‘FIRST ISSUE’ + ‘METAL BOX’

Junho 18, 2007

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O PiL chegou na minha vida quase ao mesmo tempo que os Sex Pistols. Lembro que a finada RCA lançou (relançou?), em 1986 ou 87, o antológico Never mind the bollocks por aqui – e eu, garoto de 12 (ou 13) anos, com a cabeça cheia daquelas adoráveis bobagens que saiam na Bizz da época, corri para comprar, mesmo sem ter ouvido sequer uma música. Só que eu já conhecia o Public Image Ltd.: o clipe de “Public image” rodava em alguns dos poucos programas pré-MTV que tínhamos por aqui, como o Vibração. Antes mesmo disso, o vídeo de “Rise” (do Album) tinha merecido alguma rotação, também. Alguns meses depois do disco da capa amarela chegar ao Brasil, a mesma gravadora pôs nas lojas o primeiro álbum do PiL, com mais de oito anos de atraso. A idéia era capitalizar em cima da primeira e única passagem do grupo de John Lydon pelo Brasil, creio que em agosto de 1987. Acabei comprando o First issue um pouco mais tarde, depois de já ter o Album. Achei o vinilzão baratinho, num dos dois sebos em Niterói no quais passei boa parte de minha adolescência, em vez de estar caçando mulherzinhas.

Por mais que eu tenha apreciado os Pistols, achei o PiL de First issue mais legal. O primeiro choque foi a diferença entre a estréia e o Album, original de 1986. Compreensível: afinal, no disco que tinha “Rise” o PiL já não era mais uma banda, havia apenas John Lydon e uma porrada de músicos convidados (incluindo, vejam só, Steve Vai e Ginger Baker! Três acordes, my ass!). No primeiro álbum, tinhamos Lydon acompanhado de seu dream team particular, Keith Levene (guitarra) e Jah Wobble (baixo). O som límpido, “oitentista” do disco de 86, com seus timbres um tiquinho caído para o heavy metal (três acordes my ass!!), não se parecia nada com o drive maníaco do LP inaugural da banda. E pode-se dizer que eu, particularmente, ouvi First issue na “hora certa”, depois de já estar aplicado das estranhezas pós-punk/new wave: Talking Heads, Joy Division/New Order, The Fall, Echo, Mary Chain. Por isso, o disco de 78 acabou fazendo mais sentido que o disco de 86 (ainda que eu tenha pirado no design “genérico” do Album, tremenda sacada de anti-marketing).

Aliás, o conceito “anti” era fundamental no PiL. Os Pistols cantavam “no future”; com sua segunda banda, Lydon só estava interessado em cantar “no”. Esqueça o resto, até mesmo o futuro. Em seu primeiro álbum, o PiL proclamava a morte e a morte do punk: primeiro como gênero musical, depois como “movimento libertário” (sic). É legendário e bem documentado o desgosto de Lydon com os rumos que os Pistols tomaram, por fora manipulados por Malcolm MacLaren e por dentro atrapalhados por Sid Vicious (mau músico, desagregador e drogado). Johnny Rotten, contudo, não iria se sujeitar a aquele papel. Seu novo projeto contra-atacaria o circo punk com ironia e ousadia. Reconstruindo, de forma quase metalinguística, sua “imagem pública”, Lydon assumiu seu nome real e posou de cabelos penteados e terno na capa do disco de estréia. A fúria anarquista dos dias punk ainda estava lá, só que usando farpas afiadas em vez de tiros de canhão. Ataques abertos à igreja (“Religion”, em duas partes) e à farra midiática que envolvia o punk (“Public image”) eram ladeados com uma anticanção de amor (“Annalisa”) e um antihino à incompreensão juvenil (“Theme”). Os Pistols eram garotos brincando com noções perigosas, clamando pela atenção dos mais velhos; o PiL já era adulto, e não havia brincadeira naqueles temas.

