Arquivo para Julho, 2007

ETERNO CHORO: ONTEM, HOJE E AMANHÃ.

Julho 30, 2007

Voltando ao resgate das melhores reportagens que fiz para o www.jornalmusical.com.br, posto agora um texto que traça um panorama do choro contemporâneo. Deu trabalho, mas acho que ficou bacana. E, de quebra, aprendi que referir-se ao gênero como “chorinho” pega mal entre os experts… mesmo que Candido Portinari tenha usado o termo para batizar o belo quadro reproduzido abaixo. Publicado no Jornal Musical, agosto de 2006.

s_portinari.jpg

Em 1902, quando a indústria do disco surgiu no Brasil, o choro já contabilizava quase 40 anos de história. Não foram poucas as transformações pelas quais o gênero – parte básica do DNA da cultura musical brasileira – passou desde 1867 (ano de lançamento de “Flor amorosa”, composição de Joaquim Calado e Catulo da Paixão Cearense apontada frequentemente como marco zero do choro). Tão notável quanto a permanência e a influência do estilo em nossa música é a série de dogmas que envolvem a composição e a execução do choro. Transformações à parte, o que não falta é gente, de um lado, querendo manter a tradição do choro intocada; e, do outro, novos nomes que partem do choro para outras paragens musicais, aliando o estilo a outras influências e referências. Veteranos que seguem atuando (Joel Nascimento, Altamiro Carrilho, Déo Rian e grupos como Época de Ouro e Galo Preto), seguindo a estrita cartilha determinada ainda na primeira metade do século 20, dividem espaço com músicos de gerações posteriores, que trazem novas abordagens ao estilo. Hoje em dia vale tocar Beatles em clima de choro (como Henrique Cazes fez), incorporar novas influências e inovar na execução instrumental (caso do bandolinista Hamilton de Holanda) e usar o gênero como plataforma de miscelâneas mil (como o precocemente desfeito grupo Tira Poeira).

O fato é que cada uma das duas vertentes – os “fundamentalistas” e os “renovadores” – tentam puxar a brasa para suas respectivas sardinhas. Mas será que é assim mesmo, tão preto no branco? Em conversa com chorões (e outros nem tanto) de várias vertentes, das mais ortodoxas a aquelas abertas a novas experiências, fica claro que ninguém quer ser facilmente rotulado num ou noutro grupo.

O exemplo de Luciana Rabello é emblemático. Cavaquinista com 30 anos de carreira, discípula do mestre Jonas do Cavaquinho e criadora da gravadora Acari Records, ela é vista por muitos como a personificação da ortodoxia no choro. Imagem com a qual a própria Luciana não concorda. “Não há nada de tradicionalista na música que faço. Na Acari há uma preocupação de lançar registros históricos do choro, mas também mostramos a produção contemporânea”, conta a polivalente artista. “Além do mais, essa divisão é simplista demais. Nos anos 50, Radamés Gnatalli tocava choro com guitarra elétrica, bateria e contrabaixo mas não tinha pretensão de ser ‘moderno’”, prossegue.

Entretanto, a própria Luciana esclarece alguns pontos nesse qüiproquó estético. Ela diz: “Se há alguma verdadeira modernidade no choro produzido hoje, isso só vai se constatar daqui a uns 40 anos. Mais ou menos a cada 20 anos surge uma nova geração de músicos de choro. O que eu vejo hoje é uma série de artistas talentosos, mas confusos. Trazer novos ritmos para o choro é um engano. O (clarinetista) Nailor Proveta costuma dizer para seus alunos: ‘Quando vocês estiverem tocando, de cabeça, 200 choros clássicos, aí sim vocês podem pensar em improvisar’. E eu concordo com ele. Não existe futuro sem passado”.

No front dos veteranos legítimos, o fervor fundamentalista abrandou-se. Do alto de seus 69 anos de vida (e mais de 50 de carreira), o bandolinista Joel Nascimento já viu muita água passar debaixo da ponte do choro. E diz: “Os músicos de choro já foram muito radicais em relação à forma ‘certa’ de tocar. Antigamente não se admitia, por exemplo, violino no choro. Ou que um músico de choro tocasse jazz. Mas isso vem mudando. Nos anos 70, quando toquei com a Camerata Carioca, já tínhamos uma visão bem aberta”. Ainda assim, o instrumentista (que atualmente se apresenta acompanhado pelos jovens chorões do grupo paulista Quatro a Zero) é cauteloso ao se referir aos rumos contemporâneos do gênero. “Confunde-se a evolução do choro, enquanto estilo musical, com a evolução do músico que toca choro”, analisa Joel. “Não há grandes evoluções no choro. Fazer arranjos novos para músicas velhas, isso todo mundo pode fazer. Mas o choro em si não se descaracteriza”.

Altamiro Carrilho tem uma visão parecida com a de Joel, mas um tanto mais crítica. “As músicas que esse pessoal novo anda tocando são complicadas demais. Daqui a pouco, só músico de jazz vai poder tocar choro. Interpretar choro não é fazer pirueta. É um estilo que vem de black tie, que pede seriedade do músico. Não me considero um sujeito quadrado, mas acho que o choro é a mola mestra de tudo o que já se fez em música brasileira. Então não há necessidade de mudar nada. Como vai se modernizar o que já nasceu moderno?”, indaga o flautista.

Uma noção clara para muitos dos tradicionalistas é a de que o choro é uma “linguagem”. E quem se dispõe a “falar” essa língua precisa aprender primeiro o bê-a-bá, antes de sair recitando discursos complexos. “É preciso conhecer a tradição a fundo. A garotada tem o direito de experimentar, mas há de se respeitar a história”, pondera Mauricio Carrilho, parceiro de Luciana Rabello na Acari e integrante desde os anos 70 de grupos como Os Carioquinhas e a Camerata Carioca. Mauricio (sobrinho de Altamiro Carrilho) prossegue, contemporizando: “Há mais coisa além dessa divisão básica de tradição X modernidade. Eu, particularmente, não me enquadro em nenhum dos campos. Existe muita gente séria fazendo, hoje, boa música sem apelar para fusões. O choro vive hoje uma época próspera”.

