Arquivo para Agosto, 2007

ETERNO, ENQUANTO DURE?

Agosto 27, 2007

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Pode-se pensar que (a passagem d’) o tempo afeta o amor. Será? Não seria o “amor” uma abstração confinada no mundo das idéias de Platão, e esse jogo-de-empurra que chamamos de”relacionamentos”, sua sombra aqui na caverna que chamamos de mundo real? Intocado, idealizado, o amor não muda nem com a passagem do tempo. Mas o que nós fazemos dele (d’o amor), ah, isso sim é afetado com o acumular dos dias. Quem muda somos nós, e não o amor. Não ponham a culpa da nossa eventual loucura no amor.

A tese acima é explicada de maneira bem menos canhestra em Time, a mais recente das surpresas legadas pelo cineasta Kim Ki-duk. Mais recente por aqui; depois, o coreano já lançou mais um longa, Breath. Apesar do título, menos que um filme sobre o tempo, o longa é uma reflexão sobre a intangibilidade do amor verdadeiro – seu caráter fugidio, o qual nos recusamos a admitir. Impossível de ser aprisionado, ao menos na forma idealizada que temos em nossas mentes. Não queremos que o amor mude, mas tememos que o inevitável passar do tempo o modifique. O que fazer então? Mudamos nós mesmos, para que o amor permaneça o mesmo. Só que ao mudarmos, muda também o amor…

Vamos ver se a trama do filme esclarece as coisas. See-hee (Ji-Yeon Park) sofre de ciúme terminal de seu namorado, Ji-Woo (Jung-woo Ha). Depois de dois anos de namoro, ela está literalmente perdendo a razão, consumida pela idéia de que seu amado vai se cansar dela – de seu rosto, seu corpo – e vai trocá-la por outra(s). (Algo que nunca passou pela cabeça do cara, apesar de seu compreensível mal-estar com as doideiras da jovem.) Um belo dia See-hee desaparece sem deixar vestígios, o que deixa Ji-Woo transtornado. Mas o espectador sabe que a moça se enfurnou numa clínica de cirurgia plástica, com o intuito de mudar completamente sua aparência. Ainda apaixonada pelo inconsolável Ji-Woo, a “nova” See-hee se reaproxima do rapaz. O romance (re)engata, mas só até o ponto em que as neuroses do passado surgem novamente, encarnadas em um novo rosto.

Essa curiosa parábola sobre amor e ciúme oferece várias camadas de interpretação. Há quem tenha enxergado no filme uma reflexão sobre a fragmentação da identidade no mundo contemporâneo. Outro subtexto possível (esse bem mais específico) é a fixação dos sul-coreanos com a cirurgia plástica. Papo furado. O que se vê na tela são questões universais, tratadas de um jeito absolutamente particular. É fascinante tentar determinar, no comportamento do casal de protagonistas, os limites entre paixão e patologia. Igualmente interessante é a capacidade do diretor de narrar uma história que encontra ressonância em qualquer um que já tenha sentido ciúme e insegurança – mesmo dentro de premissas históricas e geográficas francamente hiperrealistas, esbarrando na ficção científica.

Time poderia ser apenas o jeitinho todo particular de Kim Ki-duk de fazer uma comédia romântica. Mas claro, quem viu os filmes anteriores do coreano (conhecido aqui por Primavera, verão, outono, inverno… e primavera e Casa vazia) já irá ao cinema desenganado. A maior diferença em relação aos filmes anteriores é o uso bem mais extenso dos diálogos, em oposição aos longos silêncios de antes. Mas também há humor, em quantidade bem maior do que em seus outros trabalhos. E em comparação com os outros filmes, existe aqui ao menos uma tentativa de trama mais concisa e “acompanhável”. Só não tente exigir do roteiro o cartesianismo hollywoodiano clássico, ou sairá arrependido. Lidando com sentimentos tão fortes e, em última instância, contraditórios, o filme nem sempre prima pela clareza – como se, de modo impressionista, víssemos a realidade pelos turvos olhos de See-hee. Quem procura lógica no comportamento de um casal louco de amor não vai embarcar na proposta, definitivamente. Por outro lado, os admiradores do coreano sabem que tatibitate não é com ele.

Apesar da “descoberta” do poder dos diálogos, Ki-duk ainda prefere enunciar seu discurso sem usar (muitas) palavras. Usa para tanto sua habilidade de encenador, compondo cenas belíssimas (como as várias seqüências na ilha das esculturas) e cadenciando bem as elipses temporais e os tempos mortos. Com seus ditos e não-ditos, suas confusões de identidade duplas e o retrato de uma paixão que não sabe se é doença ou sentimento, Time inscreve-se num círculo restrito de belos – e melancólicos – filmes românticos (sim, por que não?). Vêm à mente títulos como A noite, Um corpo que cai e O ano passado em Marienbad. Como nesses clássicos, em Time os protagonistas tentam recriar o amor de ontem, e descobrem que ele só se repete como farsa. Ou sobrevive apenas como souvenir: uma pose em uma foto antiga, refeita obsessivamente, numa tentativa inútil de aprisionamento.

AS PRECIOSIDADES SONORAS DA LOJA VIRTUAL DIZCANTANDO.COM.

Agosto 21, 2007

Costumava receber (sem nunca ter solicitado) emails informativos dessa loja virtual de discos, a Dizcantando.com. Fui lá dar uma olhada e, pasmo, constatei que o site tinha uns artigos que realmente mereciam o epíteto de raridades. A reportagem resultante foi publicada no Jornal Musical, março/2007.

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Lojas virtuais de venda de discos existem várias pela internet. Mas e no dia que você quiser comprar, digamos, um disco de 78 RPM com duas gravações da Banda da Casa Edison, lançado originalmente na primeira década do século 20? Não será em qualquer megastore virtual que você vai encontrar seu objeto de desejo. O produtor musical Mauro Silveira sabe bem disso – e ele confirma que um público ainda pequeno, mas fiel e que cresce a cada dia, vem acessando seu site Dizcantando atrás de raridades de nossa história fonográfica. Não há na internet (e possivelmente, mesmo no “mundo real”) uma loja que concentre tamanho acervo de gravações históricas, cobrindo todo o século passado: cerca de 3 mil títulos, a grande maioria em 78 RPM. Em tempo: o tal disco da Casa Edison citado lá em cima, gravado e lançado em data indeterminada entre 1904 e 1907, está sim à venda no site.

