Eis a última parte da série de matérias que fiz nos últimos meses sobre os rumos da indústria fonográfica. São as coberturas de dois seminários realizados aqui no Rio, nos quais se falou sobre vários aspectos da crise que está tirando o sono de artistas, produtores e (principalmente) gravadoras. Como bonus track, incluí também uma reportagem mais antiga, sobre o fechamento da Abril Music – um prenúncio dos dias negros que instalar-se-iam sobre o mercado. O curioso é que, por trás do fim da Abril estava Marcos Maynard, o mesmo executivo que saiu corrido da EMI no ano passado acusado de aplicar “contabilidade criativa” aos balanços da filial brasileira da gravadora britânica… A história, também no mercado fonográfico, só se repete como farsa.
Leia a primeira parte do dossiê clicando aqui:
e a segunda, aqui.
Crises e oportunidades no mercado da música
Jornal Musical, 10/11/2006
A ironia no nome do seminário O processo da música, realizado ontem (dia 9) pela Fundação Getúlio Vargas, pode ter passado despercebida para alguns. A idéia era reunir artistas, juristas e gente da mídia para discutir, afinal, como e onde devem se posicionar compositores, gravadoras e ouvintes dentro do furacão que perpassa o mercado fonográfico atualmente – que lida com pirataria rampante, a “ameaça” dos downloads ilegais, o esgotamento de um modelo de negócios que já vem desde os anos 60 e novas propostas para a arrecadação de direitos autorais. Ao final do dia, sobressaíram algumas declarações impactantes, algumas soluções alternativas e muitas dúvidas.
Os artistas ouvidos – Marcelo Camelo (Los Hermanos), BNegão e Lucas Santanna (na foto, falando ao microfone) – demonstraram completa falta de fé no esquema “rédea curta” imposto pelas grandes gravadoras. Os anfitriões da GV, advogados membros do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação, expuseram as mudanças que os novos tempos tecnológicos impõem sobre a música (e a resistência das corporações a se adequar a essas mudanças). E os juristas e especialistas em propriedade intelectual concluiram que as leis relativas ao setor também estão em descompasso com as práticas da sociedade contemporânea.
Mas uma outra questão ainda encasquetava a coordenação do evento: debater a validade das ações cíveis movidas no Brasil contra 20 internautas que fizeram download de músicas usando programas peer-to-peer (como Kazaa, eMule e outros). E daí o porquê do nome – quando a ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Disco) convocou a imprensa para anunciar os processos, no dia 17 de outubro (leia mais aqui), nenhum dos setores que participaram do seminário na FGV foi convidado. Nem sequer um representante do Ministério Público.
“Fomos barrados no evento da ABPD. Em contrapartida, convidamos o Paulo Rosa (diretor da Associação) e o Fernando Brant (presidente da União Brasileira de Compositores) para conversar conosco, mas eles avisaram que não poderiam vir… Coincidentemente, eles tinham compromissos agendados no mesmo horário…” lamentou o advogado Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade e um dos representantes do Creative Commons (www.creativecommons.org.br) no debate.
Músicos adotam o ‘faça-você-mesmo’
Os artistas que participaram do seminário são de estilos distintos e ocupam posições variadas no mercado. Mas todos concordam em um ponto: as gravadoras tradicionais já não atendem mais às suas necessidades. Quanto às do público, nisso nem se fala. Mais bem-sucedido comercialmente dos falantes no seminário, Marcelo Camelo (na foto ao lado) usou sua trajetória para exemplificar a necessidade de mudança do modelo vigente. “O primeiro disco dos Los Hermanos vendeu mais de 300 mil cópias, em 1999. Hoje, com a banda muito mais estabelecida, mais conhecida e com uma base de fãs maior, não passamos dos 40 mil. A pirataria tem seu papel nisso, mas o fato é que o CD não representa mais para o povo o que representava há cinco, dez anos”, considera o compositor de “Anna Júlia”.
Falando na primeira das mesas redondas do dia (sob o tema “Cenários da música em vista das novas mídias”), o baiano Lucas Santanna se colocou como exemplo vivo das tais “novas mídias”. “Comecei em uma gravadora tradicional (a Natasha), depois abri meu próprio selo (Diginóis). Entretanto, só mesmo quando inaugurei meu website (www.diginois.com.br) e pus as músicas de meu terceiro álbum, 3 sessions in a greenhouse, para download gratuito no site, é que meu contato com o público ficou mais instigante – porque passou a ser mais direto”. A quem acha um contrasenso o artista “dar de graça” a música que lhe custou tempo e dinheiro para gravar e produzir, Lucas responde: “3 sessions… está vendendo muito mais rápido que meus outros discos. Em cinco meses, já ultrapassou as 1.500 cópias vendidas, algo que credito à divulgação e à interação com o público através da internet”.
