia como diretor de ficção, o cineasta não se desvia do cânone do gênero policial. O roteiro é bem amarrado e repassa questões clássicas do gênero: tiras bons, tiras maus, corrupção, o perigo de se envolver demais com o trabalho, o estresse. O grande mérito do texto de Padilha, Bráulio Mantovani e Rodrigo Pimentel é apenas seu bom trabalho de observação. As ambigüidades e complexidades dos personagens nascem do dia-a-dia de cão a que um policial (bom ou mau) é submetido no Rio de Janeiro. Por outro lado, há algumas situações forçadas, outras pouco plausíveis e terceiras que não passam de clichês. O PM (vivido por André Ramiro) que, por acaso, se envolve com uma turma de universotários maconheiros é um exemplo. Os dramas de consciência do capitão Nascimento (Wagner Moura) idem. Mas os achados suplantam os tropeços, como no esquema que Neto (Caio Junqueira) arma para desviar propinas e usar a verba arrecadada para… consertar viaturas quebradas.

Como matéria-prima para reflexão, Tropa é um paiol de pólvora com pavio curtinho. O mais provável é que ninguém fique feliz com o filme. A classe média que paga de libertária e ao mesmo tempo sustenta (e faz negócios com) o tráfico fica mal na fita. A PM nem se fala. Mesmo os soldados do Bope, supostos heróis da história, são na melhor das hipóteses um mal necessário. Eles torturam, atiram primeiro e perguntam depois, soam antipáticos até para os próprios companheiros “convencionais”, os PMs de farda azul (a do Bope é preta). Tudo em nome de uma ética resumida numa riminha, logo no começo do longa: “Bope: faca na caveira, nada na carteira”. É terrível pensar que a luta contra a marginalidade no Rio exija a existência de homens como aqueles. Mais terrível ainda é pensar que estamos mal com eles, e estaríamos pior ainda sem eles.

Muita gente andou chamando o filme de “fascista”. Pode haver uma, hum, “vontade de fascismo” a partir do momento em que se coloca os fardas-pretas (fala, Benito!) do Bope como remédio amargo, mas necessário, dentro da urgência de se por ordem na casa. Se há alguma pecha negativa a se colar em Tropa é o fato, inegável, de sua mensagem ser reacionária. Entretanto – eis aí o pulo do gato que confundiu alguns dos afoitos críticos do filme – o filme de Padilha não fotografa só a realidade carioca, mas também reflete com clareza o pensamento da imensa maioria dos brasileiros, independente de classe social. O desencanto e a falta de perspectiva levam o brasileiro a ser reacionário, no tocante ao combate ao crime. As pessoas acham MESMO que a marginalidade não é uma questão social. Acham MESMO que bandido bom é bandido morto. E acham MESMO que as organizações da sociedade civil, sejam elas do Estado ou do terceiro setor, são ineficazes e corruptas. Tropa espelha a indiferença e a avidez das elites, o rancor e o individualismo selvagem da classe média e a brutalidade a que os pobres se renderam (ou, às vezes, preferiram mesmo, voluntariamente). O filme é reacionário porque quem o vê também o é.

Independentemente de seus méritos ou da falta deles, Tropa de elite já fez história. É um filme sobre criminalidade que virou, ele mesmo, um caso de polícia – depois da pirataria, etc. É também uma boa resposta a quem ainda se pergunta pela “razão de ser” (sic!) do cinema brasileiro. Podem dizer, até com razão, que o filme não apresenta nada que não seja lugar-comum nos telejornais. Entretanto, (re)ver essas cenas na tela grande, organizadas em uma narrativa eficaz, dá outra ressonância a todo o contexto. Uma ressonância que só o cinema é capaz. Mesmo se for (apenas) o cinema brasileiro.

DIÁRIO (OU QUASE) DO FESTIVAL DO RIO 2007 (epílogo).

Outubro 5, 2007

Acabou o Festival do Rio (na verdade, tem repescagem com alguns dos filmes mais procurados) e eu posto minha última batelada de microrresenhas.

