Arquivo para Junho, 2007

PALPITEIROS APOCALÍPTICOS & INTEGRADOS.

Junho 30, 2007

Vivemos numa época boa para o rock. As bandas que vêm surgindo, aos borbotões, desde a virada do milênio não passam vergonha frente a nenhuma geração anterior da música pop. Posso apontar, sem muito esforço, uma longa lista de artistas bacanas que apareceram de 2000 para cá, que me fazem afirmar sem medo de errar: o rock 00 é tão legal quanto o rock dos anos 50, 60, 70, 80 e 90. Notem bem: “tão legal quanto” não quer dizer, de forma alguma, “tão fundamental quanto”, “tão revolucionário quanto” nem “tão inovador quanto”. (Se é que é possível quantificar esse tipo de coisa.) Enfim, não há dado concreto algum que possa levar à conclusão que o rock contemporâneo seja intrinsecamente “pior” que o rock feito em outras eras. Se algo mudou, foi para melhor. As benesses da comunicação digital possibilitam conhecer quase no ato qualquer artista novo que apareça – derrubando aquele delay que havia nas décadas passadas entre a descoberta (via imprensa) de alguma novidade e a audição efetiva dos discos. Não se trata de uma defesa apaixonada das modernices, nem de um abraço incondicional às propaladas maravilhas que o NME ou o Pitchforkmedia teima em apresentar toda semana. É apenas a constatação de que há boa música sendo feita hoje por aí e que é fácil ouví-la.

Mas, é claro, tem gente que não pensa assim.

O mundo dos palpiteiros pop é composto basicamente de sabichões e caga-regras. Gente que se julga mais esperta que as pessoas que os lêem e/ou assistem. Esse tipo de gente se valeu, desde que o mundo é mundo, do acesso privilegiado que tinham à informação para excercer seu poder. Voltemos, por um instante, aos anos 80. Os Pepes Escobares & Josés Robertos Mahrs da vida tinham status de oráculo, pois só eles e mais uns happy few podiam dar umas bandas pelo Primeiro Mundo, catar discos & revistas & livros e espalhar a luz aos iletrados aqui em Bananópolis. Hoje, como é? Todo mundo tem acesso a tudo que há para se ler ou ouvir. Em geral, de graça. Isso deixa os pretensos Pepes & Mahrs de nossos dias um tanto mal-humorados, rabugentos, de mal com o mundo. Acompanhe o raciocínio (deles): “Antes eu podia dizer que a novíssima banda X, da Escócia, era o máximo, e as pessoas tinham de acreditar em mim. E eu levava o crédito por ‘descobrir’ a banda. Hoje em dia meus leitores ouvem as novíssimas bandas da Escócia ao mesmo tempo que eu – ou antes. Isso não é justo!” É por isso que, para uma determinada facção dos palpiteiros pop, o rock anda tão sem graça.

Muito se reclama dos deslumbrados, e pouco dos (falsamente) desencantados. Claro, aquele rapaz que em maio já postou num blog a lista dos 103 (!!) melhores discos de 2007 é o cúmulo da falta de noção. Só que o outro lado da moeda, o dos colunistas, blogueiros & quejandos que preferem pixar incondicionalmente o rock do terceiro milênio também é de lascar. Essa tchurma blasé se divide em dois subgrupos, classificados (por mim, d’après Umbertão) como apocalípticos ou integrados. Os modos de operação de cada uma das facções são diferentes, mas elas têm vários pontos de contato. O principal: tanto os apocalípticos quanto os integrados se esmeram em procurar “argumentos racionais” para aconselhar seus leitores a evitar tais grupos e adotar outros. Ou pior, arrogância das arrogâncias, para explicar (sic) ao leitor porquê ele mesmo, o leitor, gosta de banda tal. Na maioria das vezes, esses argumentos não levam em consideração o “detalhe” mais importante: a própria música do artista em questão. Esses dois tipos muito específicos de palpiteiros não atacam apenas na mídia escrita e/ou virtual: também são figuras fáceis em listas de discussões e sites de relacionamento.

A seguir, deslindarei algumas características particulares dos dois tipos de palpiteiros do contra.

O palpiteiro apocalíptico (ou o reacionário)
Silogismos favoritos:

“A internet está matando o rock.”
“Pra quê ouvir a banda nova X, se a banda antiga Y já fazia isso há 20 anos?”
“O rock não começou com os Arctic Monkeys (ou com o Arcade Fire, ou com o Bloc Party, ou com os Strokes…). Ouçam aqui como as coisas eram no meu tempo…”

O palpiteiro apocalíptico anseia, a suspirar, pela volta de tempos mais simples. Ele se angustia com os novos tempos – tempos nos quais a informação é descentralizada, democrática… excessiva? Excessiva demais para que eu dê conta dela? Para este tipo de palpiteiro pop, a música pop era boa quando era previsível. Quando havia poucos canais de divulgação, quando poucas gravadoras controlavam a produção dos discos, quando tinhamos de esperar um ano, ano-e-meio pelo “evento” que era o lançamento de um novo disco de uma banda “importante”. O apocalíptico não notou que hoje em dia dia tudo é diferente. Ele não percebeu que as coisas andam mais rápidas. Na verdade, ele percebeu, mas não dá o braço a torcer.

Uma das paranóias do apocalíptico é a “facilidade” com que as bandas novas chegam ao público nos tempos atuais. Perceba como o raciocínio é lapidar seguindo o exemplo:

“Os Beatles, a maior banda de todos os tempos, levaram seis anos (1957-1963) para estourar mundialmente. Os Strokes – desculpe, mas é uma banda muito inferior, não é mesmo? – levaram menos de dois anos para estourar. Eis o sintoma de que há algo muito errado com a música pop em nossos dias! Uma época em que coisas tão medíocres se propagam tão rápido, etc.”.

O apocalíptico não apenas culpa a internet pelo “lamentável” estado de coisas atual. Ele também taxa automaticamente de “descartável” qualquer artista que utilize a web e/ou recursos paralelos para divulgar sua obra. Para ele, só é válido o artista que segue o “caminho natural” das coisas: dois ou três anos de ensaio, muitos shows, um suado contrato com uma gravadora, e enfim o lançamento de um CD. Só assim, segundo ele, uma banda pode realmente tocar os corações de seus ouvintes. Quem parte para o caminho alternativo só pode ser um artista menor, que prefere se escorar no hype a tentar uma comunicação real, palpável, pé no chão, com seu público. Tal e qual Luiz Felipe Scolari, o apocalíptico acredita que bom caráter, trabalho duro e honestidade são preferíveis ao talento. Ele bestifica-se com a sucessão de bandas “vazias” e “irrelevantes” indicadas pelos modernetes de plantão a cada semana. Entretanto, o apocalíptico não se dá ao trabalho de ouvir qualquer uma dessas “melhores-bandas-de-todos-os-tempos”; ele apenas verifica de onde partiu a proclamação e dá de ombros, como quem diz “Ah, é só mais um hype”. O apocalíptico é um equivocado, que confunde o meio (a internet) com a mensagem (a música). Só que ele não entende as possibilidades do meio e ignora, olimpicamente, a mensagem.

Quando alguém que realmente escutou o grupo ousa corroborar pessoalmente a opinião vigente, o apocalíptico se melindra e invoca o santo nome da autenticidade em vão. O argumento preferido do apocalíptico para desancar o rock 00 é a falta de originalidade. “Tudo o que se faz no pop hoje”, diz ele em tom solene, “já foi feito antes, e melhor”. Ora, isso é tão óbvio quanto irrelevante. Pop é reciclagem. Se levarmos esse argumento do “antes-e-melhor” às últimas conseqüências, daqui em breve estaremos todos no Congo, ouvindo batuques tribais. Não foi de lá que saiu a música negra primitiva dos escravos transplantados para a América, que deu origem ao blues, que deu origem ao rhythm’n'blues…? O apocalíptico não concebe a possibilidade de ouvir o antigo e o novo, sem que um substitua o outro. Aliás, essa possibilidade mesmo (a de conjugar velharias e modernidades) é uma das coisas mais fascinantes da era do MP3.

O palpiteiro integrado (ou o cínico)
Silogismos favoritos:

“Don’t believe the hype, except my own”
“O mundinho indie não é tão grande como parece. Eu sei, eu estive lá”
“Já ouviu aquela rádio online californiana incrível que eu indiquei?”

O palpiteiro integrado é mais malandro que o apocalíptico. E, óbvio, mais filhadaputa também. A nostalgia reacionária do apocalíptico é sincera. A postura blasé do integrado mistura, em iguais doses, despeito, pretensão e exibicionismo. Ele sabe muito bem como usar as molezas da vida digital para se informar. Apóia integralmente o file-sharing, os NMEs, as Tramas Virtuais e os MySpaces da vida – afinal, através disso tudo é que ele se mantém bem informado. Entretanto, o integrado prefere ficar em cima do muro. Ele sabe que não pode ser “o” sabichão-mor. Então ele se divide entre indicar as bandecas mais obscuras do mundo, aquelas que nem chegaram no Soulseek, e sacanear os atuais darlings da molecada indie. “Sacumé”, diria ele, enquanto passeia pelas prateleiras de sua lojinha de CDs favorita (no sudoeste dos EUA, claro), “enquanto eu digo que a banda é legal, a banda é legal. Depois que todo mundo passa a achar que é legal, eu digo que não é legal. Ou que já foi legal. Ou que nunca foi legal. Sacumé?”

O esporte favorito do integrado é explanar, timtim por timtim, porque as pessoas apreciam (ou desgostam de, ou deveriam apreciar ou desgostar de) determinadas bandas ou estilos. Na cabeça deles, tudo se resume a uma questão de tiração de onda. Sigam o exemplo:

“O Cansei de Ser Sexy só ficou famoso no Brasil depois de estourar lá fora. Você, brasileiro colonizado e complexado, passou a gostar deles quando achou que eles viraram a sensação indie na Inglaterra. Só que eles não ficaram famosos de verdade aqui, nem estouraram de verdade lá fora; tudo se resume a um buchicho no mundinho alternativo, e só. Agora que eu já provei por A + B a razão de você gostar da banda, posso chochá-los à vontade, pois eu sei como as coisas funcionam no mundinho alternativo lá fora, etc.”

Ao mesmo tempo, o integrado se diverte ao desencavar indicações obscuríssimas dos confins do pop alternativo mundial, contrapondo-as ao que está na crista da onda por aqui. Não serve a bandinha que está no rodapé na quarta capa do NME. “Essa todo mundo já conhece”, pensa o integrado. Só vale aquela coletânea de rock psicodélico aborígene das Filipinas (comprada naquela lojinha do sudeste dos EUA, claro).

A contradição subjacente a este tipo de palpiteiro é que ele não é contrário à construção dos hypes. Ele só não suporta a idéia de não tê-los construído antes de todo mundo. É hilário testemunhar seus ataques contra tal colunista ou tal website, que “plantam idéias” na cabeça das pessoas. Suas próprias sugestões de audições ou leituras, por outro lado, não são hype; são apenas isso, sugestões. Siga quem quiser. Mas lembre-se, daqui a duas semanas eu vou esculachar quem caiu no hype do colunista concorrente em vez de embarcar na minha onda… Ele só não imagina que existe uma coisinha chamada gosto pessoal, que suplanta qualquer hype. Ou seja, se o ouvinte não gostar da música, não há formador de opinião que o convença do contrário. E vice-versa. Supor que seu leitor é burro o suficiente para gostar de um grupo só porque sustentar tal opinião é “moderno” é subestimar criminosamente o critério pessoal de cada um.