BNegão é outro caso de sucesso – internacional, até – que deve tudo à grande rede mundial. Dois meses depois de lançar Enxugando gelo (2004), seu primeiro disco solo, o rapper aderiu ao esquema copyleft de direitos autorais, liberando suas músicas para quem quiser pegá-las. Desde que não haja fins lucrativos na jogada. “Se o cara baixar o disco todo, gravar mil CDs com as músicas e der para quem ele quiser, tá valendo. Se ele quiser vender um, aí não pode”, narra BNegão. A difusão das canções de Enxugando gelo mundo afora, via internet, levou o cantor e sua banda (Os Seletores de Freqüência) a se apresentarem em vários festivais na Europa – onde, como conta o próprio BNegão (na foto ao lado), “ficamos surpresos ao ver que todo mundo conhecia as músicas. Somos maiores no exterior do que no Brasil”.
Mudança na lei e não à repressão
A flexibilização dos direitos autorais também esteve em pauta no encontro na FGV. Para Carlos Affonso, do Centro de Tecnologia e Sociedade, os tempos mudaram e a legislação ficou para trás. “A lei nº 9.610/98, que rege o direito autoral no Brasil, é estrita demais e se baseia apenas em negativas – ‘não pode isso’, ‘não pode aquilo’… Isso funcionava na época em que as gravadoras centralizavam o poder de produção e distribuição de música. Isso tudo mudou. O público quer acesso amplo e interatividade no conteúdo que recebe, e a legislação não prevê nada disso”. Dênis Borges Barbosa, advogado especialista em propriedade intelectual e membro da Ordem Brasileira dos Músicos, que palestrou sob o tema “Ações judiciais contra usuários de redes P2P”, concordou. “As leis devem proteger o interesse maior do público e devem levar em conta os avanços tecnológicos. Os artistas estão se adaptando aos novos tempos e os ouvintes também. Quem está tendo problemas – e prefere apelar à lei – são os intermediários, ou seja, as gravadoras”.
O patrulhamento sobre as pessoas que baixam músicas da internet foi repudiado por todos os participantes. “A repressão é um equívoco. Não se deve pular na jugular do consumidor, e sim esclarecer a situação a ele”, disse André Barcellos, secretário-executivo do Conselho Nacional de Combate à Pirataria. “Baixar música e roubar música são coisas diferentes”, afirmou Sérgio Branco, da FGV. “As pessoas baixam MP3 por vários motivos, entre os quais está a cópia única da música para uso pessoal, sem qualquer fim lucrativo. Mas a legislação não permite. Em vários países isso é permitido, mas no Brasil não. Aqui, não é a sociedade que está à margem da lei – e sim o contrário”. O desembargador André Fontes, do Tribunal Regional Federal do Rio de Janeiro, foi ainda mais categórico. “Sou contra botar a polícia para apreender computador na casa dos outros. As gravadoras satanizam os internautas que baixam música; desde o começo dos tempos, tudo o que é diferente, inovador, é combatido por quem está no poder. Mas vai haver polícia para prender todo mundo? Não vai. E o filho do juiz federal, que também baixa suas musiquinhas? A polícia vai à casa dele, pegar seu computador? Isso não vai acontecer”.