Fundada há cerca de seis meses, a Dizcantando vem se tornando ponto de encontro de colecionadores da música brasileira. “Existem dois perfis de comprador. Há aqueles que já possuem um acervo e estão ampliando. Outros são jovens, gente de 14 a 30 anos, que está iniciando uma coleção. Curioso é que existem muitos colecioadores segmentados, pessoas que só compram discos de Carmen Miranda, ou só de Francisco Alves, só de Vicente Celestino…” narra ao Jornal Musical Mauro Silveira, 55 anos, que chama seu site de “vitrine” na qual expõe uma coleção de discos reunida, segundo ele, “durante toda a vida”. Mauro conta: “Fui guardando os antigos discos de 78 RPM. Sempre aceitava as doações daqueles que iam jogar os discos no lixo. Há dois anos eu tentava dar um destino aos discos, oferecia a alguns amigos, mas a pilha de discos não diminuía. Resolvi anunciá-los num site de vendas e consegui vender dez unidades. Foi aí que tive a idéia de criar a loja virtual”.

Numa rápida olhadela pelas seções do site, podem-se encontrar bolachas que fariam qualquer colecionador salivar incontrolavemente. Aracy Côrtes cantando “Baianinha” num disco de 1929 (R$ 100); Francisco Alves em uma versão do tango “El dia que me quieras”, traduzida para o português por Haroldo Barbosa, em 1945 (R$ 25); Bidú Sayão, acompanhada pela Orquestra Victor Brasileira, entoando “Cantiga” e “A casinha pequenina” (R$ 58)… O acervo ainda inclui uma recheada seção de LPs de vinil e curiosas obras de arte feitas com discos pintados – um exemplo é “No meu pé de serra”, de Luiz Gonzaga, lançado em 1946 (R$ 55).

A parte do leão, porém, fica mesmo com os 78 RPM. Por exemplo, o anônimo aficionado por Carmen Miranda citado no segundo parágrafo certamente se animaria ao encontrar um 78 juntando Carmen ao grupo vocal Andrew Sisters em duas canções do filme Romance carioca (1950): “Baião ca-room-pa-pa” e “Ips ai-o” (R$ 82). E o apaixonado por Vicente Celestino se depara com nada menos que seis títulos, como o grande sucesso “Porta aberta” (R$ 28) e a serenata “Os milhões de Arlequim” (R$ 25). Quem dispuser de R$ 145 pode arrebatar a gravação original de “Aquarela do Brasil” (1939) com Francisco Alves. Por R$ 45, leva-se o disco de 1931 com “Que será de mim” e “Arrependido”, com o duo Mario Reis & Francisco Alves. A coleção de discões está organizada por categorias (cantoras e cantores, duplas caipiras, conjuntos, erudito, orquestras…) e é, segundo Silveira, a área mais acessada do website.

“Os discos das décadas de 1920 e 1930 são os mais requisitados, pela raridade efetiva que têm. Mas tem gosto para tudo. Já vendi um disco da Dupla Zoológica – um duo caipira de São Paulo, que gravou nos anos 50 ‘O casamento da cabra’, no qual imitavam os sons dos animais”, exemplifica o dono da loja virtual. Segundo ele, as peças mais raras à venda no site são um par de discos da banda da Casa Edison (a pioneira das gravações musicais no Brasil: um com a valsa “Ciumenta” e o xote “É mentira de você” e outro com os hinos (ou, segundo a grafia da época, hymnos) nacionais do Brasil e da França, ambos lançados entre 1904 e 1907. Preço? R$ 980 cada um. “Mas acho que o mais valioso 78 RPM que vendi, ao menos em importância histórica, foi um com Noel Rosa cantando ‘Com que roupa’”, diz Silveira.

Para Mauro, a carreira como dono de sebo virtual foi um prolongamento de um interesse vitalício pela música brasileira. Ator de teatro que se tornou produtor e diretor de espetáculos, criou na TV Educativa do Rio de Janeiro os programas Cena aberta e Especial musical. Em 1989, fundou o grupo Diz Isso Cantando, especializado em peças musicais com ênfase no humor. Dirigiu, em 2002, um espetáculo em homenagem ao centenário do sambista Carlos Cachaça e, como pesquisador do Museu do Folclore, organizou a exposição Pinta Nelson Sargento, dedicada à faceta de artista plástico do compositor. “Agora, além da Dizcantando, elaboro o projeto da montagem do espetáculo A vingança da cigana, escrita em 1792 por Domingos Caldas Barbosa e que é a primeira ópera brasileira”, anuncia Silveira. Como ouvinte, naturalmente faz a linha tradicionalista. “Sou apaixonado pelo samba. Gosto daqueles com letras bonitas, cadenciados, tipo Geraldo Pereira, Wilson Baptista, Ismael Silva e o mestre de todos, Noel Rosa. Adoro o humor na música”, conta.

O próximo passo é expandir a base de clientes da Dizcantando, que, segundo Silveira, já chama a atenção de compradores de fora do Brasil. “Há um grande interesse de americanos, portugueses, franceses, italianos, mexicanos, argentinos e espanhóis, principalmente nos discos de artistas daqueles países lançados aqui no Brasil, com selo de indústria brasileira”, confirma o dono do site. Além dos colecionadores, Mauro também atende a artistas (ou seus descendentes) que buscam recompor seus acervos. “Recentemente fiz uma doação à família de Mario Lago. Além de oferecer discos com música do compositor, doei uma gravação de Francisco Alves com uma canção do pai de Mário Lago, o maestro de teatro Antônio Lago”, diz.

UNDERACHIEVER AND PROUD OF IT.

Agosto 15, 2007

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Sim, é minha resenha do filme dos Simpsons. Uma versão severamente editada do que se segue será publicada no Jornal do Brasil na próxima sexta (17/08), data de estréia da fita.