Henrique Cazes pode bem representar o paradigma do músico que trafegou de um extremo a outro no choro. Tocou com gigantes como Radamés e Joel Nascimento, mas deu a cara a tapa ao reler Pixinguinha usando instrumentos eletrônicos (no projeto EletroPixinguinha) e ao recriar hits de Lennon & McCartney (com a série Beatles’n'Choro). Sobre o estado atual do choro, ele só vê motivos para comemorar. “Vivemos um momento de liberdade. Os músicos estão à vontade, livre dos dogmas. Antes qualquer mudança era algo absurdo, um sacrilégio. O mais interessante é que ao lado dos novos nomes, a turma da velha guarda também voltou a tocar e gravar mais. Os formatos se multiplicaram”, diz Cazes.

A liberdade de que fala Henrique gerou frutos interessantes. Há toda uma geração de músicos jovens, formados a partir do último “renascimento” do choro (que Cazes situa cronologicamente no final dos anos 80) que usa o estilo como base para toda a sorte de fusões. Um dos nomes mais citados neste campo é o de Hamilton de Holanda. Bandolinista de 30 anos, que já tocou com Deus e o mundo (de Altamiro Carrilho ao roqueiro John Paul Jones, do grupo inglês Led Zeppelin), Hamilton reconhece que deve o que sabe ao choro. Mas que nem por isso se limita somente ao estilo.

“Acho que existem na verdade três caminhos no choro hoje em dia. Há o pessoal mais da tradição, há essa turma nova que gosto de chamar de ‘progressista’, e tem gente que fica no meio, que é o meu caso”, opina Hamilton. “O que eu faço não é choro, tem outros elementos. O músico tem a obrigação de ser livre. Mas as mudanças precisam ser feitas com consciência. Sabendo-se que não dá para reinventar a roda, pode-se experimentar. A menos que surja um novo Pixinguinha ou um talento equivalente, não se pode falar em um ‘novo choro’”, completa o bandolinista. De ouvidos atentos à nova produção, o músico reconhece valor em experiências menos ortodoxas. “O Henrique (Cazes), por exemplo, tem toda a autoridade para fazer coisas novas dentro do choro”, diz.

O violonista Zé Paulo Becker é outro que caminha na linha entre passado e presente. De formação erudita, imerso no choro mas também cultor do samba e da MPB, o instrumentista trafega desenvolto entre estilos e épocas. “Minha geração ouve mais jazz, samba, outras coisas além de choro. Então há essa influência saudável e natural. O mais importante é conhecer a tradição. A turma que chegou agora tem base e bom senso, toca de forma muito profissional”, fala Zé. Na hora do debate sobre os novos rumos do estilo, o violonista assume um discurso mais reverente. “Temos que definir o que é e o que não é evolução. Radamés e Garoto eram e ainda são modernos, em termos de harmonia, e nunca deixarão de ser”.

Em geral, quem emprega o choro como elemento a mais não tem pretensões de remoçar o gênero. A confluência de jazz, samba, MPB (e choro, claro) marca a música do grupo carioca Sardinha’s Club, antes conhecido como Pagode Jazz Sardinha’s Club. Eduardo Neves, flautista e saxofonista do grupo (que reúne uma série de feras, como Rodrigo Lessa e Marcos Esguleba), confirma: “Não buscamos renovar o choro. Eu e Rodrigo aprendemos a tocar na escola do choro tradicional e é isso o que se ouve no Sardinha’s. Quem vai pela tradição costuma acertar mais do que o pessoal que quer inventar muito”.

Uma reflexão feita por um observador insuspeito da cena acrescenta nova luz ao debate. A princípio, o nome de Henrique Filho pode não dizer muito aos chorões. Mas mencione-se a alcunha profissional do músico e produtor – Reco do Bandolim – e a coisa muda. Reco é presidente do Clube do Choro de Brasília, instituição que preserva o gênero com espetáculos, debates, cursos e oficinas. E para ele não faz diferença se o choro a preservar é velho ou novo.

“Nos últimos anos, felizmente acabou essa noção de que ‘choro é só para chorão’ e ninguém mais. Essa divisão só atrapalhava a boa música. A fiscalização que os músicos mais velhos faziam sobre os novatos era muito negativa. Choro é uma coisa viva, não é uma arte para ficar presa em uma cristaleira, pegando poeira”, discursa Reco, que está à frente do Clube há 12 anos. Ele, que já pôs Pepeu Gomes e o Zimbo Trio para tocar choro em seu palco, resume sua visão: “Não há melhor nem pior nessa história, nem quem defende a tradição, nem os que pregam a novidade. Mas é claro que a evolução tem que partir de um profundo conhecimento sobre a obra das gerações anteriores”.

O JEITINHO (DO CINEMA) BRASILEIRO.

Julho 20, 2007

cartaz.jpg

A pergunta é recorrente e pertinente: num país que não dá saneamento a seus cidadãos, há espaço (e verba) para se produzir cinema? E suscita outras. É com dinheiro público? E que diabo de cinema é esse? É bom, ao menos? Quem é que está fazendo, e como está se fazendo? E por que cargas d’água FAZER UM FILME para tentar responder a essas questões?

Saneamento básico, o filme é um filme para explicar, aos leigos, como funciona o cinema. Mais: é um filme para explicar, aos leigos, como funciona o cinema brasileiro. Mais ainda: é um filme para explicar, aos leigos, como funciona o Brasil. Ou como não funciona, dá no mesmo. Jorge Furtado parece ter se cansado de ser “apenas” o melhor contador de histórias de nosso cinema e parte aqui para plagas mais ambiciosas. Ele consegue fazer malabarismos com múltiplas camadas de metalinguagem e o faz sem sombra de cabecismo ou enrolação. De quebra, dá conta de uma ambição antiga de nossa sétima arte, que persiste desde milnovecentoseglauberrocha – metaforizar na tela a identidade nacional e suas contradições, vícios e virtudes. A diferença é que faz isso num estilo chocantemente claro e fluido, sem discurseiras, alegorias gratuitas ou panfletarismo esquerdista. Furtado acerta no alvo ao demonstrar que o cinema brasileiro e suas mazelas são um microcosmo bastante plausível da sociedade brasileira e suas mazelas.

