Escrevi esse texto para o bom e velho Marcelo Costa (alô Marceleza, já me linkou aê?), numa época de incerteza no mercado de revistas pop no Brasil. Quase quatro anos depois, as incertezas são outras, mas ainda estão aí. Dando um refresh nos dados: a Rolling Stone nacional finalmente virou realidade. A Bizz voltou, pouco mais de dois anos depois que escrevi esse texto; por coincidência (ou não), o editor da nova versão é Ricardo Alexandre, que em 2003 dava explicações sobre o fechamento de sua própria revista, a Frente. A Rock Press agora existe apenas virtualmente, num portal na internet. E o mercado agora é polarizado entre a Bizz – que voltou meio tímida, meio perdida, mas cheia de boas intenções – e a RS brazuca, mais poderosa comercialmente, mas com deficiências de conteúdo (apesar de ter abiscoitado grande parte dos colaboradores da Bizz). O que se comenta nas internas é que não há espaço para as duas nas bancas. E essa renascença, vem ou não? Publicado no site Scream & Yell, julho de 2003.
“(…) Me perguntam quase sempre por que, na minha opinião, publicações de música ‘não dão certo’ no Brasil. (…) Consumir música e consumir publicações que falem sobre música são duas coisas inteiramente diferentes. (…) Esta é uma geração (…) que não tem o hábito de leitura musical das gerações anteriores – e aí me refiro tanto a ler a música em si, como um ‘trabalho’ assinado/criado por alguém com uma história pessoal e referências coletivas – quanto a ler sobre a música.” – Ana Maria Bahiana, no site Comunique-se.
“(…) Acho que estamos entrando em uma era (de, talvez, 10 ou 15 anos) em que a música será muito pouco importante para as pessoas. Isso é numérico. As pessoas que compram discos hoje são as mesmas que compravam discos em 1989: há uma lacuna geracional enorme acontecendo, o público da MTV, da internet e da “Capricho”, que tem música o tempo todo e para quem música não significa lhufas. (…) (Sobre o fim da revista “Frente”): A culpa foi da gente, que foi incapaz de criar um produto que centralizasse as aspirações de um número de pessoas suficientemente grande para manter o título vivo e nosso padrão de vida minimamente decente.” – Ricardo Alexandre, em entrevista ao site Observatorio da Imprensa.
Você certamente ouviu falar, há um tempo atrás, que a Rolling Stone iria ganhar uma edição nacional. Ou, talvez, que a editora Abril ressuscitasse a velha Bizz. Deve ter ouvido que revistas como a Play, a Zero ou a Frente iriam inaugurar uma nova de jornalismo pop brazuca no terceiro milênio. Isso tudo foi pro saco.
Por que, hein? O futuro não era tão promissor para nossas revistas de música? Onde elas estão? Por que elas não saem da fase de planejamento (às vezes, nem sequer da cabeça dos seus idealizadores)? Por que, quando viram realidade, tem tanta dificuldade em se manter? E por que elas fecham tão rapidamente?
Ao ler, na mesma semana, os textos cujos excertos abrem estas linhas, andei elaborando algumas considerações sobre o assunto.
Juntando as duas leituras – assinadas por autores com competência insuspeita e experiência pessoal no assunto – cheguei à conclusão de que NÃO VAI HAVER renascença no mercado de revistas de música no Brasil. Ponto final.
Simplesmente porque, citando outro trecho da entrevista do Ricardo, “o público da Frente (que era uma revista de bandas novas, de molecada mesmo) tinha a maioria de seus leitores com mais de 25, 30, às vezes de até 40 anos. (…) Superestimamos o número de pessoas como nós no Brasil – uma ilusão que a internet cria, como num jogo de espelhos: no fim, tínhamos a certeza de que muito mais pessoas reclamavam de uma coisa ou outra do que realmente comprava a revista.”
Na minha cabeça, o negócio é o seguinte: existe sim um número respeitável de pessoas que compraria fielmente uma boa revista de rock, mas esse número não interessa a uma editora grande. E uma editora pequena (ou uma revista independente) não tem como se bancar para chegar, com qualidade, a esse número respeitável de pessoas.
As deliberações sobre downloads, MTV, MP3, etc. como novos componentes na cabeça do público são, a meu ver, secundários. A verdade é que as revistas não emplacam porque quem ouve música no Brasil – ou seja, o público alvo fundamental de uma publicação desse tipo – não lê. Acho mesmo que 99% dessa galera sequer gosta, REALMENTE, de música.
Porque uma revista de música, pra sobreviver, precisa de gente como eu (ou como os leitores deste site). Gente que não se contenta em comprar os CDs ou baixar os MP3. É um tipo de pessoa que precisa conhecer mais detalhes sobre os artistas, saber o que há de novidade, ter dicas sobre grupos e discos históricos, ter uma idéia do que está rolando no mercado indie (local e gringo), notícias quentes, entrevistas alentadas, pautas caprichadas, resenhas relevantes e honestas. Isso, para mim, é gostar de música. Ou, pelo menos, faz parte do interesse que se tem – quando se tem – pela música.
