Arquivo para Setembro, 2007

DIÁRIO (OU QUASE) DO FESTIVAL DO RIO 2007 (PARTE III):

Setembro 28, 2007

Sem mais delongas, duas novas microrresenhas.

AndarilhoCao Guimarães
Cao é autor de um dos filmes mais chatos da história do cinema: Acidente. Com seu novo documentário, recupera a moral sem abrir mão de seu estilo peculiar. O diretor parece ser obcecado pela aleatoriedade. E aqui encontra o tema perfeito: as andanças (e as filosofanças bem doidas) de três mendigos anônimos pelas estradas de Minas. É cabeçudo, cansa um pouco (por conta da câmera paradona e bem abstrata, quase videoarte), mas diverte e faz pensar. Muita gente foi embora no meio da sessão, infelizmente.

Estômago – Marcos Jorge
Talvez o filme nacional mais aguardado do Festival (fora Tropa de elite, claro) o primeiro longa do paranaense Jorge não decepciona. É uma curiosa comédia de humor negro na qual volúpia e morte se irmanam sob uma metáfora: a fome. João Miguel alterna-se entre o hilário e o perturbador como um retirante que vira cozinheiro em uma cela de cadeia. O caminho até a prisão, vê-se ao longo do filme. Apesar da trama contar com situações um tiquinho previsíveis, as boas performances garantem a credibilidade.

O ANTI-CRISTO ESTÁ ENTRE NÓS (DE NOVO).

Setembro 25, 2007

Marilyn Manson está entre nós. O monstrão toca hoje (dia 25) na Fundição Progresso  (RJ), amanhã em Sampa e na quinta, no VMB. Repórter diligente que sou, bati um papo com o cara alguns dias antes de sua chegada. Não sou particularmente fã do rapaz, mas não deixei de tirar uma certa onda.  A entrevista estava marcada para as 20h de um sábado à noite. Quando os amigos no boteco perguntaram para onde eu estava indo com tanta pressa, respondi, blasè: “Preciso ir, o Marilyn Manson vai ligar lá pra casa…” Quantas vezes se tem a chance de soltar uma frase dessas?  Publicada no Jornal do Brasil, em 17/09/2007.

Controverso, eu? O cantor que já lançou um disco chamado Anticristo superastro, tomou seu nome artístico emprestado de um psicopata e foi citado como “inspiração” para os adolescentes que promoveram o massacre de Columbine (EUA), em 1999, prefere o termo “provocativo”. Marilyn Manson, o príncipe coroado do shock rock, em breve estará entre nós de novo; ele se apresenta na Fundição Progresso, no próximo dia 25, seguindo depois para São Paulo (onde toca dia 26 no Via Funchal e, no dia seguinte, no Video Music Brasil, premiação da MTV). Em entrevista ao JB, por telefone, dos Estados Unidos, ele diz que nada mais pode ser mais chocante do que a realidade.

– Especialmente nos EUA, as pessoas ainda confundem ironias e expressões artísticas com afirmações sérias – diz o cantor. – Muitas das coisas que falo sobre política e religião precisam ser ditas. Ao mesmo tempo, não sei como o público pode se chocar com o que faço ou digo. O noticiário na TV e nos jornais, isso sim, é assustador.

Nascido em 1969 com o nome de Brian Warner, MM vem liderando a banda que também leva seu nome desde 1989. Lançaram seis álbuns de estúdio e conquistaram uma pilha de discos de ouro e platina. De lá para cá, seu sucesso de público emparelha com as múltiplas polêmicas que o cantor vem acumulando – graças à sua imagem andrógina, suas letras e comentários ácidos sobre o conservadorismo dos EUA e seu comportamento ultrajante (incluindo drogas de montão e sexo bizarro). O cantor prefere classificar os críticos que se fixam em sua imagem e postura pessoal como “preguiçosos”.

– Nada do que faço é apenas para causar polêmica vazia. O conceito que está por trás do que digo é simples: deixem as pessoas serem o que elas quiserem ser. Eu mesmo só luto por isso – diz.