Os Simpsons são um fenômeno bizarro. É raro testemunhar tamanha unanimidade de público e critica em torno de um trabalho artistico (que dirá dentro do universo da TV). Ao longo de 18 temporadas, o desenho animado criado por Matt Groening não apenas se tornou sinônimo de humor ao mesmo tempo refinado e acessível. Também transformou-se numa metáfora dessa abstração elusiva conhecida como a família média norte-americana – uma metáfora não apenas acidamente crítica, mas também bastante complexa, multifacetada. Se a TV é mesmo a “medida de todas as coisas” para a sociedade ianque, e essa mesma sociedade permite que uma série como Os Simpsons perdure tanto tempo (e mais, com tamanho sucesso popular), é sinal que o povão de lá não é tão tapado e oligofrênico quanto muita gente pensa. Ou que, ao menos, tem uma invejável capacidade de rir de si mesmo, sinal inequívoco de inteligência. (Vale lembrar a polêmica e a indignação causadas pelo episódio no qual a família viaja ao Rio de Janeiro, um incidente que diz muito sobre a baixissima auto-estima de nossa nação. Como se o seriado já não fizesse “pior”, ou melhor, toda a semana, com a própria imagem dos EUA – e nego lá aplaude.)

A transposição do seriado para o cinema soava temerária. O ritmo, a composição visual e a agilidade de um episódio televisivo de 24 minutos poderiam sofrer com o estica-e-puxa inerentes a um longa-metragem. Ao mesmo tempo, com a tela grande e a maior duração, a equipe de criação poderia sofrer do complexo de “tudo-dentro-com-dois-ovos-em-cima”: sobrecarregar a tela com mais piadas, citações e distrações visuais do que o público seria capaz de suportar. O roteiro, que acabou levando 11 assinaturas – incluindo as de Groening e James L. Brooks – caminha sem escorregar entre esses perigos. Seria muito fácil colar três episódios, encher um pouco de lingüiça e fazer um longa-frankentein, mas o diretor David Silverman foi bem-sucedido ao fazer de Os Simpsons um filme de verdade; com mais drama, mais ação e temáticas um tiquinho mais adultas do que caberiam num episódio regular.

Apesar da eficácia inegável do pacote, uma constatação é inevitável: os Simpsons no cinema são maiores, mas não necessariamente melhores. A mesma inteligência e o mesmo humor, tudo na medida certa, mas não há o pulo do gato que justifique a expectativa em torno do longa. Os risos e as reflexões brotam nos momentos exatos, exatamente como se estivessemos assistindo ao seriado na TV. Não houve a ambição de fazer algo além disso. Talvez não seja necessário ambicionar mais; do jeito que foram concebidos, os Simpsons já foram longe demais, reinterpretando os clichês dos sitcoms familiares de modo a fazer afiadíssimos comentários sobre a sociedade americana. E talvez seja melhor que eles fiquem na TV mesmo, atingindo corações e mentes de uma forma ao mesmo tempo mais insidiosa e mais direta. O moralismo asséptico de Hollywood não domesticou Homer & cia, mas em contrapartida Groening & cia não deram o passo a mais que faria do primeiro longa um marco na história da série.

De um certo modo, o tom um pouquinho mais crítico do longa recupera um pouco do espírito das primeiras temporadas do desenho, mais incisivas e ousadas que nos anos recentes. Segundo o roteirista Al Jean, a mensagem do filme é “os maridos devem escutar suas esposas” (uma mensagem aplicável a cada um dos episódios da série, diga-se de passagem). Na verdade, a ubíqua preocupação com o meio-ambiente é o tema principal. No ato que foi descrito nos teasers do filme como “a maior besteira que já fez na vida”, Homer derruba vários galões de fezes de porco (?!) no lago de Springfield, transformando a cidade no lugar mais poluído do mundo. Algumas preocupações permanentes da série estão presentes, mais aprofundadas: a difícil relação pai-filho entre Homer e Bart, a ironia pesada sobre a burocracia de Washington e sobre o papel da religião, a sacanagem explícita com os estereótipos regionais (dessa vez, atacando o Alasca). Tudo naquele equilíbrio consagrado entre o ofensivo e o terno, entre a espetadela cirúrgica e o pastelão mais grosseiro. (Há até um nu frontal, pela primeira vez.) Piadas ótimas abundam, do curta-metragem de Comichão & Coçadinha que abre o longa até a aparição de Tom Hanks. E a animação usa muito bem a tela grande, criando para o clímax do filme a mais espetacular cena de ação já vista na série – protagonizada por Homer.

Não há rigorosamente elemento algum a reparar no filme. Quem ama o seriado vai amar o longa. E também vai perceber que, em vez de ser um momento de redefinição para a série, Os Simpsons – O filme acaba sendo uma coletânea dos motivos pelos quais amamos essa família. Há a subversão, a ironia e a maravilhosa lista de personagens secundários de sempre. O “problema”, se é que existe um, é esse: é só o de sempre.

SMD AJUDA BANDAS INDEPENDENTES A DECOLAR.

Agosto 12, 2007

Mais uma do Jornal Musical. Publicada em fevereiro/2007. Âpideite: desde que escrevi essa reportagem, saiu também em formato SMD o disco de estréia dos The Feitos, Na cabeça da chorona. Recomendo!

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O selo carioca Bolacha Discos acaba de entrar no mercado, disputando uma vaguinha na disputada seara das gravadoras independentes. A turma pôs no mercado os álbuns de estréia dos grupos Binário e Songoro Cosongo, e o segundo trabalho do coletivo Digital Dubs Sound System. Com um site ainda em construção (www.bolachadiscos.com.br) e uma página no portal MySpace (www.myspace.com/bolachadiscos), a jovem gravadora espera conseguir um lugar ao sol usando um slogan no mínimo convincente: “Na nossa mão é R$ 5″. É isso aí: por utilizarem a tecnologia SMD (semi-metallic disc, ou disco semi-metálico), os álbuns da Bolacha podem ser postos à venda por um preço de dar inveja aos camelôs. A iniciativa do selo confirma uma tendência. Um número crescente de selos independentes está apostando no SMD como forma de baratear radicalmente o custo final de seus discos, matando o motivo principal da proliferação da pirataria – o alto preço do CD.