Com o som, o buraco era muito, mais muito mais embaixo. Lydon era fã de reggae e world music, além de estar ligado em krautrock (Can, Neu!, Faust). Nada disso cabia no conciso assalto sonoro dos Sex Pistols. A porta de entrada de First issue, o single “Public image”, não era muito diferente dos Pistols (graças à produção de Bill Price, que tentou emular o som que extraiu em Never mind the bollocks). Aí você comprava o álbum e logo na abertura jazia “Theme”, nove minutos de um riff de baixo cavernosissímo, uma maçaroca de acordes de guitarra retorcidos – isso aí, retorcidos, e não só distorcidos – por baixo, e a voz de Lydon, indo e voltando, esgoelando-se em uma letra e uma melodia (?) que aparentemente não faziam sentido algum. Mas havia um sentido ali: o sentido da aventura, do experimentalismo, da vontade de escapar da ditadura punk, mesmo dentro das limitações técnicas do gênero musical. (Wobble, assim como Vicious, foi aprendendo a tocar baixo enquanto a banda progredia. Mas no seu caso, ele inventou um estilo único, obsessivo e minimal – apelidado, pelo crítico Alex Antunes, muito propriamente, de “o melhor mau baixista do mundo”.) Como no dub, a seção rítmica ganhava proeminência à frente das guitarras e vocais. O baterista Jim Walker providenciava uma caótica cama percussiva sustentando as mastodônticas notas emitidas por Wobble; Levene se recusava a tocar solos ou sequer riffs minimamente reconhecíveis, enquanto Lydon esganava-se, possesso, vociferando coisas como “I wish I could die” e outros versos menos inteligíveis. Expansão de idéias musicais através do (aparente) primarismo, da repetição mântrica e do groove disléxico, uma lição aprendida tanto com os patronos teutônicos quanto com os jamaicanos. Pronto: o punk estava morto, e “Theme” era sua marcha fúnebre.

Ao longo do álbum, o PiL retrocederia um pouco, focando mais a fúria, com resultados mais compactos e nem por isso menos acachapantes. “Religion” trazia Lydon recitando, envolto num riff de baixo ainda mais minimal que o de “Theme”, com Levene por baixo, sua guitarra soando incomodamente aguda. “Annalisa”, com sua bateria cavalar & baixo idem, praticamente inventou o que se chama de “estilo Steve Albini de mixagem”, aplicado não só em suas bandas (Big Black, Rapeman) como nas que produziu (ouça “Bone machine”, dos Pixies e “Radio friendly unit shifter”, do Nirvana). “Public image” e “Low life” retraçavam pegadas já pisadas pelos Pistols, mas de uma forma ligeiramente mais insana, desorientadora. O fechamento cabia a uma música, ou melhor, a uma faixa tão desafiadora quanto “Theme”. “Fodderstompf” era o som da descaralhação terminal, um groove (quase) dançante com vozes sem melodia, letra improvisada, uma batida reta e troncha, sete minutos e quarenta segundos de… do quê, mesmo? Indefinível. Se aquilo não era a personificação em vinil da signficativa passagem do punk ao pós-punk, nada mais o seria. Mas iconoclastia alguma poderia preparar os ouvintes para o que Lydon, Levene & Wobble estavam preparando para seu segundo álbum…

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Gosto de pensar que os discos que ouvi naquela época, entre 86 e 89, (de)formaram meu gosto musical de uma maneira particular. Acho que a pessoa que ouve álbuns como Fear of music, Psychocandy, Closer e Bend sinister quando deveria estar ouvindo (pela “ordem natural das coisas”) Legião Urbana, Kiss e AC/DC, acaba se acostumando com bandas “tortas”, estranhas, diferentes. First issue estava neste cânone particular; seu som furioso, desconcertante, soava “normal” para mim. Não foi assim com Metal box, o segundo disco do PiL. Pelo menos, não da primeira vez em que o ouvi. Anos depois de adiquirir meu First issue, soube que um camarada tinha arrumado um CD importado do Second edition, a versão “normal” do Metal box. (Era assim que funcionava antes do MP3; você lia sobre o disco e ficava suspirando anos a fio, até alguém trazer o lance “do estrangeiro”. E tem gente que diz que “a internet está matando o rock”…) Mais que depressa, corri e gravei o disco, instado por resenhas enaltecedoras que vinha lendo há muito tempo. Não vou tirar onda com vocês. Ouvi e não gostei. As músicas não pareciam ter começo, nem fim; os ritmos soavam dispersos, desamarrados; Lydon cantava mais fora do tom e da métrica do que nunca. “Que porra é essa?”, pensei? Acabei perdendo o cassete com o tempo e não me importei muito.

O pós-punk foi uma era de música aventureira e aventurosa, de bandas testando os limites e os formatos da canção, da melodia e da própria estrutura convencional das formações roqueiras. Como em toda prospecção de fronteiras artísticas, corria-se o risco de excessos. Sempre acho que, em arte, melhor pecar pelo excesso do que pela omissão. Mas há coisas feitas naquele período que, no meu entender, envelheceram mal. Sons como A Certain Ratio e Young Marble Giants, por exemplo, hoje me parecem vítimas de uma desproporção entre o conceito e o real conteúdo. Já outros cultuados, como o Pop Group ou o Père Ubu, soam caóticos e herméticos demais, sem uma abertura por onde o leigo possa ser cativado. (Já sei que vão dizer que essa era a intenção mesmo, etc. Mas pra mim isso não cola.) Por outro lado, há uma vasta lista de obras perenes feitas naquele período, que não apenas influenciaram uma pá de artistas posteriores mas que também conquistaram um lugar no meu coração. À primeira audição, o Metal box ficaria no grupo dos que envelheceram mal, enquanto o First issue estaria na segunda categoria. Em seu segundo trabalho, o PiL tinha ido longe demais pro meu gosto.