Ao mesmo tempo, Manson não nega que gosta de flertar com o ultraje. Afinal, escolheu o nome Humbert Humbert como pseudônimo para ficar incógnito no hotel de onde recebeu a ligação do JB. É o nome do personagem principal de Lolita, o romance de Vladmir Nabokov sobre um pedófilo e sua amante-enteada de 13 anos.

– Longe de mim querer me comparar a Nabokov. Mas acho que a maneira como ele combinava as palavras se parece com a minha. São estilos parecidos – arrisca.

O Brasil se reencontra com um Manson (ele já passou por aqui em 1997) renovado. Seu mais recente disco, Eat me, drink me, lançado em junho, traz composições que – de uma forma inédita para o cantor – falam de temas bastante pessoais. Problemas com drogas e álcool, uma severa depressão (que o levou a contemplar o suícidio) e sua separação da modelo Dita Von Teese se refletem em músicas como If I was your vampire e Heart-shaped glasses.

– Cantando essas canções hoje, tenho sentimentos divididos. Sinto-me triste ao relembrar o que as inspirou, mas, ao mesmo tempo, em frente ao público, as músicas soam mais reais e verdadeiras – reflete.

O cantor fala que o processo de composição e gravação do disco salvou sua vida.

– Foi uma ressurreição como artista e como pessoa. Eu precisava voltar a ouvir a mim mesmo, o que eu dizia em minhas letras. Antes, era como se não acreditasse mais no que tinha a dizer. Acho que agora voltei a me comunicar com o público; me sinto capaz de seduzi-lo, mais uma vez – conta.

Para Manson, Eat me, drink me encerra sua fase de observação crítica da sociedade ianque e inaugura uma nova temática, mais universal e, ao mesmo tempo, mais introspectiva.

– Já me tornei parte da cultura norte-americana, a mesma que critiquei por tanto tempo. Agora quero falar da minha alma. Não no sentido religioso, mas no da inspiração artística. Minha religião é a minha arte.

Se essa última afirmação é verdadeira, MM deve servir a vários senhores. Além da música, ele desenvolve uma carreira como artista plástico e vem aumentando seu envolvimento com o cinema. Junto com a turnê brasileira, entra em cartaz em São Paulo (na galeria Romero Britto) uma exposição com suas pinturas. São aquarelas retratando os mesmos temas que abundam em suas canções: morte, patologias, vícios e demais sentimentos sombrios.

– Pinto um quadro quando preciso expressar algo, mas não consigo colocar a sensação numa canção – narra Manson, que se dedica às artes plásticas desde 1999. – Nunca havia pensado em expôr minhas obras. Para o Brasil, vou levar 50 quadros, alguns deles nunca vistos pelo público.

No cinema, o cantor começou atuando (participou de A estrada perdida, de David Lynch, 1997) e prepara-se para estrear como diretor. Em 2005, anunciou que iria dirigir Phantasmagoria, baseado nos escritos de Lewis Carroll (autor de Alice no país das maravilhas). Sua atual namorada, Evan Rachel Wood (de Aos treze), é a mais cotada para o papel de Alice.

– O filme está parado. Gravar Eat me, drink me e mostrá-lo ao vivo era mais imediato para mim. Minha mente está trancada na música agora. Depois de terminar a turnê, retomarei o trabalho no longa. Passar por esses diferentes tipos de expressão artística me fez enxergar melhor meus limites como criador. A inspiração para cada uma das formas de arte chega a mim de formas diferentes. Por exemplo, em 2006 eu não queria saber de música; este ano, só penso nisso – resume.

DIÁRIO (OU QUASE) DO FESTIVAL DO RIO 2007 (PARTE II)

Setembro 24, 2007

O Festival prossegue e a chapa só esquenta. Não consegui ver filme algum desde o último post – quer dizer, filme algum que eu quisesse ver, por vontade própria. Procês terem uma idéia, ataquei até como mediador de debate! De quaisquer modos, seguem as microresenhas do período. Ah, antes que perguntem: sim, assisti a Tropa de elite, mas como o Marcel me pediu uma resenha do filme, não vou postar nada sobre a fita por enquanto. Esperem a revista chegar às bancas.

