SOM E FÚRIA, SIGNIFICANDO NADA.

Julho 19, 2007

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Todo mundo conhece aquele clichê que reza: “O conjunto de tal obra é maior que a mera soma de suas partes”, ou algo similar. Pois Transformers, o filme que Michael Bay (super)produziu a partir da conhecida franquia de brinquedos/desenhos animados/quadrinhos, inverte a máxima. Seu resultado é menor que a soma de suas frações. O que chega a ser paradoxal, uma vez que Bay (com a ajuda de Steven Spielberg, produtor executivo da bagaça) fez questão de colar em seu longa o maior número possível de “partes” diferentes. Pode-se reconhecer inspirações e/ou citações involuntárias a vários outros blockbusters. Costurados em cenas de ação incontrolavelmente frenéticas e muito, mas MUITO barulho, todos esses retalhos fílmicos redundam num filme longo, cansativo, excessivo. Cento e quarenta e tantos minutos depois de entrar no cinema, a dor de cabeça na saída é inevitável. (Eu assisti ao filme numa sala com som THX.)

OK. OK. Trata-se, putzgrila, de um filme sobre robôs gigantes do espaço sideral que se transformam em carros (e aviões, e helicópteros, e até em aparelhos de som ). O que se pode esperar dessa premissa, além de barulho e frenesi? Ao menos, espera-se que as explosões e as lutas sejam organizadas de modo a atrair (e agradar, se possível) a algum tipo de público, qualquer tipo. Paradoxalmente, apesar de ser infantil ao extremo, o filme não parece ser adequado à criançada. A trama (?) é um fiapo, alguma coisa sobre duas facções de robôs que destróem uma porrada de coisas enquanto lutam por um artefato sagrado perdido aqui na Terra. É tudo de brincadeirinha. Supostamente morre um monte de gente, mas nunca em frente à câmera; os soldados durões não falam palavrões; e, afinal de contas, as épicas batalhas são travadas por bonecos criados pela Mattel. Mas a sobrecarga sensorial exigida pode exaurir, fácil fácil, a criançada. Sem falar na violência, estilizada, recortada pela montagem até ficar quase abstrata, mas ainda presente. Já aos marmanjos que se interessam pelos efeitos especiais e cenas de ação, o filme também não oferece muito alento. Sim, as transformações são fabulosas. Só que a fotografia é pobre, algumas cenas parecem feitas com o mais primitivo dos cromaquis. E as cenas de luta redundam em pura confusão, graças à câmera hiperativa. Não se sabe quem está lutando contra quem, qual é o lado bom e qual é o lado mau.

Cortando as múltiplas camadas de gordura, saltam alguns momentos nutritivos de diversão. O humor, exercitado por Bay de forma menos evidente em trabalhos anteriores, segura alguma atenção. Shia LeBeouf, o adolescente nerd que salva o mundo e pega a überbabe Megan Fox ao final, é o melhor em cena. John Turturro – num papel que, pelo visto, deveria ser de Steve Buscemi, um dos favoritos do diretor – está, bem ao estilo do filme, over. Mas diverte. Entretanto, e lá vamos nós de novo, Bay exagera até no humor. Pra quê empilhar subtrama sobre subtrama, personagens dispensáveis sobre personagens dispensáveis, só para conseguir mais uma risadinha do público? (Até George W.Bush entra na roda!)

Sob a chancela do produtor Jerry Bruckheimer, Michael Bay cometeu alguns dos mais exagerados blockbusters dos últimos anos: A rocha, Armageddon, Pearl Harbor, os dois Bad boys. Exagerados no melodrama, nos efeitos especiais, na duração, nos chavões superficiais de suas tramas, na edição picotada, nas atuações geralmente ruins. A ilha, seu filme de 2005, quebrou essa seqüência de podreiras. Essencialmente, continuava a ser um filme de Michael Bay – só que mais malandro, conciso, inteligente. Ali sim, via-se um exemplar de blockbuster com neurônios e ainda assim carregado de ótimas cenas de ação. Por coincidencia ou não, foi o primeiro de seus trabalhos não produzido por Bruckheimer. Seria o megalômano manda-chuva a força nefasta por trás do bombástico – e vazio – estilo de Bay? Pelo que se vê em Transformers, a vocação de Bay para a pirotecnia oca independe da influência de terceiros. Se nem Spielberg deu jeito…

Pois Transformer é o excesso dos excessos de Bay. Tem a mesma (ou maior) quantidade de barulho, pirotecnia e sentimentalismo que seus outros trabalhos. Achando pouco, o diretor ainda enfiou, conscientemente ou não (eu acho que não), cenas e situações já vistas antes. Poder-se-ia dizer que o filme inaugura uma era referencial e pós-moderna na estética blockbuster. Entretanto, parece não haver método aplicado ao amontoado de fragmentos de filmes alheios que o roteiro (de Roberto Orci e Alex Kurtzman) emula. E.T., Contatos imediatos do 3º grau, Tropas estelares, Falcão negro em perigo, Armageddon, Independence day, Homens de preto; tudo isso, de forma mais ou menos explícita, está liquidificado em Transformer. Desprovido de reflexão ou ironia (apesar do tom galhofeiro que marca boa parte do filme), esse emaranhado todo não se transforma – sacaram, sacaram? – num todo coerente. Desnecessário contabilizar aqui em que momentos os outros filmes citados “baixam” em Transformer. Quem vir, verá.

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