Arquivo para Maio, 2007

Da série: 3 quadrinhos valem + que mil palavras

Maio 30, 2007

Sou fã antigo de tirinhas de humor. Nunca deixo de me divertir com elas, especialmente as brasileiras – Laerte, Galhardo, Angeli, Dahmer, Gonzales, essa galera toda é foda. (Exceção aos brazucas: o inenarrável Perry Bible.) Vez ou outra, entretanto, um desses mestres transcende o meramente hilário e, em três quadrinhos e um punhado de palavras (ou às vezes até sem elas), conseguem resumir uma porrada de coisas que passam pela minha cabeça e que eu não não tinha capacidade de verbalizar. Sempre que eu me deparar com uma dessas tiras, ela virá para cá. Abrindo a série, o inimitável Angeli (clique na tirinha para ver em full-size):

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Cinematográficas.

Maio 29, 2007

Compareci (como convidado, e não para cobrir – sorry, periferia) à entrega do quarto prêmio anual da ACIE (Associação de Correspondentes da Imprensa Estrangeira). Rolou na noite de segunda, no CCBB. A idéia é promover uma espécie de Globo de Ouro brasileiro, no qual os jornalistas gringos radicados no país (leia-se Rio, São Paulo e Brasília) escolhem os melhores filmes nacionais do ano que passou. Das premiações, posso dizer que O ano em que meus pais sairam de férias, o belo filme de Cao Hamburger, levou quase tudo a que concorreu; que eu me lembre, ao menos melhor filme, roteiro e prêmio do júri popular.

Mas este post não é sobre o resultado da premiação, que é simpática, concedo, mas no fim das contas pouco relevante (fato confirmado pelo baixo quórum de celebridades no evento). É sobre o tipo de visão que os jornalistas estrangeiros têm de nosso país, filtrado pelo cinema. Os correspondentes da ACIE escolheram Estamira, de Marcos Prado, como melhor documentário. O mesmo filme também foi eleito na categoria melhor fotografia. E o homenageado do ano, premiação criada na edição 2007 do evento, foi Eduardo Coutinho, o criador de clássicos do documentário nacional como Cabra marcado para morrer, Santo forte e Edifício Master.

O miserê filosófico de Estamira e o olhar de Coutinho sobre as realidades periféricas de nosso país interessam aos correspondentes estrangeiros. No discurso de apresentação, a presidente da ACIE, Paula Gobbi, agradeceu aos cineastas premiados por ajudarem, com seus filmes, a explicar aos gringos um pouco da realidade brasileira. O filme de Marcos Prado ganhou uma penca de prêmios aqui e no exterior; Coutinho é reconhecido como o pai espiritual da nova geração de documentaristas, gente que trabalhou com ele ou foi influenciada por seus filmes. Mas nem Estamira, nem qualquer das obras de Coutinho fica perto do status de campeão de bilheteria por aqui. Muita repercussão em cadernos culturais, aclamação em festivais e muitos prêmios. Gente assistindo, que é bom, nada.

Uma leitura simplista: os jornalistas gringos estão mais interessados no Brasil “real” do que os próprios brasileiros. Quem gosta de miséria é intelectual (os correspondentes). Pobre (nós) gosta de luxo. E vai preferir ver Glória Pires & Tony Ramos às perambulações de Estamira no lixão. Outra leitura simplista: o charme exótico da pobreza terceiromundista é irresistível ao olhar estrangeiro. Chegamos àquela encruzilhada perigosa, na qual a antropologia se mistura à crítica cinematográfica – e que fez com que o cinema iraniano enganasse muita gente boa, por muito tempo.

Enfim, me parece que ninguém assiste ao cinema nacional com os olhos “descontaminados”. Nem nós, nem os gringos. Mas esse post na verdade foi só pretexto para eu mostrar minha nova descoberta: Eduardo Coutinho é, na verdade, pai do Dr. Gregory House!

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Deu a louca nas distribuidoras. Enquanto pelo menos 70% dos cinemas brasileiros estão exibindo Homem-Aranha 3 ou Piratas do Caribe 3, aqui no Rio uma torrente de filmes inunda as salas dos circuitos alternativos – para quem e por que, ninguém sabe. A cada sexta, são oito, 10 títulos novos se estapeando pela atenção do minguado público do dito “cinema de arte”. Minha agenda como crítico de cinema está lotada. Hoje pela manhã assisti a uma produção dinamarquesa, Depois do casamento. O filme, uma tremenda soap-opera, é a prova viva de que o cinema da Dinamarca não se restringe à estética radical do Dogma 95. Digo mais na Programa da próxima sexta, não deixem de comprar!

Gente que não sabe ouvir, gente que não sabe ler

Maio 29, 2007

Escrevi esse texto para o bom e velho Marcelo Costa (alô Marceleza, já me linkou aê?), numa época de incerteza no mercado de revistas pop no Brasil. Quase quatro anos depois, as incertezas são outras, mas ainda estão aí. Dando um refresh nos dados: a Rolling Stone nacional finalmente virou realidade. A Bizz voltou, pouco mais de dois anos depois que escrevi esse texto; por coincidência (ou não), o editor da nova versão é Ricardo Alexandre, que em 2003 dava explicações sobre o fechamento de sua própria revista, a Frente. A Rock Press agora existe apenas virtualmente, num portal na internet. E o mercado agora é polarizado entre a Bizz – que voltou meio tímida, meio perdida, mas cheia de boas intenções – e a RS brazuca, mais poderosa comercialmente, mas com deficiências de conteúdo (apesar de ter abiscoitado grande parte dos colaboradores da Bizz). O que se comenta nas internas é que não há espaço para as duas nas bancas. E essa renascença, vem ou não? Publicado no site Scream & Yell, julho de 2003.

“(…) Me perguntam quase sempre por que, na minha opinião, publicações de música ‘não dão certo’ no Brasil. (…) Consumir música e consumir publicações que falem sobre música são duas coisas inteiramente diferentes. (…) Esta é uma geração (…) que não tem o hábito de leitura musical das gerações anteriores – e aí me refiro tanto a ler a música em si, como um ‘trabalho’ assinado/criado por alguém com uma história pessoal e referências coletivas – quanto a ler sobre a música.” – Ana Maria Bahiana, no site Comunique-se.

“(…) Acho que estamos entrando em uma era (de, talvez, 10 ou 15 anos) em que a música será muito pouco importante para as pessoas. Isso é numérico. As pessoas que compram discos hoje são as mesmas que compravam discos em 1989: há uma lacuna geracional enorme acontecendo, o público da MTV, da internet e da “Capricho”, que tem música o tempo todo e para quem música não significa lhufas. (…) (Sobre o fim da revista “Frente”): A culpa foi da gente, que foi incapaz de criar um produto que centralizasse as aspirações de um número de pessoas suficientemente grande para manter o título vivo e nosso padrão de vida minimamente decente.” – Ricardo Alexandre, em entrevista ao site Observatorio da Imprensa.

Você certamente ouviu falar, há um tempo atrás, que a Rolling Stone iria ganhar uma edição nacional. Ou, talvez, que a editora Abril ressuscitasse a velha Bizz. Deve ter ouvido que revistas como a Play, a Zero ou a Frente iriam inaugurar uma nova de jornalismo pop brazuca no terceiro milênio. Isso tudo foi pro saco.

Por que, hein? O futuro não era tão promissor para nossas revistas de música? Onde elas estão? Por que elas não saem da fase de planejamento (às vezes, nem sequer da cabeça dos seus idealizadores)? Por que, quando viram realidade, tem tanta dificuldade em se manter? E por que elas fecham tão rapidamente?

Ao ler, na mesma semana, os textos cujos excertos abrem estas linhas, andei elaborando algumas considerações sobre o assunto.

Juntando as duas leituras – assinadas por autores com competência insuspeita e experiência pessoal no assunto – cheguei à conclusão de que NÃO VAI HAVER renascença no mercado de revistas de música no Brasil. Ponto final.