S.O.S. saúdeMichael Moore
O novo panfleto de Moore contra a elite neo-con ianque ataca o sistema de planos de saúde nos EUA. O diretor consegue organizar sua narrativa de forma atraente. E claro que a realidade retratada no filme é grave. Mas comparados com o descalabro em que nossa saúde pública se encontra, os problemas que MM relata são, no máximo, aborrecimentos… o que torna o filme inútil (e até irritante) para o público brasileiro. Comparações estapafúrdias e muito sentimentalismo tornam a obra ainda menos tragável.

Nome próprioMurilo Salles
Sim, é o filme extraído dos escritos de Clarah Averbuck, avatarizada (existe isso?) na tela por Leandra Leal (trashy, mas gostosa). As confissões de Camila (Leandra) na verdade não são nem mais, nem menos chocantes que o cotidiano de tantas outras doidinhas soltas por aí. E Salles estica demais o filme, parecendo enlevado além da conta pela personagem. Ainda assim, há um punhado de cenas ótimas – como a seqüência na qual Camila sucessivamente rejeita, seduz, briga e ao final trepa com um playboy de Ribeirão Preto (!).

Memória para uso diário – Beth Formaggini
Documentário sobre o trabalho do Tortura Nunca Mais. A narrativa mostra a luta da organização para descobrir o paradeiro de militantes presos durante o governo militar – e a expansão dessa luta, incluindo agora vítimas de desmandos de violência policial. O uso de vários focos narrativos/dramáticos ajuda a segurar a atenção.Vale ver pelo bom trabalho de pesquisa, que inclui cenas impressionantes da repressão do Exército aos militantes armados (rola até avião tacando napalm nos guerrilheiros do Araguaia).

DIÁRIO (OU QUASE) DO FESTIVAL DO RIO 2007 (PARTE I).

Setembro 18, 2007

Começou a grande bagunça :) )) que o pessoal do Grupo Estação teima em chamar de Festival do Rio. Quer dizer, o festival mesmo só começa na sexta (dia 21), mas as sessões prévias de filmes para a imprensa já estão rolando ferozes. E eu, mais por força do ofício do que por vontade, estou comparecendo. Vou postando por aqui microresenhas de 500 toques – inspiradas no esquema que o Mac criou para lançamentos de CDs – dos títulos que estou assistindo. Considerem esses posts meu diário pessoal da maratona, sem muito compromisso com análises apuradas ou pensatas profundas.

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Eu não quero dormir sozinhoTsai Ming-Liang
Muito choro e ranger de dentes na sessão para a imprensa do novo filme de Tsai Ming-Liang. Em quase duas horas, conta-se nenhum (eu disse nenhum) movimento de câmera, planos longuíssimos e virtual ausência de diálogos (compensada com uma trilha sonora onipresente). É a radicalização da estética seca testada pelo cineasta em O rio e O buraco, que parece querer testar a paciência do espectador ao máximo. Quem sobreviver apreciará uma crônica intrigante sobre a aridez da vida nas metrópoles asiáticas.

I’m a cyborg, but I’m ok - Park Chan-Wook
Park Chan-Wook é mesmo um cineasta surpreendente. Conhecido pela ultraviolência de Oldboy e seu segmento de Três… extremos, o coreano retorna com uma comédia surreal. É a história de uma jovem que cisma ser um robô e é mandada para um hospício, onde vai conhecer figuras tão ou mais loucas que ela. É galhofa pura, mas com direito a um lirismo inusitado, passagens francamente oníricas e, sim, violência (mas no contexto bobão do resto do filme). Um excelente trabalho de câmera/composição visual mantém a atenção.