“O SMD é o primo socialista do CD. Na fábrica, a diferença de preço entre um SMD e um CD é de mais de 100%”, afirma Carol Monte, produtora musical e idealizadora da Bolacha Discos, junto ao músico Bernardo Palmeira. A dupla se conheceu, por ironia, nos corredores de uma gravadora multinacional, a Sony BMG, quando Carol trabalhava num remix e Bernardo, no departamento de A&R do selo. Eles voltaram os olhos para o cenário dos novos grupos pop cariocas, pinçando o experimentalismo do Binário (com o álbum Nereida), o reggae-dub eletrônico do Digital Dubs (Diáspora riddim) e o som dançante e latino do Songoro Cosongo, um septeto que reúne músicos do Brasil, Argentina, Venezuela, Colômbia e Chile (e que lançou o álbum Misturando com cachaça fica muito bom).

Os caminhos que a Bolacha usa para chegar ao público são os mesmos de outros selos pequenos: divulgação pela internet, venda direta ao consumidor e as populares banquinhas do lado de fora dos shows dos artistas. A diferença é o SMD, que custa apenas R$ 5 (nem adianta pechinchar, pois o preço vem impresso na capa). Mesmo CDs de bandas independentes não costumam sair por menos de R$ 10, em condições semelhantes. “O grande desafio do mercado é a distribuição e a divulgação. Mas hoje o custo de gravação é muito menor. Conseguimos oferecer um produto de qualidade, que pode ser comprado por um preço muito acessível”, diz Carol.

SMD: você sabe o que é?

Vale recapitular a história do SMD para entender a mágica que permite vender discos tão baratos. O semi-metallic disc é uma invenção brasileira, criado pelo goiano Ralf Richardson da Silva – sim, o Ralf da dupla sertaneja Chrystian & Ralf, que além de cantar é inventor. O SMD é, aparentemente, igual a um CD normal. Ele é feito na mesma prensa que os compact discs tradicionais e toca em qualquer CD-player, com a mesma qualidade de som. Só que é feito com uma liga semi-metálica, em lugar do composto de alumínio com que se fabricam os CDs convencionais. A área metálica reservada para dados também é menor (no SMD cabem cerca de 70 minutos de música, contra até 78 dos CDs). No lugar da caixinha de acrílico, o SMD vem embalado em um simples envelope de papel cartão plastificado, sem encarte. Tudo isso deixa o SMD, em média, 30% mais barato de produzir que o CD – e possibilita o preço de R$ 5, que já vem impresso na capa, da fábrica.

Quando anunciou a patente do novo formato, em 2003, Ralf anunciou que seu disco iria “acabar com a pirataria” e que os lojistas que aderissem ao formato teriam lucro de 20% em cada SMD, contra os menos de 5% que o CD rende. “Com esta nova tecnologia, os artistas poderiam voltar a vender milhões de discos”, disse o cantor. Quase quatro anos depois, o novo disco não chegou a decolar como Ralf previa e a pirataria continua rampante. Mas o número de artistas aderindo ao SMD não pára de crescer. Do primeiro punhado de lançamentos em 2004 e 2005, hoje a fábrica do sertanejo inventor exibe um catálogo com mais de 40 títulos, com artistas de diversos gêneros, da eletrônica ao sertanejo (veja mais em http://www.portalsmd.com.br/brasil/page03.htm).

Este ano, além dos lançamentos da Bolacha Discos, já sairam o disco infantil Fantasias, de Rosa de Minas, e o primeiro EP da Orquestra Imperial, que está à venda nos bailes do grupo, no Circo Voador (RJ). E a tecnologia patenteada por Ralf já deu cria: a fábrica também produz o SMDV (semi-metallic disc video, que está para o DVD como o SMD para o CD) e está para lançar o SMDG (semi-metallic disc game, para jogos eletrônicos).

‘Mais barato que uma cerveja’

Os cariocas do Binário estão sempre dispostos a decantar os méritos do disco semi-metálico de Ralf. Vendendo seu álbum Nereida por conta própria nos shows desde setembro do ano passado, o grupo esgotou uma tiragem de mil SMDs e está à espera de outros mil. As vendagens são surpreendentes para uma banda indie. “Já teve show em que vendemos 80 discos. O preço também ajuda muito, claro. Em algumas casas em que tocamos, por R$ 5 não se compra nem uma cerveja”, atesta Lucas Vasconcellos, guitarrista e cantor do octeto. Para Lucas, já existe mesmo dentro do público de rock alternativo um “preconceito” contra o CD. “Vender disco em show por R$ 20 é algo fora da realidade, ninguém compra. Agora, a R$ 5…”

Segundo o vocalista do Binário, Nereida funcionou como cartão de visitas do grupo. “É muito melhor gravar um SMD do que distribuir uma demo em CD-R. O SMD é um produto bonitinho, não dá pau, funciona direito. E o pacote gráfico ainda te permite umas ousadias”, acredita Lucas. O retorno em visibilidade para a banda compensa mais do que o lado financeiro, entretanto; o álbum está sendo usado pelo Binário como peça de divulgação e não como fonte de renda. “Dá para tirar pouco mais de R$ 1 por disco vendido. Como nós somos oito…”, faz as contas Lucas.

EU NA COLUNA DO FINATTI.

Agosto 10, 2007

Bateu um email na minha caixa ontem.

“de  …  
 para  marcobarbosa@gmail.com  
 data  09/08/2007 12:11  
 assunto  coluna do Fnatti    
 enviado por  …

Fala Bart,
tu já foi na coluna do Finatti essa semana? alguém postou dois textos seus lá nos comentários! Foi você?

abç
…”

Não tenho o costume de frequentar o site do afamado jornalista paulistano, mui conhecido nas rodinhas indies e uma das mais populares figuras do Orkut. Fui lá dar uma olhada e qual não foi minha surpresa! Alguém copiou minhas criações PALPITEIROS APOCALÍPTICOS & INTEGRADOS  e UMA ABÓBORA DE MAU HUMOR e colou lá na área de comentários da coluna do Finatti! Não foi feita menção à minha assinatura, nem o t.d.v. foi linkado. O primeiro texto foi assinado por alguém chamado Kai, o segundo singelamente creditado a “Bart”. Lá no final, alguém ainda diz que “concorda com o Kai”. Não sei se fico indignado ou lisonjeado. Postei um novo comentário indicando de onde sairam os textos, mas ainda não foi publicado (nem sei se será, na verdade).