Simplesmente porque, citando outro trecho da entrevista do Ricardo, “o público da Frente (que era uma revista de bandas novas, de molecada mesmo) tinha a maioria de seus leitores com mais de 25, 30, às vezes de até 40 anos. (…) Superestimamos o número de pessoas como nós no Brasil – uma ilusão que a internet cria, como num jogo de espelhos: no fim, tínhamos a certeza de que muito mais pessoas reclamavam de uma coisa ou outra do que realmente comprava a revista.”

Na minha cabeça, o negócio é o seguinte: existe sim um número respeitável de pessoas que compraria fielmente uma boa revista de rock, mas esse número não interessa a uma editora grande. E uma editora pequena (ou uma revista independente) não tem como se bancar para chegar, com qualidade, a esse número respeitável de pessoas.

As deliberações sobre downloads, MTV, MP3, etc. como novos componentes na cabeça do público são, a meu ver, secundários. A verdade é que as revistas não emplacam porque quem ouve música no Brasil – ou seja, o público alvo fundamental de uma publicação desse tipo – não lê. Acho mesmo que 99% dessa galera sequer gosta, REALMENTE, de música.

Porque uma revista de música, pra sobreviver, precisa de gente como eu (ou como os leitores deste site). Gente que não se contenta em comprar os CDs ou baixar os MP3. É um tipo de pessoa que precisa conhecer mais detalhes sobre os artistas, saber o que há de novidade, ter dicas sobre grupos e discos históricos, ter uma idéia do que está rolando no mercado indie (local e gringo), notícias quentes, entrevistas alentadas, pautas caprichadas, resenhas relevantes e honestas. Isso, para mim, é gostar de música. Ou, pelo menos, faz parte do interesse que se tem – quando se tem – pela música.

Mas a enorme maioria das pessoas que “gosta de música” se preocupa apenas em ter uma trilha sonora adequada para um churrasco. Ou para o CD-player do carro, indo para a “balada”. Ou para curar uma dor de cotovelo. É gente que se contenta em ver a cara do artista ocasionalmente no Faustão, ou ler na capa da Contigo quem está namorando com quem. Gente para quem a música é acessório. Pessoas assim nunca vão se interessar em comprar uma revista “hardcore” de música, feita por e para REAIS fãs de música. Note bem que não falo da sua empregada pagodeira ou do porteiro paraíba que gosta de forró: você, que ontem era fã de Guns’n’Roses e hoje ouve Creed e Linkin Park, também NÃO GOSTA de música. Você, assim como sua empregada ou seu porteiro, pode se contentar muito bem com revistas fininhas, com letras grandes e escassas, e muitas, muitas fotos.

E, queiram ou não os nossos protótipos de Jann Wenner, são ESSAS as pessoas que poderiam comprar suas revistas. Mas, é claro, não compram. “Já é tão complicado decorar o nome do ‘artista da hora’, ainda querem que eu leia uma revista cheia de letras?” Perder esse público é fatal para praticamente qualquer publicação. Mas o que fazer se, pra começar, o leitor nunca esteve “ganho”, para ser “perdido”?

O “resto” (crise econômica, depressão do poder de compra, mutretas próprias do mercado editorial, etc.) acaba sendo fator menor. Tudo se reduz ao fato de que o brasileiro lê pouco e mal. E para completar, não tem dinheiro. Ou talvez o primeiro fator seja conseqüência do segundo. Mas acho que isso nem é problema específico nosso; o povão, a massa, tende a ser assim mesmo em qualquer lugar do mundo.

Na outra ponta, existe o, sei lá, 1% de público – ainda assim, é bastante gente – que poderia, muito bem, sustentar não apenas uma, mas um bom punhado de publicações modestas, com orçamentos realistas, mas ainda assim bem-feitas. Aqui, sim, entra o “resto” do parágrafo de cima. Os bons samaritanos que insistem em nadar contra a corrente, para fazer com que sua publicação chegue afinal nesse 1%, um dia cansam de dar murro em ponta de faca. E não dá para contar com filantropia de editora grande. Para essas, “formar público” e “preocupação com qualidade” são palavrões, dos mais cabeludos. Adendo biográfico: um colega meu, que foi um dos penúltimos editores da Showbizz, fala para quem quiser ouvir que, quando a revista foi dispensada pela Abril, tinha uma venda de 50 mil exemplares. E que “só isso” não interessava à editora.

Não gosto de terminar texto algum em tom pessimista, mas também não vejo solução simples – ou sequer factível a médio/longo prazo – para esse beco sem saída. É uma pena, pois o “meio” revista é riquíssimo, cheio de possibilidades e de formas para produção de conteúdo realmente válido. E seria terrível ver uma porta como essa fechada para sempre em nosso mercado editorial/musical.

Dá pra sacar, entretanto, que as ambições (e expectativas de retorno financeiro) devem ser mantidas no nível mais realista (i.e., baixo) possivel. E também que ficar fechado em nichos muito específicos (underground demais, indie demais, punk demais) pode ser prejudicial à saúde da publicação. Outra: saber para quem está se escrevendo, ter o máximo de feedback possível do leitor. E, por último – e esta é uma lição tirada da dura sobrevivência da Rock Press, revista com a qual colaboro há mais de sete anos – perseverar sempre, até a corda roer de vez. (Para a RP, ainda não roeu.) Um dia, com sorte, a ponta da faca desgasta um pouquinho e os murros doerão menos.

2 X CASSAVETES

Maio 28, 2007

Estou devendo um ensaio mais elaborado sobre John Cassavetes. Devendo a mim mesmo, haha! Qualquer dia eu publico por aqui. Publicados no Jornal do Brasil, maio de 2007.

Uma mulher sob influência

Hoje em dia, é fácil tomar as inovações estilísticas que o cinema de John Cassavetes (1929-1989) como favas contadas. Sucessivas gerações de cineastas independentes mimetizaram sua direção de atores fluida, sua maneira não-convencional de lidar com o tempo cinematográfico, a abordagem realista mas calorosa que aplicava a suas tramas. Ainda assim, rever Uma mulher sob influência, de 1975, é uma experiência impressionante. A mulher do título é a dona de casa Mabel (Gena Rowlands, esposa do diretor na vida real); a “influência” é seu desequilíbrio mental, que bagunça a vida de todos à sua volta. Material para telefilme barato, certo? Nas mãos de Cassavetes não. Ele arranca uma insofismável sensação de “vida real” do caótico cotidiano da família vista na tela, graças principalmente às ótimas atuações (Rowlands levou um Globo de Ouro e foi indicada ao Oscar, assim como o próprio Cassavetes, que aqui apenas dirige). Mas também por seu inconfundível ritmo narrativo – pausado, aproveitando os tempos mortos – que dispensa truques e coloca o espectador ali, cara a cara com a ação. E cara a cara consigo mesmo, também.

Noite de estréia

Uma das marcas do cinema de John Cassavetes era a procura por um novo paradigma de interpretação. Sua câmera sempre parecia buscar o instante mágico entre o improviso e o naturalismo documental, tornando sua direção de atores extremamente pessoal – e bastante incomum dentro da pasteurização hollywoodiana. Em nenhuma de suas obras essa preocupação está mais presente que em Noite de estréia, um de seus filmes mais ambiciosos e complexos. Gena Rowlands, mais uma vez no centro da trama, solta os cachorros no papel de uma diva do teatro que enfrenta múltiplas crises pessoais às vésperas de uma importante estréia. Um caldeirão de temas (a chegada da meia-idade, a traumática morte de uma fã da estrela, os próprios conflitos dos bastidores da peça) gera um intenso ensaio sobre a dialética ator-personagem – com reflexos metalingüísticos se esparramando do palco para as câmeras. No catártico epílogo, encenado como uma peça real (com platéia e tudo), vemos afinal o triunfo das idissiosincrasias do cineasta, num memorável duelo entre ele mesmo e Rowlands – sua esposa na vida real, nunca é demais lembrar.