Um mundo livreKen Loach
É incrível pensar que o mesmo Ken Loach que dirigiu Terra & liberdade e Meu nome é Joe seja o responsável por este longa. Na prática o cineasta não mudou sua abordagem – a dramaturgia e as relações entre os personagens são só pretextos para comentários político-sociais. Mas Loach parece ter perdido a mão, fazendo um filme tão óbvio e didático quanto um episódio do Telecurso. Nem mesmo a conhecida boa mão do inglês com a direção de atores (que se faz sentir, apesar de tudo) confere credibilidade à trama.

Fay Grim - Hal Hartley
Hal Hartley foi um dos meus heróis nos anos 90 – grandes sessões de Confiança e Simples desejo no Cine Arte UFF, quem lembra? Esta é a continuação de Henry Fool (1997) que, se não me falha a memória, nem chegou a ser lançado aqui. Hartley continua na essência o mesmo, mas menos inspirado. O senso de humor fora de tom e o estilo de condução de atores (artificial, peculiaríssimo) estão lá. Entretanto, o roteiro – que começa como uma comédia de espionagem – tropeça, no terço final, no falatório e num clima sombrio demais.

DOSSIÊ – CRISE DA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA (PARTE IV)

Setembro 16, 2007

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E segue a série de matérias sobre o miserê da indústria fonográfica. Diferentemente das reportagens anteriores que publiquei sobre o assunto (que podem ser lidas aqui, aqui e também aqui)  esta tem um tom mais otimista. Está fresquinha ainda: saiu neste sábado (dia 15) no Jornal do Brasil, com o título (que não foi meu) O CD não está morto.  Modéstia à parte, acho que me saí bem no trabalho de repórter investigativo :) ))

Ainda não está na hora de (re) abrir o champanhe. Mas é fato: gravadoras e lojas de CD têm tido, nos últimos meses, motivos para esboçar discretos sorrisos, depois de um longo e tenebroso inverno atormentadas por pirataria e downloads ilegais. Dados coletados sobre o mercado fonográfico indicam que em julho passado houve um aumento de 11% nas vendas de CDs e DVDs em relação ao mesmo período do ano passado. Esses números, obtidos pela firma de consultoria AC Nielsen, representam o primeiro resultado positivo no setor desde que a empresa começou sua auditoria regular, em 2005. Através de sua assessoria de comunicação, a Nielsen divulgou que não confirma os dados – alegando tratar-se  de informações confidenciais, destinadas apenas a empresas da área.
O Caderno B, entretanto,  obteve confirmação dos números, e também apurou que houve um aumento de 10,7% no faturamento oriundo da venda de CDs. E, em conversa com figuras de proa da indústria, constatou que há, sim, motivos para desapertar o cinto. Ao menos um pouquinho.

Paulo Rosa, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Disco (ABPD), esclarece a razão do sigilo sobre os dados levantados pela Nielsen, sem deixar de festejar os bons números constatados:
– Os relatórios são fruto de monitoramento eletrônico do varejo de música, e são privativos das companhias que assinam o serviço. Mas a informação de que houve aumento no varejo das vendas de CDs é bastante positiva.

– Gosto de dizer que não vivemos mais uma crise, e sim o final de uma transição – diz Marcelo Castello Branco, presidente da EMI Brasil. – Esta tendência de crescimento de vendas é dinâmica e estável.

Marcus Fabrício, gerente nacional de vendas da Sony-BMG, prefere um otimismo mais cauteloso:
– Pode-se falar numa ”luz parcial“ no fim do túnel. De fato houve um crescimento, mas o momento ainda é de estancar as perdas.

A auditoria da AC Nielsen acompanha as vendas nos grandes varejistas (Lojas Americanas, Extra, Carrefour) e cadeias especializadas (como  FNAC e Saraiva). Os números positivos são confirmados pelos comerciantes.

– A venda de CDs vem crescendo há seis meses, em volume de unidades e faturamento. Houve um aumento de 10% em relação a 2006 – confirma Benjamin Dubost, diretor comercial da FNAC no Brasil. 

