2 X CASSAVETES

Maio 28, 2007

Estou devendo um ensaio mais elaborado sobre John Cassavetes. Devendo a mim mesmo, haha! Qualquer dia eu publico por aqui. Publicados no Jornal do Brasil, maio de 2007.

Uma mulher sob influência

Hoje em dia, é fácil tomar as inovações estilísticas que o cinema de John Cassavetes (1929-1989) como favas contadas. Sucessivas gerações de cineastas independentes mimetizaram sua direção de atores fluida, sua maneira não-convencional de lidar com o tempo cinematográfico, a abordagem realista mas calorosa que aplicava a suas tramas. Ainda assim, rever Uma mulher sob influência, de 1975, é uma experiência impressionante. A mulher do título é a dona de casa Mabel (Gena Rowlands, esposa do diretor na vida real); a “influência” é seu desequilíbrio mental, que bagunça a vida de todos à sua volta. Material para telefilme barato, certo? Nas mãos de Cassavetes não. Ele arranca uma insofismável sensação de “vida real” do caótico cotidiano da família vista na tela, graças principalmente às ótimas atuações (Rowlands levou um Globo de Ouro e foi indicada ao Oscar, assim como o próprio Cassavetes, que aqui apenas dirige). Mas também por seu inconfundível ritmo narrativo – pausado, aproveitando os tempos mortos – que dispensa truques e coloca o espectador ali, cara a cara com a ação. E cara a cara consigo mesmo, também.

Noite de estréia

Uma das marcas do cinema de John Cassavetes era a procura por um novo paradigma de interpretação. Sua câmera sempre parecia buscar o instante mágico entre o improviso e o naturalismo documental, tornando sua direção de atores extremamente pessoal – e bastante incomum dentro da pasteurização hollywoodiana. Em nenhuma de suas obras essa preocupação está mais presente que em Noite de estréia, um de seus filmes mais ambiciosos e complexos. Gena Rowlands, mais uma vez no centro da trama, solta os cachorros no papel de uma diva do teatro que enfrenta múltiplas crises pessoais às vésperas de uma importante estréia. Um caldeirão de temas (a chegada da meia-idade, a traumática morte de uma fã da estrela, os próprios conflitos dos bastidores da peça) gera um intenso ensaio sobre a dialética ator-personagem – com reflexos metalingüísticos se esparramando do palco para as câmeras. No catártico epílogo, encenado como uma peça real (com platéia e tudo), vemos afinal o triunfo das idissiosincrasias do cineasta, num memorável duelo entre ele mesmo e Rowlands – sua esposa na vida real, nunca é demais lembrar.

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