Pindorama – A verdadeira história dos 7 anões – Roberto Berliner, Lula Queiroga & Léo Crivelare
Berliner (o diretor de A pessoa é para o que nasce) volta a enfocar indivíduos com necessidades especiais, que se viram para encarar um mundo não preparado para eles. No caso, os anões do título, que comandam um cirquinho itinerante em viagens pelo Norte e Nordeste. Os diretores evitam a condescendência e o sentimentalismo, mas chegam perigosamente perto do freakshow. O filme se safa pela espontaneidade do registro e da simpatia dos personagens. Na sessão do Festival, o público aplaudiu e riu como se estivesse mesmo num circo.

Maré, nossa história de amorLucia Murat
O cheiro de arroz queimado vinha de longe. Murat, diretora talentosa mas politicamente correta demais, fez um samba (ou um rap) do crioulo doido em seu novo longa. Mistura Romeu e Julieta, street dance, ação afirmativa nas favelas e guerra do tráfico em um musical (!) passado na comunidade da Maré. As boas intenções são evidentes, assim como a dolorosa obviedade da trama e a ruindade (de grande parte) dos atores. E Marisa Orth pagando de gostosona a essa altura ninguém mais merece, né não?

Controle, a história de Ian Curtis - Anton Corbijn
Esse era o único filme de todo o Festival que eu REALMENTE estava a fim de ver. Consegui, não sem algum sacrifício. Valeu a pena. Corbijn, com a ajuda da fenomenal incorporação do ator Sam Riley, conseguiu mergulhar nas complexidades da personalidade de Curtis – incluindo seu passado de adolescente glam, o casamento prematuro e infeliz e o contraste entre as tentações do circo pop e a vidinha medíocre que levava em casa. A fotografia, num P&B altamente estilizado, é primorosa. Ainda tem Samantha Morton, vivendo a viúva do suicida.

Condor - Roberto Mader
Documentário quadradinho, mas muito bem feito, sobre a Operação Condor. Em meio a vários filmes abordando temas semelhantes – ditadura, tortura, militância – o longa de Mader se destaca justamente por dar voz ao outro lado: o da repressão. Bons depoimentos (como o de Jarbas Passarinho e do chileno Manuel Contreras) e um trabalho de pesquisa bem-feito evidenciam o background jornalístico do diretor. Mas é aquela coisa: é pra se ver na TV, não há grandes vôos visuais e/ou de linguagem que justifiquem a tela grande.

Corpo – Rubens Rewald & Rossana Foglia
Selecionado na mostra Novos Rumos (para cineastas estreantes), este longa paulistano intrigou e confundiu a platéia em doses parecidas. No começo, parece que o protagonista Leonardo Medeiros vai repetir os maneirismos de seu personagem de Não por acaso, mas ele afinal consegue dar novas nuances à sua interpretação. O problema é que o roteiro abusa da implausibilidade. E o filme, como um todo, sofre com a falta de um tom narrativo bem definido, desperdiçando a originalidade de sua premissa inicial.

Meu nome é Dindi – Bruno Safadi
Longa de estréia do jovem diretor, formado em Cinema pela UFF, minha alma mater. Peixinho de Julio Bressane, Safadi conta a história de uma jovem quitandeira (Djin Sganzerla, herdeira de outro cineasta cultuado, Rogério Sganzerla) afogada em dívidas e sufocada por um cotidiano medíocre. O ritmo é lento e desigual. Muita gente saiu no meio – e no começo, e no fim – da projeção. O contraste entre o realismo seco da primeira parte do filme com o clima onírico e teatralizado da segunda desorienta (e desanima) um pouco.

EM LIVRO SOBRE D2, NINGUÉM DO PLANET FALA

Outubro 2, 2007

Entrevista com Bruno Levinson, em torno do livro que ele escreveu sobre Marcelo D2. Publicado no Jornal do Brasil, 13/09/2007.