Mesmo estando fora do levantamento feito pela Nielsen, o lojista de rua (o que mais sofreu com a crise da indústria fonográfica) também comemora a lenta melhora do mercado. Cláudio de Almeida, dono da loja EscutaSom, instalada na Rua do Rosário, no Centro do Rio, pula de felicidade:
– Há pelo menos três meses tenho visto mais fregueses. A garotada continua baixando música e comprando pirata, mas o público acima de 30 anos está comprando mais.

Não há muito mistério nessa recuperação aparentemente milagrosa do CD. Vende-se mais discos hoje porque eles nunca estiveram tão baratos. A redução de preços se combina a uma série de iniciativas desde o começo, como o lançamento do CD Zero (pela Sony-BMG) e o MusicPac (da Universal).

– Desde 2005 baixamos nossos preços em 50%, em média. Mas por muito tempo o consumidor não tinha reparado isso. E nos últimos meses ele vem finalmente percebendo – garante Castello Branco.

Marcus Fabrício cita números:
– Conseguimos reduzir os preços não só dos discos de catálogo, mas também dos lançamentos. Em 2005 um CD de artista brasileiro popular podia chegar ao público por R$ 29,90. Agora ele é vendido por no máximo R$ 19,90. Isso mostra ao consumidor nossa disposição de atraí-lo de volta às lojas.

Apesar da anunciada morte do CD como formato prioritário da indústria fonográfica, o aumento nas vendas sinaliza uma sobrevida possível para o disquinho prateado, que completou há pouco 25 anos de criação.

– O CD ainda tem muito tempo de vida e potencial de vendas. Apostamos no formato sem medo – diz Dubost, da FNAC.

ÂPIDEITES (2).

Setembro 9, 2007

Muitas coisas têm acontecido em minha nada mole vida ultimamente, o que tem me impedido de postar aqui com regularidade. Voltei a trabalhar na redação do Jornal do Brasil, me virando entre o Caderno B e a revista Programa – vamos ver até quando minha exaurida carcaça aguentará o rojão. Outros projetos paralelos também têm exigido minha atenção, sugando meu já exíguo tempo livre.

Minha contribuição à revista Pipoca Moderna está nas bancas, com uma versão editada de minha resenha do filme Alpha dog. Leiam! Em breve também atingirei as bancas com um textinho a sair no próximo número da revista M…, cria do amigo Ulisses Mattos. E estou frenético no JB – estreei fazendo o obituário do Pavarotti, matéria de duas páginas no B.

O t.d.v. atingiu, desde 27 de maio, o total de 10.803 visitas (números de 9/09/2007, atualizados às 13h23, hora local). Sei que existem blogs com audiência estupidamente maior, mas estou feliz com minha repercussão atual. Se eu ganhasse R$ 1 por cada visita, não precisaria mais trabalhar… tanto. Agradeço penhoradamente o apoio do Sr. Marcelo Costa, dono do portal Scream & Yell (ou, como saiu grafado numa filipeta por aí, “Screaming Yell”), nessa disputa pelos cliques dos internautas.

Aproveito para dar um âpideite na lista de termos que o pessoal anda digitando no Google pra chegar até meu modesto recanto virtual.

O troféu Maldita Inclusão Digital! vai para:

“musica para baixa do de grasa”
“amaior imais antiga loja de magicas”
“local onde se compra ingresos para sho”
“w.w.w.baixahits.com.br”
“pessoas que nao sabe perder”

Já o prêmio Interesses Sexuais Heterodoxos fica com:

“filmes de rapazes transando com velhas”
“wagner moura nu” e (inevitavelmente, acho) “lazaro ramos nu”
“bart e lisa transando”
“mocinhas fodendo”
“sharon stone transando” (tá, esse até me interessa)

E no quesito Bizarria Pura:

“banda favorita de Gloria Pires”
“CEARA” + “finatti”
“igreja evangelica de roqueiros de sao paulo”

NOVA ÁREA DE COBERTURA.