A cena pode estar acontecendo agora em qualquer prefeitura. A comunidade precisa de uma obra de saneamento. A prefeitura diz que não tem dinheiro. Mas há uma verbinha não utilizada que, originalmente, seria para a produção de um vídeo. Um filme. Idéia genial: faz-se um vídeo sobre uma obra de saneamento público, gasta-se a verba na obra e filma-se com o que sobrar. Simples e complicado como o Brasil. O famigerado “jeitinho”, que tanto pode atrapalhar quanto ajudar, é a mola-mestra não só da trama do filme, mas também da visão que Furtado constrói de nossa nação. É nosso componente fundador, definidor, fundamental.

É claro que o olhar – ah, como eu odeio esses termos – “aparelhado” vai extrair muito mais do filme. Quem está por dentro da mumunhas do cinema nacional vai se deliciar de forma particular com as sucessivas cargas de ironia injetadas no roteiro. Tragicômico é pensar, mesmo por um instante, que as coisas realmente funcionam assim: diretores que não sabem o que é direção, atores que não sabem atuar, roteiristas que não entendem a necessidade de se ter um roteiro em mãos. E tudo isso com dinheiro público! Furtado foi extremamente malandro ao fazer de seus personagens um bando de jecas bem-intencionados (à exceção do Zico interpretado por Lázaro Ramos). Seria tentador fazer um film-à-clef apontando, disfarçadamente, figurões da nossa incipiente indústria. Mas aí já seria difícil fazer desses camaradas personagens simpáticos… E também pisca o olho ao mostrar a burocracia e a incompetência do Poder Executivo a partir de uma prefeiturazinha perdida. Para que ir ao Planalto? Faça besteira localmente, atrapalhe seu país globalmente, essa é a mensagem.

Mas mesmo os não-ligados nas mumunhas terão muito o que aproveitar de Saneamento básico. A citada capacidade de Furtado de narrar bem uma história está à toda aqui. Diálogos deliciosos, interpretados com muito gosto por um excelente elenco, se distribuem em uma série de cenas hilárias. As dobradinhas entre Fernanda Torres & Wagner Moura e Paulo José & Tonico Ferreira estão ótimas. Furtado conjuga bem a necessidade de um ritmo rápido, movido a diálogos, quase televisivo, com outras seqüências mais amplamente “cinematográficas” – e chega a um belo momento de pathos ao acompanhar o personagem de Wagner Moura em seu último passeio na motocicleta que adorava… a qual foi vendida para bancar a finalização do bendito filme! Na trilha sonora, brega mas genuninamente tocante, “Io che amo solo te”, de Sergio Endrigo. (Ah, e Camila Pitanga nunca foi tão bem fotografada, se é que vocês me entendem.)

É raro assistir a um filme nacional que se aproxime tanto de um real e concreto comentário social (e artístico) e, ao mesmo tempo, seja tão divertido e descontaminado de ideologias capengas. O mais encantador é notar como Furtado faz com que tudo pareça são fácil, tão sem esforço. Sim, saneamento básico é importante. Mas Saneamento básico também.

SOM E FÚRIA, SIGNIFICANDO NADA.

Julho 19, 2007

trans.jpg

Todo mundo conhece aquele clichê que reza: “O conjunto de tal obra é maior que a mera soma de suas partes”, ou algo similar. Pois Transformers, o filme que Michael Bay (super)produziu a partir da conhecida franquia de brinquedos/desenhos animados/quadrinhos, inverte a máxima. Seu resultado é menor que a soma de suas frações. O que chega a ser paradoxal, uma vez que Bay (com a ajuda de Steven Spielberg, produtor executivo da bagaça) fez questão de colar em seu longa o maior número possível de “partes” diferentes. Pode-se reconhecer inspirações e/ou citações involuntárias a vários outros blockbusters. Costurados em cenas de ação incontrolavelmente frenéticas e muito, mas MUITO barulho, todos esses retalhos fílmicos redundam num filme longo, cansativo, excessivo. Cento e quarenta e tantos minutos depois de entrar no cinema, a dor de cabeça na saída é inevitável. (Eu assisti ao filme numa sala com som THX.)

OK. OK. Trata-se, putzgrila, de um filme sobre robôs gigantes do espaço sideral que se transformam em carros (e aviões, e helicópteros, e até em aparelhos de som ). O que se pode esperar dessa premissa, além de barulho e frenesi? Ao menos, espera-se que as explosões e as lutas sejam organizadas de modo a atrair (e agradar, se possível) a algum tipo de público, qualquer tipo. Paradoxalmente, apesar de ser infantil ao extremo, o filme não parece ser adequado à criançada. A trama (?) é um fiapo, alguma coisa sobre duas facções de robôs que destróem uma porrada de coisas enquanto lutam por um artefato sagrado perdido aqui na Terra. É tudo de brincadeirinha. Supostamente morre um monte de gente, mas nunca em frente à câmera; os soldados durões não falam palavrões; e, afinal de contas, as épicas batalhas são travadas por bonecos criados pela Mattel. Mas a sobrecarga sensorial exigida pode exaurir, fácil fácil, a criançada. Sem falar na violência, estilizada, recortada pela montagem até ficar quase abstrata, mas ainda presente. Já aos marmanjos que se interessam pelos efeitos especiais e cenas de ação, o filme também não oferece muito alento. Sim, as transformações são fabulosas. Só que a fotografia é pobre, algumas cenas parecem feitas com o mais primitivo dos cromaquis. E as cenas de luta redundam em pura confusão, graças à câmera hiperativa. Não se sabe quem está lutando contra quem, qual é o lado bom e qual é o lado mau.

Cortando as múltiplas camadas de gordura, saltam alguns momentos nutritivos de diversão. O humor, exercitado por Bay de forma menos evidente em trabalhos anteriores, segura alguma atenção. Shia LeBeouf, o adolescente nerd que salva o mundo e pega a überbabe Megan Fox ao final, é o melhor em cena. John Turturro – num papel que, pelo visto, deveria ser de Steve Buscemi, um dos favoritos do diretor – está, bem ao estilo do filme, over. Mas diverte. Entretanto, e lá vamos nós de novo, Bay exagera até no humor. Pra quê empilhar subtrama sobre subtrama, personagens dispensáveis sobre personagens dispensáveis, só para conseguir mais uma risadinha do público? (Até George W.Bush entra na roda!)

