Hoje, dia 1º de agosto – na verdade, daqui a algumas horas – vai rolar show do Momo no Cinemathèque Jam Club. Pode estar meio tarde para dar o informe a título de agenda, mas aproveito a ocasião para postar dois textos que fiz sobre o cara. Entrevistei-o para o Jornal Musical depois de ouvir (e me entusiasmar) com seu disco de estréia, A estética do rabisco. De bônus, incluo também a resenha que fiz do disco de estreía do grupo Supercordas, outra boa novidade do cenário fluminense, também saída do JM. Todas as três matérias foram publicadas em fevereiro/2007. Junto os três textos em uma espécie de mini-dossiê sobre um suposto resgate da psicodelia, já que tanto o Momo quanto os Cordas plantam firmemente seus pés no terreno da lisergia – lírica, instrumental e melódica. Tune in…
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Rabiscos psicodélicos de Momo
No cenário pop brasileiro atual, é difícil achar algum nome com um som remotamente parecido com o que Marcelo Frota – que também atende pelo codinome Momo, um banda-projeto de um homem só – faz. O próprio cantor e compositor sabe disso. “Não tem muitos artistas no Brasil com quem eu me identifique, não”, admite. A singularidade de seu primeiro disco solo, A estética do rabisco, lançado recentemente pelo selo carioca Dubas, é tanta que, por um momento, o próprio autor temeu pela viabilidade do projeto. “Depois de gravar o disco, chamei um amigo meu, engenheiro de som, para dar uma mão na mixagem. Ele ouviu e disse que não iria mexer ‘naquilo’. Achou muito confuso. Naquela hora eu fiquei meio tenso…” diz Marcelo, em conversa com o Jornal Musical. ‘Aquilo’, como o amigo do compositor definiu o álbum, foi gravado no próprio quarto de Marcelo, usando pouco mais que um computador, uma craviola e um sintetizador de brinquedo. E, com sonoridades que sugerem tanto o folk contemporâneo quanto a psicodelia de antanho, A estética… não é apenas singular: é também uma das melhores e mais intrigantes promessas para o pop brasileiro safra 2007. “Só espero que as pessoas dêem uma chance ao disco. Teve gente que achou meio ’surtado’, outros choraram ao ouvir”, conta o compositor, que também bate ponto na banda Fino Coletivo, liderada pelo alagoano Wado.
As pistas da charada são dadas pelo próprio Frota, que cita artistas gringos como Antony & The Johnsons, Devendra Banhart, Cat Power, Belle & Sebastian e os brasileiros + 2 e Cidadão Instigado como inspirações – além de patriarcas do folk rock como Nick Drake, Tim Buckley e Tim Hardin. “São essas as coisas que me emocionam”, diz. Nas composições de A estética do rabisco ouve-se um pouco disso tudo e mais um pouco, visto que Marcelo, que compõe desde os 18 anos (hoje tem 28), ouviu de tudo um muito em sua vida. “Por influência dos meus pais, ouvia coisas como Willie Nelson, Burt Bacharach e Stevie Wonder quando era mais novo. Depois, quando fui morar nos EUA na época do estouro do grunge – 1991, 92 – comecei a gostar de rock. E mais tarde veio a MPB, Chico, Caetano”. Paralelo a isso e junto a várias mudanças (Marcelo é mineiro radicado no Rio, mas já morou até em Angola), ele tocava seu violãozinho, de leve. “Queria aprender a tocar bossa nova”, conta Frota, que estudou o instrumento por cerca de um ano até perceber que “aquelas firulas todas não eram bem o que eu procurava”.