Enfim, um blog sem estilo. D’après Millôr Fernandes.

Maio 28, 2007

Nunca quis ter um blog. Sério. Pode parecer estranho, visto que sempre fui ligado em informática, adoro internet e literalmente vivo para escrever (ou melhor, escrevo pra viver). Achava, e acho, a ferramenta incrível – publicar qualquer coisa, instantaneamente, com um mínimo de experiência em computadores? Beeeeleza! Mas sempre achei a coisa muito mal aproveitada. A torrente de sandices, vacuidades e pretensão que foi despejada na grande rede com o advento dos blogs acabou ganhando muito mais destaque que as possibilidades do formato. E daí eu criei uma pinimba com o negócio todo. Me parecia coisa de desocupado, de wannabe (wannabe escritor, wannabe jornalista ou só pra aparecer mesmo). E ainda havia a questão da ética trabalhista. Levo uma vida modestíssima, ganhando o pão com aquilo que escrevo – e olha que eu já escrevo uma porrada de coisas na brodagem, sem $$$ envolvido. E ainda querem que eu escreva de graça, pra passar o tempo? Tô fora!

Então, o que este blog faz aqui?

Bom, eu tinha a idéia de construir este site há vários anos. Nunca tive tempo livre ou vontade suficiente. Agora, aproveitando umas tardes de ócio forçado, botei a mão na massa e mandei ver. Eu dizia às pessoas “quero fazer um site”, coisa & tal, e todos falavam: “Ah, porque você não faz um blog?” Não, não queria blog, queria um negócio organizado, com seções, etc. O negócio é escrever de graça, só por prazer? Então faz direito. (Ironicamente, meus parcos conhecimentos de webdesign me impeliram a usar uma ferramenta de publicação de blogs – este ótimo WordPress que nos hospeda – para realizar meu intento.)

Só que eu nem sempre vou poder “fazer direito”, sacou? Nem sempre vai dar pra sentar e bolar um texto legal, digno de figurar junto aos outros trabalhos “profissionais” da categoria Produção. Daí a idéia do blog. Quando eu estiver com alguma coisa na cabeça mas não quiser me aprofundar; quando eu quiser postar uns links maneiros; quando eu precisar fazer algum comentário urgente sobre algo; quando simplesmente estiver a fim de escrever bobagem…

Não esperem as atualizações frenéticas dos blogueiros “profissionais”. Nem textos no estilo “abrindo-o-coração-pro-leitor” – aliás, vocês estão aí? Isso aqui vai se parecer mais com uma gaveta na qual eu irei jogando coisas pequenas e/ou inacabadas e/ou tolinhas, mas legais.


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O primeiro post, pois.
No parco contato que tive com o universo blogueiro (não costumo ler blogs, dou olhadas em um ou outro de vez em quando), saquei que é “de praxe” fazer menções a outros blogs. Incluo neste post inicial, entonces, um high-five a meu blogueiro favorito, ou mais propriamente, o único que freqüento com regularidade: meu irmão. Ele é mais ou menos uma celebridade da internet, por conta do blog Ranzinza – no qual ele volta e meia cita alguma cousa que eu estou fazendo por aí, linkando os sites no qual escrevo, etc. Pois então, eis o favor retribuído :) A novidade é que o brother agora também bate ponto na Globo.com. Dentro do hotsite criado para o Campeonato Brasileiro, meu irmão ganhou uma coluna para falar do Vasco da Gama, seu time do coração. Ironia do destino: meu pai, flamenguista (consta até que ele chegou a fazer um teste para os juvenis do time da Gávea) teve dois filhos. Um – eu – se lixa para futebol. O outro virou vascaíno. É o Blog da Fuzarca, no qual meu fraterno caçula se dedica, com prazer sadomasoquista, a reclamar do Vasco.



Keane e Bad Plus.
Eu tenho uma página no Last.fm (www.last.fm/user/marcobart), que, supostamente, serviria para anunciar ao mundo quais músicas eu estou ouvindo no presente momento. Só que como eu escuto muito pouca música no computador (praticamente, só a trabalho), o lance não dá uma idéia real dos sons que têm feito minha cabeça. Por exemplo, agora o Last.fm diz que eu só ouvi uma canção do trio Bad Plus nas últimas semanas. Mentira: no meu iPobre só dá os caras. Estive ouvindo o espetacular Suspicious activity? sem parar, com algumas pausas para me dedicar também ao (menores) Give e These are the vistas.

O Last.fm também não captou minha recente paixonite pelo Keane. Sempre tive uma simpatia pelo trio britânico – considerado “coxinha” e brega pelos roqueiros mais empedernidos. Apesar de ter me decepcionado ligeiramente com o segundo disco dos caras, o show que eles fizeram no Rio no mês passado me arrebatou. Agora o CD de estréia, Hopes and fears (cara, até o título é coxinha!) passou a ser um dos meus favoritos nos últimos tempos. Aliás, sinto que em breve escreverei algo mais elaborado sobre as duas bandas, na categoria Produção. Aguarde e confie.


Bad Plus no Bourbon Street (SP), ano passado:
Keane ao vivo no Rio, tocando uma de minhas favoritas (“This is the last time”):
(Posso ser um blogueiro iniciante, mas sei que pendurar vídeos do YouTube no blog é uma coqueluche inescapável.)

DOSSIÊ: CRISE DA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA (PARTE I)

Maio 27, 2007

Acompanho com interesse pessoal e profissional os desdobramentos da crise da indústria fonográfica. Nos últimos meses, tive a oportunidade de cobrir vários eventos dedicados ao tema, e acabei escrevendo algumas reportagens para o Jornal Musical sobre o tópico. Aqui, reúno cinco dessas reportagens. Esses mesmos textos me renderam um convite para uma matéria mais ampla, a ser publicada no Valor Econômico (no dia 4 de maio deste ano, com o título Dançando conforme a música). Como no jornal o texto saiu bastante modificado, com várias inclusões apuradas pelo editor Robinson Borges, posto aqui a versão original do que eu apurei. Como bônus, postarei também uma matéria que fiz em 2003 sobre o fechamento da Abril Music – prenúncio dos dias sombrios que as gravadoras vivem hoje. Publicado nos sites Jornal Musical e Cliquemusic e no jornal Valor Econômico (trechos).

Na velocidade do som
Trechos publicados no Valor Econômico, 04/05/2007

O ano de 2007 deve passar para a história da indústria fonográfica brasileira como o momento em que as gravadoras, finalmente, caíram na real. A movimentação nas cúpulas dirigentes dos selos multinacionais (que vem sendo acompanhada de perto pela imprensa nas últimas semanas) é apenas a ponta de um iceberg que ainda prevê ajustes ainda mais profundos e mudanças radicais nas estratégias de negócios. Tudo para tentar recuperar o tempo perdido na luta contra os predadores (pirataria, downloads ilegais de música, preços altos) do mercado – um mercado que movimentava R$ 1 bilhão e 200 milhões em 1995 e em 2006, bateu no fundo do poço, chegando a R$ 250 milhões, um retração de quase 80% em uma década. Substituições de executivos em postos-chave, cortes de elenco e de investimentos estão na pauta do dia das gravadoras, que já colocam a venda de música pela internet como prioridade imediata.

Na verdade, a dança das cadeiras nas filiais brasileiras das multinacionais do disco começou ainda no ano passado, com o afastamento de Marcos Maynard da direção da EMI. A própria sede inglesa da gravadora revelou, em outubro último, que a filial brasileira manipulava seus balanços – contabilizando CDs e DVDs passados às lojas como títulos realmente vendidos ao público, ignorando os discos devolvidos ao estoque. A fraude afetou as avaliações do mercado brasileiro em 2005 e teve reflexos nos números de 2006. “Essa brincadeira da EMI deu uma estragada boa no mercado”, confirma o diretor de um importante selo independente, que já passou por várias gravadoras grandes antes de se firmar por conta própria.