Enfim, não sei quem é esse (essa?) Kai, nem que objetivo tinha ao botar um texto meu como sendo um comentário seu. Agradeço, porém, a audiência.  

PARADAS DE SUCESSO ONLINE: SEMELHANÇAS E MUITAS DIFERENÇAS EM RELAÇÃO AO MUNDO REAL

Agosto 7, 2007

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Publicado no Jornal Musical, abril/2007.

Há muita diferença entre a música que os brasileiros ouvem nas rádios e compram nas lojas de CD e a música que os mesmos brasileiros adquirem online, por meio de download legal e pago. Essa é a conclusão principal que se pode tirar do levantamento feito pelo Jornal Musical junto às quatro maiores megastores – que comercializam faixas de diversas gravadoras – de música online da internet brasileira. A competição entre os sites Sonora (www.sonora.com.br), UOL Megastore (www.uol.com.br/megastore), iMúsica (www.imusica.com.br) e BaixaHits (www.baixahits.com.br) mostram que o mercado brasileiro de música online está se aquecendo cada vez mais, apesar de ainda ter muito o que crescer em relação ao exterior.

As “paradas de sucesso” de cada uma das megastores refletem, até certo ponto, as paradas oficiais de execução e vendagem no “mundo real”. Nomes como Ivete Sangalo, Capital Inicial e Pitty se repetem várias vezes em ambas as amostragens. Mas em um aspecto fundamental a compra de música online difere da compra física: o mercado de download legalizado é dominado por artistas estrangeiros, enquanto que nas vendas de CDs e DVDs o cenário se inverte e a música brasileira domina. Também é fácil notar que gêneros musicais mais popularescos – forró, sertanejo romântico, música cristã -, predominantes nas paradas de rádios e venda de discos, não têm vez nos sites de download pago. O público desses estilos ainda permanece fiel ao CD por uma série de motivos; e o principal deles é a exclusão digital. O comprador de música das camadas mais pobres, de maneira geral, não tem acesso à internet. Preços ainda altos em relação ao CD físico (e mais ainda em comparação com os piratas) também espantam o povão.

A movimentação no cenário é vista com bons olhos por figuras importantes na indústria, como Felipe Llerena, diretor do iMúsica. “Quanto mais competição, melhor. Aumenta a visibilidade do negócio e melhora os preços para o consumidor”, explica. Mas uma queda significativa nos preços das faixas só será vista quando a base de compradores aumentar. Atualmente, a venda de música online representa menos de 2% do faturamento das grandes gravadoras brasileiras, enquanto no exterior esse porcentual já ultrapassa os 10%. O preço-base das faixas à venda nos megastores é de R$ 2,49, valor que, segundo os representantes da indústria, só deverá cair com a popularização da compra de música na internet.

“O ano de 2006 ficou marcado pelo surgimento de novos parceiros comerciais na internet. Hoje são mais de vinte lojas virtuais devidamente licenciadas vendendo música online no Brasil. As companhias têm lançado seus produtos no mercado digital simultaneamente ao lançamento no mercado físico. O esforço para digitalização de cada catálogo continua, e cada vez mais repertório é encontrado com mais facilidade nas lojas legalizadas”, afirma Paulo Rosa, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Disco (ABPD) sobre a proliferação das lojas de download.

A pesquisa feita pelo Jornal Musical acompanhou as faixas e álbuns completos mais vendidos e os artistas mais populares no período entre 16 e 22 de abril. Estarão listados abaixo apenas os artistas nacionais que emplacaram suas faixas e/ou álbuns nos Top 20 (os títulos mais vendidos) de cada site; o resto das paradas é composto por artistas internacionais. Para referência, foram incluídos os preços de cada faixa e álbum. A comparação com as paradas de execução em rádio e vendagem de CDs foi feita com dados do site Sucesso CD (www.sucessocd.com.br), com dados aferidos entre 18 e 24 de abril (vendas) e 9 e 13 do mesmo mês (execução em rádio).

Sonora
A loja de música do portal Terra é, com o perdão do trocadilho, a terra de Ivete Sangalo. A baiana é a única presença nacional no top 20 do site. Mas em compensação emplacou logo seis faixas: “Never gonna give you up” em 7º lugar, “Deixo” em 8º, “Berimbau metalizado” em 10º, “Quando a chuva passar” em 12º, “Corazon partio” em 15º e “Não me conte seus problemas” em 18º. Cada um dos downloads da cantora sai por R$ 2,49. Todas as canções citadas sairam do CD Multishow ao vivo Ivete no Maracanã, disponível na íntegra por R$ 42,33 – não por acaso, o disco lidera a parada de full albums do site. Na mesma lista estão Pitty (12º lugar, com Anacrônico, R$ 22,50) e Babado Novo (O diário de Claudinha, R$ 34,86). Na parada geral dos artistas mais baixados, nenhuma surpresa: deu Ivete na cabeça de novo. Ela é a única brasileira entre os 20 mais comprados.

UOL Megastore
O pop-rock é o gênero nacional mais presente nas paradas da loja de música do Universo Online. Em 6º lugar entre as músicas campeãs de download estão “Eu nunca disse adeus”, do Capital Inicial (R$ 2,49), seguido por “Na sua estante” (R$ 1,99) de Pitty, em 7º e “Eu vou tentar” (R$ 2,49), do Ira!, em 9º. Entre os álbuns mais vendidos, quatro nomes nacionais. Ira! e Capital retornam, respectivamente em 2º (com Invisível DJ) e 9º (Eu nunca disse adeus) lugares. Seu Jorge (Cru) ocupa a 3º posição, e o grupo Blues Etílicos chega em 10º com Cor do universo. Curiosa é a variação de preço entre os discos cheios. Enquanto os álbuns do Ira! e do Capital Inicial estão à venda por R$ 23, o de Seu Jorge custa apenas R$ 9,90 – e o do Blues Etílicos, irrisórios R$ 3,60. A diferença nos preços só pode ter uma explicação: os discos mais caros são de gravadoras multinacionais (Ira! é da Universal, Capital da Sony & BMG), e os mais baratos, de selos independentes (Seu Jorge é da ST2; Blues Etílicos, da Net Records). No ranking dos artistas, novamente Ira! (5º) e Capital (9º) despontam, com Chico Buarque chegando em 8º.