Sob a chancela do produtor Jerry Bruckheimer, Michael Bay cometeu alguns dos mais exagerados blockbusters dos últimos anos: A rocha, Armageddon, Pearl Harbor, os dois Bad boys. Exagerados no melodrama, nos efeitos especiais, na duração, nos chavões superficiais de suas tramas, na edição picotada, nas atuações geralmente ruins. A ilha, seu filme de 2005, quebrou essa seqüência de podreiras. Essencialmente, continuava a ser um filme de Michael Bay – só que mais malandro, conciso, inteligente. Ali sim, via-se um exemplar de blockbuster com neurônios e ainda assim carregado de ótimas cenas de ação. Por coincidencia ou não, foi o primeiro de seus trabalhos não produzido por Bruckheimer. Seria o megalômano manda-chuva a força nefasta por trás do bombástico – e vazio – estilo de Bay? Pelo que se vê em Transformers, a vocação de Bay para a pirotecnia oca independe da influência de terceiros. Se nem Spielberg deu jeito…

Pois Transformer é o excesso dos excessos de Bay. Tem a mesma (ou maior) quantidade de barulho, pirotecnia e sentimentalismo que seus outros trabalhos. Achando pouco, o diretor ainda enfiou, conscientemente ou não (eu acho que não), cenas e situações já vistas antes. Poder-se-ia dizer que o filme inaugura uma era referencial e pós-moderna na estética blockbuster. Entretanto, parece não haver método aplicado ao amontoado de fragmentos de filmes alheios que o roteiro (de Roberto Orci e Alex Kurtzman) emula. E.T., Contatos imediatos do 3º grau, Tropas estelares, Falcão negro em perigo, Armageddon, Independence day, Homens de preto; tudo isso, de forma mais ou menos explícita, está liquidificado em Transformer. Desprovido de reflexão ou ironia (apesar do tom galhofeiro que marca boa parte do filme), esse emaranhado todo não se transforma – sacaram, sacaram? – num todo coerente. Desnecessário contabilizar aqui em que momentos os outros filmes citados “baixam” em Transformer. Quem vir, verá.

AHAM… ALÔ? AINDA TEM ALGUÉM POR AQUI?

Julho 19, 2007

Sei muito bem que não ando cumprindo com minha obrigação bloguística. Tenho deixado o site/blog abandonado, não entro nem mais pra conferir o número de acessos. É que, nas últimas semanas, o meu desgosto com o mundo (em geral) e com a minha profissão (em particular) chegou a um paroxismo. De tal modo que esse último texto publicado, sobre o filme Cão sem dono, saiu com muita dificuldade. Se eu pudesse – se eu soubesse fazer outra coisa que não escrever – já teria chutado o balde há muito. Não posso, pois não sei. Então é bola pra frente. E desculpem o desabafo.

Todos modos, prometo para até sexta-feira dois (2) textos novos sobre cinema, coisas que venho batucando por aqui. Na sexta-feira, sai a Programa, do JB, com duas resenhas minhas de filmes (Saneamento básico, o filme e Baila comigo) e uma contribuição pequena, mas crucial, à matéria de capa (que deve criar alguma polêmica…). Enquanto isso, vai mais uma tirinha da série 4 quadrinhos valem mais que mil palavras, resumindo um pouco o meu estado de espírito. A autoria é de Daniel Lafayette (clique na tirinha para ampliar).

tirinha.jpg

O ÚLTIMO TANGO EM PORTO ALEGRE.

Julho 11, 2007

Ah, o cinema nacional e suas promssoras jovens atrizes, sempre dispostas a dar (ops) tudo de si no início de carreira. Cão sem dono, nova fita de Beto Brant (em parceria com Renato Ciasca), conta com a estreante Tainá Müller para iluminar a trama sombria de seu roteiro. E mais não me estendo sobre a performance extremamente desinibida da beldade porque, putz, fiquei sabendo que Tainá é namorada de Daniel Galera, autor do romance Até o dia em que o cão morreu, que deu base ao longa. Meio constrangedor ficar secando a mina do cara assim, né?

cao-sem-dono-4.jpg

A menção aos predicados de Tainá não é gratuita. Na verdade, sua beleza, em contraste com a existência opaca do protagonista – Ciro (Julio Andrade), o dono do cão sem dono do título – ajuda a definir logo de cara a atmosfera do filme e a personalidade de seu anti-herói. Na primeira cena do filme, ela (ou melhor, Marcela, sua personagem) aparece transando com Ciro. No dia seguinte, a moça sugere que eles voltem a se encontrar. Mas ele não demonstra muito interesse. Ele é feio, largado, aparentemente pobre. Ela é linda, bem cuidada, aparentemente bem de vida. Ainda assim, Ciro não parece se dar conta da dádiva que tem nas mãos. (Talvez por isso mesmo Marcela tenha se interessado por ele, como sói acontecer na vida real.) Alheio à beleza, alheio aos confortos materiais, alheio à vida, enfim: eis o protagonista de Cão sem dono, e essa sensação de indiferença domina o longa.

Ciro não tem emprego fixo, vive em um apartamento praticamente vazio e não tem amigos. O cão, que ele achou na rua, não é seu (ele se diz “amigo” do cachorro, não seu dono). Ciro é que é, na verdade, o próprio cão sem dono. Marcela, seu único elo com a beleza – com a vida, enfim – quer botar uma “coleira” metafórica nele, mas sua indiferença (não só para com ela, mas com o mundo, enfim) os afasta. Até, naturalmente, que Ciro perceba que Marcela é tudo que há de bom em sua existência sem perspectiva. Mas até aí, pode ser tarde demais… O afastamento da Marcela joga o rapaz no fundo do poço. Do qual, afinal, só resta a subida. O filme ganha novas cores e um “arejamento” visual nessa redenção do protagonista, que parece acordar para a vida. Ou não? O final, como o começo e o meio, fica entreaberto.

Junto a outros cineastas, como Philippe Barcinski (Não por acaso), José Eduardo Belmonte (A concepção) e Roberto Gervitz (Jogo subterrâneo), Beto Brant quer traduzir em imagens a gastura existencial da vida nas cidades grandes. Cão sem dono vai além da tradução, contudo. Seco, sem firulas ou inferências poéticas, recria essa angústia urbana de forma mais eficaz, e ainda a reveste de uma inesperada universalidade. O filme se passa no Sul do Brasil, mas poderia se passar em qualquer outro lugar; além dos sotaques e de algumas vagas indicações geográficas, não há referências explícitas à cidade na qual a ação (que ação?) se desenrola. Econômico, Brant não emprega aqueles planos-chavão que tentam “mergulhar no caos urbano” ou “retratar em imagens a solidão dos grandes centros”. Nada disso. Só interessa a Brant seu personagem central, ele mesmo a própria personificação do caos e da solidão.