Depois de estabelecer-se no Rio, Marcelo gravou dois CDs com suas canções, que não chegaram a ganhar distribuição comercial. “Eu passava os CDRs para os amigos, sem qualquer pretensão. Nessa época, eu fazia algo mais próximo da MPB”, relembra. Entre um show aqui e uma jam-session acolá, foram surgindo os embriões do som de A estética…, já influenciados por outras idéias. “Comecei a pesquisar a música folk, tanto os artistas contemporâneos quanto os pioneiros. Durante uma viagem à Espanha, pude tocar em praças e casas noturnas só com voz e violão, o que me ajudou a cristalizar o novo formato”. Em 2004, o amigo Wado – já cultuado como revelação da novíssima safra emepebística – o incentivou a gravar as novas criações. “Sempre fui fã de baladas – canções lentas, arrastadas, quanto mais dramáticas, melhor. E tudo o que eu vinha fazendo acabou pendendo para esse lado”, explica. Letras simples, que segundo o próprio compositor são “autoreferentes”, tangenciam desordens químicas (“Casa quer me desabar/Pro equilíbrio tomo comprimidos”, em “Comprimidos”), reminiscências (“Minha mãe me queria grande (…)/ Meu pai me queria homem/ Eu preferi regar as plantas”, em “Flores do bem”) e reflexões angustiadas (“E todo mundo matando um leão por dia/Vai faltar leão”, em “Leão”).
A sonoridade minimal e surpreendente do disco nasceu tanto do acaso quanto da necessidade. Marcelo queria dar um tempo no violão e resolveu testar uma craviola, instrumento de 12 cordas similar ao violão mas de som mais metálico. “Estava cansado das cordas de naílon, queria um instrumento com cordas de aço. Vi uma craviola usada à venda e comecei a tocar. Aquilo me abriu um caminho!” Munido do novo instrumento e de um Casiotone – minisintetizador a pilha da Casio, pouco mais que um brinquedo – começou a registrar, sozinho, as canções. O “estúdio” foi seu computador. “Era um PC emprestado. Comprei um microfone, uma placa de som e decorei mais ou menos como usar os programas de gravação. Depois esqueci tudo, aprendi só o suficiente para gravar naquela hora, hoje nem sei mexer mais no programa… Também fiz questão de não escutar disco algum como referência de timbres ou de som. Sabe quando o artista chega para o produtor e fala: ‘Pô, quero que a guitarra soe igual à guitarra da banda tal…’? Eu evitei isso”.
O título do álbum veio da estética despojada, aberta ao improviso e à aleatoriedade. “Não editei nem afinei nada depois de gravado. Queria que soasse como um disco ao vivo, fluido”, narra Frota. Com as bases gravadas, os amigos Adriano Barros (guitarra), Bruno Rezende (baixo) e Bruno Braggion (bateria), mais alguns convidados, ajudaram a encorpar o som. Depois mostrar o resultado para Ronaldo Bastos, diretor da Dubas – que aprovou o álbum, classificando-o de “nebuloso” – quase que o esforço vai por água abaixo. “A gravadora queria pagar uma masterização do disco, mas ia deixar tudo pasteurizado. Deixamos como estava”.
Momo, o homem-banda, enfrenta agora o desafio de levar Brasil afora suas introspectivas composições. “Fico acanhado tocando ao vivo. Com o Fino Coletivo é mais fácil, estou ali mais acompanhando. Como Momo eu me exponho muito mais. Me emociono, entro numa viagem na qual nem todo mundo embarca junto. Ainda preciso amadurecer muito esse lado da perfomance”. Frota sonha em fazer um excursão que passe por fora dos grandes centros urbanos, tocando em lugares menores. “Minha música é mais adequada a teatros, espaços mais intimistas. Aqui no Rio então, é impraticável. Casas com festas dançantes, com cerveja, agito, azaração… estou na contramão disso tudo”, suspira.
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A estética do rabisco - Momo (Dubas)
O bom dos discos da gravadora Dubas é que eles vêm explicadinhos, já na capa. Para este A estética do rabisco, a indicação é “File under: Brazil/Folk/Momo”. Momo, codinome do cantor e compositor Marcelo Frota, realmente passeia pelos lados do que se chama, no léxico pop universal, de folk music – sons acústicos, plangentes, com ênfase no violão (aqui substituído por uma onipresente craviola). Momo, no entanto, não se limita a emular Bob Dylan ou, para ficar num paralelo local, Zé Ramalho. Seus arranjos são inventivos, ocasionalmente barulhentos, repletos de efeitos que remetem ao rock psicodélico. A noção é reforçada pela interpretação vocal de Marcelo, suave, às vezes não muito além do sussurrado. Mas o delírio d‘A estética não é daqueles pesadamente alucinógenos. O caminho é da delicadeza, com arranjos limpos e minimais e músicas lentas. O disco é calminho, calminho, mesmo nos momentos mais turbulentos (como na abertura auto-explicativa de “Comprimidos”, carregada de guitarras distorcidas). Na grande maioria das faixas, plácidas e sugestivas, o que sobrevem é a força das belas melodias, caso de “Benditas flores”, “Leão” e “Tempestade”, canções que nasceram de uma aparente paixão pelo rock dos anos 60 e cresceram contaminadas por outras influências: a ala maldita da MPB dos anos 70, a renascença do rock progresssivo pós-Radiohead. Um dia, essa ambiciosa vontade de juntar a lisergia elétrica universal com a vocação acústica brazuca já teve o nome de tropicalismo. E agora, o que será?