O integrado, no fundo, também é um nostálgico. Só que sua nostalgia não é pelos “bons tempos” da música à moda antiga. Ele anseia pela volta daqueles dias em que poucos privilegiados tiravam onda com suas revistas importadas e seus vinis comprados na Virgin Megastore. Ainda bem que esses tempos não voltam mais.

ESCREVO POR UM PRATO DE COMIDA.

Junho 28, 2007

Estou desempregado. Agora é oficial. Ou pelo menos, quase oficial. Hoje, meu chefe, Tárik de Souza, me ligou para dizer que está se desligando do site Jornal Musical, no qual trabalhei como editor desde agosto do ano passado. Como o JM só existe por causa do Tárik (que criou o projeto e era o elo de ligação entre a redação e a galera que nos financiava), ao que tudo indica não vai haver mais motivo para o site prosseguir.

Na prática, esse melancólico fim estava anunciado há quase dois meses. Desde o começo de maio o site está fora do ar, devido a disputas entre os cabeças na cúpula da empreitada. Tiraram o site do ar, mandaram todo mundo para casa e esperar pela resolução dos impasses. Que não ocorreram. Eu já tinha dado uma pala do que estava para acontecer no post que pode ser lido clicando aqui, e na verdade desde o mês já estou pedindo emprego a Deus & o mundo. E, para ser justo, até apareceram algumas ofertas temporárias, mas que não aceitei porque, afinal de contas, o futuro do site ainda estava em suspense. Bem, não está mais.

Lanço agora minha garrafa no mar da internet, esperando que alguém leia isso aqui e me arrume um empreguinho qualquer. Sou limpinho, honesto, tenho boas referências e não dou aporrinhação. Sou esforçado e em redação faço de um tudo, do trivial variado ao requinte festivo. Quem souber de algo: marcobarbosa@gmail.com.

UM MÊS DE YADDAYADDAYADDA.

Junho 27, 2007

É isso aê, moçada: hoje este blog completa um mês de vida. Reluto em empregar a palavra blog para classificar o t.d.v., por vários motivos; o principal deles é que definitivamente eu NÃO ofereço o que os blogs tradicionais oferecem, nem em termos de quantidade (de postagens) nem de qualidade. Tanto faz. O certo é que, até o exato momento em que digito essas mal-traçadas, o t.d.v. já mereceu 3.922 visitas, vejam vocês. Não sei se isso é muito ou pouco; me parece muito, principalmente para um blog modesto como o meu, e que vem sofrendo nos últimos dias de uma seca de postagens. Venho passando por um momento profissional e pessoal meio complicado, o que diminuiu minha disposição. Prometo colocar ordem na casa em breve, aumentando o ritmo e a qualidade dos posts. Enquanto isso, ficam aqui meus 3.922 muito obrigados.

Não chega a ser surpresa que o texto A antepenúltima ceia dos Los Hermanos tenha sido o mais visitado da história do t.d.v., com quase mil cliques – ganhando de muito longe do segundo colocado (Kids + Fargo = Alpha dog). Atrás, vêm O verdadeiro manual do candidato ao vestibular em jornalismo, a parte I do Dossiê: Crise da indústria fonográfica e Da síndrome de misoginia involuntária. Este último foi o mais comentado (11 comentários). Digo que não foi surpresa o post sobre os Hermanos emplacar nas cabeças, pois sei dos amores e dos ódios que a banda suscita, especialmente num momento como este, em que o grupo, até segunda ordem, encerrou suas atividades.

Agora, algo que sempre me diverte (e me intriga) é ler a relação de termos que as pessoas digitaram em mecanismos de busca (Google, Yahoo, Altavista…) e que acabaram trazendo-as pra cá. Algumas frases são auto-explicativas: “provas de vestibular para jornalismo”, “ranking maiores vendedores da mpb”, “los hermanos acaba”, “naçao zumbi na deck”, “livro apanhador centeio”, e, claro, “telhado de vidro”. Outras nem tanto: “ouvir marcha militar da banda do exercito”, “baixar cd de padre marcelo sem pagar”, “como ler quando não se sabe ler” (!?). Um terceiro tipo de busca… bem, nem comento nada, vou apenas relacioná-las abaixo:

“custos para produção de bananada”
“EDITORAS QUE VENDEM LIVROS SOBRE POMPOAR”
“fodendo mocinhas”
“Marge e bart Fudendo”
“CLIPES DE PUNK ROCK DE GRASSA”
“o grupo roupa nova é do diabo”
“Sharon Stone transando em invasao de pri”

e o meu favorito:
“Funk Dança da cadeira engravida uma moça”

UMA ABÓBORA DE MAU HUMOR.

Junho 24, 2007

E não é que os Smashing Pumpkins, estão de volta, comprovando aquela velha máxima do bigodudo? Zeitgeist, primeiro disco da banda em sete anos, tem data certa (7 de julho) para chegar às lojas dos EUA. Billy Corgan está na estrada novamente, tendo chutado de vez James Iha e D’Arcy Wretzky e mantido apenas o baterista Jimmy Chamberlin a bordo. Pareceu-me um momento auspicioso para reeditar aqui a famigerada (infame?) entrevista que fiz com Corgan em 1998, quando a banda empreendia sua segunda passagem pelo Brasil. Publicada na edição 16 da Rock Press, a matéria resultante logo se tornou um clássico nos anais (ops) da revista. Na época eu não era exatamente um repórter iniciante, mas não tinha muita experiência em entrevistas com superastros do rock internacional. Junte isso a um entrevistado impaciente e reticente e temos… um magnífico fiasco! Hoje, é uma das minhas matérias favoritas. Os comentários em itálico entre as declarações já faziam parte do texto que foi publicado originalmente.

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Uma abóbora de mau humor

Entrevistar o líder dos Smashing Pumpkins: tarefa árdua especialmente para mim, que nunca fui exatamente um cara extrovertido. Entrevista cara a cara, então… as histórias de terror sobre o mau humor e o estrelismo de Billy Corgan são lendárias. O que dizer então, quando, por conta de uma confusão de horários, acabei fazendo a entrevista mais de uma hora depois do horário marcado inicialmente? Bem, o fato é que me sentei diante de Corgan (estranhamente grandalhão, com mãos enormes) um pouco trêmulo, munido de um punhado de questões um tanto superficiais, mas que poderia dar margem a revelações interessantes.

Isso, claro, se eu pudesse contar com a boa vontade de meu entrevistado. Que não se manifestou. Saca aquelas entrevistas em que as perguntas acabam sendo mais longas que as respostas?

Enfim, segue a íntegra dos quinze minutos de conversa mais duros deste ano para mim.

De que maneira você vê Adore: como uma ruptura ou uma progressão natural na carreira dos Pumpkins?
(Pausa. Ri.) Ruptura… bem, talvez como um pouco de cada. Ruptura não é a palavra certa para definir o álbum.

Por que?
Porque (gravar) o disco foi uma decisão consciente. Não foi um rompimento com coisa alguma.

E por que arriscar tanto, mudando tão drasticamente o som da banda?
Ah… (pausa) Não sei. Porque sempre estivemos dispostos a correr riscos. Quero dizer, o que há de arriscado quando você lança três discos de rock em seqüência, e então lança um quarto disco de rock logo em seguida?

Sim, quero dizer “risco” considerando o público que vocês conquistaram.
Mas algumas de nossas maiores canções não são rocks. “1979″, “Tonight, tonight”, “Disarm”… Então, não chega a ser importante. É só música. Não estamos concorrendo à presidência (risos).

E quanto a suas letras, que soam extremamente pessoais? Você considera uma espécie de exorcismo quando coloca assuntos tão pessoais em suas canções?
Não.

Então você pode dizer por que escreve desta forma?
Porque é desta maneira que eu quer colocar as coisas. Não é catarse, não é exorcismo. Eu escrevo sobre aquilo que compreendo. Quer dizer, se você quiser que eu escreva sobre a sua mãe, eu escreverei. Mas eu não conheço a sua mãe. Então…

(A essa altura, eu já suava frio e lutava para dominar meu inglês, cada vez mais capenga.)

Como você concebeu o som de Adore? Os arranjos, os timbres…
Bem lentamente, pedacinho por pedacinho. Como se fosse… um sonho estranho.

E quanto tempo levou o processo?
Seis meses.

Os arranjos foram surgindo junto com o processo de composição, ou…
Sim. Tudo foi composto e gravado muito rapidamente. Então, levei um bom tempo depois só mexendo botões no estúdio.

Sobre a música eletrônica… você abandonou os experimentos eletrônicos que vinha fazendo entre Mellon collie and the infinite sadness e Adore, que renderam canções como “Eye”…
(Interrompendo) Não considero essas músicas experimentos.

Então como você as define?
Eram o que eu queria fazer. A palavra “experimento” pode sugerir que eu estava jogando com as músicas, ou algo parecido. Mas eu sei o que estou fazendo.

No que, exatamente, a saída do baterista Jimmy Chamberlin afetou o som dos Pumpkins?
Bem, não há baterista no disco. Essa foi a maior mudança.

Mas… (neste ponto, confesso, engasguei. Senti-me um total imbecil). OK.
(Rindo, talvez com pena do repórter) Quer dizer, você entende, não? Não há baterista.

A saída de Jimmy ainda é um assunto delicado para a banda?
Não, não se trata disso. É apenas o que eu disse: quando ele saiu, perdemos nosso baterista.

(Achei melhor não insistir mais nesse ponto.)

Muita gente vem apontando a influência de bandas britânicas dos anos 80 – especialmente New Order e The Cure – na sonoridade de Adore. Você poderia comentar sobre isso?
Eu acho que muitas pessoas mencionam isso, mas não creio que seja tão importante assim.

Mas você sempre foi fã dessas bandas, certo?
Sim; eu sempre disse que éramos fãs desses grupos desde o começo dos Pumpkins, em 1988. Se você pegar todas as nossas entrevistas, vai ver que mencionamos Led Zeppelin, New Order, Bauhaus, The Cure, Black Sabbath, Cheap Trick, tudo isso junto. Então a imprensa pega isso e exagera… não tem tanta importância. As pessoas ouvem uma guitarra com efeito de delay e logo dizem: “Ah, isso soa como The Cure”. É mais um clichê, na verdade. Não estão sacando nada. Se tocamos guitarras barulhentas, então somos o Black Sabbath. Estamos apenas tocando alto. só isso. (Pausa.) Eu acho que as pessoas não entendem Adore. Entáo estão procurando por coisas que possam compreender no disco. A influência dos anos 80 é apenas uma pequena parte de Adore. O disco é mais influenciado pelos anos 40 e 50 do que pelos 80.

Como assim?!
Pelas composições, pelo o que há de folk music nelas.

Algumas canções do disco têm sido radicalmente rearranjadas ao vivo. Como foram concebidas essas mudanças no instrumentação?
A partir do mesmo espírito que guiou o álbum, que é o de estar musicalmente aberto, não se deixar prender em armadilhas na hora de recriar as canções. Apenas tentamos não soar chatos.

Como é ter músicos convidados tocando com você, D’Arcy e James no palco?
Tem sido muito divertido, muito interessante. Muito ritmo, muito som, muitas idéias. Toda a turnê tem se baseado nessa idéia de reinterpretação das canções. Não estamos tentando tocar Adore de uma maneira certinha, nota por nota. Nós nem nos importamos com isso.