A comparação com Não por acaso é inevitável. Barcinski se esforça para construir uma rede de coincidências que forneçam sentido à caótica vida de um punhado de pessoas em São Paulo. E filma tudo isso de uma maneira estudada, plástica, “publicitária” como tantos gostam de repetir. Brant (e Ciasca, e Ciasca…) não quer ver sentido algum, assim como seu personagem principal. Ou melhor, ele não procura sentido, apenas deixa que o sentido atinja o espectador. Em seu quinto longa, o diretor radicaliza a estética sombria e a narrativa elíptica de seu filme anterior, o excepcional Crime delicado. Há a sombra da doença sobre o casal (ela some para tratar de um tumor, ele é flagrado fazendo uma endoscopia), mas não se explicita os males que pairam sobre eles. Sabe-se que Ciro leva uma vida boemia, e no entanto vemos apenas flashes rápidos de suas excursões noturnas. Um momento aparentemente crucial da trama – o atropelamento de Marcela – é apenas narrado pela própria, sem mais. A partir dessa opção pelo não-dito e o não-mostrado, podemos inferir uma filosofia: na cidade grande acontece de tudo com todo mundo, mas nem sempre são necessárias testemunhas.

Brant vai além dos outros cineastas citados acima porque conjura uma árida sensação de realismo – através de uma câmera sem firulas, diálogos que soam absolutamente naturais (inclusive se sobrepondo uns aos outros, como em uma conversa de verdade) e atuações no limiar mínimo da expressividade dramática convencional. É um resultado desconcertante e “difícil”, que o diretor nos concede em dose homeopática. O filme é curtinho (80 e poucos minutos), e até nisso cabe ver uma metáfora da brevidade obrigatória das fugazes relações humanas na metrópole. Fugazes, mas calorosas enquanto duram. Desde a entrega nas cenas de sexo até as conversas que Ciro tem com seu pai e com o amigo motoboy (que falam mais que o protagonista, é certo), Brant captura com total propriedade os instantes de intimidade e cumplicidade que o roteiro oferece.

Tá, mas… e o cão? Como dito lá em cima, acho que o cão sem dono do título é o próprio Ciro. Ou que ao menos suas vidas se espelham. Ambos sobrevivem da bondade de estranhos sem firmar laços com ninguém (o cão por falta de opção, Ciro por falta de vontade). A diferença é que Ciro sofre, afinal; tendo visto – através de Marcela – que pode haver algum sentido na vida, ele se desespera ao perdê-la. O cão não sofre ou sofre apenas brevemente: solta um ganido e na próxima cena vemos Ciro enterrando-o, fazendo jus ao título do livro que inspirou o filme. E olha mais filosofia aí: estamos na vida de passagem, impermeáveis à sua beleza, e um belo dia morremos e não há mais significado algum nisso. Mas ao mesmo tempo a morte do cachorro coincide com o retorno de Marcela. Morte e retorno à vida, beleza espantando a melancolia. O cão pode não emprestar humanidade a seu (não-)dono, mas da tristeza por seu fim entrevê-se o renascer de Ciro, numa nota dissonante no conjunto do filme – por seu (relativo) otimismo.

cao-sem-dono.jpg

TARDES RADICAIS.

Julho 5, 2007

Heróica reportagem que fiz para o Jornal do Brasil em abril de 2005 (caraca, lá se foram dois anos…), retratando um pouco do agitadíssimo mundo roqueiro dos subúrbios cariocas. O “heróica” não é exagero, dadas as lonjuras que tivemos de percorrer, as dificuldades com a (falta de) estrutura oferecida pelo jornal e até mesmo meu esforço para convencer meus chefes que a pauta valia à pena. Aliás, conto com mais detalhes os bastidores da saga no making-of da reportagem, que incluo aqui como bonus-track do texto original. Ganhei muitos tapinhas nas costas pela publicação e dei até autógrafo (!!!) para uma galera. Juro por Deus.

programa.jpg

Numa velha canção de 1986, o roqueiro gaúcho Humberto Gessinger cunhou a expressão “longe demais das capitais”, referindo-se à distância que separava Porto Alegre do eixo Rio-São Paulo. Todos os fins de semana, milhares de garotos – muitos dos quais nem devem ter ouvido falar em Gessinger – dão um novo sentido à idéia do rock longe demais das capitais. Distante das casas de shows tradicionais, e alheia aos patrocínios milionários e aos empresários consagrados, uma verdadeira legião de roqueiros compõe uma efervescente cena de festivais e eventos na Zona Oeste, Baixada Fluminense e subúrbios da Zona Norte. Organizados muitas vezes em esquemas amadores, esses eventos mobilizam milhares de jovens, quase sempre nas tardes de sábado e domingo. E fazem um tremendo barulho.

No último domingo, por exemplo, cerca de mil pessoas se acotovelavam no Barracão Show Beer, misto de galpão de fábrica com pátio de escola pública, situado no bairro de Itatiaia, em Duque de Caxias. O público agitava ao som pesado dos grupos Insane, Artigo 331, Confronto e Spell. Era mais uma edição do Tomarock, um dos mais tradicionais festivais realizados fora do eixo Centro-Zona Sul.

- Fazemos shows há quatro anos e, não importa quais bandas estejam tocando, sempre recebemos no mínimo 700 espectadores. Já tivemos mais de 1.500 pessoas aqui – diz Carolina Dias, uma das organizadoras.

Festivais como o Casa da Zorra, Todas as Tribos, Rato no Rio e tantos outros servem de ponto de encontro para uma ruidosa patota de meninas e (principalmente) meninos que amam o rock. Plataformas de lançamento de bandas novas, que muitas vezes despontam apenas para o anonimato, eles também recebem nomes fortes da cena carioca – Autoramas, Leela, Skylab, Matanza – e artistas com projeção nacional – Ratos de Porão, Sepultura, Los Hermanos, Detonautas. Não por acaso, o grupo Shaaman, referência brasileira no cenário do heavy metal, deu início à sua turnê brasileira com um show no Clube Aliados Campestre, em Campo Grande, em março passado.