Fast-forward para 2006, em uma era já abençoada pelas benesses do file-sharing. Vasculhando pastas alheias no Soulseek, esbarro com o Metal box de novo, em versão 192kbps. Aí é aquela coisa, né? Tava ali dando mole, era só baixar, deixar no HD e um dia ouvir outra vez. Se gostasse botava num CDR pra ouvir no som da sala, se não gostasse, bastava apagar. Passei as músicas pro iPobre e fui ouvindo na ida pro trabalho, numa manhã ensolarada.

Mudara o disco ou mudei eu? O que não fizera o menor sentido para mim em 1995 soava, agora, como uma revelação. No disco de estréia, Lydon cantava (em “Theme”): “Leap in the dark, I will survive”. E foi isso que o PiL fez em Metal box: pulou no escuro, adentrando territórios até então inexplorados. O que eu tinha antes classificado como “fora do tom” e “disperso”, na verdade era o trio tateando pelo atonalismo, aplicando a estética do-it-yourself em idéias musicais antes restritas à vanguarda da vanguarda. As músicas “sem começo, nem fim” eram experimentações com um pé no improviso e outro num minimalismo levado às últimas conseqüências. A fúria espontânea que brotava de First issue era substituída por uma (falta de) dinâmica troncha, que desafiava os chavões de verso-refrão-ponte-refrão estabelecidos. E também por uma atitude mais fria, distanciada – ecoada do outro do Atlântico pelos Talking Heads em Fear of music, mas de uma forma um tiquinho mais acessível.

(A ponte entre Fear of music e Metal box já havia sido aventada por, mais uma vez, Alex Antunes em sua resenha do disco dos Heads, na Bizz, em 1986. Ele relacionava a capa deste último – em cartão com alto-relevo, imitando aquelas chapas de aço que forram o assoalho dos ônibus – com o invólucro de lata do disco do PiL. O parêntese aqui é para comentar mais sobre a embalagem original do Metal box, que, como todos devem saber, era uma lata de filme contendo os três EPs de 45 RPM nos quais o álbum se dividia. Olha aê, mais uma vez, a preocupação crucial de Lydon & Cia com a estética e, por tabela, com o marketing. Tratava-se de um som que não tinha paralelos no pop daqueles tempos e que merecia uma embalagem à altura. Confirmando que a banda não tinha a menor intenção de facilitar as coisas para o ouvinte, consta que era bem difícil arrancar os vinis da lata – os discos vinham justinhos, quase entalados no metal. Essa metafóra da dificuldade física espelhando a “dificuldade” da música já foi amplamente explorada pelos escribas que se aventuraram a descrever o álbum. Porém, é irresistível empregá-la mais uma vez. E também é irresistível lamentar por nunca ter tido a chance sequer de ver um exemplar da edição original. Depois de sair em uma versão “domesticada”, a Second edition, com capa normal e dois LPs de 33 1/3 RPM, o disco ganhou no ano passado um relançamento no formato de 1979. Essa reedição, do selo ianque 4 Men with Beards, pode ser adiqurida via Ebay pela bagatela de US$ 35.99. Quem sabe agora, com o dólar em baixa…)

Retomando de antes do parêntese: “minimal” é a noção-chave para definir Metal box. É interessante notar que, naquela época, o grupo quase não ensaiava e as sessões de estúdio eram caóticas e marcadas pelo improviso. As gravações conseguiram captar de modo admirável o clima caótico em que o PiL conduzia sua carreira. Num exercício inédito de reducionismo, Lydon, Wobble & Levene (mais uma brigada de bateristas convidados) dissiparam seu som até chegar aos átomos fundamentais. Não há elemento algum – melodia, riff, refrão, levada – remotamente cativante ou reconhecível (à exceção do baixo, que martela de forma tão incessante que é impossível de ser ignorado). Ao menos no sentido convencional de “cativante” ou “reconhecível”. O mistério é como o trio conseguiu construir um “todo” tão avassalador a partir de algo tão próximo do “nada”. É tudo incrivelmente compacto e ao mesmo tempo tão disperso. Sabe-se que os ingredientes da mistura estão lá (punk rock, dub, kraut, etc.). Mas eles não se deixam apreender. O PiL pegou essas tão decantadas influências, desmontou-as e fez algo novo. E saiu-se com um set de canções, ou mais propriamente, temas, que se recusava a aceitar rótulos e exigia do ouvinte concentração e capacidade de abstração.