iMúsica
Mais antiga das lojas de música online do Brasil (ativa desde 2000), a iMúsica também é a que apresenta resultados mais inusitados em suas paradas de sucesso. Artistas que não costumam freqüentar listas de mais vendidos estão bem no site. Mas, ironicamente, no Top 20 de músicas mais compradas não há sequer um nome nacional. O primeiro a aparecer na lista é O Rappa, em 23º, com “Pescador de ilusões” (R$ 1,89). Em seguida, alternam-se Marisa Monte (31º, com “Vilarejo”, R$ 2,49), Pitty (32º, “Na sua estante”, R$ 1,69) e Alceu Valença (33º, “Marim dos caetés”, R$ 2,49). Surpresa é encontrar Ciro Monteiro, e duas vezes: “Se acaso você chegasse” (34º) e “A mulher que eu gosto” (35º), ambas por R$ 2,49. Bezerra da Silva vem em 39º, com “Meu pirão primeiro” (R$ 1,99). Surpresa ainda maior é se deparar, no topo da lista de discos mais vendidos, não com um álbum musical e sim com um audiobook: Yoga, de Rogério Pfaizgraff. Música mesmo só a partir do 2º lugar, com Água (Andrey Cechelero, R$ 19,90); em 3º vem , Caetano Veloso (R$ 22,50) e em 4º O samba da minha terra, Cabruêra (R$ 19,90). No ranking dos artistas mais populares, apenas Chico Buarque (6º) e a dupla de música infanto-juvenil Celelê & Relalá (8º) defendem o Brasil.

BaixaHits
Entre as lojas pesquisadas, o BaixaHits é a que tem a menor porcentagem de artistas brasileiros entre os mais vendidos. Como o site não divulga estatísticas sobre vendas de álbuns inteiros nem de artistas mais baixados, resta dar uma olhada no top 20 de canções. Os únicos brasileiros lá são a dupla Bruno & Marrone, chegando em 10º com “Não posso ter medo de amar” (R$ 2,49) e Pitty, 14º com “Na sua estante” (R$ 1,69).

E no mundo real?

Mais tocadas em São Paulo:

01 Papas da Língua, “Eu sei”; 02 Fergie, “Big girls don’t cry”; 03 Bruno & Marrone, “Não posso ter medo de amar”; 04 Akon & Eminem, “Smack that”; ” 05 Beyoncè, “Irreplaceable”; 06 Nelly Furtado, “Say it right”; 07 Jo Jo, “Too little too late”; 08 Justin Timberlake, “My love”; 09 Zezé di Camargo & Luciano, “Olha eu aí “; 10 Leonardo, “Idas e voltas”; 11 Ivete Sangalo, “Deixo”; 12 Zeca Pagodinho, “Ratatuia”; 13 Belo, “Intriga da oposição”, 14 Jeito Moleque, “Sem radar”; 15 Akon & Snoop Dogg, “I wanna love you”; 16 Exaltasamba, “Livre pra voar”; 17 Ne-Yo “Sexy love”; 18 Ashley Tisdale, “Be good to me”; 19 Pussycat Dolls & Snoop Dogg , “Buttons”, 20 Snow Patrol, “Open your eyes”.

Mais tocadas no Rio de Janeiro:

01 Fergie, “Big girls don’t cry”; 02 Ivete Sangalo, “Deixo”; 03 Beyoncè, “Irreplaceable”; 04 Capital Inicial, “Eu nunca disse adeus”; 05 Jeito Moleque, “Sem radar”; 06 Lobão, “Vou te levar”; 07 Perlla, “Depois do amor”; 08 Snow Patrol, “Open your eyes”; 09 Paolo Nitini, “Last request”; 10 John Legend, “P.D.A. (we just don’t care)”; 11 James Morrison, “You give me something”; 12 Sorriso Maroto, “Futuro prometido”; 13 Corinne Bailey Rae, “Like a star”; 14 Papas da Língua, “Eu sei”; 15 Babado Novo, “Doce paixão”; 16 Ira! “Eu vou tentar”, 17 Jo Jo, “Too little too late”; 18 Revelação, “Velocidade da luz”; 19 Exaltasamba, “Como nunca amei ninguém”; 20 Ana Carolina, “Ruas de outono”.

CDs mais vendidos (parada nacional):

01 Ivete Sangalo, Ivete no Maracanã – Multishow ao vivo; 02 Ricky Vallen Homenagens; 03 Banda Calypso, Vol 10 – Acelerou; 04 Padre Marcelo Rossi, Minha benção; 05 Cesar Menotti & Fabiano, Palavras de amor – ao vivo; 06 Edson & Hudson, Na moda do Brasil – ao vivo; 07 Vários artistas, Paraíso tropical – Nacional; 08 Gino & Geno, Canto, bebo e choro; 09 Amado Batista, Perdido de amor; 10 Evanescence, The open door; 11 Sorriso Maroto, É diferente; 12 Ana Carolina Estampado (CD+DVD); 13 Calcinha Preta Vol. 16 – Como vou deixar você?; 14 Bruno & Marrone Ao vivo em Goiânia; 15 Skank, MTV ao vivo; 16 Cídia & Dan, Duetos românticos; 17 Joss Stone, Introducing Joss Stone; 18 Grupo Revelação, Velocidade da luz; 19 Vários artistas, Bendito o que vem em nome do Senhor; 20 O Rappa, O silêncio Q precede o esporro.

RENASCENÇA PSICODÉLICA BRAZUCA.