Alguns dos petardos ditos no seminário:
“Temos hoje uma relação inócua com nossa gravadora. Elas nos tomam muito dinheiro – uns 80% de cada CD vendido – e não nos dão nada em troca. Essas ações judiciais contra quem baixa MP3 são ações de gente desesperada, de um negócio que está minguando” (Marcelo Camelo)
“Praticamente todos os departamentos das gravadoras foram fechados, menos o de marketing. Elas (as gravadoras) gostam mais de dinheiro do que de música e o errado é o cara que compra disco pirata?” (BNegão)
“Falam que pirataria é crime organizado. Ora, jabá também é crime. E é organizado!” (BNegão)
“No futuro, lançar um CD será uma opção estética de cada artista, para reunir um conjunto de canções que tenham uma afinidade. Mas o CD não será mais o formato padrão para as gravadoras” (Alexandre Matias, da gravadora Trama)
“O combate à pirataria também precisa de apoio do setor fonográfico. A repressão está indo bem, mas as gravadoras precisam conter a demanda do público pelo CD pirata – criando, por exemplo, linhas de lançamentos com preços mais baixos, destinados aos ouvintes de menor poder aquisitivo” (André Barcellos)
“Hoje em dia a música não é mais um bem – o direito sobre a música vale mais que a própria música. Isso é uma patologia” (Desembargador André Fontes)
_____________________________________________________
Crise do mercado do disco em debate no Música Chappa Quente
Jornal Musical, 05/04/2007
O casamento entre o mercado fonográfico e o público está em crise. E como em toda crise conjugal, a melhor saída é juntar as duas partes para discutir a relação. Em meio à avalanche de debates, palestras, mesas-redondas e seminários promovidos recentemente para discutir o atual momento da indústria do disco, a série de debates Música Chappa Quente foi um dos mais bem sucedidos – por ter reunido, de forma surpreendente, agentes da indústria com pontos de vista radicalmente antagônicos. E em nenhum momento do evento essa convergência ficou tão clara quanto no debate de encerramento da série, ocorrido ontem no campus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Sob o pretexto de discutir quais são as perspectivas no campo do direito autoral na música – um campo que hoje está literalmente minado pelo avanço dos meios de reprodução digital – reuniram-se um representante da indústria (Paulo Rosa, diretor geral da Associação Brasileira dos Produtores de Disco) e um porta-voz do Creative Commons (Carlos Affonso, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas). Duas entidades que, até bem pouco tempo, não podiam nem ouvir falar uma na outra.
Para Bruno Maia, editor do blog Sobremusica (http://smusica.blogspot.com) e um dos organizadores do Música Chappa Quente, nesse tipo de encontro é que residiu a importância do evento. “Não adianta olhar o ‘outro’ como inimigo. Reunir idéias divergentes é difícil, mas o mínimo que podemos fazer é conseguir que as pessoas se encontrem. Quando se cria um ambiente para que a informação circule, as discussões são muito mais proveitosas”, afirma. Realizado em quatro faculdades cariocas ao longo do mês de março, o Música Chappa Quente reuniu produtores, jornalistas, representantes de selos grandes e pequenos, músicos e gente das mais diferentes mídias para discutir temas como as novas formas de marketing na indústria musical, a importância da internet na divulgação de artistas novos e o estado do atual mercado independente. Um pouquinho do que rolou pode ser ser acessado no site da Chappa (que se autodenomina “uma rede de empresas criativas trabalhando pelo desenvolvimento sustentável da nova indústria da música”). Em www.chappa.com.br, encontram-se vídeos e podcasts com a íntegra dos oito debates promovidos pelo evento, que atraiu um público de cerca de 800 pessoas. “Queremos levar o Chappa Quente para outras cidades do Brasil, ainda este ano”, diz Bruno, anunciando que São Paulo deve ser a próxima parada.
Não havia dúvida que a chapa estaria mais quente no último debate, que partiu da questão do direito autoral e virou uma ampla discussão sobre os descaminhos da indústria fonográfica. A expectativa era grande pelo encontro entre os representantes da ABPD (www.abpd.org.br) e do Creative Commons (www.creativecommons.org.br). Em outubro do ano passado, a ABPD impediu que qualquer porta-voz do CC comparecesse à coletiva de imprensa que anunciou a abertura dos primeiros processos civis no Brasil contra pessoas físicas que compartilham músicas pela internet. O Creative Commons “contra-atacou” promovendo o evento O Processo da Música, que trouxe à baila a necessidade de a indústria entender as mudanças no comportamento do consumidor de música diante dos novos meios digitais. Convidada a enviar um representante ao evento, a ABPD não compareceu. Na mesa de debates de ontem – completada por Felipe Llerena, diretor do site IMúsica (www.imusica.com.br), e pelos jornalistas Bruno Natal e Antonio Carlos Miguel – Paulo Rosa e Carlos Affonso se esforçaram para demonstrar que não há animosidade entre os defensores do status quo da indústria e os partidários do Creative Commons. “Não existe tensão entre a ABPD e o CC”, disse Rosa. “O Creative Commons é apenas uma das várias soluções na busca por um novo modelo de direito autoral que se adeque ao desafio do digital”, contemporizou, por sua vez, Affonso.