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Um vacilão com caráter – eis o resumo da personalidade de Marcelo D2. Quem traça esse esboço é Bruno Levinson, jornalista, produtor cultural e amigo íntimo do homem que fundou o Planet Hemp e emplacou a mistura de rap com samba nas paradas de todo o país. Levinson é o autor de Vamos fazer barulho, primeiro livro sobre a vida e a obra de D2. Personagem e escritor lançam o volume (Ediouro, 240 páginas) na Bienal Internacional do Livro, sábado, às 19h30.

– Marcelo é um canalha! – brinca Levinson. – Dou um exemplo: ele mesmo me garantiu que faria o prefácio do livro. E não entregou! Vai sair sem o texto dele. Por outro lado, é um cara coerente, ético. É afetuoso e trabalha pra caramba.

Com o subtítulo Uma radiografia de Marcelo D2, o livro desvia-se da biografia convencional ao apostar em entrevistas no esquema pingue-pongue – com o próprio D2, as mulheres de sua vida, a mãe e o empresário Marcelo Lobatto. Depoimentos de outros artistas e personalidades do meio musical completam o panorama.

– A idéia era mostrar como o D2 é por dentro, daí o termo “radiografia”. E também tem um componente pessoal meu muito forte no texto – narra Levinson, que conhece o cantor desde antes da fundação do Planet e abrigou em seu festival, o Humaitá Pra Peixe, os primeiros shows importantes, tanto do grupo, quanto de D2 em carreira solo.

As múltiplas polêmicas que o cantor acumulou ao longo da carreira são abordadas com franqueza (leia trechos do livro no quadro ao lado abaixo).

– Falamos de drogas, da relação que ele tem com dinheiro, dos defeitos – conta o autor. – D2 é um sujeito que não nega a si mesmo. Com ele, o papo é reto, sem enrolação. Essa mesma característica fez o cantor acumular alguns desafetos pelo caminho.

– Os membros do Planet Hemp não quiseram dar depoimento para o livro. Respeitei isso, não quis forçar a barra, mesmo porque também sou amigo deles – diz Levinson.

Em cerca de 15 anos de carreira, D2 foi de maconheiro perseguido pela lei ao atual status de músico inovador, empresário de moda e queridinho da mídia. Levinson diz que o caminho não mudou o homem:
– Na verdade, ele é isso tudo e muito mais. A fera não foi amansada: tornou-se mais complexa.
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Maconha (e mais), cadeia, sucesso: trechos do livro

Drogas
“Eu não lembro a primeira vez que vi maconha. Mas era comum. (…) Hoje em dia se fuma muito mais. Os moleques ficam lesados! (…) Lembro uma vez que acordei numa ressaca na casa de uma amiga. Uma puta bad trip. No dia anterior eu estava doidão. Fiquei mal, mas não demorava muito e já tomava outro ácido (…) Estávamos curtindo. Eu queria ser um doidão e ter uma banda. Nessa época eu fui.”

Planet Hemp x carreira solo
“Quando fui fazer meu primeiro disco solo, ele (o baterista do PH, Bacalhau) deve ter se sentido ameaçado. Aí (…) a gravadora me ligou querendo saber o que estava havendo. Se eu tinha saído da banda (…) Quando a gente foi gravar, todo mundo estava naquela de reclamar de tudo. Eram nove na banda. Os caras saíram. O Zé (DJ Zé Gonzales) e o Gustavo ficaram meio bolados, achando que não mereciam. Fiquei brigado com toda a galera, mas é isso mesmo.”

A prisão, em 1997
“(…) Começou o boato que a gente ia ser preso, começaram (sic) a ter shows cancelados. (…) Voltamos para o camarim (…) e o cara (o delegado que prendeu a banda) estava se achando o Rambo. (…) Levaram a gente pra uma cela com chão de cimento, frio pra caralho… Ficamos sete dias lá. Cinco dias sem sair da cela.”

Sucesso, grana, fama
“Hoje o cara da padaria, da farmácia, do mercado me conhece. Ando na rua e todo mundo me chama. (…) Sinto uma certa carga de olho gordo. Mais dinheiro significa mais problemas. (…) Sonhar mais? É lógico. Eu tenho um carro, mas se eu posso trocar por um melhor, o dinheiro não vai me fazer falta. Qual o problema?”