Maynard, substituído por Marcelo Castello Branco, foi apenas o primeiro eliminado. A Universal demitiu seu diretor artístico, Max Pierre, no começo do mês, resultado de uma auditoria promovida pela matriz da companhia na filial local. Cláudio Condé, presidente da Warner brasileira, perdeu para Sérgio Affonso o cargo, em meados de março. Apenas a Sony & BMG não mexeu em sua cúpula – em time que está ganhando, não se mexe. Segundo o principal executivo da companhia, Alexandre Schiavo, pelo segundo ano consecutivo a gravadora manteve a posição de primeiro lugar no ranking nacional. “Nosso market share passou de 25,05%, em 2005, para 26,14%. Depois de dez anos seguidos de dominação da Universal, consolidamos nossa posição”, adianta Schiavo, com a confiança de quem está por cima – números como esses são usualmente mantidos a sete chaves pelas gravadoras, especialmente em hora de crise e de troca de comando. A manutenção da Sony & BMG no primeiro lugar do mercado já era prevista desde a divulgação, em março, da lista dos lançamentos mais vendidos em 2006. Oito títulos da gravadora de Schiavo (incluindo o campeão, Minha benção, do Padre Marcelo Rossi) integram a lista dos 20 CDs mais vendidos do ano. A estimativa é que não haja mudanças no ranking em relação a 2005, com a Sony & BMG em primeiro, Universal em segundo, EMI em terceiro e Warner em quarto lugar.

Os números oficiais do mercado no ano passado ainda não foram divulgados pela ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Disco). Tradicionalmente, a associação (que congrega as cinco maiores gravadoras do país: as multinacionais Sony & BMG, Warner, Universal e EMI e a brasileira Som Livre) segue o calendário da IFPI (International Federation of the Phonograph Industry) para anunciar seu balanço anual. Sabe-se, entretanto, que 2006 representou mais um degrau – para baixo – no agravamento da crise da indústria. “Nosso último ano bom foi mesmo em 2004. A indústria está de ressaca”, analisa Paulo Rosa, diretor geral da ABPD. Ele fala, sem citar números, em “uma redução bastante significativa” no tamanho do mercado em 2006. “Em 2004 não houve queda nas vendas de produtos de áudio. Já em 2005 tivemos uma redução de cerca de 13% em relação a 2004. E em 2006 a queda foi ainda maior”.

Rosa diz que o momento difícil do negócio do disco é mundial. Mas no Brasil a coisa é pior por fatores já bastante conhecidos. “Pirataria existe em qualquer lugar. Mas aqui o negócio é muito acima do tolerável. Houve avanços no combate aos piratas, o índice de mercado dominado pelos piratas vem caindo – de 52% em 2003 para cerca 40% em 2005. Só que esse efeito ainda não foi sentido pela indústria”. O diretor da ABPD também aponta que o número de downloads ilegais de MP3 (via programas de compartilhamento de arquivos como Kazaa e Soulseek) está aumentando, por conta da crescente inclusão digital no país, mas que este potencial mercado para venda legalizada de música ainda não desabrochou. “No exterior a venda de música online já começa a compensar as perdas com a pirataria e o peer-to-peer, o que não acontece no Brasil”.

Para além das conjunturas do mercado, Rosa não deixa de creditar às próprias gravadoras uma boa parcela da culpa pela crise. “No ano passado, tivemos poucos lançamentos importantes, poucos sucessos e poucas novidades. É sintomático: por anos seguidos, as gravadoras só vêm cortando, reduzindo investimentos, funcionários e seus elencos de artistas. Tenho sentido a falta de produtos fortes, que possam resgatar os grandes sucessos de outrora”. Sem citar nomes, o representante da ABPD diz que 2006 foi um ano de balanços “atípicos” por conta do alto número de devoluções de CDs às gravadoras – referência indireta ao escândalo que derrubou Marcos Maynard.

Schiavo classifica 2006 como um ano “complicado e deprimido” para o mercado, mas ressalta que sua gravadora foi “na direção contrária da crise”. “Tivemos um ano excelente, com o primeiro registro de lucro operacional depois de cinco anos no vermelho”, narra o diretor da Sony & BMG. O resultado é fruto de um plano de reestruturação em curso há quatro anos, durante os quais, segundo Schiavo, a companhia tratou de “enxergar a realidade no tamanho certo”. Ainda assim, toda essa antecipação não blindou completamente a gravadora, que detém o passe de grandes vendedores como Roberto Carlos, Ana Carolina, Zezé Di Camargo & Luciano e Bruno & Marrone. “Estamos quase no limite do achatamento de nossa margem de lucro; nos últimos anos, reduzimos o preço do CD em quase 16%. E não temos tido apoio do governo na luta contra a pirataria”, afirma Schiavo.

No meio desse tiroteio, os selos independentes seriam tropas de guerrilha, em comparação à artilharia pesada das multinacionais. Pequenos e sem muitos recursos, compensariam com a agilidade que falta às poderosas multis. Paulo Rosa acha que a crise não escolhe vítimas, grandes ou pequenas: “O mercado é um só. Os independentes têm uma mentalidade diferente, mas acabam enfrentando as mesmas dificuldades”. O presidente da ABMI (Associação Brasileira da Música Independente), Carlos de Andrade, tem uma visão diferente. “Aumentamos nossa participação no mercado em 2006 e ocupamos mais espaço, principalmente nos nichos onde as grandes gravadoras não entram”, diz Carlos, ele mesmo dono de um selo independente (a Visom). Ele cita casos vitoriosos em que os selos pequenos correram por fora e destronaram as grandes: “O Nordeste, por exemplo, é quase todo independente. A cena musical do Pará também. O caso da Banda Calypso é só um exemplo. No Rio Grande do Sul temos gravadoras gigantes, como a Orbeat ou a Acit”.

O termo “gigantes”, entretanto, deve ser contextualizado no caso das indies. As multinacionais ainda dominam mais de 90% do mercado. “Sabemos que nunca vamos ver a Ivete Sangalo em uma gravadora independente. Mas mais e mais grandes nomes estão saindo dos grandes selos. Com o encolhimento do mercado, gente como Alceu Valença, Chico Buarque, Djavan – ou seja, artistas já preparados para a indústria, que vendem bem e são reconhecidos – foram para a independência”. Quem se destaca no meio das independentes – em particular a Indie Records e a Deckdisc – está tentando o pulo do gato: serem reconhecidas como selos pequenos, mas capazes de abocanhar público das grandes. “A vantagem das independentes é saber que tipo de disco estão fazendo e para quem vão vender, uma noção que as multinacionais às vezes não têm”, diz, reconhecendo que, volta e meia, selos pequenos emplacam grandes sucessos. “A Deck é a major das independentes”, afirma Andrade sobre o selo carioca, que ainda cita como selos representativos a Biscoito Fino, Trama, Atração, MZA, Azul Music, Rob Digital e Dubas, dentro de um universo que abriga mais de 500 selos (cerca de 100 desses associados à ABMI).

A citada Deckdisc merece realmente o crédito do presidente da ABMI. Dominando 3,28% do mercado (números de 2005), o selo carioca tem um catálogo vasto, que vai do pop-rock ao sertanejo, e já emplacou legítimos sucessos populares como os grupos Falamansa (dois milhões de CDs vendidos) e Revelação (cerca de um milhão e meio de CDs). Foi a gravadora que mais cresceu nos últimos dez anos. Ainda assim, o presidente da companhia, João Augusto, adota um discurso cauteloso ao avaliar sua posição atual. “Tivemos um ano muito difícil, talvez o pior de nossa história”, afirma. “Nossa queda foi ainda maior que a da média do mercado, porque ativamos um plano de contingência para baixar os custos e garantir o negócio”. Ao mesmo tempo que enquadra na devida perspectiva a ascensão das independentes (“Hoje em dia não há vencedores, todos perderam alguma coisa, grandes e pequenos”), João não deixa de fazer suas apostas. “Não deixaremos de trazer novos artistas e projetos para o mercado. Temos pelo menos um sentimento de vitória por termos passado pelas tormentas sem mexer na estrutura e sem cancelar projetos”, diz.