- Por que os shows sempre acontecem aos domingos? Ora, o que mais tem para se fazer na tarde de domingo? Assistir ao Gugu, ao Faustão? – responde Marcelo Mendes, produtor do Rato no Rio, que surgiu em 2001 como uma “resposta” ao Rock in Rio 3. O Rato do último fim de semana, em Campo Grande, mobilizou cerca de mil pagantes que assistiram a 13 (!) bandas.

A baixa média etária é um fator comum a todas as platéias. O que também explica o fato da maior parte dos eventos começar cedo, geralmente por volta das 15h. Como o povo que vai geralmente ainda vive de mesada, os ingressos são sempre bem baratinhos.

- A galera que vai aos shows não tem idade para ficar na rua até mais tarde – atesta André Luiz Oliveira, que há dois anos toca o projeto Rio Cheiroso, sediado em Guadalupe. Além de cobrar bem barato (R$ 1), André ainda pensa no social: seu evento arrecada alimentos para uma ONG que assiste moradores de rua.

E, em uma velha tradição da massa roqueira dos subúrbios, a preferência recai sobre estilos musicais agressivos, com punk rock, hardcore e heavy metal na cabeça. Se rolar cover de bandas internacionais então, a turma vai ao delírio. Segundo Carolina, do Tomarock, a moçada quer mesmo é ouvir os hits dos grupos famosos. Isso resulta numa profusão de eventos com bandas-cover, caso do próprio Tomarock. Na última edição, a banda que fechou o festival foi o Korn Cover, que toca hits da banda americana de nu-metal.

- A garotada vem em massa por causa do cover. Mas sempres escalamos quatro outras bandas novas, com repertório próprio, para tocar antes. Assim, quem veio só para ouvir o cover acaba conhecendo as outras – explica a produtora.

Para Carlos Ribeiro, produtor do Casa da Zorra (que promove shows no Engenho de Dentro e realiza neste domingo a quarta Maratona Rock Fest Zorra) e membro da banda Ardil 22, há uma explicação sociológica para o gosto pelo metal.

- Há muitas músicas de protesto e combate à desigualdade. Creio que a galera de baixa renda realmente se identifica – diz Carlos.

Uma boa amostra demográfica dessa “galera de baixa renda” podia ser encontrada em Caxias, domingo passado. Um dos destaques era uma jovem (que se apresentou apenas como “Natasha, a gótica”) que chamava a atenção trajando uma camiseta do grupo The Cure e lentes de contato avermelhadas, em meio à multidão de rapazes com camisas pretas de grupos heavy. Desde os 15 anos ela freqüenta todos os eventos de rock da região. Um fã mais típico era Ronaldo Dias, tatuador de 25 anos. Fã de rock pesado e morador da Pavuna, ele conta que não perde um festival. Seja lá quem estiver tocando.

- O negócio é vir para encontrar a galera e se possível curtir um som legal também. Só é dura a volta para casa, já que os ônibus páram de passar e fica todo mundo a pé. Quem mora longe sempre se ferra – conta o rapaz.

Se o heavy reina na Baixada e adjacências, os eventos na Zona Oeste agregam o público do hardcore. Exemplo são os shows realizados na Escola Livre de Aprendizagem Musical, a popular Elam, no Pechincha, em Jacarepaguá. Na última edição do Elam Summer Rock, realizada na tarde do domingo passado, uma pequena multidão pulava ao som dos novatos do Colegial – que praticam o tal emocore, rock rápido e agressivo mas com letras sobre amor e relacionamentos.

Investigando essa adoração da molecada da periferia pelos sons pesados, o fotógrafo Michael Meneses, morador de Marechal Hermes, teve a idéia de escrever um livro. O volume vai tratar da cena roqueira na Zona Oeste através dos anos. Michael chega a apontar um marco histórico para a tradição headbanger do subúrbio:

- Foi um show realizado em Marechal Hermes, no dia 22 de novembro de 1984. Pela primeira vez no Brasil, tocavam juntas no mesmo palco bandas de heavy metal e punk. O show criou um elo entre os roqueiros suburbanos e o som pesado – narra Michael, que conclama a quem possa ajudá-lo com material sobre a história do rock na Zona Oeste para contactá-lo no email michaelmeneses@yahoo.com.br.

Entretanto, nem só de subúrbio carioca vivem os agitos no underground. Caminhando ainda mais, encontramos um animado núcleo que organiza shows do outro lado da Costa e Silva – Niterói e São Gonçalo. O movimento Araribóia Rock ocupa regularmente espaços como o bar Convés, no bairro do Gragoatá, com bandas locais e “gringas” (na gíria dos festivais, grupos vindos de outros Estados). Já o Bar do Blues, em São Gonçalo, tem uma programação non-stop com todos os gêneros (e não apenas o blues).

- Nossa recompensa é o prazer de oferecer bons programas em Niterói e São Gonçalo. Isso é difícil quando se fala em eventos de rock – diz Pedro de Luna, principal incentivador do Araribóia Rock.

Falta de dinheiro, condições de trabalho muitas vezes precárias e confusões mil são outra marca registrada dos eventos nos subúrbios e periferias. Casos pitorescos não faltam. Como o ocorrido com a loja Outside CDs, no Méier. Havia um show da banda Djangos marcado para a tarde do último sábado, dia 23. O dono da loja esqueceu que era feriado (Dia de São Jorge) e encontrou o prédio trancado e as ruas desertas. Não pôde nem entrar na própria loja. O show, óbvio, foi cancelado. Já os shows realizados na Lona Cultural de Guadalupe disputam a atenção do público com um “pega” de automóveis e motos (ao som de funk em volume altíssimo) e a pregação de um templo evangélico. E a imagem “rebelde” associada ao rock costuma causar problemas aos produtores.

- Se você fala que quer alugar uma casa noturna daqui para um show de rock, os proprietários cobram os olhos da cara, alegando que “os roqueiros vão quebrar o lugar todo” – queixa-se André Oliveira, do Rio Cheiroso.

Quanto à escassez crônica de verbas…

- Desde 2001 o preço do ingresso no Convés custa R$ 5. Só que todo o resto aumentou: o aluguel da casa, do som, preço da cerveja e a passagem de ônibus! – diz Pedro de Luna.