Lá pelo final do disco, a faixa “Sem tempo” (composta por Adriano Siri) é a melhor conjunção disso tudo. Antes, ainda vem o clima setentão de “Tão feliz”, com seu som pinkfloydiano completado pelas intervenções vocais de Shahia Karkouti (que também ilumina decisivamente “Bonsuar” e “Soluço a dois”, entre outras faixas); a viajante “Segredo não se diz”, no qual um saxofone definitivamente viajante toma o centro das atenções; e “Flores do bem”, uma das melhores letras do disco. Na longa e desconstruída “Adeus”, que fecha o álbum, aí sim carrega forte no experimentalismo (incluindo um “buraco” de silêncio de mais de dois minutos no meio da faixa, que desemboca numa melodia beatlesca e depois parte para uma queda livre de barulhinhos feitos no Casiotone por Momo).
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Seres Verdes ao Redor: Música para Samambaias, Animais Rastejantes e Anfíbios Marcianos – Supercordas (Trombador Discos)

A legião psicodélica brazuca é pequena, mas continua a ganhar adeptos. Prova disso é o álbum de estréia do Supercordas, banda já manjada por quem se interessa pelas novidades do pop nacional. Num tempo em que o rock carioca se divide entre clones dos Los Hermanos e emuladores dos sons modernos de Nova York e Londres, o quarteto assume uma bicho-grilagem que chega a ser comovente – em sua recusa a embarcar nas últimas modas. Plácido, relaxante e doce como uma good trip, o álbum prega uma volta à natureza, cantando sobre “Mofo”, “Musgo”, “Fotossíntese” e “Mangue” – sim, esses são títulos de canções. As sonoridades (e aí vai ser impossível evitar o clichê) “orgânicas” dos arranjos se fundamentam em violões e belas harmonias vocais, além de teclados, barulhinhos e instrumentos menos usuais como “guitarras eletrônicas marítimas”, “viola de arame”, “pseudo-mellotron” ou “gaita de R$ 5″. Por trás das supostas esquisitices, fica a impressão de uma banda encafifada em sua própria viagem, mas num bom sentido, já que as boas idéias e a criatividade evidentes dos rapazes não deixam de ser convidativas. Resta ao ouvinte embarcar na onda.
Alienígena em sua terra, o som do grupo tem paralelo nacional no rock gaúcho de nomes como Júpiter Maça e Os The Dárma Lóvers. Uma psicodelia brejeira que pode ter suas raízes no Clube da Esquina, no rock rural setentista ou nos Mutantes – ou na onda revivalista gringa puxada por grupos como Flaming Lips ou Neutral Milk Hotel. Ou, ainda e por que não?, na fonte inesgotável que são os Beatles. Em “Ruradélica” e seu arranjo vocal, ou na levadinha inconfundível de “Sobre o frio”, sente-se a influência de modo marcante. Eles não param por aí. As abstrações de “Musgo” e “Mangue”, duas quase-vinhetas, mostram o potencial dos Supercordas de cravarem sons mântricos, indutores de transe. “E o sol brilhou sobre o verde” tem carinha de potencial hit single – mesmo sem ter letra, só contando com delicados vocalises superpostos. A caipirice bate forte em “Frog rock”, com viola e tudo o mais. Ao final, para não fugir do padrão dos clássicos do psicodelismo, embarcam com tudo na faixa mais longa do disco, “Fotossíntese”, que fecha com uma bela coda vocal embalada por guitarras distorcidas (e que retorna à viola caipira antes de acabar). Som de matuto? Só se for um matuto com um cigarro de palha num canto da boca e um LSD embaixo da língua.