Você poderia comentar um pouco sobre seu trabalho como produtor, em discos de artistas como Marilyn Manson ou Hole?
Oh, sei lá. Não me considero um produtor. Não é minha carreira. Acho que provavelmente sou melhor compositor do que produtor.

Qual é a atual situação do grupo em relação à gravadora Virgin?
Não posso comentar sobre isso.

E as vendas de Adore? Tinham atingido cerca de meio milhão de cópias nos EUA, pouco antes de vocês virem para cá…
(Interrompendo) Já vendeu bem mais que isso, até agora.

Mas aqui chegaram notícias sobre um certo desapontamento em relação às vendas do disco…
Nos Estados Unidos. Em todo o resto do mundo está indo tão bem quanto nossos outros discos.

E o desapontamento é da parte de quem? Da banda, da gravadora…?
Oh, tudo mundo está desapontado. Eu mesmo inclusive, é claro. (Pausa. Corgan sorri.) Mas você quer saber por que, ou apenas se estou desapontado ou não?

(Riso nervoso e irônico de minha parte.) É, eu gostaria de saber por quê. Se você puder me contar, é claro.
Porque eu acho que nossos fãs não nos apoiaram. Sabe como é, as pessoas jogam muita conversa fora. Querem que as bandas continuem a fazer a melhor música do mundo, cobram mudanças constantes no som das bandas. E na hora do vamos ver, ninguém aceita isso. No fundo, ninguém quer que você mude. Querem que tudo fique como está, sem mudanças.

Foi por isso que mencionei o risco que os Pumpkins correram ao lançar um disco tão diferente quanto Adore
É claro. E eu fico especialmente desapontado com a mídia, porque os jornais e revistas deveriam nos dar o crédito por termos arriscado, ao menos. Corremos um risco muito grande por querer fazer a coisa certa, musicalmente falando – mesmo que tenha sido a decisão errada em termos de carreira. A mídia deveria ao menos reconhecer – mesmo achando que fomos estúpidos em mudar – que estávamos realmente dispostos a correr riscos, que apostamos nossa carreira nessa virada, e que fizemos a coisa certa em termos musicais,. Fizemos a coisa certa para o bem da banda, e que foi o oposto do que todo mundo faz: lançar a mesma merda de disco de novo e de novo.

Então, para você, esta reação do público se deve ao que tem se lido ou visto na TV sobre o disco?
Sim, absolutamente. Porque quando as pessoas escutam Adore, ninguém acha que é um disco ruim.

Mas se as pessoas nem têm a chance de escutá-lo…
Bem, se ninguém compra o disco, então ninguém pode escutar. Aí você pode ver porque estou decepcionado. Se alguém se diz fã dos Pumpkins mas prefere acreditar no que lê em uma revista, em vez de confiar na palavra da banda – depois de dez anos de carreira – bem, então essa pessoa não é realmente fã.

No entanto, você parece realmente satisfeito com a posição dos Smashing Pumpkins no atual cenário mundial do rock.
Oh, sem dúvida. Eu ainda acredito que somos uma das melhores bandas do mundo, não importa o que qualquer pessoa diga a respeito disso. Não restam muitas bandas de rock de verdade no mundo, hoje em dia. Há um monte de gente imitando as bandas de verdade (risos).

Então você se acha capaz de “segurar a tocha” do rock’n'roll.
Oh, sim. Até que eu decida atear fogo em mim mesmo com ela (risos).

Quando vocês lançaram Mellon collie… você tinha dito que o disco representava o fim da banda…
(Interrompendo) Bem, eu não menti. Metaforicamente falando, claro. E daí?

Então Adore seria um “renascimento”…
Eu acredito que sim.

Mas exatamente de que forma? Estruturalmente, ou no modo de pensar a trajetória do grupo?
Ambos. Acho que gostamos de mudanças, e estamos ficando cada vez mais velhos. Não se pode fingir que se tem 24 anos para sempre. E acho que é muito triste quando as pessoas ficam presas ao passado, de uma forma que não é adequada a ninguém, nem a elas mesmas.

(Outra pausa. Mais longa, dessa vez.)

Vocês estão tocando muito pouca coisa dos outros álbuns nessa turnê…
Só material do Mellon collie.

E por que?
Porque sim… porque sim… porque sim. (Pausa. Corgan ri. Não entendo nada. Me sinto um idiota outra vez.) Acho que já respondi a essa pergunta, quando disse que que estava tentando me mover em direção ao futuro. Não se pode continuar vivendo no passado, se você está se mexendo para o futuro.

E quanto às pessoas que ficam pedindo coisas como “Cherub rock”?
Bem, se os fãs não compram o disco novo, é porque eles não são fãs, certo? Então, quem é que vem nos ver tocar, afinal? Como vai saber se as pessoas que virão ao show não vêm por causa das músicas de Adore? Não se pode continuar fazendo sempre as mesmas coisas só por causa dos fãs.

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Indignado com a recepção que o carecão me deu, escrevi (na mesma edição da RP) uma coluna cheia de expletivas e interjeições. Teve gente que não gostou…

Algumas considerações sobre estrelismo & estrelato. Nesse mês de agosto, tive a oportunidade de conversar com duas figuras que admiro, em níveis diferentes: Billy Corgan (Smashing Pumpkins) e Mac McCaughan (Superchunk) – o primeiro em exclusiva cara-a-cara, o segundo por telefone. E pude comprovar que, quanto mais alto, maior o tombo ou… quanto mais o camarada se acha fodão (por conta de ter um bando de gente repetindo isso para ele todo o tempo), mais ele acha que pode dispensar fãs, jornalistas e todo mundo mais.

Me fiz entender? Bom, Billy Corgan foi certamente o entrevistado mais nojento e duro de encarar em minha curta carreira. Mac, por outro lado, é um camarada super gente fina e atencioso. Por acaso, Corgan é um astro mundial do rock e Mac é um “pobre” independente americano. Agora, o que será que a diferença de status entre os dois tem a ver com a diferença de comportamento? Pode até ser chato ficar sentado recebendo jornalistas um atrás do outro, respondendo basicamente às mesmas perguntas de novo e de novo. Mas não vejo justificativa para a maneira fria, lacônica e irônica com que Corgan se comportou na entrevista. Afinal, se o cara ganha uma fortuna fazendo o que gosta, estava hospedado num hotel 5 estrelas (com praia particular!), é admirado pela crítica e adorado por milhões de pessoas… então, por que o mau humor e a frescura? Não por acaso, ele só se soltou na conversa na hora de reclamar da imprensa e dos fãs (sem os quais ele não seria nada). Dois dias depois, no show no Metropolitan, Corgan repetiu a dose e não deu bis. Depois, deu uma entrevista em SP dizendo que “não gostou do público…”

Que diferença para a entrevista com Mac! O líder do Superchunk não se incomodou em falar por telefone (geralmente é um saco), respondeu a todas as perguntas com a maior disposição e estava superanimado para vir ao Brasil. O Superchunk não vende milhões de discos, não toca na MTV e nem se hospeda em hotéis cinco estrelas. E não se incomoda nem um pouco com isso – daí a postura relax e simoática. Mac sabe muito bem que ter respeito (aos fãs e à imprensa) também ajuda a fazer uma grande banda. O comportamento dele deveria servir de exemplo para certos popstar zilionários que ganham dinheiro se fazendo de coitados, mas que na verdade se acham os reis do mundo. Coube a carapuça?

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Corgan X Bart X Fãs

Conforme disse lá em cima, algumas cartas e emails (todas de garotas) foram publicadas na edição seguinte da RP, me detonando pela sinceridade que apliquei ao retrato que tracei de Corgan. Aqui, trechos de duas das cartas mais explícitas.

“Alô, Rock Press!
Antes de tudo, quero parabenizar a revista pela melhor publicação de rock do Brasil.

Agora vou direto ao assunto: sou fã louca, desesperada, descabelada e desequilibrada do Smashing Pumpkins (…) Será que o Marco Antonio poderia ser um pouco mais delicado ao se tratar de nossos ídolos? Tá certo, o Billy sempre foi e será super perfeccionista, arrogante, metido… mas pô, ele não tem seus motivos? (…) Não é fácil (…) ler uma crítica tão dura e infantil na seção Telhado de Vidro. Se o cara é fã do Superchunk e odeia o Corgan, ele que se cadastre num fã-clube e deixe as fãs do Pumpkins em paz, sem suas críticas absurdas!

(…) Marco Antonio, não tenho nada contra a sua pessoa, mas (…) você pisou na bola puxando tanto o saco de uma banda como o Superchunk, que eu nunca ouvi falar (sic) e que não tenho nada contra (sic) e chutando tanto um cara que merece o seu respeito.(…)”

***
“Caro amigo Marco Antonio…(…)

É claro que a minha opinião não significa nada para você, assim como a sua também significa um nada para Billy Corgan (…) Acho que só porque o Billy não falou o que você queria ouvir, não precisaria se referir a ele dessa maneira tão grossa, dizer que o cara é um nojento, uma abóbora de mau humor… Você deveria ter mudado o título da matéria para ‘Um repórter de mau humor’… Ou você queria ser o único repórter do mundo a descobrir confissões sobre os Smashing Pumpkins? (…)
Também achei uma tremenda babaquice (…) compará-lo ao Mac. (…) É claro que sou fã, mas se achasse que estaria sem razão não me manifestaria. E como sou fã, também não me coloco no seu lugar, pois teria coisas mais interessantes a fazer com Billy Corgan do que interrogá-lo…(…)

BRODAGENS & BOBAGENS.

Junho 23, 2007

Garanto a vocês que neste blog (prefiro chamar de site, mas…) nunca serão encontrados determinados posts tão comuns em outros endereços similares. Serão proibidos por aqui, por exemplo:

- Posts comentando listas de “melhores”, “piores”, “Top 10″ e/ou queijandos publicados em outros veículos. (Entretanto, dar-me-ei o direito de elaborar minhas próprias listas, sobre assuntos variados. Aguarde e confie, como dizia o cearense.)

- Posts comentando resultados de futebol, Fórmula 1, vôlei, pelota basca ou qualquer outro esporte.

- Posts linkando vídeos sensacionais (sic) do YouTube. Não consigo achar o site essa coca-cola toda. Tá legal, tem muita coisa bacana lá, mas o esquema telinha micro/frame rate engasgando/qualidade péssima é brochante. Sou mais o Joox – aproveite enquanto dura!

- Posts republicando mensagens hilariantes (sic) propagadas poraê via email.

Mas uma coisa este blog (site…) tem em comum com os outros: uma listinha bacana de links de blogs/sites amigos, que ficará – já está, na verdade – pendurada na home. Na coluninha da esquerda, lá embaixo, é só procurar. É minha singela forma de homenagem aos amigos (reais e virtuais) que visitaram e/ou linkaram e/ou propagandearam o t.d.v. poraê. Valeu, rapeize!

* * *

A Conrad lançou uma compilação da Valentina, criação imortal de Guido Crepax. Confira um trechinho (e salive) aqui. DISCLAIMER: é apenas para maiores de 18 anos.

Gabriel acaba de pôr na praça, via Gravadora Discos, o primeiro álbum do irrepreensivel trio The Feitos, Na cabeça da chorona. Recomendo. Pedidos: gravadoradiscos@gmail.com. Ontem (sexta) os caras tocaram no Circo Voador, mas fiquei enchendo a cara do lado de fora e não cheguei a tempo. Mas clique aqui para ler o que eu achei de um outro show deles.