Setembro 5, 2007

Matéria que fiz para o JB em abril de 2005, tendo como gancho o boom dos eventos e casas de espetáculos patrocinados por telefônicas aqui no Rio. Deu bastante trabalho para apurar e terminar o texto (que por sinal ficou bem capenga, com erros de gramática e tropeções de estilo, devidamente corrigidos aqui. O fechamento foi para lá das duas da madrugada, se isso vale de desculpa). Publicada numa sexta-feira, na revista Programa, a reportagem me deu uma satisfação extra. No dia seguinte, uma matéria EXATAMENTE COM O MESMO GANCHO foi capa do Segundo Caderno! Até a ilustração da página estava parecida! Imagino a cara dos coleguinhas da Irineu Marinho ao ver a Programa, um dia antes…

Âpideites: de 2005 pra cá, a Vivo construiu sua própria casa de espetáculos, o Vivo Rio (uma construção cercada de polêmicas, conforme retratado em uma boa reportagem publicada na Piauí deste mês), instalado no Museu de Arte Moderna. Com a inauguração da casa, o TIM Festival foi corrido do MAM e agora se abriga na Marina da Glória. A etapa carioca do Claro que É Rock, realizado em setembro de 2005, foi um dos maiores fiascos da história do entretenimento brasileiro – quem foi, lembra. A mesma operadora abriu mão do antigo Metropolitan, que passou a se chamar Credicard Hall Citibank Hall. O Canecão não tem mais a chancela da Embratel e agora se chama oficialmente Canecão Petrobras. O PercPan também está ao lado da Petrobras, tendo dispensado a associação com a TIM.

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Num passado nem tão remoto, a única associação possível entre telefonia e diversão era o ato de ligar para os amigos e combinar algum programa. Alguém se lembra dessa época? Nos últimos anos, porém, ficou impossível dissociar os grandes eventos culturais da cidade das onipresentes companhias de telefonia móvel – semana sim, semana também, as quatro gigantes do ramo anunciam novos shows e festivais. Em comum, dimensões gigantescas, muito marketing e atrações que jamais passam despercebidas.

Neste fim de semana, é a vez de TIM e Vivo batalharem pela atenção do público. A primeira empresta a logomarca e dinheiro ao tradicional PercPan, encontro multinacional de percussionistas que já existe há mais de uma década – suas principais atrações são Gilberto Gil e grupos da Tanzânia e do Congo, que se apresentam nesta sexta no Teatro Carlos Gomes. Já a Vivo abre o cofre no Vivo Open Air (a um custo de R$ 10 milhões), um festival que reúne filmes ao ar livre num telão gigantesco e uma programação de bares e festas transados no Jockey Club, na Gávea. Daqui a três semanas, a Claro contra-ataca com a grande atração internacional do mês, a cultuada banda de rock Placebo.

Essa movimentação das telefônicas na agenda cultura carioca encerrou um hiato de grandes atrações internacionais na cidade, que perdurou por um par de anos depois que uma lei, em 2002, proibiu a vinculação de marcas de cigarro a eventos para o público jovem, como os extintos Hollywood Rock e Free Jazz Festival. Desde a entrada das operadoras no mercado, esse vácuo vem sendo preenchido. Nos últimos dois anos, já passaram pela cidade White Stripes, k.d.Lang, Chrissie Hynde, Iron Maiden, Coldplay, Macy Gray e, mais recentemente, Norah Jones e Lenny Kravitz – sempre associados a uma das quatro companhias de telefonia móvel, direta ou indiretamente.

- A participação das telefônicas ampliou esta cena. Tivemos alguns anos carentes de eventos superproduzidos por falta de quem pudesse entrar com patrocínio – elogia o músico Rogê, produtor do festival Claro Rio de Verdade nas Quintas de Janeiro, na Marina da Glória, que desde seu lançamento em 2001 conta com o apoio da operadora de celulares.

Não falta, contudo, o coro dos descontentes. Gente que desafina com as festas e passa à margem dos eventos mais badalados da cidade – alguns por falta de convite; outros por falta de vontade. Coordenador da Fundição Progresso, o veterano agitador cultural Perfeito Fortuna mantem com as teles uma relação amistosa – mas distante. E garante que há vida inteligente disassociada dos telefones celulares.