Passado o primeiro trimestre, o ano de 2007 configura-se sombrio. “Houve uma queda de 50% nas vendas em comparação com o mesmo período do ano passado”, testemunha Alexandre Schiavo. “Para a venda de CDs, 2007 deverá ser mesmo um ano difícil”, confirma Paulo Rosa. O único consenso a que os figurões do mercado conseguem chegar é que a sobrevivência passa pela internet. “É ilusão achar que a música digital vai repor as perdas que já tivemos. Mas o segmento é importantíssimo”, resume o presidente da Sony & BMG. Em 2006, houve a chegada de duas novas megastores virtuais de música, o UOL Música e o Sonora (do portal Terra), juntando-se à pioneira iMúsica. Em 2007 entrou no ar o BaixaHits (mantido pelo grupo Jovem Pan) e o provedor de internet IG também prepara sua loja de música. Gravadoras independentes como a Deckdisc e a Rob Digital e multinacionais como a Warner também já vendem seu catálogo por meio do download pago.

Neste contexto, seria de se esperar que os principais players de venda de música online estejam animados com a expansão, certo? Mais ou menos. O download pago representa apenas 2% das receitas das gravadoras brasileiras (enquanto nos EUA, Europa e Japão chega a 10% do total). O iMúsica teve em 2006 uma média de 30 mil faixas comercializadas por mês, número irrisório diante do mais de um bilhão de canções que os internautas brasileiros baixaram sem pagar no ano passado (segundo a ABPD). “Nossa perspectiva para 2007 é positiva por um único motivo: nosso mercado ainda não existe, na prática. Então, só podemos olhar para cima”, afirma Felipe Llerena, um dos fundadores do iMúsica, primeiro site a vender (já em 2000) música pela internet no Brasil. No entanto, diferente do resto da indústria, Llerena tem motivos para comemorar pelo ano que passou. “Passamos finalmente, com a adesão da Sony & BMG e da Universal, a oferecer músicas das quatro gravadoras multinacionais. Hoje temos o maior banco digital de música brasileira à venda na internet, o que é interessantíssimo para o mercado exterior”. A animação é ainda maior quando se fala em download para telefones celulares. “Já em 2007 passaremos a vender canções full-track (músicas inteiras, em MP3 estéreo) de várias gravadoras, para todas as operadores de telefonia. Temos 100 milhões de celulares no Brasil, é um mercado que cresce a cada dia e o que é melhor – sem pirataria”, afirma Llerena.

“Estamos, como sempre, otimistas. Esperamos que as gravadoras consigam reagir em 2007”, resume, em nome da ABPD, Paulo Rosa. Multinacionais e independentes preparam suas armas, em movimentos baseados na cautela. A líder do mercado vai batalhar por mais apoio do governo. “Queremos discutir a sério a questão da isenção de impostos para CDs e DVDs, a exemplo do que ocorre com os livros. Isso possibilitaria baixar muito os preços para o consumidor”, diz Alexandre Schiavo, da Sony & BMG, ressaltando que as conversas com o governo nesse sentido ainda não deram em “nada de concreto”. Schiavo também cita a execução, em 2007, de um “plano estratégico” que, segundo ele “vai garantir o futuro da companhia” e que inclui revisão minuciosa de contratos de alto a baixo – e também a dispensa de artistas, que já abateu nomes (outrora) bons de venda como Gabriel o Pensador e o grupo Cidade Negra. João Araújo segue apostando em variados segmentos musicais (punk rock, música eletrônica, MPB instrumental), mas seguirá escorando-se no sucesso de seus nomes mais populares. “Projetávamos um crescimento para 2007. Mas vendo como o ano começou, já considero que se conseguirmos empatar nossos custos ao fim do ano, terá sido uma vitória”, diz o dono da Deckdisc. Representante do futuro do comercio musical, Felipe Llerena joga uma metáfora no debate: “Para a música digital, 2007 será um bom ano. Estamos ainda na infância: jogando bola na rua, levando topada, caindo mas sempre sorrindo, dispostos. As gravadoras tradicionais são como velhinhos que acordam cansados, com artrite, dores nas costas. Mas ainda estão aí, firmes, e ainda estarão por um bom tempo”.
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Download ilegal: a vez do contra-ataque
Jornal Musical, 17/10/2006

Em 2005, estima-se que os internautas brasileiros tenham downloadeado cerca de 1,2 bilhão de músicas ilegais, através de sites e programas de compartilhamento de arquivos. Esse número indica que o Brasil é responsável por 5% de toda a movimentação ilegal mundial de música via internet – enquanto que, no mercado fonográfico legalizado, o país está bem atrás, representando apenas 1% das vendas mundiais. Esses e outros espantosos dados levaram a ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Discos) a anunciar as primeiras 20 ações cíveis contra pessoas físicas que baixam músicas da internet no Brasil. Os processos fazem parte de um conjunto de 8 mil ações semelhantes iniciadas em 17 países, num esforço comandado pela IFPI (International Federation of the Phonograph Industry) – a organização que congrega as gravadoras e selos em nível mundial – para tentar conter a sangria de lucros causada pela troca ilegal de música em MP3.

As medidas foram anunciadas em uma coletiva de imprensa no hotel Copacabana Palace (RJ), na manhã de hoje, comandada pelo inglês John Kennedy (presidente mundial da IFPI, visto na foto acima) e por Paulo Rosa, diretor geral da ABPD – além de representantes de gravadoras, artistas e lojas de venda de música online legalizada. Paulo Rosa disse não ter detalhes específicos sobre os 20 primeiros processados brasileiros, mas traçou um perfil dos acusados: “Estamos atrás dos grandes infratores. Buscamos usuários que tenham um número grande – na casa dos milhares – de arquivos em seus computadores, permitindo que outras pessoas em todo o mundo os acessem. Todos os processados moram nas regiões metropolitanas do país”. Segundo John Kennedy, a onda global de processos cíveis deve ter um efeito educativo sobre o resto dos internautas. “É difícil acabar com o hábito de baixar música nos internautas mais experientes. Estamos fazendo progressos com as pessoas que estão começando a acessar a internet agora. Eles estão vendo os perigos potenciais do download ilegal e se recusam a usá-lo. A combinação de campanhas educativas e ações legais está funcionando”. No mundo todo, desde 2004, cerca de 2.300 pessoas já foram condenadas por download ilegal, pagando indenizações com valor médio de R$ 6.300.

O presidente da IFPI – que representa mais de 1.400 companhias grandes e pequenas – se referiu à situação do Brasil neste campo como “uma história muito, muito triste” e previu, de forma apocalíptica: “Estamos assistindo à derrocada da música brasileira, que já teve talentos tão grandes como Vincius de Morais e Ary Barroso. Quem mais sofre com a pirataria e a ilegalidade são países como o Brasil, pois sempre vai haver mercado para música cantada em inglês”.

Além das medidas júridicas, a Associação dos Produtores de Disco também lançou uma campanha de conscientização do público. Usuários de programas de compartilhamento de arquivos estão recebendo, desde a semana passada, mensagens instantâneas alertando sobre a ilegalidade de suas ações. Além disso, a ABPD anunciou o lançamento do programa Digital File Check, que detecta e desinstala programas de troca de MP3 (o DFC pode ser baixado, numa versão em português, no site www.ifpi.org/dfc/downloads/dfc.html).