Já visitaram a Endless.com, nova loja virtual de calçados e acessórios da Amazon.com? Bacana, bacana… tudo caríssimo, claro, mas o visual e a navegação do site são bem interessantes.

O site do Anima Mundi 2007, que começa dia 29 no CCBB-RJ (e segue para SP em 11 de julho) já está no ar, com a programação da parada.

BEM-VINDO DE VOLTA AO LAR, DANNY OCEAN.

Junho 21, 2007

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Sabe o que dizem dos filmes pornô, né? É o único tipo de filme em que o elenco se diverte mais que o espectador! Ha, ha! Não, não é o único. Quem acompanha a franquia Ocean’s eleven, que chega agora a seu terceiro filme – Treze homens e um novo segredo – sabe disso. Ao assistir qualquer um dos filmes da série, não é difícil ficar com a impressão de estar sendo sacaneado, nem que seja só um tiquinho. “Quer dizer que eu pago o ingresso, financio o cachê desses vagabundos e fico aqui sentado assistindo eles a tirar onda por aí?” Admite-se que no episódio anterior, Doze homens e um outro segredo (2004), George Clooney, Brad Pitt & asseclas deixaram o barco correr solto demais. Nem comédia criminal, nem thriller aventuresco, o penúltimo filme da série parecia mais com o homevideo da excursão européia de um bando de superastros hollywoodianos em férias. Steven Soderbergh resolveu arrumar a casa nesta terceira aventura, a começar pela casa em si: Danny Ocean (Clooney) e seus malandros estão de volta a Las Vegas. A estrutura do filme pode parecer mais perto de Missão: impossível (a série de TV, não os filmes) que do Ocean’s eleven original – aquele com Frank Sinatra. Mas é inegável que as cabriolas de Clooney ficam bem melhores iluminadas pelos neons da capital do jogo.

Não importa que a trama, especialmente no começo do filme, seja mais enrolada do que o recomendável. Nem a ausência de Julia Roberts – ela sempre pareceu meio dispensável mesmo, né? Ou que Ellen Barkin, escalada para ser a gostosa da trama, já tenha passado há muito do ponto do abate. Também não importa a ridícula tintura de cabelo aplicada em Al Pacino. O que importa é que, com este terceiro filme, Soderbergh restitui a cumplicidade entre o público e seus malandros boa-gente. A impressão de “estão-tirando-onda-com-a-minha-cara” persiste. Só que desta vez, há uma piscadela de olho à audiência, um convite ao envolvimento que havia no primeiro filme, mas não no segundo. Mesmo que as viagens, literais e figuradas, continuem a dar as cartas no roteiro. Há, por exemplo, uma hilária subtrama na qual os irmãos Turk e Virgil (Scott Caan e Casey Aflleck) se tornam heróis de uma revolução sindical no México. Exagero? Dispensável? Bobeira além da conta, que só atrapalha o andamento da trama? Pode ser, pode ser… Entretanto, desta vez rimos junto com os caras. Não se pode esperar mais do que isso de um filme que nunca se levou a sério – e que agora, ao menos, leva (mais) a sério a tarefa de divertir o público. Aquelas piadas internas de quem vive em Las Vegas (“oferecer um ‘Billy Martin’“, “aplicar um ‘Susan B.Anthony’” – do que diabo eles estão falando?), os figuraças convidados para integrar o elenco, como Eddie Izzard e David Paymer, o bate-bola em diálogos elípticos mantido por Clooney e Pitt… tudo isso junto, encaixado nos lugares certos, leva o filme adiante com sucesso.

Com esta série de filmes, Soderbergh não apenas se tornou um figurão nas altas-rodas de Hollywood. Ele adicionou graça e glamour a um subgênero cinematográfico usualmente sombrio, o caper movie, aditivando a trama do original de 1960. Com um detalhe crucial, e bem adequado à moral ambivalente de nossos dias: diferentemente do filme de Sinatra, a nova geração de Danny Ocean sempre se dá bem no final. No terceiro episódio eles se dão a um luxo impensável: planejam quebrar o cassino do inescrupuloso Willy Bank (Pacino) mas sem lucrar um níquel com a manobra. Tudo para vingar a traição que Bank aplicou em Reuben (Elliot Gould), uma desfeita tão grande que deixou o amigo estirado numa cama de hospital. É a piscadela definitiva ao público. É impossível não torcer por bandidos como esses, tão divertidos e engenhosos… e que prezam a amizade acima de tudo. A emoção de arquitetar o golpe é o que importa, não o resultado financeiro. E, claro, quem já perdeu dinheiro em qualquer cassino ao redor do mundo há de sentir-se vingado com a tramóia.

Ampliando a cumplicidade com a audiência, Soderbergh parece filmar com mais gosto dessa vez. A expressão é literal – o cineasta, como de costume, também se encarrega da direção de fotografia do filme. Há uma série de planos e movimentos de câmera exuberantes, que buscam colocar o espectador no centro da ação. E conseguem, especialmente nas cenas do terço final do filme, passadas durante a aplicação do golpe em si. Não se exige a manutenção do suspense; saber que, no fim, tudo vai dar certo para os caras (e que eles não chegam a correr risco em momento algum) é parte do pacto com o público.

Bom retorno à forma, ao recuperar o clima original que marcou o primeiro episódio. Pode ser, no entanto, que a série esteja chegando a um beco sem saída. Para manter o espírito bonachão e, digamos, desprendido dos bandidos de Ocean, o que mais eles podem armar? Roubar cassinos e doar o dinheiro para crianças necessitadas da África? (Aliás, o tema caridade rende algumas das melhores piadas do filme). Deixa pra lá. Contanto que Soderbergh & Clooney não se esqueçam de convencer o público a embarcar junto em suas armações, não interessa o ponto de chegada, e sim a diversão na viagem.

‘FIRST ISSUE’ + ‘METAL BOX’

Junho 18, 2007

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O PiL chegou na minha vida quase ao mesmo tempo que os Sex Pistols. Lembro que a finada RCA lançou (relançou?), em 1986 ou 87, o antológico Never mind the bollocks por aqui – e eu, garoto de 12 (ou 13) anos, com a cabeça cheia daquelas adoráveis bobagens que saiam na Bizz da época, corri para comprar, mesmo sem ter ouvido sequer uma música. Só que eu já conhecia o Public Image Ltd.: o clipe de “Public image” rodava em alguns dos poucos programas pré-MTV que tínhamos por aqui, como o Vibração. Antes mesmo disso, o vídeo de “Rise” (do Album) tinha merecido alguma rotação, também. Alguns meses depois do disco da capa amarela chegar ao Brasil, a mesma gravadora pôs nas lojas o primeiro álbum do PiL, com mais de oito anos de atraso. A idéia era capitalizar em cima da primeira e única passagem do grupo de John Lydon pelo Brasil, creio que em agosto de 1987. Acabei comprando o First issue um pouco mais tarde, depois de já ter o Album. Achei o vinilzão baratinho, num dos dois sebos em Niterói no quais passei boa parte de minha adolescência, em vez de estar caçando mulherzinhas.

Por mais que eu tenha apreciado os Pistols, achei o PiL de First issue mais legal. O primeiro choque foi a diferença entre a estréia e o Album, original de 1986. Compreensível: afinal, no disco que tinha “Rise” o PiL já não era mais uma banda, havia apenas John Lydon e uma porrada de músicos convidados (incluindo, vejam só, Steve Vai e Ginger Baker! Três acordes, my ass!). No primeiro álbum, tinhamos Lydon acompanhado de seu dream team particular, Keith Levene (guitarra) e Jah Wobble (baixo). O som límpido, “oitentista” do disco de 86, com seus timbres um tiquinho caído para o heavy metal (três acordes my ass!!), não se parecia nada com o drive maníaco do LP inaugural da banda. E pode-se dizer que eu, particularmente, ouvi First issue na “hora certa”, depois de já estar aplicado das estranhezas pós-punk/new wave: Talking Heads, Joy Division/New Order, The Fall, Echo, Mary Chain. Por isso, o disco de 78 acabou fazendo mais sentido que o disco de 86 (ainda que eu tenha pirado no design “genérico” do Album, tremenda sacada de anti-marketing).

Aliás, o conceito “anti” era fundamental no PiL. Os Pistols cantavam “no future”; com sua segunda banda, Lydon só estava interessado em cantar “no”. Esqueça o resto, até mesmo o futuro. Em seu primeiro álbum, o PiL proclamava a morte e a morte do punk: primeiro como gênero musical, depois como “movimento libertário” (sic). É legendário e bem documentado o desgosto de Lydon com os rumos que os Pistols tomaram, por fora manipulados por Malcolm MacLaren e por dentro atrapalhados por Sid Vicious (mau músico, desagregador e drogado). Johnny Rotten, contudo, não iria se sujeitar a aquele papel. Seu novo projeto contra-atacaria o circo punk com ironia e ousadia. Reconstruindo, de forma quase metalinguística, sua “imagem pública”, Lydon assumiu seu nome real e posou de cabelos penteados e terno na capa do disco de estréia. A fúria anarquista dos dias punk ainda estava lá, só que usando farpas afiadas em vez de tiros de canhão. Ataques abertos à igreja (“Religion”, em duas partes) e à farra midiática que envolvia o punk (“Public image”) eram ladeados com uma anticanção de amor (“Annalisa”) e um antihino à incompreensão juvenil (“Theme”). Os Pistols eram garotos brincando com noções perigosas, clamando pela atenção dos mais velhos; o PiL já era adulto, e não havia brincadeira naqueles temas.

Com o som, o buraco era muito, mais muito mais embaixo. Lydon era fã de reggae e world music, além de estar ligado em krautrock (Can, Neu!, Faust). Nada disso cabia no conciso assalto sonoro dos Sex Pistols. A porta de entrada de First issue, o single “Public image”, não era muito diferente dos Pistols (graças à produção de Bill Price, que tentou emular o som que extraiu em Never mind the bollocks). Aí você comprava o álbum e logo na abertura jazia “Theme”, nove minutos de um riff de baixo cavernosissímo, uma maçaroca de acordes de guitarra retorcidos – isso aí, retorcidos, e não só distorcidos – por baixo, e a voz de Lydon, indo e voltando, esgoelando-se em uma letra e uma melodia (?) que aparentemente não faziam sentido algum. Mas havia um sentido ali: o sentido da aventura, do experimentalismo, da vontade de escapar da ditadura punk, mesmo dentro das limitações técnicas do gênero musical. (Wobble, assim como Vicious, foi aprendendo a tocar baixo enquanto a banda progredia. Mas no seu caso, ele inventou um estilo único, obsessivo e minimal – apelidado, pelo crítico Alex Antunes, muito propriamente, de “o melhor mau baixista do mundo”.) Como no dub, a seção rítmica ganhava proeminência à frente das guitarras e vocais. O baterista Jim Walker providenciava uma caótica cama percussiva sustentando as mastodônticas notas emitidas por Wobble; Levene se recusava a tocar solos ou sequer riffs minimamente reconhecíveis, enquanto Lydon esganava-se, possesso, vociferando coisas como “I wish I could die” e outros versos menos inteligíveis. Expansão de idéias musicais através do (aparente) primarismo, da repetição mântrica e do groove disléxico, uma lição aprendida tanto com os patronos teutônicos quanto com os jamaicanos. Pronto: o punk estava morto, e “Theme” era sua marcha fúnebre.