- Por definição, somos artistas livres desse tipo de compromisso. Temos nossa própria marca a zelar, que é a independência. Apesar dos apertos momentâneos, preferimos continuar com essa resistência. Neste sentido, me sinto como um dinossauro, até – brinca o produtor, que já abrigou na Fundição espetáculos apoiados por telefônicas, mas não tem a mínima intenção de associar o tradicional espaço multicultural da Lapa ao nome de patrocinador algum.

Perfeito, é bem verdade, deve ser visto como a exceção que confirma a regra. Alguns até recebem o convite; a maioria, no entanto, bate na porta das telefônicas a fim de associar seus eventos às marcas das operadoras. Beth Cayres, organizadora do TIM PercPan, afirma que não seria possível a etapa carioca (a “matriz” do festival fica em Salvador) se não houvesse a participação da telefônica. Em 2002, apenas com a cara e a coragem, a versão carioca do evento ficou mais pobre, apenas com os shows e sem as oficinas e os encontros entre músicos, suas marcas registradas. O empresário Alexandre Accioly foi outro que não hesitou em apresentar o projeto que ressuscitaria o Noites Cariocas, no Morro da Urca, às teles.

- Se não tivesse o patrocínio, das duas uma: ou dobrava o preço do ingresso, ou teria de colocar quatro mil pessoas lá em cima, em vez de duas mil. Em ambos os casos, seria impraticável para o público e para a casa – afirma Accioly, que turbinou o projeto com a verba e o nome da Oi.

A correria pelo patrocínio é justificada por cifras milionárias. Nenhuma empresa chega a divulgar números de investimentos na área, mas é possível ter alguma dimensão dos valores. A TIM, por exemplo, anunciou um investimento de R$ 25 millhões em 2003 no projeto Música sem Fronteiras (que inclui o TIM Festival). Verbas como essa são suficientes para sacudir qualquer mercado.

Na maior parte dos casos, as companhias não apenas põem verba no evento, mas também empresta seu nome. Esse conceito tem uma denominação chique – naming rights, ou “direitos de nome”. Na prática, é o procedimento pelo qual uma empresa tem a opção de dar seu nome a qualquer iniciativa apoiada por ela. No Rio, esse turbilhão começou em 1999, quando a Claro (então ainda chamada ATL) passou a patrocinar o Metropolitan, tradicional casa de shows instalada no shopping Via Parque. O lugar mudou de nome, primeiro para ATL Hall e transformando-se em outubro de 2003 no Claro Hall. Quando a TIM assumiu a tutela do antigo Free Jazz Festival, que a partir de 2003 passou a se chamar TIM Festival, o carioca já estava habituado a este tipo de associação. Depois vieram Vivo Open Air, Claro Solo e Oi Vert Jam, entre outros.

Tantos eventos em tão pouco tempo atestam o vigor das telefônicas e a validade da estratégia de marketing. Na avaliação de profissionais do mercado de mídia, o nome das teles está se tornando sinal de qualidade para o público. Porém, o processo é mais lento do que os departamentos de propaganda gostariam que fosse.

- Antes de ligar sua marca a um dado evento, toda empresa deve primeiro definir sua identidade. Primeiro vem essa identidade, depois é que deve vir a experiência, ou seja, os eventos através dos quais o público toma contato com a marca. As telefônicas têm de ter em mente, de uma forma muito bem definida, o tipo de pessoa a que estão se dirigindo – explica o publicitário Márcio Beauclair, um dos diretores de criação da Ana Couto Branding & Design, firma que tem no currículo a realização de festivais como o Coca-Cola Vibezone.
Outra busca eterna é a qualidade das iniciativas organizadas pela companhia.

- As pessoas já associam o nome das telefônicas a shows e festivais grandes, bem organizados. Isso é inegável e contribui para o sucesso desses eventos – afirma Alberto Blanco, diretor de marketing do grupo Telemar, que responde pelos patrocínios da Oi.
Rogê pensa diferente. Para o dublê de músico e produtor, a mera associação do nome de uma telefônica não empresta automaticamente qualidade a um espetáculo.