De direito autoral mesmo falou-se relativamente pouco. Encontrar as saídas para o buraco onde as gravadoras estão, isso sim dominou as preocupações. “As gravadoras parecem ainda não ter entendido o que aconteceu, e como aconteceu tão de repente, tão rápido”, disse Felipe Llerena. Antonio Carlos Miguel contou uma história que exemplifica a falta de noção dos grandes selos frente à nova realidade: “Há uns cinco anos, fui convidado pelo diretor de uma grande gravadora. Ele me mostrou algo que, a seu ver, iria salvar as vendas da indústria: o DVD-áudio, que era uma novidade na época. Só que ele não percebeu que a garotada, os adolescentes – que sempre formaram a base do mercado comprador de discos – já não estavam mais se importando com a qualidade sonora. Eles queriam era baixar música, mesmo com uma qualidade mais baixa”. Paulo Rosa afirmou que a internet “entortou a cabeça das companhias”. “Lembro quando surgiu o Napster, em 1998, que possibilitava a todo mundo baixar música de graça. Aquilo causou um pânico geral. O resultado é que hoje, nas grandes gravadoras multinacionais, os advogados é quem tomam as decisões, à frente do departamento artístico”, contou.
As perspectivas para o futuro foram contextualizadas, levando em conta a inevitável migração para a venda de música online – ainda incipiente no Brasil. “Por aqui o hábito de compra de música pela internet ficou retardado, pela falta mesmo de potenciais usuários, gente que navegue na rede, saiba usar o computador”, afirmou Llerena, cujo site é pioneiro na venda de música digital no Brasil. “O comprador tem de entender que comprar é melhor do que baixar de graça, pois ao comprar ele não está adquirindo só aquele arquivo em MP3 – está comprando uma licença de uso daquela faixa, para toda a vida. Se o computador dele der pau e perder todas as músicas que estavam arquivadas, ele vai poder voltar na loja online e pegar um novo arquivo”. Paulo Rosa disse que as grandes gravadoras já acordaram para a noção de que o futuro é a internet. “Estamos testando vários formatos. Tem sites que dão a música de graça, em troca de exibir publicidade para o cara que está ouvindo. Há também a idéia da assinatura, com um pagamento fixo por mês e um acervo sem limite à disposição do usuário”. Para o diretor da ABPD, quanto mais gente aderir ao download legalizado, mais baixo será o preço a pagar pelas músicas. Hoje, o preço médio por faixa adquirida gira em torno de R$ 2,00. “O preço vai cair à medida em que o mercado cresce. É economia de escala”, confirmou Rosa.
Mas o eterno cabo-de-guerra que contrapõe a geração MP3 (que está acostumada a não pagar por música) a intérpretes e compositores (que têm no direito autoral fonte fundamental de renda) também rendeu assunto. “Só se fala em direito autoral na mídia de forma negativa: processos, pirataria, indenizações. É preciso que as pessoas entendam que o Creative Commons está aí para ajudar a tirar essas proibições todas, esses aspectos negativos”, disse Carlos Affonso. Para o advogado e professor, o conceito do CC ainda é mal-interpretado por muita gente. “Não somos contra a propriedade, nem queremos tirar os direitos de ninguém. Quando o artista licencia alguma obra sua através do Creative Commons, ele tem direito de escolher exatamente o que pode e o que não pode ser feito com seu trabalho. E ele pode dissolver o contrato de licença com o CC a qualquer momento, se aparecer alguma proposta mais interessante”.
Apesar das argumentações de Affonso, para Paulo Rosa não parece haver perspectiva de que corporações dominantes na indústria afrouxem a repressão sobre quem baixa música sem pagar. “Não foi com satisfação que anunciei os processos contra os brasileiros que compartilham música. E espero que a ABPD não precise seguir o passos da RIAA (Recording Industry Association of America, o equivalente norte-americano da ABPD), que está mandando oficiais de justiça às universidades nos EUA para processar quem baixa MP3. Mas quando você percebe que tem gente com oito, dez mil músicas em seus computadores, pondo tudo aquilo de graça para quem quiser pegar, é claro que há alguma coisa errada nisso aí”. O debate continua.
______________________________________
Mercado fonográfico na encruzilhada em 2003
Cliquemusic, 06/02/2003
Quem pensava que 2002 tinha sido o ano do fundo do poço para o mercado fonográfico pode refazer as contas e se preparar para um 2003 ainda mais sombrio. A puxar o bonde das más notícias para o ano, está a gravadora Abril Music, que anunciou ontem (dia 5) o fim de suas atividades. Os motivos alegados pela direção do selo para fechar as portas foram a dura concorrência com as gravadoras multinacionais e a escalada da pirataria de CDs. O fim da Abril Music representa mais um mau prognóstico para o mercado brasileiro de discos, que – de forma paradoxal – faturou mais em 2002 do que em 2003, mas viu o número de CDs vendidos cair e muito.