Mas a enorme maioria das pessoas que “gosta de música” se preocupa apenas em ter uma trilha sonora adequada para um churrasco. Ou para o CD-player do carro, indo para a “balada”. Ou para curar uma dor de cotovelo. É gente que se contenta em ver a cara do artista ocasionalmente no Faustão, ou ler na capa da Contigo quem está namorando com quem. Gente para quem a música é acessório. Pessoas assim nunca vão se interessar em comprar uma revista “hardcore” de música, feita por e para REAIS fãs de música. Note bem que não falo da sua empregada pagodeira ou do porteiro paraíba que gosta de forró: você, que ontem era fã de Guns’n’Roses e hoje ouve Creed e Linkin Park, também NÃO GOSTA de música. Você, assim como sua empregada ou seu porteiro, pode se contentar muito bem com revistas fininhas, com letras grandes e escassas, e muitas, muitas fotos.
E, queiram ou não os nossos protótipos de Jann Wenner, são ESSAS as pessoas que poderiam comprar suas revistas. Mas, é claro, não compram. “Já é tão complicado decorar o nome do ‘artista da hora’, ainda querem que eu leia uma revista cheia de letras?” Perder esse público é fatal para praticamente qualquer publicação. Mas o que fazer se, pra começar, o leitor nunca esteve “ganho”, para ser “perdido”?
O “resto” (crise econômica, depressão do poder de compra, mutretas próprias do mercado editorial, etc.) acaba sendo fator menor. Tudo se reduz ao fato de que o brasileiro lê pouco e mal. E para completar, não tem dinheiro. Ou talvez o primeiro fator seja conseqüência do segundo. Mas acho que isso nem é problema específico nosso; o povão, a massa, tende a ser assim mesmo em qualquer lugar do mundo.
Na outra ponta, existe o, sei lá, 1% de público – ainda assim, é bastante gente – que poderia, muito bem, sustentar não apenas uma, mas um bom punhado de publicações modestas, com orçamentos realistas, mas ainda assim bem-feitas. Aqui, sim, entra o “resto” do parágrafo de cima. Os bons samaritanos que insistem em nadar contra a corrente, para fazer com que sua publicação chegue afinal nesse 1%, um dia cansam de dar murro em ponta de faca. E não dá para contar com filantropia de editora grande. Para essas, “formar público” e “preocupação com qualidade” são palavrões, dos mais cabeludos. Adendo biográfico: um colega meu, que foi um dos penúltimos editores da Showbizz, fala para quem quiser ouvir que, quando a revista foi dispensada pela Abril, tinha uma venda de 50 mil exemplares. E que “só isso” não interessava à editora.
Não gosto de terminar texto algum em tom pessimista, mas também não vejo solução simples – ou sequer factível a médio/longo prazo – para esse beco sem saída. É uma pena, pois o “meio” revista é riquíssimo, cheio de possibilidades e de formas para produção de conteúdo realmente válido. E seria terrível ver uma porta como essa fechada para sempre em nosso mercado editorial/musical.
Dá pra sacar, entretanto, que as ambições (e expectativas de retorno financeiro) devem ser mantidas no nível mais realista (i.e., baixo) possivel. E também que ficar fechado em nichos muito específicos (underground demais, indie demais, punk demais) pode ser prejudicial à saúde da publicação. Outra: saber para quem está se escrevendo, ter o máximo de feedback possível do leitor. E, por último – e esta é uma lição tirada da dura sobrevivência da Rock Press, revista com a qual colaboro há mais de sete anos – perseverar sempre, até a corda roer de vez. (Para a RP, ainda não roeu.) Um dia, com sorte, a ponta da faca desgasta um pouquinho e os murros doerão menos.

Maio 30, 2007 às 7:27 pm
Belo ensaio, Bart.
vamos fundar uma revista? já tenho o título: “Os órfãos do JM!”
abraço
Tom.
Maio 30, 2007 às 9:06 pm
Hehe…
simbora!
abs
MAB
Julho 3, 2007 às 4:38 pm
[...] o anunciado fim da revista Bizz – aliás, nunca vi um fim tão anunciado – creio que meu artigo GENTE QUE NÃO SABE OUVIR, GENTE QUE NÃO SABE LER merece uma releitura. Né não? Em tempo: a Bizz sai das bancas, mas o site [...]
Julho 7, 2007 às 5:02 am
Excelente texto. Virei leitor cativo.
Abraço,
Sávio.
Julho 15, 2007 às 5:26 pm
Pô, Bart, fala a verdade: você tava louquinho para escrever na Bizz, mas não conseguiu, né? Parece aquela história da raposa e as uvas…
Julho 15, 2007 às 8:02 pm
Ora, mas é claro que eu estava.
Julho 15, 2007 às 8:04 pm
Mas também ninguém me convidou, nem ofereci pauta alguma.
Julho 17, 2007 às 1:35 am
é, mas a RS tá aí, né?