Pode-se pensar que (a passagem d’) o tempo afeta o amor. Será? Não seria o “amor” uma abstração confinada no mundo das idéias de Platão, e esse jogo-de-empurra que chamamos de”relacionamentos”, sua sombra aqui na caverna que chamamos de mundo real? Intocado, idealizado, o amor não muda nem com a passagem do tempo. Mas o que nós fazemos dele (d’o amor), ah, isso sim é afetado com o acumular dos dias. Quem muda somos nós, e não o amor. Não ponham a culpa da nossa eventual loucura no amor.
A tese acima é explicada de maneira bem menos canhestra em Time, a mais recente das surpresas legadas pelo cineasta Kim Ki-duk. Mais recente por aqui; depois, o coreano já lançou mais um longa, Breath. Apesar do título, menos que um filme sobre o tempo, o longa é uma reflexão sobre a intangibilidade do amor verdadeiro – seu caráter fugidio, o qual nos recusamos a admitir. Impossível de ser aprisionado, ao menos na forma idealizada que temos em nossas mentes. Não queremos que o amor mude, mas tememos que o inevitável passar do tempo o modifique. O que fazer então? Mudamos nós mesmos, para que o amor permaneça o mesmo. Só que ao mudarmos, muda também o amor…
Vamos ver se a trama do filme esclarece as coisas. See-hee (Ji-Yeon Park) sofre de ciúme terminal de seu namorado, Ji-Woo (Jung-woo Ha). Depois de dois anos de namoro, ela está literalmente perdendo a razão, consumida pela idéia de que seu amado vai se cansar dela – de seu rosto, seu corpo – e vai trocá-la por outra(s). (Algo que nunca passou pela cabeça do cara, apesar de seu compreensível mal-estar com as doideiras da jovem.) Um belo dia See-hee desaparece sem deixar vestígios, o que deixa Ji-Woo transtornado. Mas o espectador sabe que a moça se enfurnou numa clínica de cirurgia plástica, com o intuito de mudar completamente sua aparência. Ainda apaixonada pelo inconsolável Ji-Woo, a “nova” See-hee se reaproxima do rapaz. O romance (re)engata, mas só até o ponto em que as neuroses do passado surgem novamente, encarnadas em um novo rosto.
Essa curiosa parábola sobre amor e ciúme oferece várias camadas de interpretação. Há quem tenha enxergado no filme uma reflexão sobre a fragmentação da identidade no mundo contemporâneo. Outro subtexto possível (esse bem mais específico) é a fixação dos sul-coreanos com a cirurgia plástica. Papo furado. O que se vê na tela são questões universais, tratadas de um jeito absolutamente particular. É fascinante tentar determinar, no comportamento do casal de protagonistas, os limites entre paixão e patologia. Igualmente interessante é a capacidade do diretor de narrar uma história que encontra ressonância em qualquer um que já tenha sentido ciúme e insegurança – mesmo dentro de premissas históricas e geográficas francamente hiperrealistas, esbarrando na ficção científica.
Time poderia ser apenas o jeitinho todo particular de Kim Ki-duk de fazer uma comédia romântica. Mas claro, quem viu os filmes anteriores do coreano (conhecido aqui por Primavera, verão, outono, inverno… e primavera e Casa vazia) já irá ao cinema desenganado. A maior diferença em relação aos filmes anteriores é o uso bem mais extenso dos diálogos, em oposição aos longos silêncios de antes. Mas também há humor, em quantidade bem maior do que em seus outros trabalhos. E em comparação com os outros filmes, existe aqui ao menos uma tentativa de trama mais concisa e “acompanhável”. Só não tente exigir do roteiro o cartesianismo hollywoodiano clássico, ou sairá arrependido. Lidando com sentimentos tão fortes e, em última instância, contraditórios, o filme nem sempre prima pela clareza – como se, de modo impressionista, víssemos a realidade pelos turvos olhos de See-hee. Quem procura lógica no comportamento de um casal louco de amor não vai embarcar na proposta, definitivamente. Por outro lado, os admiradores do coreano sabem que tatibitate não é com ele.
Apesar da “descoberta” do poder dos diálogos, Ki-duk ainda prefere enunciar seu discurso sem usar (muitas) palavras. Usa para tanto sua habilidade de encenador, compondo cenas belíssimas (como as várias seqüências na ilha das esculturas) e cadenciando bem as elipses temporais e os tempos mortos. Com seus ditos e não-ditos, suas confusões de identidade duplas e o retrato de uma paixão que não sabe se é doença ou sentimento, Time inscreve-se num círculo restrito de belos – e melancólicos – filmes românticos (sim, por que não?). Vêm à mente títulos como A noite, Um corpo que cai e O ano passado em Marienbad. Como nesses clássicos, em Time os protagonistas tentam recriar o amor de ontem, e descobrem que ele só se repete como farsa. Ou sobrevive apenas como souvenir: uma pose em uma foto antiga, refeita obsessivamente, numa tentativa inútil de aprisionamento.


Setembro 13, 2007 às 3:19 pm
Nossa é o tipo de crítica que deixa a gente sem ar. Assim como o filme. Um grande abraço, Marco.
Se quiser deixe um alô lá no meu espaço, escrevi uma crítica do Time também.
Grande abraço
Setembro 13, 2007 às 8:05 pm
Não gostei desse filme tanto como dos outros dele… alias na verdade talvez por meus demonios interiores.. esse filme tenha me cutucado de uma forma que nao gostei… aconece… totalmente pessoal… tecnicamente é um filme bonito… bem filmado.