- Sou o empresário mais duro que se pode conhecer. Já perdi muito dinheiro organizando show. Mas você acaba viciado nessa vida. É uma coisa louca – diz Marcelo, do Rato no Rio, espantado com a própria persistência.

EU JÁ TOQUEI LÁ

“O público do subúrbio? Ah, eu acho que é o melhor de todos. Eles sempre demonstram claramente se estão gostando ou não do seu som. É uma platéia muito mais quente. Quando você toca na Zona Sul, dá para sentir que o público não interage tanto. Outra coisa: o pessoal da periferia, em geral, dá mais oportunidade para os artistas novos. É uma galera mais curiosa, que te aceita melhor quando você ainda está começando. No Centro ou na Zona Sul isso é mais difícil. Já toquei várias vezes em bairros do subúrbio, Zona Oeste e Baixada. E também fiz shows em lonas culturais e festivais. Tem seu lado ruim, também. As condições técnicas nem sempre são de nível profissional. Os equipamentos às vezes são ruins, falta estrutura nos eventos. Mas é fácil de compreender isso e dar um desconto, afinal o pessoal não tem grana, faz tudo com a cara e a coragem. Fico sossegada e toco assim mesmo” (Mariana Davies, cantora com dois álbuns lançados pela Indie Records. Ela se apresentou na última edição do Elam Summer Rock, em Jacarepaguá)

“O Leela já se apresentou em quase todos os eventos de rock fora do Centro e da Zona Sul. Acreditamos que esses shows foram fundamentais para a banda formar público, amadurecer e ganhar experiência de palco – diante de pessoas que nem sempre estavam lá para nos assistir. Acima de tudo, a gente se diverte muito nesses eventos, já que a platéia é muito animada e adora rock. Achamos muito positiva a recepção que tivemos em todos esses shows e sempre saímos cheios de histórias. Realmente é um perrengue a ida para esses eventos, porque estamos distantes (moramos na Zona Sul) e a volta costuma ser de madrugada, por locais não muito aconselháveis para se trafegar. Faz parte de nossa história ter participado desses festivais e temos orgulho disso. A banda entende as dificuldades de se fazer um evento nessas condições e sempre que pudermos, vamos participar” (Bianca Jhordão, vocalista do grupo Leela, que lançou há pouco seu primeiro álbum pelo selo Arsenal, e que não recusa convite para show onde quer que seja)

EU VOU TOCAR LÁ

“Não é a primeira vez que vamos tocar no subúrbio. Já fizemos apresentações nas lonas culturais de Vista Alegre e Realengo. E sempre voltamos impressionados, surpresos. Mesmo quando estávamos bem no comecinho do trabalho de divulgação do disco, antes de termos música tocando nas rádios, o público das lonas já conhecia tudo e cantava as letras de cor! Ficamos amarradões. Acho que isso não acontece tanto na Zona Sul ou no Centro porque o público desses lugares está acostumado a ir a shows quase todo dia. Então reage de uma forma mais contida. Da primeira vez em que fomos tocar em Vista Alegre, ficamos conversando com o pessoal por mais de uma hora depois do show, numa coisa de amizade mesmo, com muito calor humano” (Gêsta, baixista do grupo Dibob. Eles vão se apresentar neste domingo em Guadalupe, tocando músicas do álbum O fantástico mundo Dibob)

___________________________________________________
Bônus-track: o making-of da reportagem

A idéia de fazer uma matéria sobre os festivais de rock suburbanos rondava minha cabeça há tempos. Na verdade, era parte do meu plano de implantar uma coluna sobre rock alternativo & outras paradas na revista Programa (plano que consegui concretizar, ainda que pela metade). Sabia que encontraria uma série de percalços pelo caminho. Primeiro e fundamental problema a resolver: arrumar apoio do jornal. Eu precisaria de um carro e um fotógrafo para ficar comigo (pelo menos) uma tarde inteira, mais boa parte da noite. Quem é do ramo sabe que um dos problemas crônicos do JB é exatamente a falta de motoristas e fotógrafos. A dificuldade era redobrada no meu caso, visto que a reportagem TERIA de ser feita num sábado e/ou num domingo, que é quando os shows rolam – e no plantão de fim de semana a já exígua equipe de apoio da redação fica ainda menor. A chance da chefia liberar um carro e um fotógrafo para uma pauta de suplementos, em pleno domingão, era bem reduzida. Na imagem abaixo, um mapa do roteiro que eu pretendia seguir (e acabei seguindo), indo a três festivais em um só dia.

mapatardes.jpg

Outro problema, ainda mais grave: a falta de, digamos, material humano. O tipo de foto que precisaríamos para a matéria demandava uma finesse que os fotógrafos do Jotinha – excelentes na cobertura do factual, do dia-a-dia – não tinham. Em resumo, eu tinha de arrumar um cara com cancha de fotos de shows, que pudesse capturar o clima do palco e da platéia. Pensei logo no brother Marcos Bragatto, veterano de trocentas coberturas de shows de rock e que sabia o caminho das pedras nesses eventos off-off-Zona Sul. Para ser honesto, a eficácia do Bragattão não foi o único fator a pesar no convite. Como eu sabia que o JB não iria pagar um tostão ao corajoso fotógrafo freelancer que topasse embarcar na aventura comigo, só podia chamar alguém que fosse realmente amigo, e que não se importasse de trabalhar, mais uma vez, de graça (“Vamos lá, vai ser bom pra você aparecer…” “Da próxima vez rola grana, eu juro…”). Bragatto topou.

Resolvido o problema da foto, restava o carro. Não sei o que minha então chefe fez para conseguir que o aquário liberasse um carro para mim, no meio do plantão. Sei que, afinal, o carro estava lá marcado na escala: saída 13h, domingo, dia 24 de abril de 2005. Tudo certo então? Nada. Apenas alguns minutos depois da reunião de pauta na qual finalmente minha editora bateu o martelo e mandou tocar a matéria, Bragatto me liga dizendo que tinha desistido de fazer as fotos. “Mas por quê?!”, perguntei desesperado. Ele murmurou algo sobre estar “mudando de imagem”, não queria mais ser conhecido como fotógrafo… Para não me deixar na podre total, ele me indicou um outro fotógrafo – Luiz Lima, a quem eu não conhecia. Só pensei: “Fodeu…”. Ainda assim, Bragattão se dispõs a me acompanhar na jornada. Ele me passou o email do cara e fez a ponte entre nós dois. Isso na noite de quinta-feira. A matéria teria de ser toda apurada e fotografada no domingo e fechada até quarta-feira cedo.