Ao longo do álbum, o PiL retrocederia um pouco, focando mais a fúria, com resultados mais compactos e nem por isso menos acachapantes. “Religion” trazia Lydon recitando, envolto num riff de baixo ainda mais minimal que o de “Theme”, com Levene por baixo, sua guitarra soando incomodamente aguda. “Annalisa”, com sua bateria cavalar & baixo idem, praticamente inventou o que se chama de “estilo Steve Albini de mixagem”, aplicado não só em suas bandas (Big Black, Rapeman) como nas que produziu (ouça “Bone machine”, dos Pixies e “Radio friendly unit shifter”, do Nirvana). “Public image” e “Low life” retraçavam pegadas já pisadas pelos Pistols, mas de uma forma ligeiramente mais insana, desorientadora. O fechamento cabia a uma música, ou melhor, a uma faixa tão desafiadora quanto “Theme”. “Fodderstompf” era o som da descaralhação terminal, um groove (quase) dançante com vozes sem melodia, letra improvisada, uma batida reta e troncha, sete minutos e quarenta segundos de… do quê, mesmo? Indefinível. Se aquilo não era a personificação em vinil da signficativa passagem do punk ao pós-punk, nada mais o seria. Mas iconoclastia alguma poderia preparar os ouvintes para o que Lydon, Levene & Wobble estavam preparando para seu segundo álbum…

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Gosto de pensar que os discos que ouvi naquela época, entre 86 e 89, (de)formaram meu gosto musical de uma maneira particular. Acho que a pessoa que ouve álbuns como Fear of music, Psychocandy, Closer e Bend sinister quando deveria estar ouvindo (pela “ordem natural das coisas”) Legião Urbana, Kiss e AC/DC, acaba se acostumando com bandas “tortas”, estranhas, diferentes. First issue estava neste cânone particular; seu som furioso, desconcertante, soava “normal” para mim. Não foi assim com Metal box, o segundo disco do PiL. Pelo menos, não da primeira vez em que o ouvi. Anos depois de adiquirir meu First issue, soube que um camarada tinha arrumado um CD importado do Second edition, a versão “normal” do Metal box. (Era assim que funcionava antes do MP3; você lia sobre o disco e ficava suspirando anos a fio, até alguém trazer o lance “do estrangeiro”. E tem gente que diz que “a internet está matando o rock”…) Mais que depressa, corri e gravei o disco, instado por resenhas enaltecedoras que vinha lendo há muito tempo. Não vou tirar onda com vocês. Ouvi e não gostei. As músicas não pareciam ter começo, nem fim; os ritmos soavam dispersos, desamarrados; Lydon cantava mais fora do tom e da métrica do que nunca. “Que porra é essa?”, pensei? Acabei perdendo o cassete com o tempo e não me importei muito.

O pós-punk foi uma era de música aventureira e aventurosa, de bandas testando os limites e os formatos da canção, da melodia e da própria estrutura convencional das formações roqueiras. Como em toda prospecção de fronteiras artísticas, corria-se o risco de excessos. Sempre acho que, em arte, melhor pecar pelo excesso do que pela omissão. Mas há coisas feitas naquele período que, no meu entender, envelheceram mal. Sons como A Certain Ratio e Young Marble Giants, por exemplo, hoje me parecem vítimas de uma desproporção entre o conceito e o real conteúdo. Já outros cultuados, como o Pop Group ou o Père Ubu, soam caóticos e herméticos demais, sem uma abertura por onde o leigo possa ser cativado. (Já sei que vão dizer que essa era a intenção mesmo, etc. Mas pra mim isso não cola.) Por outro lado, há uma vasta lista de obras perenes feitas naquele período, que não apenas influenciaram uma pá de artistas posteriores mas que também conquistaram um lugar no meu coração. À primeira audição, o Metal box ficaria no grupo dos que envelheceram mal, enquanto o First issue estaria na segunda categoria. Em seu segundo trabalho, o PiL tinha ido longe demais pro meu gosto.

Fast-forward para 2006, em uma era já abençoada pelas benesses do file-sharing. Vasculhando pastas alheias no Soulseek, esbarro com o Metal box de novo, em versão 192kbps. Aí é aquela coisa, né? Tava ali dando mole, era só baixar, deixar no HD e um dia ouvir outra vez. Se gostasse botava num CDR pra ouvir no som da sala, se não gostasse, bastava apagar. Passei as músicas pro iPobre e fui ouvindo na ida pro trabalho, numa manhã ensolarada.

Mudara o disco ou mudei eu? O que não fizera o menor sentido para mim em 1995 soava, agora, como uma revelação. No disco de estréia, Lydon cantava (em “Theme”): “Leap in the dark, I will survive”. E foi isso que o PiL fez em Metal box: pulou no escuro, adentrando territórios até então inexplorados. O que eu tinha antes classificado como “fora do tom” e “disperso”, na verdade era o trio tateando pelo atonalismo, aplicando a estética do-it-yourself em idéias musicais antes restritas à vanguarda da vanguarda. As músicas “sem começo, nem fim” eram experimentações com um pé no improviso e outro num minimalismo levado às últimas conseqüências. A fúria espontânea que brotava de First issue era substituída por uma (falta de) dinâmica troncha, que desafiava os chavões de verso-refrão-ponte-refrão estabelecidos. E também por uma atitude mais fria, distanciada – ecoada do outro do Atlântico pelos Talking Heads em Fear of music, mas de uma forma um tiquinho mais acessível.

(A ponte entre Fear of music e Metal box já havia sido aventada por, mais uma vez, Alex Antunes em sua resenha do disco dos Heads, na Bizz, em 1986. Ele relacionava a capa deste último – em cartão com alto-relevo, imitando aquelas chapas de aço que forram o assoalho dos ônibus – com o invólucro de lata do disco do PiL. O parêntese aqui é para comentar mais sobre a embalagem original do Metal box, que, como todos devem saber, era uma lata de filme contendo os três EPs de 45 RPM nos quais o álbum se dividia. Olha aê, mais uma vez, a preocupação crucial de Lydon & Cia com a estética e, por tabela, com o marketing. Tratava-se de um som que não tinha paralelos no pop daqueles tempos e que merecia uma embalagem à altura. Confirmando que a banda não tinha a menor intenção de facilitar as coisas para o ouvinte, consta que era bem difícil arrancar os vinis da lata – os discos vinham justinhos, quase entalados no metal. Essa metafóra da dificuldade física espelhando a “dificuldade” da música já foi amplamente explorada pelos escribas que se aventuraram a descrever o álbum. Porém, é irresistível empregá-la mais uma vez. E também é irresistível lamentar por nunca ter tido a chance sequer de ver um exemplar da edição original. Depois de sair em uma versão “domesticada”, a Second edition, com capa normal e dois LPs de 33 1/3 RPM, o disco ganhou no ano passado um relançamento no formato de 1979. Essa reedição, do selo ianque 4 Men with Beards, pode ser adiqurida via Ebay pela bagatela de US$ 35.99. Quem sabe agora, com o dólar em baixa…)

Retomando de antes do parêntese: “minimal” é a noção-chave para definir Metal box. É interessante notar que, naquela época, o grupo quase não ensaiava e as sessões de estúdio eram caóticas e marcadas pelo improviso. As gravações conseguiram captar de modo admirável o clima caótico em que o PiL conduzia sua carreira. Num exercício inédito de reducionismo, Lydon, Wobble & Levene (mais uma brigada de bateristas convidados) dissiparam seu som até chegar aos átomos fundamentais. Não há elemento algum – melodia, riff, refrão, levada – remotamente cativante ou reconhecível (à exceção do baixo, que martela de forma tão incessante que é impossível de ser ignorado). Ao menos no sentido convencional de “cativante” ou “reconhecível”. O mistério é como o trio conseguiu construir um “todo” tão avassalador a partir de algo tão próximo do “nada”. É tudo incrivelmente compacto e ao mesmo tempo tão disperso. Sabe-se que os ingredientes da mistura estão lá (punk rock, dub, kraut, etc.). Mas eles não se deixam apreender. O PiL pegou essas tão decantadas influências, desmontou-as e fez algo novo. E saiu-se com um set de canções, ou mais propriamente, temas, que se recusava a aceitar rótulos e exigia do ouvinte concentração e capacidade de abstração.

Se não fosse assim, como não se deixar abater logo na faixa de abertura, “Albatross”? Dez minutos e-lá-vai-fumaça de uma batida reta e incessante – pseudodisco, anyone? Lydon menos canta do que murmura, funereamente, algo sobre livrar-se de um albatroz. A guitarra espeta os tímpanos. Não há virada na dinâmica: tão monótona quanto começou, a música acaba. É hora do PiL inventar o disco-punk na faixa seguinte, “Memories”, lançando sementes que germinariam tanto em São Paulo, em meados da década de 80, quanto em Nova York, no começo do terceiro milênio. No lugar de um refrão, Lydon lança a primeira parte de seu anti-grito de guerra (“I could be wrong”, que seria completado com o “I could be right” anos depois, em “Rise”). Na seqüência, a bizarra blasfêmia aplicada a Tchaikovsky: a infãmia de “Swan lake”, na qual o “Quebra-nozes” luta para respirar (incorporado na guitarra de Levene), sufocado entre o canto esganiçado, uma linha de baixo funkeada e memorável e espasmos de sintetizadores. Os mesmos synths fantasmagóricos pontuam em “Careering”; efeitos de echo e flanger encharcam a mixagem de “Socialist”, “The suit” e “Graveyard”, emprestando às faixas um tom lúgubre não muito distante do conseguido pelo Joy Division em Unknown pleasures. A altamente irônica “Poptones” era tudo menos pop, apesar de uma melodia mais coerente e outra linha de baixo das mais marcantes.

O paroxismo da obsessão chegava quase no final, com “Chant”, com vocais dobrados de Lydon sugerindo um sinistro mantra – enquanto a bateria sofria um ataque apoplético e Levene seguia espetando. Como recompensa para quem sobreviveu incólume, o trio lança mão do momento mais melódico de sua carreira para fechar o álbum, em seguida. O suave (!?) instrumental “Radio 4″, baseado em plangentes sintetizadores analógicos, soa tão surpreendente quanto “Fodderstompf” no final do disco de estréia, porém num caminho 100% diferente. Não deixa de soar um tiquinho sinistro, o que impede que a faixa pareça deslocada do conjunto final. E também prenunciava o caminho que o grupo seguiria. Com a saída de Wobble pouco tempo depois de Metal box, Levene passaria a se dedicar mais aos teclados do que à guitarra. O caldo entornaria de vez no disco seguinte, Flowers of romance. Sem a espinha dorsal providenciada por Wobble, o PiL derivaria para uma mistureba a meio caminho entre a vanguarda pura (com direito a colagem de tapes e aproximações com a música concreta) e a pura embromação. Mais um salto no escuro, só que desta vez a banda não sobreviveu. Quer dizer, sobreviver sobreviveu, mas desfigurada, cada vez mais longe de suas premissas originais.

Ouvidos hoje, juntos, os dois primeiros discos do PiL não soam, necessariamente, complementares. Nem mesmo parecem obras de uma progressão lógica. São, antes de tudo, retrato de uma época interessantíssima para a música pop. Uma era em que gravadoras permitiam-se o luxo de gastar dinheiro com música desafiadora e desconcertante. E eram recompensadas por isso: ambos os álbuns foram bem nas paradas britânicas e européias e até “Death disco”, a versão 12 polegadas de “Swan lake”, emplacou em 20º na parada inglesa de singles. A visceralidade de First issue é a prova de que a energia punk poderia ser empregada de forma mais aguda e focada, para além das calças rasgadas e dos alfinetes na bochecha. E a indefinível musicalidade de Metal box resgata o sentido original do termo “experimental”, que nos dias atuais é tão banalizado. Paradoxo em forma de disco: abrasivo e indiferente, atacando o público ao mesmo tempo em que desdenhava dele. E interessado em apresentar ao ouvinte um novo rock. Ou, quem sabe, uma nova música, ponto final.