As ações movidas pela ABPD se seguem a uma pesquisa encomendada pela associação ao instituto Ipsos, que levantou o perfil do brasileiro que baixa MP3 ilegalmente (veja o resultado abaixo). A pesquisa apontou que podem existir até 3 milhões de brasileiros usando redes como Kazaa, Morpheus e eMule. Esse número ajuda a derrubar ainda mais o combalido mercado fonográfico nativo. Nos primeiros seis meses de 2006, a venda de CDs teve uma queda de 16,65% em comparação com o mesmo período do ano passado, emendando com outro tombo de 20% registrado ao longo de 2005. “Somadas, as músicas baixadas pela internet só em 2005 totalizariam cerca de 75 milhões de CDs. Junto aos 40 milhões de CDs piratas vendidos ano passado, temos um cenário de 115 milhões de CDs ilegais, um número muito superior aos cerca de 55 milhões de discos vendidos legalmente”, lamentou o diretor da ABPD.

Ao mesmo tempo, o download ilegal atrapalha o nascente mercado legalizado de música online por aqui. Portais como iMusica (www.imusica.com.br), Uol (www.uol.com.br) e Terra (www.terra.com.br) e gravadoras como Warner (www.warnermusic.com.br) e Deckdisc (www.deckpod.com.br) já oferecem venda de arquivos digitais. No mundo todo já são cerca de 350 os sites de venda de música online, responsáveis por um nada desprezível total de 5,5% do faturamento da indústria fonográfica em 2005. É esse o público que a ABPD e a IFPI quer manter – e ampliar.

‘Nosso modelo ainda é sustentável’

Paulo Rosa, diretor-geral da Associação Brasileira de Produtores de Discos, defendeu na coletiva de hoje o atual formato do mercado fonográfico brasileiro – que, para muitos observadores, se auto-encurralou em um esquema à base de jabá e preços inflacionados para o consumidor. E agora precisa lutar contra a pirataria e a galopante febre do download ilegal.

Em termos práticos, como os usuários que compartilham MP3 pela internet estão sendo abordados? Existe o risco de violação de privacidade e invasão de computadores alheios?
Estamos usando as próprias redes de file-sharing para descobrir quem são os maiores uploaders (usuários que oferecem músicas), aqueles que têm mais arquivos. Programas como Kazaa e eMule permitem que descubramos o IP do usuário sem qualquer invasão – e com o IP, junto aos provedores de acesso, podemos obter os dados pessoais do internauta.

Dadas as dificuldades que as gravadoras enfrentam, não seria hora para buscar um novo modelo de venda de música ao grande público?
É claro que é muito difícil competir com a pirataria e o download. Mas nosso modelo atual ainda não ficou obsoleto. Aqui no Brasil a venda de CDs ainda é perfeitamente sustentável. Não é hora de repensar nada, e sim de fazer com que as leis sejam aplicadas.

E os exemplos alternativos? A banda Calypso vende milhões de CDs a um preço bem mais baixo que o das grandes gravadoras e não sofre com a pirataria. Já revistas como a Outracoisa conseguem lançar em bancas de jornal CDs a preços baixos.
Não sei dizer se essas gravadoras que vendem a preços baixos trabalham como os membros da ABPD – que pagam impostos e agem dentro da lei. Nós arcamos com custos de produção, direitos autorais, divulgação e outros, que encarecem o produto final. Os impostos representam 35% do preço dos CDs. Quanto à venda de CD em banca, não a consideramos uma maneira legítima de distribuir música, porque as publicações são isentas de impostos. Não é justo comparar quem vende em banca com quem vende em loja.

A gravadora Trama já se posicionou favoravelmente à liberação dos direitos autorais de seus discos, através de mecanismos como o Creative Commons. Não seria uma forma de baratear o CD?
Pessoalmente eu não entendo esse tipo de negócio da Trama. Você vai entregar de graça o conteúdo que custou dinheiro para produzir? Esse sistema não funciona. Quer dizer, quem sou eu para criticar, eles podem fazer o que quiserem – opa, já estou criticando (risos).

Qual é o formato musical do futuro? O CD vai mesmo acabar?
Há dez anos previa-se que hoje não existiria mais o CD. E ainda existe, como se vê; 75% da música mundial é comercializada em CDs. A música digital, seja em computadores, MP3 players e telefones, ainda vai caminhar por um bom tempo ao lado do CD.

Perfil do brasileiro baixador

Eis o internauta brasileiro que baixa MP3 ilegalmente:

Compõe um universo estimado em 2.995.633 pessoas, ou 8% da população maior de 15 anos nas dez principais regiões metropolitanas do país;
Na maioria (55%) é homem;
Tem bom nível sócio-cultural (67% deles estão nas classes A e B, e 69% completou ao menos o ensino secundário);
São jovens (59% têm entre 15 e 24 anos; 39% são estudantes);
O Kazaa (na foto ao lado) é o programa mais usado (63%) para baixar músicas;
Cada um deles baixou uma média de 101,3 músicas nos últimos três meses – o que dá base para o cálculo estimado de 1.187.809.461 arquivos baixados em 2005.

Entrevistas feitas com 1.209 pessoas maiores de 15 anos, das classes A, B, C e D, nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Ribeirão Preto, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Fortaleza, Recife e Brasília.
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Crises e oportunidades no mercado da música
Jornal Musical, 10/11/2006

A ironia no nome do seminário O processo da música, realizado ontem (dia 9) pela Fundação Getúlio Vargas, pode ter passado despercebida para alguns. A idéia era reunir artistas, juristas e gente da mídia para discutir, afinal, como e onde devem se posicionar compositores, gravadoras e ouvintes dentro do furacão que perpassa o mercado fonográfico atualmente – que lida com pirataria rampante, a “ameaça” dos downloads ilegais, o esgotamento de um modelo de negócios que já vem desde os anos 60 e novas propostas para a arrecadação de direitos autorais. Ao final do dia, sobressaíram algumas declarações impactantes, algumas soluções alternativas e muitas dúvidas.

Os artistas ouvidos – Marcelo Camelo (Los Hermanos), BNegão e Lucas Santanna (na foto, falando ao microfone) – demonstraram completa falta de fé no esquema “rédea curta” imposto pelas grandes gravadoras. Os anfitriões da GV, advogados membros do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação, expuseram as mudanças que os novos tempos tecnológicos impõem sobre a música (e a resistência das corporações a se adequar a essas mudanças). E os juristas e especialistas em propriedade intelectual concluiram que as leis relativas ao setor também estão em descompasso com as práticas da sociedade contemporânea.

Mas uma outra questão ainda encasquetava a coordenação do evento: debater a validade das ações cíveis movidas no Brasil contra 20 internautas que fizeram download de músicas usando programas peer-to-peer (como Kazaa, eMule e outros). E daí o porquê do nome – quando a ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Disco) convocou a imprensa para anunciar os processos, no dia 17 de outubro (leia mais aqui), nenhum dos setores que participaram do seminário na FGV foi convidado. Nem sequer um representante do Ministério Público.

“Fomos barrados no evento da ABPD. Em contrapartida, convidamos o Paulo Rosa (diretor da Associação) e o Fernando Brant (presidente da União Brasileira de Compositores) para conversar conosco, mas eles avisaram que não poderiam vir… Coincidentemente, eles tinham compromissos agendados no mesmo horário…” lamentou o advogado Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade e um dos representantes do Creative Commons (www.creativecommons.org.br) no debate.

Músicos adotam o ‘faça-você-mesmo’

Os artistas que participaram do seminário são de estilos distintos e ocupam posições variadas no mercado. Mas todos concordam em um ponto: as gravadoras tradicionais já não atendem mais às suas necessidades. Quanto às do público, nisso nem se fala. Mais bem-sucedido comercialmente dos falantes no seminário, Marcelo Camelo (na foto ao lado) usou sua trajetória para exemplificar a necessidade de mudança do modelo vigente. “O primeiro disco dos Los Hermanos vendeu mais de 300 mil cópias, em 1999. Hoje, com a banda muito mais estabelecida, mais conhecida e com uma base de fãs maior, não passamos dos 40 mil. A pirataria tem seu papel nisso, mas o fato é que o CD não representa mais para o povo o que representava há cinco, dez anos”, considera o compositor de “Anna Júlia”.