Se não fosse assim, como não se deixar abater logo na faixa de abertura, “Albatross”? Dez minutos e-lá-vai-fumaça de uma batida reta e incessante – pseudodisco, anyone? Lydon menos canta do que murmura, funereamente, algo sobre livrar-se de um albatroz. A guitarra espeta os tímpanos. Não há virada na dinâmica: tão monótona quanto começou, a música acaba. É hora do PiL inventar o disco-punk na faixa seguinte, “Memories”, lançando sementes que germinariam tanto em São Paulo, em meados da década de 80, quanto em Nova York, no começo do terceiro milênio. No lugar de um refrão, Lydon lança a primeira parte de seu anti-grito de guerra (“I could be wrong”, que seria completado com o “I could be right” anos depois, em “Rise”). Na seqüência, a bizarra blasfêmia aplicada a Tchaikovsky: a infãmia de “Swan lake”, na qual o “Quebra-nozes” luta para respirar (incorporado na guitarra de Levene), sufocado entre o canto esganiçado, uma linha de baixo funkeada e memorável e espasmos de sintetizadores. Os mesmos synths fantasmagóricos pontuam em “Careering”; efeitos de echo e flanger encharcam a mixagem de “Socialist”, “The suit” e “Graveyard”, emprestando às faixas um tom lúgubre não muito distante do conseguido pelo Joy Division em Unknown pleasures. A altamente irônica “Poptones” era tudo menos pop, apesar de uma melodia mais coerente e outra linha de baixo das mais marcantes.

O paroxismo da obsessão chegava quase no final, com “Chant”, com vocais dobrados de Lydon sugerindo um sinistro mantra – enquanto a bateria sofria um ataque apoplético e Levene seguia espetando. Como recompensa para quem sobreviveu incólume, o trio lança mão do momento mais melódico de sua carreira para fechar o álbum, em seguida. O suave (!?) instrumental “Radio 4″, baseado em plangentes sintetizadores analógicos, soa tão surpreendente quanto “Fodderstompf” no final do disco de estréia, porém num caminho 100% diferente. Não deixa de soar um tiquinho sinistro, o que impede que a faixa pareça deslocada do conjunto final. E também prenunciava o caminho que o grupo seguiria. Com a saída de Wobble pouco tempo depois de Metal box, Levene passaria a se dedicar mais aos teclados do que à guitarra. O caldo entornaria de vez no disco seguinte, Flowers of romance. Sem a espinha dorsal providenciada por Wobble, o PiL derivaria para uma mistureba a meio caminho entre a vanguarda pura (com direito a colagem de tapes e aproximações com a música concreta) e a pura embromação. Mais um salto no escuro, só que desta vez a banda não sobreviveu. Quer dizer, sobreviver sobreviveu, mas desfigurada, cada vez mais longe de suas premissas originais.

Ouvidos hoje, juntos, os dois primeiros discos do PiL não soam, necessariamente, complementares. Nem mesmo parecem obras de uma progressão lógica. São, antes de tudo, retrato de uma época interessantíssima para a música pop. Uma era em que gravadoras permitiam-se o luxo de gastar dinheiro com música desafiadora e desconcertante. E eram recompensadas por isso: ambos os álbuns foram bem nas paradas britânicas e européias e até “Death disco”, a versão 12 polegadas de “Swan lake”, emplacou em 20º na parada inglesa de singles. A visceralidade de First issue é a prova de que a energia punk poderia ser empregada de forma mais aguda e focada, para além das calças rasgadas e dos alfinetes na bochecha. E a indefinível musicalidade de Metal box resgata o sentido original do termo “experimental”, que nos dias atuais é tão banalizado. Paradoxo em forma de disco: abrasivo e indiferente, atacando o público ao mesmo tempo em que desdenhava dele. E interessado em apresentar ao ouvinte um novo rock. Ou, quem sabe, uma nova música, ponto final.

3 Respostas para “‘FIRST ISSUE’ + ‘METAL BOX’”


  1. UAU, finalmente um jornalista que escreve bem de verdade! Bat, meu velho, assino embaixo de sua excelente análise sobre o PIL. Mais ainda, seu diagnóstico acertado da indústria cultural, principlamente nos anos 80.

    Sou escritor e jornalista, e gostaria de trocar idéias contigo. Seu blog já será linkado ao meu. Espero que curta minhas páginas de artigos, vídeos & imagens interessantes:

    http://alvohumano.blig.ig.com.br/

    http://women_rock.blig.ig.com.br/

    http://youtube_.blig.ig.com.br/

    Um abraço,

    Rez

  2. marcobart Diz:

    Valeu, Ernesto. Tô te linkando também.
    abs

  3. ortega Diz:

    Tava buscando o disco pra baixar, caí aqui e li tudo. Muito bom o texto Bart!


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