O FIM DO CD – RELOADED

Junho 16, 2007

Textinho antigo, de 2002. Até onde me lembro, inédito. Achei curioso resgatá-lo agora, num momento em que tanto se fala em morte do CD, etc. Apocalíptico, eu? Prometo escrever um ensaio mais alentado sobre os futuros rumos da indústria fonográfica, para fechar a tampa da série de reportagens sobre a crise da mesma que venho (re)publicando aqui.

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Faça comigo, simpático leitor, doce leitora, um exercício de memória. Quanto tempo levou entre a primeira vez em que você ouviu falar em videocassete e o momento em que você afinal adquiriu um aparelho? Mais: quanto tempo levou entre a compra de seu primeiro VCR e o momento em que você o aposentou, trocando-o por um DVD? Continue a escarafunchar seus neurônios. Quando foi que você leu/viu/ouviu falar de um certo aparelho que tocava disquinhos prateados ridiculamente pequenos e prometia um som “perfeito”, com “a pureza do raio laser”? Quanto tempo se passou até que você pôde afinal comprar um? E em qual momento você começou a jogá-lo para escanteio, substituído por intangíveis arquivos MP3 tocados em aparelhos portáteis ou home-theaters?

A descartabilidade dos formatos e tecnologia de mídia está cada vez mais acelerada, numa correria desesperada rumo, óbvio, ao lucro. Vamos comparar com o passado. É claro que ninguém aqui (nem eu) tem idade para se lembrar da época em que a televisão surgiu, em 1950. Mas sei que no começo era uma coisa cara e complicada, da qual, dizia-se, “nunca vai tomar o lugar do rádio”. Da chegada da TV aos primeiros lares, à sua popularização total e irrestrita, demorou anos, décadas. E apesar de já se falar há um bom par de anos na “próxima geração” da TV – plasma, telas enormes e planas, transmissão digital – há de se admitir: ainda vai demorar um bocado para que essas inovações estejam realmente ao alcance do povão.

Compare agora esse padrão com a ascensão e a queda do VCR, e mais dramaticamente, com a do CD. O videocassete surgiu no começo dos anos 80 como fetiche de endinheirados e avançou pelos anos para dentro dos lares menos abonados – derrotando o videolaser no meio do caminho. Chega ao século XXI reduzido a uma velharia, pela onipresença do DVD (já se fabricam mais DVDs do que fitas VHS no Brasil). Mas acho que o tombo do CD foi ainda pior. Brinquedinho caro em meados dos anos 80, o CD-player varreu as vitrolas e os bolachões de vinil prometendo “som perfeito… para sempre”. O formato ainda ganhou uma sobrevida para além do mercado fonográfico com o advento da multimídia nos PCs, servindo para armazenar, além de música, fotos, programas, jogos, vídeos… E agora? Agora o CD está morto. A pirataria grassa e massacra os lucros das gravadoras e empresas de software, que cada vez mais consideram a hipótese de usar o DVD como mídia preferencial. HDs entupidos de música em MP3, conseguida de graça na Internet, e ouvida em sistemas de som cada vez mais potentes e cristalinos, tornam o ato de comprar um CD um anacronismo. Até nos automóveis: som de carro que se preze hoje em dia TEM de tocar CDRs com MP3.

Toda essa movimentação é orquestrada pela própria indústria, visando o objetivo usual: $$$. Há uma verdade incontestável em toda e qualquer troca de padrão tecnológico: um formato de mídia só é descartado pela indústria quando não tem mais potencial de lucro. O procedimento é o seguinte: ao passo que o formato vai se desenvolvendo, os fabricantes forçam a barra para baixar os preços tanto quanto possível, para popularizar geral. Quando praticamente todo mundo já tiver aderido, eles imediatamente decretam a tecnologia “obsoleta” e apresentam a última novidade. Oferecida, a princípio, a preços altos, que vão caindo enquanto o formato se desenvolve, até todo mundo poder comprar… e etc. Esse tipo de paradigma instalou-se a partir da chegada do CD, e da campanha maciça que se fez para popularizá-lo. E a voracidade com que a indústria consumiu o CD também foi exemplar. O LP em 33 rotações demorou mais de 40 anos para ser decretado obsoleto. O CD apareceu em 1981 e já no fim dos anos 90 estava extinto – a partir do momento em que gravadores de CD-R viraram mania e que CDs virgens passaram a ser vendidos (a menos de R$ 1 a unidade) em camelôs. Esse era o sinal de que a indústria estava pouco se lixando para o destino do CD como mídia viável. A pirataria, contra a qual gravadoras, fábricas de discos e empresas de informática tanto se batem, saiu de controle com total anuência desses setores do empresariado. Eu me lembro da primeira vez em que ouvi falar numa estranha máquina lançada no Japão, que – gasp! – fazia CDs em casa! Soava como bruxaria. Hoje em dia, quem não tem um queimador de CD-R no PC que atire a primeira pedra.

Todos os sinais apontam o DVD como a bola da vez. As grandes softwarehouses já fabricam seus videogames (cada vez mais cheios de recursos e extras) em DVD. As lojas brasileiras já começam a receber os primeiros audio-DVDs, para ouvir no home theater com som surround. E os DVD-players começam a agregar uma série de sacanagenzinhas (a possibilidade de ouvir MP3 e ver VCDs, tudo queimado no computador caseiro). Tudo isso rumo à “pedra filosofal” da indústria da mídia: o hipotético “formato definitivo”, que use apenas um tipo de mídia e um único aparelho para tudo (música/filmes/imagens/jogos/interatividade/textos). Que bem pode ser o DVD. Mas peraí, já não falavam isso do CD? Quanto tempo vai demorar para que a sanha por lucros derrube também o primo mais novo do compact disc? Já surgiram os primeiros queimadores caseiros de DVD, que ainda estão a preços abusivos. Mas já tem DVD virgem no camelô, ao lado dos CDs a R$ 0,90… E recomeça a reinvenção da roda. Que, no caso, é prateadinha, com 12 cm de diâmetro e um furinho no meio.

DOSSIÊ – CRISE DA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA (PARTE III):

Junho 14, 2007

Eis a última parte da série de matérias que fiz nos últimos meses sobre os rumos da indústria fonográfica. São as coberturas de dois seminários realizados aqui no Rio, nos quais se falou sobre vários aspectos da crise que está tirando o sono de artistas, produtores e (principalmente) gravadoras. Como bonus track, incluí também uma reportagem mais antiga, sobre o fechamento da Abril Music – um prenúncio dos dias negros que instalar-se-iam sobre o mercado. O curioso é que, por trás do fim da Abril estava Marcos Maynard, o mesmo executivo que saiu corrido da EMI no ano passado acusado de aplicar “contabilidade criativa” aos balanços da filial brasileira da gravadora britânica… A história, também no mercado fonográfico, só se repete como farsa.

Leia a primeira parte do dossiê clicando aqui:

e a segunda, aqui.

Crises e oportunidades no mercado da música
Jornal Musical, 10/11/2006

A ironia no nome do seminário O processo da música, realizado ontem (dia 9) pela Fundação Getúlio Vargas, pode ter passado despercebida para alguns. A idéia era reunir artistas, juristas e gente da mídia para discutir, afinal, como e onde devem se posicionar compositores, gravadoras e ouvintes dentro do furacão que perpassa o mercado fonográfico atualmente – que lida com pirataria rampante, a “ameaça” dos downloads ilegais, o esgotamento de um modelo de negócios que já vem desde os anos 60 e novas propostas para a arrecadação de direitos autorais. Ao final do dia, sobressaíram algumas declarações impactantes, algumas soluções alternativas e muitas dúvidas.

Os artistas ouvidos – Marcelo Camelo (Los Hermanos), BNegão e Lucas Santanna (na foto, falando ao microfone) – demonstraram completa falta de fé no esquema “rédea curta” imposto pelas grandes gravadoras. Os anfitriões da GV, advogados membros do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação, expuseram as mudanças que os novos tempos tecnológicos impõem sobre a música (e a resistência das corporações a se adequar a essas mudanças). E os juristas e especialistas em propriedade intelectual concluiram que as leis relativas ao setor também estão em descompasso com as práticas da sociedade contemporânea.

Mas uma outra questão ainda encasquetava a coordenação do evento: debater a validade das ações cíveis movidas no Brasil contra 20 internautas que fizeram download de músicas usando programas peer-to-peer (como Kazaa, eMule e outros). E daí o porquê do nome – quando a ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Disco) convocou a imprensa para anunciar os processos, no dia 17 de outubro (leia mais aqui), nenhum dos setores que participaram do seminário na FGV foi convidado. Nem sequer um representante do Ministério Público.

“Fomos barrados no evento da ABPD. Em contrapartida, convidamos o Paulo Rosa (diretor da Associação) e o Fernando Brant (presidente da União Brasileira de Compositores) para conversar conosco, mas eles avisaram que não poderiam vir… Coincidentemente, eles tinham compromissos agendados no mesmo horário…” lamentou o advogado Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade e um dos representantes do Creative Commons (www.creativecommons.org.br) no debate.

Músicos adotam o ‘faça-você-mesmo’

Os artistas que participaram do seminário são de estilos distintos e ocupam posições variadas no mercado. Mas todos concordam em um ponto: as gravadoras tradicionais já não atendem mais às suas necessidades. Quanto às do público, nisso nem se fala. Mais bem-sucedido comercialmente dos falantes no seminário, Marcelo Camelo (na foto ao lado) usou sua trajetória para exemplificar a necessidade de mudança do modelo vigente. “O primeiro disco dos Los Hermanos vendeu mais de 300 mil cópias, em 1999. Hoje, com a banda muito mais estabelecida, mais conhecida e com uma base de fãs maior, não passamos dos 40 mil. A pirataria tem seu papel nisso, mas o fato é que o CD não representa mais para o povo o que representava há cinco, dez anos”, considera o compositor de “Anna Júlia”.

Falando na primeira das mesas redondas do dia (sob o tema “Cenários da música em vista das novas mídias”), o baiano Lucas Santanna se colocou como exemplo vivo das tais “novas mídias”. “Comecei em uma gravadora tradicional (a Natasha), depois abri meu próprio selo (Diginóis). Entretanto, só mesmo quando inaugurei meu website (www.diginois.com.br) e pus as músicas de meu terceiro álbum, 3 sessions in a greenhouse, para download gratuito no site, é que meu contato com o público ficou mais instigante – porque passou a ser mais direto”. A quem acha um contrasenso o artista “dar de graça” a música que lhe custou tempo e dinheiro para gravar e produzir, Lucas responde: “3 sessions… está vendendo muito mais rápido que meus outros discos. Em cinco meses, já ultrapassou as 1.500 cópias vendidas, algo que credito à divulgação e à interação com o público através da internet”.