Agosto 1, 2007

Hoje, dia 1º de agosto – na verdade, daqui a algumas horas – vai rolar show do Momo no Cinemathèque Jam Club. Pode estar meio tarde para dar o informe a título de agenda, mas aproveito a ocasião para postar dois textos que fiz sobre o cara. Entrevistei-o para o Jornal Musical depois de ouvir (e me entusiasmar) com seu disco de estréia, A estética do rabisco. De bônus, incluo também a resenha que fiz do disco de estreía do grupo Supercordas, outra boa novidade do cenário fluminense, também saída do JM. Todas as três matérias foram publicadas em fevereiro/2007. Junto os três textos em uma espécie de mini-dossiê sobre um suposto resgate da psicodelia, já que tanto o Momo quanto os Cordas plantam firmemente seus pés no terreno da lisergia – lírica, instrumental e melódica. Tune in…

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Rabiscos psicodélicos de Momo

No cenário pop brasileiro atual, é difícil achar algum nome com um som remotamente parecido com o que Marcelo Frota – que também atende pelo codinome Momo, um banda-projeto de um homem só – faz. O próprio cantor e compositor sabe disso. “Não tem muitos artistas no Brasil com quem eu me identifique, não”, admite. A singularidade de seu primeiro disco solo, A estética do rabisco, lançado recentemente pelo selo carioca Dubas, é tanta que, por um momento, o próprio autor temeu pela viabilidade do projeto. “Depois de gravar o disco, chamei um amigo meu, engenheiro de som, para dar uma mão na mixagem. Ele ouviu e disse que não iria mexer ‘naquilo’. Achou muito confuso. Naquela hora eu fiquei meio tenso…” diz Marcelo, em conversa com o Jornal Musical. ‘Aquilo’, como o amigo do compositor definiu o álbum, foi gravado no próprio quarto de Marcelo, usando pouco mais que um computador, uma craviola e um sintetizador de brinquedo. E, com sonoridades que sugerem tanto o folk contemporâneo quanto a psicodelia de antanho, A estética… não é apenas singular: é também uma das melhores e mais intrigantes promessas para o pop brasileiro safra 2007. “Só espero que as pessoas dêem uma chance ao disco. Teve gente que achou meio ’surtado’, outros choraram ao ouvir”, conta o compositor, que também bate ponto na banda Fino Coletivo, liderada pelo alagoano Wado.

As pistas da charada são dadas pelo próprio Frota, que cita artistas gringos como Antony & The Johnsons, Devendra Banhart, Cat Power, Belle & Sebastian e os brasileiros + 2 e Cidadão Instigado como inspirações – além de patriarcas do folk rock como Nick Drake, Tim Buckley e Tim Hardin. “São essas as coisas que me emocionam”, diz. Nas composições de A estética do rabisco ouve-se um pouco disso tudo e mais um pouco, visto que Marcelo, que compõe desde os 18 anos (hoje tem 28), ouviu de tudo um muito em sua vida. “Por influência dos meus pais, ouvia coisas como Willie Nelson, Burt Bacharach e Stevie Wonder quando era mais novo. Depois, quando fui morar nos EUA na época do estouro do grunge – 1991, 92 – comecei a gostar de rock. E mais tarde veio a MPB, Chico, Caetano”. Paralelo a isso e junto a várias mudanças (Marcelo é mineiro radicado no Rio, mas já morou até em Angola), ele tocava seu violãozinho, de leve. “Queria aprender a tocar bossa nova”, conta Frota, que estudou o instrumento por cerca de um ano até perceber que “aquelas firulas todas não eram bem o que eu procurava”.

Depois de estabelecer-se no Rio, Marcelo gravou dois CDs com suas canções, que não chegaram a ganhar distribuição comercial. “Eu passava os CDRs para os amigos, sem qualquer pretensão. Nessa época, eu fazia algo mais próximo da MPB”, relembra. Entre um show aqui e uma jam-session acolá, foram surgindo os embriões do som de A estética…, já influenciados por outras idéias. “Comecei a pesquisar a música folk, tanto os artistas contemporâneos quanto os pioneiros. Durante uma viagem à Espanha, pude tocar em praças e casas noturnas só com voz e violão, o que me ajudou a cristalizar o novo formato”. Em 2004, o amigo Wado – já cultuado como revelação da novíssima safra emepebística – o incentivou a gravar as novas criações. “Sempre fui fã de baladas – canções lentas, arrastadas, quanto mais dramáticas, melhor. E tudo o que eu vinha fazendo acabou pendendo para esse lado”, explica. Letras simples, que segundo o próprio compositor são “autoreferentes”, tangenciam desordens químicas (“Casa quer me desabar/Pro equilíbrio tomo comprimidos”, em “Comprimidos”), reminiscências (“Minha mãe me queria grande (…)/ Meu pai me queria homem/ Eu preferi regar as plantas”, em “Flores do bem”) e reflexões angustiadas (“E todo mundo matando um leão por dia/Vai faltar leão”, em “Leão”).

A sonoridade minimal e surpreendente do disco nasceu tanto do acaso quanto da necessidade. Marcelo queria dar um tempo no violão e resolveu testar uma craviola, instrumento de 12 cordas similar ao violão mas de som mais metálico. “Estava cansado das cordas de naílon, queria um instrumento com cordas de aço. Vi uma craviola usada à venda e comecei a tocar. Aquilo me abriu um caminho!” Munido do novo instrumento e de um Casiotone – minisintetizador a pilha da Casio, pouco mais que um brinquedo – começou a registrar, sozinho, as canções. O “estúdio” foi seu computador. “Era um PC emprestado. Comprei um microfone, uma placa de som e decorei mais ou menos como usar os programas de gravação. Depois esqueci tudo, aprendi só o suficiente para gravar naquela hora, hoje nem sei mexer mais no programa… Também fiz questão de não escutar disco algum como referência de timbres ou de som. Sabe quando o artista chega para o produtor e fala: ‘Pô, quero que a guitarra soe igual à guitarra da banda tal…’? Eu evitei isso”.

O título do álbum veio da estética despojada, aberta ao improviso e à aleatoriedade. “Não editei nem afinei nada depois de gravado. Queria que soasse como um disco ao vivo, fluido”, narra Frota. Com as bases gravadas, os amigos Adriano Barros (guitarra), Bruno Rezende (baixo) e Bruno Braggion (bateria), mais alguns convidados, ajudaram a encorpar o som. Depois mostrar o resultado para Ronaldo Bastos, diretor da Dubas – que aprovou o álbum, classificando-o de “nebuloso” – quase que o esforço vai por água abaixo. “A gravadora queria pagar uma masterização do disco, mas ia deixar tudo pasteurizado. Deixamos como estava”.