Dona de um cast totalmente brasileiro, com 48 nomes, a Abril detinha o passe de artistas de alto conceito como Rita Lee, Gal Costa, Marina Lima, Los Hermanos, Erasmo Carlos e Titãs; além de atrações de alto potencial de popularidade, como Frank Aguiar, Maurício Manieri, CPM 22, Twister, Capital Inicial (que vendeu cerca de dois milhões de cópias de seu Acústico MTV desde 2000) e Bruno & Marrone. Em comunicado oficial à imprensa, Giancarlo Civita – vice-presidente superintendente da Unidade de Negócios Jovem da editora Abril e responsável pela gravadora – explicou a decisão de fechar o selo: “Em 4 anos de operação, a Abril Music conseguiu ótimos resultados e vitórias importantes. Esse mercado, entretanto, é dominado pelas multinacionais e extremamente competitivo e, para complicar a situação, a pirataria na indústria fonográfica já ultrapassa 50%. Para continuar concorrendo, teríamos de injetar um capital significativo, a curto prazo – o que não temos condições de fazer nesse momento.”
Ainda segundo a adminstração da gravadora, os contratos da Abril serão negociado com outros selos. Desde o ano passado pipocavam rumores de que a Abril seria vendida para uma gravadora multinacional – mais especificamente, a BMG -, sempre negados por ambos os selos. Entretanto, tais rumores já tinham sido suficientes para causar o afastamento gradual de nomes como Rita Lee e Marina Lima (que adiou a gravação de seu Acústico MTV por conta da indefinição de rumos da Abril). A gravadora, entretanto, informa que os contratos ainda estão valendo e que ninguém foi dispensado ainda. A maior parte dos cerca de 60 funcionários da Abril Music deverá ser demitida. Mesmo com o fechamento da gravadora, o selo Abril ainda será mantido pelo Grupo Abril, para uma eventual retomada das atividades no futuro.
Em 2002, a Abril abocanhou 4,7% das vendas de CDs no Brasil, ficando em sétimo lugar no ranking das maiores gravadoras – atrás da Universal (21,8%), Sony Music (16,3%), Warner (14,8%), BMG (14,8%), Som Livre (14,6%) e EMI (12,1%). Essa fatia de uma movimentação de mais de um bilhão de reais (R$ 1.042.300.000, mais exatamente) não foi o suficiente para manter a gravadora. Os números do business fonográfico são curiosamente contraditórios. Apesar do faturamento com a venda de CDs ter aumentado em relação a 2001 – uma subida de 4,4%, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos -, a quantidade de discos vendidos vem caindo ano a ano. Os 105 milhões de CDs comercializados em 1998 cairam para menos de 80 milhões em 2002. No mesmo período, a participação das vendas de CD no faturamento geral do comércio cairam de 0,85% para meros 0,07%. Na Grande São Paulo, maior centro comercial do país, a queda de faturamento com vendas de CDs foi de 39% de 2001 para 2002. Nem o Natal conseguiu dar alento aos vendedores de discos.
A pirataria é vista como a grande vilã desse cenário. Apenas a China supera o Brasil em números absolutos de CDs piratas; calcula-se que pelo menos 40 milhões de discos falsificados tenham sido vendidos no ano passado, perfazendo nada menos que metade do mercado oficial. Desde 1997, a pirataria aumentou mais de espantosos 1300%, partindo dos magros três milhões de CDs piratas vendidos naquele ano. Tudo isso, claro, são dados estimados, já que o combate e o mapeamento da ação dos fabricantes de CDs piratas ainda engatinha. A febre de downloads de música no formato MP3 via Internet também tem seu papel nessa decadência, ainda que bem menor que a importância da pirataria física. Mais grave é a crise econômica que assola o país há anos e que encolhe o poder aquisitivo do comprador.
Segundo alguns diretores de gravadoras, a busca de um formato que substitua tanto o CD quanto o MP3 pode ser a solução. “Tem de surgir um novo modelo. Até porque precisamos combater tanto a pirataria digital quanto a física”, afirmou Marcelo Castello Branco, presidente da Universal Music. João Augusto, presidente da DeckDisc, pensa algo parecido. “O CD vai acabar, assim como o LP e a fita cassete. Nos EUA e no Japão, onde as conexões de alta velocidade à Internet estão se popularizando cada vez mais, a queda na venda de CDs está cada vez maior porque as pessoas estão se interessando muito mais pelo MP3″, disse Augusto. Nessa encruzilhada sem soluções fáceis é que a Abril Music acabou pedindo o boné.