BNegão é outro caso de sucesso – internacional, até – que deve tudo à grande rede mundial. Dois meses depois de lançar Enxugando gelo (2004), seu primeiro disco solo, o rapper aderiu ao esquema copyleft de direitos autorais, liberando suas músicas para quem quiser pegá-las. Desde que não haja fins lucrativos na jogada. “Se o cara baixar o disco todo, gravar mil CDs com as músicas e der para quem ele quiser, tá valendo. Se ele quiser vender um, aí não pode”, narra BNegão. A difusão das canções de Enxugando gelo mundo afora, via internet, levou o cantor e sua banda (Os Seletores de Freqüência) a se apresentarem em vários festivais na Europa – onde, como conta o próprio BNegão (na foto ao lado), “ficamos surpresos ao ver que todo mundo conhecia as músicas. Somos maiores no exterior do que no Brasil”.

Mudança na lei e não à repressão

A flexibilização dos direitos autorais também esteve em pauta no encontro na FGV. Para Carlos Affonso, do Centro de Tecnologia e Sociedade, os tempos mudaram e a legislação ficou para trás. “A lei nº 9.610/98, que rege o direito autoral no Brasil, é estrita demais e se baseia apenas em negativas – ‘não pode isso’, ‘não pode aquilo’… Isso funcionava na época em que as gravadoras centralizavam o poder de produção e distribuição de música. Isso tudo mudou. O público quer acesso amplo e interatividade no conteúdo que recebe, e a legislação não prevê nada disso”. Dênis Borges Barbosa, advogado especialista em propriedade intelectual e membro da Ordem Brasileira dos Músicos, que palestrou sob o tema “Ações judiciais contra usuários de redes P2P”, concordou. “As leis devem proteger o interesse maior do público e devem levar em conta os avanços tecnológicos. Os artistas estão se adaptando aos novos tempos e os ouvintes também. Quem está tendo problemas – e prefere apelar à lei – são os intermediários, ou seja, as gravadoras”.

O patrulhamento sobre as pessoas que baixam músicas da internet foi repudiado por todos os participantes. “A repressão é um equívoco. Não se deve pular na jugular do consumidor, e sim esclarecer a situação a ele”, disse André Barcellos, secretário-executivo do Conselho Nacional de Combate à Pirataria. “Baixar música e roubar música são coisas diferentes”, afirmou Sérgio Branco, da FGV. “As pessoas baixam MP3 por vários motivos, entre os quais está a cópia única da música para uso pessoal, sem qualquer fim lucrativo. Mas a legislação não permite. Em vários países isso é permitido, mas no Brasil não. Aqui, não é a sociedade que está à margem da lei – e sim o contrário”. O desembargador André Fontes, do Tribunal Regional Federal do Rio de Janeiro, foi ainda mais categórico. “Sou contra botar a polícia para apreender computador na casa dos outros. As gravadoras satanizam os internautas que baixam música; desde o começo dos tempos, tudo o que é diferente, inovador, é combatido por quem está no poder. Mas vai haver polícia para prender todo mundo? Não vai. E o filho do juiz federal, que também baixa suas musiquinhas? A polícia vai à casa dele, pegar seu computador? Isso não vai acontecer”.

Alguns dos petardos ditos no seminário:

“Temos hoje uma relação inócua com nossa gravadora. Elas nos tomam muito dinheiro – uns 80% de cada CD vendido – e não nos dão nada em troca. Essas ações judiciais contra quem baixa MP3 são ações de gente desesperada, de um negócio que está minguando” (Marcelo Camelo)

“Praticamente todos os departamentos das gravadoras foram fechados, menos o de marketing. Elas (as gravadoras) gostam mais de dinheiro do que de música e o errado é o cara que compra disco pirata?” (BNegão)

“Falam que pirataria é crime organizado. Ora, jabá também é crime. E é organizado!” (BNegão)

“No futuro, lançar um CD será uma opção estética de cada artista, para reunir um conjunto de canções que tenham uma afinidade. Mas o CD não será mais o formato padrão para as gravadoras” (Alexandre Matias, da gravadora Trama)

“O combate à pirataria também precisa de apoio do setor fonográfico. A repressão está indo bem, mas as gravadoras precisam conter a demanda do público pelo CD pirata – criando, por exemplo, linhas de lançamentos com preços mais baixos, destinados aos ouvintes de menor poder aquisitivo” (André Barcellos)

“Hoje em dia a música não é mais um bem – o direito sobre a música vale mais que a própria música. Isso é uma patologia” (Desembargador André Fontes)

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Crise do mercado do disco em debate no Música Chappa Quente
Jornal Musical, 05/04/2007

O casamento entre o mercado fonográfico e o público está em crise. E como em toda crise conjugal, a melhor saída é juntar as duas partes para discutir a relação. Em meio à avalanche de debates, palestras, mesas-redondas e seminários promovidos recentemente para discutir o atual momento da indústria do disco, a série de debates Música Chappa Quente foi um dos mais bem sucedidos – por ter reunido, de forma surpreendente, agentes da indústria com pontos de vista radicalmente antagônicos. E em nenhum momento do evento essa convergência ficou tão clara quanto no debate de encerramento da série, ocorrido ontem no campus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Sob o pretexto de discutir quais são as perspectivas no campo do direito autoral na música – um campo que hoje está literalmente minado pelo avanço dos meios de reprodução digital – reuniram-se um representante da indústria (Paulo Rosa, diretor geral da Associação Brasileira dos Produtores de Disco) e um porta-voz do Creative Commons (Carlos Affonso, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas). Duas entidades que, até bem pouco tempo, não podiam nem ouvir falar uma na outra.

Para Bruno Maia, editor do blog Sobremusica (http://smusica.blogspot.com) e um dos organizadores do Música Chappa Quente, nesse tipo de encontro é que residiu a importância do evento. “Não adianta olhar o ‘outro’ como inimigo. Reunir idéias divergentes é difícil, mas o mínimo que podemos fazer é conseguir que as pessoas se encontrem. Quando se cria um ambiente para que a informação circule, as discussões são muito mais proveitosas”, afirma. Realizado em quatro faculdades cariocas ao longo do mês de março, o Música Chappa Quente reuniu produtores, jornalistas, representantes de selos grandes e pequenos, músicos e gente das mais diferentes mídias para discutir temas como as novas formas de marketing na indústria musical, a importância da internet na divulgação de artistas novos e o estado do atual mercado independente. Um pouquinho do que rolou pode ser ser acessado no site da Chappa (que se autodenomina “uma rede de empresas criativas trabalhando pelo desenvolvimento sustentável da nova indústria da música”). Em www.chappa.com.br, encontram-se vídeos e podcasts com a íntegra dos oito debates promovidos pelo evento, que atraiu um público de cerca de 800 pessoas. “Queremos levar o Chappa Quente para outras cidades do Brasil, ainda este ano”, diz Bruno, anunciando que São Paulo deve ser a próxima parada.

Não havia dúvida que a chapa estaria mais quente no último debate, que partiu da questão do direito autoral e virou uma ampla discussão sobre os descaminhos da indústria fonográfica. A expectativa era grande pelo encontro entre os representantes da ABPD (www.abpd.org.br) e do Creative Commons (www.creativecommons.org.br). Em outubro do ano passado, a ABPD impediu que qualquer porta-voz do CC comparecesse à coletiva de imprensa que anunciou a abertura dos primeiros processos civis no Brasil contra pessoas físicas que compartilham músicas pela internet. O Creative Commons “contra-atacou” promovendo o evento O Processo da Música, que trouxe à baila a necessidade de a indústria entender as mudanças no comportamento do consumidor de música diante dos novos meios digitais. Convidada a enviar um representante ao evento, a ABPD não compareceu. Na mesa de debates de ontem – completada por Felipe Llerena, diretor do site IMúsica (www.imusica.com.br), e pelos jornalistas Bruno Natal e Antonio Carlos Miguel – Paulo Rosa e Carlos Affonso se esforçaram para demonstrar que não há animosidade entre os defensores do status quo da indústria e os partidários do Creative Commons. “Não existe tensão entre a ABPD e o CC”, disse Rosa. “O Creative Commons é apenas uma das várias soluções na busca por um novo modelo de direito autoral que se adeque ao desafio do digital”, contemporizou, por sua vez, Affonso.

De direito autoral mesmo falou-se relativamente pouco. Encontrar as saídas para o buraco onde as gravadoras estão, isso sim dominou as preocupações. “As gravadoras parecem ainda não ter entendido o que aconteceu, e como aconteceu tão de repente, tão rápido”, disse Felipe Llerena. Antonio Carlos Miguel contou uma história que exemplifica a falta de noção dos grandes selos frente à nova realidade: “Há uns cinco anos, fui convidado pelo diretor de uma grande gravadora. Ele me mostrou algo que, a seu ver, iria salvar as vendas da indústria: o DVD-áudio, que era uma novidade na época. Só que ele não percebeu que a garotada, os adolescentes – que sempre formaram a base do mercado comprador de discos – já não estavam mais se importando com a qualidade sonora. Eles queriam era baixar música, mesmo com uma qualidade mais baixa”. Paulo Rosa afirmou que a internet “entortou a cabeça das companhias”. “Lembro quando surgiu o Napster, em 1998, que possibilitava a todo mundo baixar música de graça. Aquilo causou um pânico geral. O resultado é que hoje, nas grandes gravadoras multinacionais, os advogados é quem tomam as decisões, à frente do departamento artístico”, contou.

As perspectivas para o futuro foram contextualizadas, levando em conta a inevitável migração para a venda de música online – ainda incipiente no Brasil. “Por aqui o hábito de compra de música pela internet ficou retardado, pela falta mesmo de potenciais usuários, gente que navegue na rede, saiba usar o computador”, afirmou Llerena, cujo site é pioneiro na venda de música digital no Brasil. “O comprador tem de entender que comprar é melhor do que baixar de graça, pois ao comprar ele não está adquirindo só aquele arquivo em MP3 – está comprando uma licença de uso daquela faixa, para toda a vida. Se o computador dele der pau e perder todas as músicas que estavam arquivadas, ele vai poder voltar na loja online e pegar um novo arquivo”. Paulo Rosa disse que as grandes gravadoras já acordaram para a noção de que o futuro é a internet. “Estamos testando vários formatos. Tem sites que dão a música de graça, em troca de exibir publicidade para o cara que está ouvindo. Há também a idéia da assinatura, com um pagamento fixo por mês e um acervo sem limite à disposição do usuário”. Para o diretor da ABPD, quanto mais gente aderir ao download legalizado, mais baixo será o preço a pagar pelas músicas. Hoje, o preço médio por faixa adquirida gira em torno de R$ 2,00. “O preço vai cair à medida em que o mercado cresce. É economia de escala”, confirmou Rosa.

Mas o eterno cabo-de-guerra que contrapõe a geração MP3 (que está acostumada a não pagar por música) a intérpretes e compositores (que têm no direito autoral fonte fundamental de renda) também rendeu assunto. “Só se fala em direito autoral na mídia de forma negativa: processos, pirataria, indenizações. É preciso que as pessoas entendam que o Creative Commons está aí para ajudar a tirar essas proibições todas, esses aspectos negativos”, disse Carlos Affonso. Para o advogado e professor, o conceito do CC ainda é mal-interpretado por muita gente. “Não somos contra a propriedade, nem queremos tirar os direitos de ninguém. Quando o artista licencia alguma obra sua através do Creative Commons, ele tem direito de escolher exatamente o que pode e o que não pode ser feito com seu trabalho. E ele pode dissolver o contrato de licença com o CC a qualquer momento, se aparecer alguma proposta mais interessante”.