Momo, o homem-banda, enfrenta agora o desafio de levar Brasil afora suas introspectivas composições. “Fico acanhado tocando ao vivo. Com o Fino Coletivo é mais fácil, estou ali mais acompanhando. Como Momo eu me exponho muito mais. Me emociono, entro numa viagem na qual nem todo mundo embarca junto. Ainda preciso amadurecer muito esse lado da perfomance”. Frota sonha em fazer um excursão que passe por fora dos grandes centros urbanos, tocando em lugares menores. “Minha música é mais adequada a teatros, espaços mais intimistas. Aqui no Rio então, é impraticável. Casas com festas dançantes, com cerveja, agito, azaração… estou na contramão disso tudo”, suspira.

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A estética do rabisco - Momo (Dubas)

O bom dos discos da gravadora Dubas é que eles vêm explicadinhos, já na capa. Para este A estética do rabisco, a indicação é “File under: Brazil/Folk/Momo”. Momo, codinome do cantor e compositor Marcelo Frota, realmente passeia pelos lados do que se chama, no léxico pop universal, de folk music – sons acústicos, plangentes, com ênfase no violão (aqui substituído por uma onipresente craviola). Momo, no entanto, não se limita a emular Bob Dylan ou, para ficar num paralelo local, Zé Ramalho. Seus arranjos são inventivos, ocasionalmente barulhentos, repletos de efeitos que remetem ao rock psicodélico. A noção é reforçada pela interpretação vocal de Marcelo, suave, às vezes não muito além do sussurrado. Mas o delírio d‘A estética não é daqueles pesadamente alucinógenos. O caminho é da delicadeza, com arranjos limpos e minimais e músicas lentas. O disco é calminho, calminho, mesmo nos momentos mais turbulentos (como na abertura auto-explicativa de “Comprimidos”, carregada de guitarras distorcidas). Na grande maioria das faixas, plácidas e sugestivas, o que sobrevem é a força das belas melodias, caso de “Benditas flores”, “Leão” e “Tempestade”, canções que nasceram de uma aparente paixão pelo rock dos anos 60 e cresceram contaminadas por outras influências: a ala maldita da MPB dos anos 70, a renascença do rock progresssivo pós-Radiohead. Um dia, essa ambiciosa vontade de juntar a lisergia elétrica universal com a vocação acústica brazuca já teve o nome de tropicalismo. E agora, o que será?

Lá pelo final do disco, a faixa “Sem tempo” (composta por Adriano Siri) é a melhor conjunção disso tudo. Antes, ainda vem o clima setentão de “Tão feliz”, com seu som pinkfloydiano completado pelas intervenções vocais de Shahia Karkouti (que também ilumina decisivamente “Bonsuar” e “Soluço a dois”, entre outras faixas); a viajante “Segredo não se diz”, no qual um saxofone definitivamente viajante toma o centro das atenções; e “Flores do bem”, uma das melhores letras do disco. Na longa e desconstruída “Adeus”, que fecha o álbum, aí sim carrega forte no experimentalismo (incluindo um “buraco” de silêncio de mais de dois minutos no meio da faixa, que desemboca numa melodia beatlesca e depois parte para uma queda livre de barulhinhos feitos no Casiotone por Momo).

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Seres Verdes ao Redor: Música para Samambaias, Animais Rastejantes e Anfíbios Marcianos – Supercordas (Trombador Discos)

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A legião psicodélica brazuca é pequena, mas continua a ganhar adeptos. Prova disso é o álbum de estréia do Supercordas, banda já manjada por quem se interessa pelas novidades do pop nacional. Num tempo em que o rock carioca se divide entre clones dos Los Hermanos e emuladores dos sons modernos de Nova York e Londres, o quarteto assume uma bicho-grilagem que chega a ser comovente – em sua recusa a embarcar nas últimas modas. Plácido, relaxante e doce como uma good trip, o álbum prega uma volta à natureza, cantando sobre “Mofo”, “Musgo”, “Fotossíntese” e “Mangue” – sim, esses são títulos de canções. As sonoridades (e aí vai ser impossível evitar o clichê) “orgânicas” dos arranjos se fundamentam em violões e belas harmonias vocais, além de teclados, barulhinhos e instrumentos menos usuais como “guitarras eletrônicas marítimas”, “viola de arame”, “pseudo-mellotron” ou “gaita de R$ 5″. Por trás das supostas esquisitices, fica a impressão de uma banda encafifada em sua própria viagem, mas num bom sentido, já que as boas idéias e a criatividade evidentes dos rapazes não deixam de ser convidativas. Resta ao ouvinte embarcar na onda.

Alienígena em sua terra, o som do grupo tem paralelo nacional no rock gaúcho de nomes como Júpiter Maça e Os The Dárma Lóvers. Uma psicodelia brejeira que pode ter suas raízes no Clube da Esquina, no rock rural setentista ou nos Mutantes – ou na onda revivalista gringa puxada por grupos como Flaming Lips ou Neutral Milk Hotel. Ou, ainda e por que não?, na fonte inesgotável que são os Beatles. Em “Ruradélica” e seu arranjo vocal, ou na levadinha inconfundível de “Sobre o frio”, sente-se a influência de modo marcante. Eles não param por aí. As abstrações de “Musgo” e “Mangue”, duas quase-vinhetas, mostram o potencial dos Supercordas de cravarem sons mântricos, indutores de transe. “E o sol brilhou sobre o verde” tem carinha de potencial hit single – mesmo sem ter letra, só contando com delicados vocalises superpostos. A caipirice bate forte em “Frog rock”, com viola e tudo o mais. Ao final, para não fugir do padrão dos clássicos do psicodelismo, embarcam com tudo na faixa mais longa do disco, “Fotossíntese”, que fecha com uma bela coda vocal embalada por guitarras distorcidas (e que retorna à viola caipira antes de acabar). Som de matuto? Só se for um matuto com um cigarro de palha num canto da boca e um LSD embaixo da língua.