- O cara se liga mais no formato da festa ou do show, dos talentos que estão envolvidos, e não no nome da operadora. A companhia telefônica é um provedor de recursos para que o evento aconteça, mas não chega a ser uma grife.

Há também revezes na batalha das telefônicas. O conflito de marcas pode atrapalhar ou até impedir a realização de espetáculos na cidade. Caso recente foi o da série Vivo Divas da Música. Impedidos de realizar shows no Canecão (que tem patrocínio da concorrente Embratel) e no Claro Hall (por motivos óbvios), os organizadores tiveram de empurrar as apresentações de Macy Gray e Norah Jones para a distante Ribalta, nos confins da Barra da Tijuca, sob uma chuva de reclamações do público e da mídia. Pegou tão mal que o show seguinte do projeto, com a americana Diana Krall, nem passou pela cidade. Para seguir com o projeto (cuja próxima estrela será Maria Bethânia), o departamento de marketing da Vivo estuda lugares alternativos, como a Marina da Glória ou palcos na praia.

Apesar de ter tocado uma vez no TIM Festival, o DJ Marlboro, rei do funk carioca, dono de dois celulares e refém de uma agenda concorridíssima de apresentações, prefere trilhar um caminho à margem dos megaeventos e lembra que a verba não pode ser pré-requisito para a criatividade:

- Se não houvesse patrocínio, o pessoal que faz os eventos teria de quebrar mais a cabeça. E fazer as coisas de um modo mais em conta. Não haveria tanto glamour, tanta área VIP, mas seria possível. Foi assim que os bailes funk sobreviveram e se firmaram, sem patrocínio de ninguém – aponta, já puxando a sardinha para sua brasa. Afinal, propaganda é a alma do negócio.

Os perfis

Claro - É a telefônica do rock. Sentindo uma carência de investimentos da área das guitarras, a Claro mirou no público roqueiro. O resultado é o Claro que É Rock, projeto idealizado pelo falecido produtor Tom Capone. Reunindo bandas independentes, o festival será realizado no Rio em setembro. Mas o reforço de peso vem ainda este mês: o grupo inglês Placebo, um dos mais cultuados pelos indies na atualidade, abre os trabalhos do evento com uma turnê nacional, que vai passar pelo Claro Hall no dia 29.

Oi – É a telefônica da carioquice. O braço celular do grupo Telemar investe prioritariamente em eventos que valorizem as belezas naturais da cidade e um estilo bem carioca de ser. Por isso, o carro-chefe das promoções da empresa é o Oi Noites Cariocas, ícone da cultura jovem nos anos 80 e que foi revitalizado em 2004. Este ano, a casa retoma as atividades em novembro, tendo agendados shows de Jota Quest (na abertura), Skank, Ivete Sangalo, Barão Vermelho e Lulu Santos (fechando a temporada no fim do verão de 2006)

TIM - É a telefônica dos eventos consagrados. Em vez de apostar em projetos novos, ainda sem público definido, a TIM prefere acolher iniciativas já testadas e aprovadas. Daí o envolvimento da empresa com o PercPan, com seus 11 anos de tradição. E também o apoio dado ao Prêmio TIM (que já foi Prêmio Sharp e, por um único ano, Prêmio Caras) da Música. E, evidentemente, o TIM Festival. Em novembro, o antigo Free Jazz terá sua sede no Rio (ano passado foi em São Paulo), no MAM.

Vivo – É a telefônica do cinema. Com todas as outras operadoras centrando fogo nas atrações musicais, a empresa do bonequinho resolveu investir na sétima arte. Além da tremenda vitrine que é o Open Air (ou “o evento multimídia mais inovador do Brasil”, como eles nada modestamente definem), a companhia também tem um programa de apoio a festivais de cinema. A idéia da antiga Telefonica é expandir ainda mais o projeto do cinema ao ar livre, chegando a novas capitais. Antes do Rio, o Open Air esteve em São Paulo e daqui vai a Brasília.