Apesar das argumentações de Affonso, para Paulo Rosa não parece haver perspectiva de que corporações dominantes na indústria afrouxem a repressão sobre quem baixa música sem pagar. “Não foi com satisfação que anunciei os processos contra os brasileiros que compartilham música. E espero que a ABPD não precise seguir o passos da RIAA (Recording Industry Association of America, o equivalente norte-americano da ABPD), que está mandando oficiais de justiça às universidades nos EUA para processar quem baixa MP3. Mas quando você percebe que tem gente com oito, dez mil músicas em seus computadores, pondo tudo aquilo de graça para quem quiser pegar, é claro que há alguma coisa errada nisso aí”. O debate continua.

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Mercado fonográfico na encruzilhada em 2003
Cliquemusic, 06/02/2003

Quem pensava que 2002 tinha sido o ano do fundo do poço para o mercado fonográfico pode refazer as contas e se preparar para um 2003 ainda mais sombrio. A puxar o bonde das más notícias para o ano, está a gravadora Abril Music, que anunciou ontem (dia 5) o fim de suas atividades. Os motivos alegados pela direção do selo para fechar as portas foram a dura concorrência com as gravadoras multinacionais e a escalada da pirataria de CDs. O fim da Abril Music representa mais um mau prognóstico para o mercado brasileiro de discos, que – de forma paradoxal – faturou mais em 2002 do que em 2003, mas viu o número de CDs vendidos cair e muito.

Dona de um cast totalmente brasileiro, com 48 nomes, a Abril detinha o passe de artistas de alto conceito como Rita Lee, Gal Costa, Marina Lima, Los Hermanos, Erasmo Carlos e Titãs; além de atrações de alto potencial de popularidade, como Frank Aguiar, Maurício Manieri, CPM 22, Twister, Capital Inicial (que vendeu cerca de dois milhões de cópias de seu Acústico MTV desde 2000) e Bruno & Marrone. Em comunicado oficial à imprensa, Giancarlo Civita – vice-presidente superintendente da Unidade de Negócios Jovem da editora Abril e responsável pela gravadora – explicou a decisão de fechar o selo: “Em 4 anos de operação, a Abril Music conseguiu ótimos resultados e vitórias importantes. Esse mercado, entretanto, é dominado pelas multinacionais e extremamente competitivo e, para complicar a situação, a pirataria na indústria fonográfica já ultrapassa 50%. Para continuar concorrendo, teríamos de injetar um capital significativo, a curto prazo – o que não temos condições de fazer nesse momento.”

Ainda segundo a adminstração da gravadora, os contratos da Abril serão negociado com outros selos. Desde o ano passado pipocavam rumores de que a Abril seria vendida para uma gravadora multinacional – mais especificamente, a BMG -, sempre negados por ambos os selos. Entretanto, tais rumores já tinham sido suficientes para causar o afastamento gradual de nomes como Rita Lee e Marina Lima (que adiou a gravação de seu Acústico MTV por conta da indefinição de rumos da Abril). A gravadora, entretanto, informa que os contratos ainda estão valendo e que ninguém foi dispensado ainda. A maior parte dos cerca de 60 funcionários da Abril Music deverá ser demitida. Mesmo com o fechamento da gravadora, o selo Abril ainda será mantido pelo Grupo Abril, para uma eventual retomada das atividades no futuro.

Em 2002, a Abril abocanhou 4,7% das vendas de CDs no Brasil, ficando em sétimo lugar no ranking das maiores gravadoras – atrás da Universal (21,8%), Sony Music (16,3%), Warner (14,8%), BMG (14,8%), Som Livre (14,6%) e EMI (12,1%). Essa fatia de uma movimentação de mais de um bilhão de reais (R$ 1.042.300.000, mais exatamente) não foi o suficiente para manter a gravadora. Os números do business fonográfico são curiosamente contraditórios. Apesar do faturamento com a venda de CDs ter aumentado em relação a 2001 – uma subida de 4,4%, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos -, a quantidade de discos vendidos vem caindo ano a ano. Os 105 milhões de CDs comercializados em 1998 cairam para menos de 80 milhões em 2002. No mesmo período, a participação das vendas de CD no faturamento geral do comércio cairam de 0,85% para meros 0,07%. Na Grande São Paulo, maior centro comercial do país, a queda de faturamento com vendas de CDs foi de 39% de 2001 para 2002. Nem o Natal conseguiu dar alento aos vendedores de discos.

A pirataria é vista como a grande vilã desse cenário. Apenas a China supera o Brasil em números absolutos de CDs piratas; calcula-se que pelo menos 40 milhões de discos falsificados tenham sido vendidos no ano passado, perfazendo nada menos que metade do mercado oficial. Desde 1997, a pirataria aumentou mais de espantosos 1300%, partindo dos magros três milhões de CDs piratas vendidos naquele ano. Tudo isso, claro, são dados estimados, já que o combate e o mapeamento da ação dos fabricantes de CDs piratas ainda engatinha. A febre de downloads de música no formato MP3 via Internet também tem seu papel nessa decadência, ainda que bem menor que a importância da pirataria física. Mais grave é a crise econômica que assola o país há anos e que encolhe o poder aquisitivo do comprador.

Segundo alguns diretores de gravadoras, a busca de um formato que substitua tanto o CD quanto o MP3 pode ser a solução. “Tem de surgir um novo modelo. Até porque precisamos combater tanto a pirataria digital quanto a física”, afirmou Marcelo Castello Branco, presidente da Universal Music. João Augusto, presidente da DeckDisc, pensa algo parecido. “O CD vai acabar, assim como o LP e a fita cassete. Nos EUA e no Japão, onde as conexões de alta velocidade à Internet estão se popularizando cada vez mais, a queda na venda de CDs está cada vez maior porque as pessoas estão se interessando muito mais pelo MP3″, disse Augusto. Nessa encruzilhada sem soluções fáceis é que a Abril Music acabou pedindo o boné.

DA SÍNDROME DE MISOGINIA INVOLUNTÁRIA.

Junho 13, 2007

Dentro de minha modesta produção, este é um dos escritos que mais gosto. Após anos de observação atenta dos complexos rituais de acasalamento da espécie humana, em 2002 escrevi a pequena peça que se segue. Não lembro se já foi publicado em algum lugar, de repente está por aí a vagar pela internet – quem souber, por favor assinale nos comentários.

A história que relatarei a seguir é verídica.

Lá pelos idos de 1992, nos meus loucos anos de faculdade, conheci um cara que até hoje é um dos meus melhores amigos. (Vamos por isso preservar sua identidade; digamos que ele se chame… Jake Barnes). Esse rapaz era estudante de cinema, um sujeito boa-praça, inteligente, tímido e sensível. E, claro, um tanto inexperiente no trato com o sexo oposto. Ele travou contato com uma colega de sala (vamos chamá-la… Lady Brett) e não demorou muito para que os interesses em comum entre os dois gerassem uma singela amizade. Ou algo mais. Papo vai, papo vem, conversa daqui, conversa dali, Jake resolve – em uma festa, já devidamente aditivado alcoolicamente – abrir seu coração para Brett. Não foi a primeira vez, nem será a última, que ouviu-se numa pista de dança as clássicas palavras: “Não, que isso, você tá confundindo as coisas…” A rejeição pegou o rapaz desprevinido. Em sua cabeça, ele não tinha confundido pitomba alguma. Como poderia? A garota era carinhosa com ele, gostava de falar sobre as mesmas coisas, eles tinham opiniões e gostos parecidos, passavam muito tempo juntos no campus… É claro que ela só poderia estar correspondendo ao visível interesse afetivo dele.

Mas não estava. E assim, amigos e amigas, instala-se no coração de mais um incauto a SMI – Sindrome da Misoginia Involuntária.

Misoginia, como vocês sabem (ou não, sei lá), é o termo que define a aversão e /ou desprezo masculino pelas mulheres – não confundam como viadagem, por favor! É uma patologia, um distúrbio mental no qual o camarada, mesmo mantendo sua sexualidade, não consegue controlar seu ódio ao sexo oposto. Cogita-se, por exemplo, que Jack, o Estripador tenha sido um misógino radical.

Mas há uma forma muito mais branda, porém não menos nociva, da misoginia. É a SMI, que geralmente ataca rapazes tímidos e sensíveis e se manifesta depois de decepções amorosas. Não qualquer decepção, claro; tem de ser traumática, humilhante, daquelas que escorcham com a auto-estima do cidadão. O requinte final, que enraiza a SMI mais fundo na alma, são os discursos femininos do tipo “Ah, Fulano é como se fosse meu irmãozinho…”, “Eu gosto de você, mas não ‘desse’ jeito…” e o clássico “Mas a gente é só amigo…”. Destroçado qual um personagem de letra de bolero, o rapaz sente um desejo atávico de mandar à merda tudo quanto é mulher que cruzar seu caminho.

Dois componentes têm de ser analisados nesse processo. Um: o acometido pela SMI não chega, efetivamente, a odiar a mulherada. Uma feijoada de sentimentos contraditórios – tristeza, ressentimento, frustração e dor-de-cotovelo – é o que cria essa aversão ao sexo oposto. Mas é só na superfície. Por dentro, o coitado ainda abriga todo o amor do mundo… só não tem quem o receba. É como o suicida, que se mata não por odiar a vida, mas sim por não conseguir viver a vida do jeito que queria. Dois: que ninguém fique pensando que a mulherada se comporta assim de propósito. Na maioria das vezes, elas simplesmente não têm noção do estrago que fazem na psique do seu ex-futuro pretendente. E muitas vezes, o rapaz, na sua inexperiência, interpreta como “jogo de sedução” (heheh) um comportamento que, para a menina, é absolutamente normal. Ainda mais se a moça for amiga, tiver algum tipo de intimidade, e não for apenas um “alvo”. Atire a primeira pedra o rapaz que nunca achou que aquela mãozinha dada, aquele papinho furado a dois, aquele afago ligeiro no rosto eram sinônimo de: “Ôpa, deu mole, tá doidinha pra que eu pule em cima”… E acabamos todos aprendendo, da pior maneira possível, como interpretar os sinais femininos.

A Síndrome da Misoginia Involuntária não costuma durar para sempre. Em geral, acomete os homens na adolescência e, dependendo do grau de maturidade emocional do indíviduo, persiste até uns 20 e poucos anos. A coisa melhora quando o camarada aprende a encarar o “doce esporte” da maneira correta. Para o pobre e sensivel misógino involuntário, a regra é se apaixonar primeiro e só DEPOIS demonstrar o interesse na mina. A chance de ele se decepcionar amargamente aumenta muito assim. Se ele inverte a equação – demonstrando de cara que está a fim, para depois ver o que rola – tudo flui de modo muito mais simples. (Eu sei disso, por experiência própria.) Persistem seqüelas, entretanto. Eu, por exemplo, jurei para mim mesmo: da próxima vez que eu ouvisse uma garota dizendo “A gente é só amigo” pra mim, a porrada iria comer. Nunca pude por o juramento em prática, graças a Deus.

E o que foi feito de Jake Barnes e Lady Brett? Ele, como eu disse, é meu amigão. E carrega até hoje um profundo ressentimento em relação à rapariga que partiu seu coração – o suficiente para provocar algumas idas ao divã de uma psiquiatra. Sobre ela, soube que se juntou com um professor da faculdade, depois largou-o, depois engordou… enfim. Pior foi saber que, na mesma época em que nosso Jake suspirava por ela (e afogava suas mágoas em conhaque Dreher), ela também suspirava. Mas por outro colega de turma, que, na verdade, era homossexual enrustido. (Ei, será que também existe um equivalente feminino da SMI?). Mulheres, bah.