Costumava receber (sem nunca ter solicitado) emails informativos dessa loja virtual de discos, a Dizcantando.com. Fui lá dar uma olhada e, pasmo, constatei que o site tinha uns artigos que realmente mereciam o epíteto de raridades. A reportagem resultante foi publicada no Jornal Musical, março/2007.
Lojas virtuais de venda de discos existem várias pela internet. Mas e no dia que você quiser comprar, digamos, um disco de 78 RPM com duas gravações da Banda da Casa Edison, lançado originalmente na primeira década do século 20? Não será em qualquer megastore virtual que você vai encontrar seu objeto de desejo. O produtor musical Mauro Silveira sabe bem disso – e ele confirma que um público ainda pequeno, mas fiel e que cresce a cada dia, vem acessando seu site Dizcantando atrás de raridades de nossa história fonográfica. Não há na internet (e possivelmente, mesmo no “mundo real”) uma loja que concentre tamanho acervo de gravações históricas, cobrindo todo o século passado: cerca de 3 mil títulos, a grande maioria em 78 RPM. Em tempo: o tal disco da Casa Edison citado lá em cima, gravado e lançado em data indeterminada entre 1904 e 1907, está sim à venda no site.
Fundada há cerca de seis meses, a Dizcantando vem se tornando ponto de encontro de colecionadores da música brasileira. “Existem dois perfis de comprador. Há aqueles que já possuem um acervo e estão ampliando. Outros são jovens, gente de 14 a 30 anos, que está iniciando uma coleção. Curioso é que existem muitos colecioadores segmentados, pessoas que só compram discos de Carmen Miranda, ou só de Francisco Alves, só de Vicente Celestino…” narra ao Jornal Musical Mauro Silveira, 55 anos, que chama seu site de “vitrine” na qual expõe uma coleção de discos reunida, segundo ele, “durante toda a vida”. Mauro conta: “Fui guardando os antigos discos de 78 RPM. Sempre aceitava as doações daqueles que iam jogar os discos no lixo. Há dois anos eu tentava dar um destino aos discos, oferecia a alguns amigos, mas a pilha de discos não diminuía. Resolvi anunciá-los num site de vendas e consegui vender dez unidades. Foi aí que tive a idéia de criar a loja virtual”.
Numa rápida olhadela pelas seções do site, podem-se encontrar bolachas que fariam qualquer colecionador salivar incontrolavemente. Aracy Côrtes cantando “Baianinha” num disco de 1929 (R$ 100); Francisco Alves em uma versão do tango “El dia que me quieras”, traduzida para o português por Haroldo Barbosa, em 1945 (R$ 25); Bidú Sayão, acompanhada pela Orquestra Victor Brasileira, entoando “Cantiga” e “A casinha pequenina” (R$ 58)… O acervo ainda inclui uma recheada seção de LPs de vinil e curiosas obras de arte feitas com discos pintados – um exemplo é “No meu pé de serra”, de Luiz Gonzaga, lançado em 1946 (R$ 55).
A parte do leão, porém, fica mesmo com os 78 RPM. Por exemplo, o anônimo aficionado por Carmen Miranda citado no segundo parágrafo certamente se animaria ao encontrar um 78 juntando Carmen ao grupo vocal Andrew Sisters em duas canções do filme Romance carioca (1950): “Baião ca-room-pa-pa” e “Ips ai-o” (R$ 82). E o apaixonado por Vicente Celestino se depara com nada menos que seis títulos, como o grande sucesso “Porta aberta” (R$ 28) e a serenata “Os milhões de Arlequim” (R$ 25). Quem dispuser de R$ 145 pode arrebatar a gravação original de “Aquarela do Brasil” (1939) com Francisco Alves. Por R$ 45, leva-se o disco de 1931 com “Que será de mim” e “Arrependido”, com o duo Mario Reis & Francisco Alves. A coleção de discões está organizada por categorias (cantoras e cantores, duplas caipiras, conjuntos, erudito, orquestras…) e é, segundo Silveira, a área mais acessada do website.
“Os discos das décadas de 1920 e 1930 são os mais requisitados, pela raridade efetiva que têm. Mas tem gosto para tudo. Já vendi um disco da Dupla Zoológica – um duo caipira de São Paulo, que gravou nos anos 50 ‘O casamento da cabra’, no qual imitavam os sons dos animais”, exemplifica o dono da loja virtual. Segundo ele, as peças mais raras à venda no site são um par de discos da banda da Casa Edison (a pioneira das gravações musicais no Brasil: um com a valsa “Ciumenta” e o xote “É mentira de você” e outro com os hinos (ou, segundo a grafia da época, hymnos) nacionais do Brasil e da França, ambos lançados entre 1904 e 1907. Preço? R$ 980 cada um. “Mas acho que o mais valioso 78 RPM que vendi, ao menos em importância histórica, foi um com Noel Rosa cantando ‘Com que roupa’”, diz Silveira.
Para Mauro, a carreira como dono de sebo virtual foi um prolongamento de um interesse vitalício pela música brasileira. Ator de teatro que se tornou produtor e diretor de espetáculos, criou na TV Educativa do Rio de Janeiro os programas Cena aberta e Especial musical. Em 1989, fundou o grupo Diz Isso Cantando, especializado em peças musicais com ênfase no humor. Dirigiu, em 2002, um espetáculo em homenagem ao centenário do sambista Carlos Cachaça e, como pesquisador do Museu do Folclore, organizou a exposição Pinta Nelson Sargento, dedicada à faceta de artista plástico do compositor. “Agora, além da Dizcantando, elaboro o projeto da montagem do espetáculo A vingança da cigana, escrita em 1792 por Domingos Caldas Barbosa e que é a primeira ópera brasileira”, anuncia Silveira. Como ouvinte, naturalmente faz a linha tradicionalista. “Sou apaixonado pelo samba. Gosto daqueles com letras bonitas, cadenciados, tipo Geraldo Pereira, Wilson Baptista, Ismael Silva e o mestre de todos, Noel Rosa. Adoro o humor na música”, conta.
O próximo passo é expandir a base de clientes da Dizcantando, que, segundo Silveira, já chama a atenção de compradores de fora do Brasil. “Há um grande interesse de americanos, portugueses, franceses, italianos, mexicanos, argentinos e espanhóis, principalmente nos discos de artistas daqueles países lançados aqui no Brasil, com selo de indústria brasileira”, confirma o dono do site. Além dos colecionadores, Mauro também atende a artistas (ou seus descendentes) que buscam recompor seus acervos. “Recentemente fiz uma doação à família de Mario Lago. Além de oferecer discos com música do compositor, doei uma gravação de Francisco Alves com uma canção do pai de Mário Lago, o maestro de teatro Antônio Lago”, diz.


Fevereiro 2, 2009 às 6:43 pm
Boa Tarde
Tenho coleção de discos 78 rpm do Vicente Celestino.
Se tiver interesse em comprá-la, favor entrar em contato através de e-mail, ou pelo telefone (62) 3626-7924
Grato