Falando na primeira das mesas redondas do dia (sob o tema “Cenários da música em vista das novas mídias”), o baiano Lucas Santanna se colocou como exemplo vivo das tais “novas mídias”. “Comecei em uma gravadora tradicional (a Natasha), depois abri meu próprio selo (Diginóis). Entretanto, só mesmo quando inaugurei meu website (www.diginois.com.br) e pus as músicas de meu terceiro álbum, 3 sessions in a greenhouse, para download gratuito no site, é que meu contato com o público ficou mais instigante – porque passou a ser mais direto”. A quem acha um contrasenso o artista “dar de graça” a música que lhe custou tempo e dinheiro para gravar e produzir, Lucas responde: “3 sessions… está vendendo muito mais rápido que meus outros discos. Em cinco meses, já ultrapassou as 1.500 cópias vendidas, algo que credito à divulgação e à interação com o público através da internet”.

BNegão é outro caso de sucesso – internacional, até – que deve tudo à grande rede mundial. Dois meses depois de lançar Enxugando gelo (2004), seu primeiro disco solo, o rapper aderiu ao esquema copyleft de direitos autorais, liberando suas músicas para quem quiser pegá-las. Desde que não haja fins lucrativos na jogada. “Se o cara baixar o disco todo, gravar mil CDs com as músicas e der para quem ele quiser, tá valendo. Se ele quiser vender um, aí não pode”, narra BNegão. A difusão das canções de Enxugando gelo mundo afora, via internet, levou o cantor e sua banda (Os Seletores de Freqüência) a se apresentarem em vários festivais na Europa – onde, como conta o próprio BNegão (na foto ao lado), “ficamos surpresos ao ver que todo mundo conhecia as músicas. Somos maiores no exterior do que no Brasil”.

Mudança na lei e não à repressão

A flexibilização dos direitos autorais também esteve em pauta no encontro na FGV. Para Carlos Affonso, do Centro de Tecnologia e Sociedade, os tempos mudaram e a legislação ficou para trás. “A lei nº 9.610/98, que rege o direito autoral no Brasil, é estrita demais e se baseia apenas em negativas – ‘não pode isso’, ‘não pode aquilo’… Isso funcionava na época em que as gravadoras centralizavam o poder de produção e distribuição de música. Isso tudo mudou. O público quer acesso amplo e interatividade no conteúdo que recebe, e a legislação não prevê nada disso”. Dênis Borges Barbosa, advogado especialista em propriedade intelectual e membro da Ordem Brasileira dos Músicos, que palestrou sob o tema “Ações judiciais contra usuários de redes P2P”, concordou. “As leis devem proteger o interesse maior do público e devem levar em conta os avanços tecnológicos. Os artistas estão se adaptando aos novos tempos e os ouvintes também. Quem está tendo problemas – e prefere apelar à lei – são os intermediários, ou seja, as gravadoras”.

O patrulhamento sobre as pessoas que baixam músicas da internet foi repudiado por todos os participantes. “A repressão é um equívoco. Não se deve pular na jugular do consumidor, e sim esclarecer a situação a ele”, disse André Barcellos, secretário-executivo do Conselho Nacional de Combate à Pirataria. “Baixar música e roubar música são coisas diferentes”, afirmou Sérgio Branco, da FGV. “As pessoas baixam MP3 por vários motivos, entre os quais está a cópia única da música para uso pessoal, sem qualquer fim lucrativo. Mas a legislação não permite. Em vários países isso é permitido, mas no Brasil não. Aqui, não é a sociedade que está à margem da lei – e sim o contrário”. O desembargador André Fontes, do Tribunal Regional Federal do Rio de Janeiro, foi ainda mais categórico. “Sou contra botar a polícia para apreender computador na casa dos outros. As gravadoras satanizam os internautas que baixam música; desde o começo dos tempos, tudo o que é diferente, inovador, é combatido por quem está no poder. Mas vai haver polícia para prender todo mundo? Não vai. E o filho do juiz federal, que também baixa suas musiquinhas? A polícia vai à casa dele, pegar seu computador? Isso não vai acontecer”.

Alguns dos petardos ditos no seminário:

“Temos hoje uma relação inócua com nossa gravadora. Elas nos tomam muito dinheiro – uns 80% de cada CD vendido – e não nos dão nada em troca. Essas ações judiciais contra quem baixa MP3 são ações de gente desesperada, de um negócio que está minguando” (Marcelo Camelo)

“Praticamente todos os departamentos das gravadoras foram fechados, menos o de marketing. Elas (as gravadoras) gostam mais de dinheiro do que de música e o errado é o cara que compra disco pirata?” (BNegão)

“Falam que pirataria é crime organizado. Ora, jabá também é crime. E é organizado!” (BNegão)

“No futuro, lançar um CD será uma opção estética de cada artista, para reunir um conjunto de canções que tenham uma afinidade. Mas o CD não será mais o formato padrão para as gravadoras” (Alexandre Matias, da gravadora Trama)

“O combate à pirataria também precisa de apoio do setor fonográfico. A repressão está indo bem, mas as gravadoras precisam conter a demanda do público pelo CD pirata – criando, por exemplo, linhas de lançamentos com preços mais baixos, destinados aos ouvintes de menor poder aquisitivo” (André Barcellos)

“Hoje em dia a música não é mais um bem – o direito sobre a música vale mais que a própria música. Isso é uma patologia” (Desembargador André Fontes)

JOY DIVISION + NEW ORDER

Maio 27, 2007

Soube que Control, o esperado filme do Anton Corbjin sobre a vida de Ian Curtis, levou dois prêmios (de menor importância) no Festival de Cannes. Pareceu-me um bom momento para resgatar essas duas matérias, que escrevi para a Rock Press, em 1999. Fiz várias biografias de bandas bacanas para a revista e pretendo postá-las por aqui, com o passar do tempo.

Publicado em duas partes na Rock Press, 1999.

JOY DIVISION – A CERIMÔNIA SEM FIM

O JD foi não só o grupo britânico mais importante a fazer a ponte entre o punk e o pós-punk; também influenciou uma cacetada de bandas, mesmo só tendo gravado dois álbuns, pelo mundo afora (incluindo diversos grupos brasileiros) e virou lenda, em 1980, graças ao suicídio de seu vocalista Ian Curtis – uma tragédia que marcou toda uma geração. Ambas as bandas ajudaram a colocar a cidade de Manchester no mapa do rock. Sem o Joy Division, o rock de hoje teria outra cara; e sem o New Order, a música pop de hoje seria diferente.

Há história, com H maiúsculo, para contar sobre as duas bandas. Vamos a ela.

I – Anarquia nas ruas de Manchester

O marco zero na história do JD/NO é o dia 20 de julho de 1976. Nesta data, a turnê Anarchy in the UK, capitaneada pelos Sex Pistols, chegava a Manchester, depois de ter tido várias datas canceladas Reino Unido afora. O show dos Pistols, aberto por duas bandas locais (Slaughter & The Dogs e os Buzzcocks, estes últimos em sua primeira apresentação), reuniu em sua platéia os quatro membros do Joy Division, embora eles não soubessem que fariam história juntos.

Bernard (ou Barney) Sumner (ou Albrecht, ou Dicken) foi ao show com seu amigo de escola Peter Hook, e a energia dos Pistols no palco foi determinante para que eles, junto com seu colega Terry Mason, resolvessem formar uma banda. Bernard, que já andava dando uns trancos em uma guitarra, convenceu que Terry assumisse a bateria, enquanto Peter comprava um baixo (mesmo sem saber nada de música). A trinca começou a ensaiar, e logo puseram um anúncio convocando um vocalista. O primeiro e único sujeito a atender a convocação foi um certo Ian Curtis.