A sorte é que o Luiz, confirmando a fé que o Bragatto depositava nele, se revelou um ótimo camarada e um fotógrafo melhor ainda. (Rolou até um ciúme entre os fotógrafos na redação, ao verem o resultado do trabalho dele.) Partimos ferozes, eu, ele e Bragatto, mais o motorista, para a primeira parada: Freguesia, nos confins de Jacarepaguá. Era um festivalzinho na Elam, que veio a ser o local mais organizado e com a melhor estrutura. Lá encontramos o Panço (valeu choque!) com sua inefável barraquinha de CDs e pudemos assistir a várias bandas emo (e olha que o troço ainda não estava tão na moda…). Da Freguesia, rumamos para Guadalupe, onde encontramos o Quik (valeu choque! II) e sua banda. O nível de bizarria da viagem aumentou. Primeiro, nos perdemos antes de encontrar a lona cultural, isso numa área à beira da Avenida Brasil com uma aparência bem sinistra. Achando o local, vimos que o caos reinava: o show rolava lá dentro, mas na praça em frente acontecia um animado pega entre carros e motos, ao som dum pancadão frenético no último volume. Tá achando pouco? Para competir com o rock e com os rachadores, uma igreja evangélica metralhava seus hinos também no último volume, no mesmo quarteirão. Dentro da lona, uma banda (não lembro qual) tocava para quase ninguém. Todo mundo estava do lado de fora, na área do bar, assistindo num telão ao vídeo do Guns’n'Roses no Rock in Rio 3…

Quando disse ao motorista que de Guadalupe íriamos para Duque de Caxias, ele me olhou e, sem dizer nada, fez aquela expressão de “Tá de sacanagem, né?” (Não por acaso, nunca mais vi o cara no jornal depois daquele domingo. Foi a primeira e única vez em que fui pra rua com ele.) Chegando ao tal Barracão Show Beer, aí é que o bicho, finalmente, pegou. O local era tosquíssimo; som horroroso, a “luz” (sic) era um único spot amarelo sobre o palco (ou melhor, tabladinho). Quem disse que a molecada se importava? Foi o point mais detonado que visitamos, mas de longe o mais cheio e o mais animado. No pátio lá fora, várias barraquinhas vendendo CDs piratas, caipirinha, tatuagens, piercings, camisetas. Precisamos chegar até ali para realmente experimentar a real maluquice de se organizar (e de frequentar) eventos de rock naquele lugar esquecido, com cara de faroeste. Ainda tivemos fôlego para parar na Lapa e pegar um show (chatésimo) d’Os The Dàrma Lovers, no Odisséia. O freak show dos gaúchos empalideceu diante do real thing que experimentamos mais cedo.

Infelizmente, como sói acontecer no jornalismo contemporâneo, não tive espaço para colocar no papel nem metade do que apurei em campo. Míseras três páginas, fazer o quê? O título que imaginei originalmente, Jovens tardes radicais (parafraseando as “jovens tardes de domingo” do Robertão), também não coube na forma. Mas minha abertura risquè, citando, vejam só, Humberto Gessinger, ficou intacta.

ÂPIDEITES.

Julho 3, 2007

Vamos dar uma atualizada em algumas das bobagens que andei escrevendo em posts anteriores.

_______________________________________________

Com o anunciado fim da revista Bizz – aliás, nunca vi um fim tão anunciado – creio que meu artigo GENTE QUE NÃO SABE OUVIR, GENTE QUE NÃO SABE LER merece uma releitura. Né não? Em tempo: a Bizz sai das bancas, mas o site continua.

E por falar em site… Em O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO: O LIVRO QUE INVENTOU UMA GERAÇÃO, eu corrigi um lance na introdução do texto. Passei uma linha sobre o termo “finada revista” que precedia a citação à Rock Press. Fui admoestado pela editora do site – revista eletrônica, revista eletrônica! -, minha amiga Cláudia. Ela afirma que a revista não acabou, apenas saiu do papel. Tá corrigido! Em tempo II: entrou no ar na RP uma enquete sobre os dez anos de lançamento do OK computer.

À luz dos aberrantes ataques feitos por aquela patota de mauricinhos sociopatas da Barra, vale a pena repensar algumas idéias que joguei em KIDS + FARGO = ALPHA DOG. Não há nada mais perigoso que um criminoso jovem – que junta a imaturidade natural àquela sensação de invencibilidade típica da pós-adolescência. Pior mesmo é quando, como no(s) caso(s) em questão, os criminosos têm a certeza da impunidade, garantida pelo $$$ e/ou prestígio de papai & mamãe. Quer dizer, tinham, né? Vale o comentário que ouvi (ou li) um dia desses por aí: “Deixa esses caras trancados dois dias num presídio feminino, pra eles verem o que é bom pra tosse”.

Mais uma sobre a resenha do Alpha dog: a pedido do Marcel Plasse, cedi o texto para publicação na revista Pipoca Moderna. Deve sair no próximo número, em uma versão ligeiramente editada. Cool, innit?

O Nomínimo acabou mesmo, conforme predito em UM LAMENTO E UM ESCLARECIMENTO. Já o site no qual eu (oficialmente, por enquanto) ainda trabalho segue desativado. O S.O.S. que postei em ESCREVO POR UM PRATO DE COMIDA está valendo.

Alguns dias depois de eu ter publicado FIRST ISSUE + METAL BOX, recebi, com gáudio, meu exemplar do Second edition, comprado via Amazon (meros US$ 9,99, na promoção 4-for-3 Music). Fiquei felizão. Mesmo com o extorsivo imposto de 60% que a alfândega bota em cima do valor do pedido – valor BRUTO, incluindo o frete! – ainda valeu muito à pena.

Mais uma da Oi FM. Além de exigir que os ouvintes paguem para saber o nome das músicas que tocam na rádio (conforme relatado em DISQUE OI PARA O JABÁ), a emissora conclama o público a ajudar na programação. Funciona assim: no momento em que você ouve a música, pode enviar um torpedo dizendo se gosta ou não da tal canção. Se a música tiver número tal de votos negativos, sai da playlist. Tudo por um precinho módico, claro: R$ 0,49. Fê-lo-me-nau.