Curtis, que contava com vinte anos na época, era uma personalidade no mínimo complexa. Ele conjugava uma vida cotidiana um tanto prosaica (já era casado e trabalhava como operário em uma fábrica de tecidos) com uma insuspeita profundidade psicológica – que se refletia em seus escritos. Ian possuía um gosto musical bem mais apurado que seus futuros companheiros de banda: era tarado por Velvet Underground, Doors, Iggy Pop, Kraftwerk e David Bowie. Quando se reuniu com Bernard, Peter e Terry (já conhecia os três de vista, de tanto ir a shows), ele já estava tentando formar uma banda, sem muito sucesso.

Apesar da falta de perícia de Terry nas baquetas, a química entre ele e a dupla guitarra/baixo ficou evidente de cara. De cara também eles não se restringiram a covers: já foram logo fazendo as primeiras músicas, as quais ficaram todas sem registro. A amizade que Ian travou com os Buzzcocks foi fundamental para dar um maior gás na nascente banda, que ainda não tinha nome. Uma primeira sugestão (vinda de Richard Boon, empresário dos Buzzcocks) foi Stiff Kittens (“gatinhos duros”) e não chegou a ser aceita pelos quartetos. Pouco depois do primeiro show – no dia 29 de maio de 1977, no Electric Circus de Manchester, junto com os Buzzcocks – o grupo se decidiu pelo nome de Warsaw, extraído da canção “Warsawa”, de David Bowie.

Após a saída de Terry, outros dois fulanos ocuparam a bateria antes da chegada de Stephen Morris, que atendeu a um anúncio visto na vitrine de uma loja de instrumentos musicais. Stephen vinha da mesma cidade que Curtis, a pequena Macclesfield, satélite de Manchester. Com sua entrada, ficou claro que esta seria a formação definitiva para o Warsaw. E foi já com essa formação que o grupo registrou sua estréia em vinil, participando da coletânea Short Circuit, gravada ao vivo no Electric Circus em outubro de 77, e só lançada em 78. A música escolhida foi “At a Later Date”.

II – A divisão da alegria ingressa na fábrica

Em dezembro de 77, o Warsaw gravou quatro canções para serem lançadas num EP, manufaturado e distribuído (precariamente em ambas atividades) pela própria banda. No entanto, antes do disquinho finalmente sair – e se chamaria An Ideal For Living - a banda mudaria seu nome para Joy Division, procurando evitar confusões com o grupo londrino Warsaw Pakt. O nome escolhido veio das infames “divisões da alegria” mantidas pelos nazistas nos campos de concentração, que eram casas onde as moças judias eram obrigadas a prostituir-se para os oficiais da SS. Seria a primeira de várias acusações levantadas contra a banda, que estaria supostamente fazendo elegias ao nazismo. Os membros do grupo nem se deram ao trabalho de responder…

Depois de fazerem seu primeiro show como JD (janeiro de 78), os quatro rapazes entraram em estúdio em maio, com a intenção de gravarem uma demo para seu primeiro álbum, uma vez que já existiam alguns selos (até mesmo a major RCA) interessados. O resultado das sessões foi um tanto decepcionante para o grupo, e a gravação acabou sendo arquivada. Mas não por muito tempo: as fitas gravadas emergiram depois como o legendário pirata Warsaw. No disco (hoje, disponível em CD), pode se ouvir a clara evolução do grupo, desde sua formação: do punk rock cru e acelerado de 77, o quarteto já havia avançado para um som mais climático e menos óbvio, ainda que necessitando de polimento. As letras de Curtis discorriam sobre solidão e abismos existenciais, enquanto o trio instrumental descia o couro nos arranjos. Músicas como “Leaders of Men”, “No Love Lost”, “Warsaw” e “Transmission” (esta última, regravada) surgiriam anos mais tarde em discos oficiais do grupo.

Dessa época data o início da associação do grupo com Tony Wilson, que então era um produtor de TV e empresário de shows em Manchester, mas que acalentava planos de manter sua própria gravadora. O sonho de Wilson se concretizou com a fundação da Factory, junto a Peter Saville (autor das capas dos discos do Joy Division e New Order), Martin Hannett (produtor de todos os discos do JD) e Rob Gretton (road manager do New Order até hoje). O primeiro disco da Factory, o EP A Factory Sample, contém duas faixas do JD: “Digital” e “Glass”, já produzidas por Hannett. Depois que contatos com a RCA e com a Warner não deram em nada, o quarteto resolveu ficar em Manchester mesmo e lançar seus discos pela Factory.

Em janeiro de 79, as coisas finalmente pareciam começar a andar para a banda – eles já estavam conseguindo se apresentar em Londres, Ian Curtis ocupou a capa do jornal londrino NME e em março os quatro abriram um show do The Cure. Não que tudo fossem rosas: também nessa época, Curtis foi diagnosticado como epiléptico, o que o obrigou a depender de fortes medicamentos. Suas experiências com os ataques da moléstia o inspiraram a escrever a letra de “She’s Lost Control”, uma das mais memoráveis músicas do JD.

Maio de 79 viu o lançamento de Unknown Pleasures, o primeiro álbum do Joy Division. Junto a Martin Hannett, a banda fez com que seu som simplesmente não se parecesse com nada já escutado. Hannett jogou o baixo (agudo e melódico) e a bateria (cheia de viradas e eco) à frente da mixagem, deixando as guitarras no fundo, como uma massa de distorção e reverberação. No meio de tudo, vinha a voz impressionante de Curtis, descortinando um panorama de desolação e desordem mental. As músicas que vinha sendo buriladas nos shows (“Disorder”, “Shadowplay”, “Interzone”, “Wilderness”) ficaram irreconhecíveis – e magníficas. O quarteto dava vários passos adiante das limitações do punk rock, refogando influências tanto dos mais importantes artistas “proto-punks” (Lou Reed, Stooges, MC5) quanto dos sons experimentais que Curtis ouvia (Kraftwerk, Can, Bowie fase Low e Heroes). O disco foi instantaneamente glorificado pela crítica, e logo o JD era a sensação da cena independente inglesa. Seus shows, agora com a banda mais afiada, se tornavam cada vez mais concorridos. Apesar de tudo, o grupo corria da superexposição como o diabo da cruz; dessa época vêm os informes sobre a “intratabilidade” dos quatro em relação à imprensa.

III – Mais perto, mais perto

Em setembro de 79 o grupo apareceria na TV para toda a Grã-Bretanha pela primeira e única vez (tocando “Transmission” e “She’s Lost Control” no canal 2 da BBC), e em outubro partiriam para uma bem-sucedida turnê pelas ilhas britânicas com os Buzzcocks. Isso aumentaria ainda mais o bochicho em torno da banda, que partiria para sua primeira turnê pelo continente europeu em janeiro de 80. Na volta para casa, o culto ao grupo já tinha crescido ao ponto do aparecimento de dezenas de piratas, gravados de seus shows. Em março, os quatro entrariam em estúdio para registrar as canções do seu segundo álbum. As coisas corriam bem para a banda, mas não para Ian. O cantor teve sua epilepsia agravada, ao ponto de sofrer um ataque em pleno palco, durante um show em Londres, em abril de 80. Dias mais tarde, foi internado após uma overdose de medicamentos. O ritmo intenso de trabalho do grupo, diversos problemas pessoais e a obrigação de depender de remédios deixaram Ian muito estressado, de forma que tiveram que adiar vários compromissos ao vivo. Só que o bonde não podia parar: o JD já estava com sua primeira excursão à América agendada, para o dia 20 de maio de 1980.

Além disso, voltaram ao horizonte do quarteto as conversações com a Warner Bros. No dia 2 de maio, o grupo faria sua última apresentação ao vivo (ainda que não soubessem disso), em Birmingham. No dia 18 de maio, Curtis fez com que sua esposa Deborah fosse dormir na casa dos pais, e partiu ele mesmo para a casa de seus pais. Ele passou a tarde ouvindo Iggy Pop e à noite assistiu ao filme Strosek, de Werner Herzog. Depois recolheu-se. Foi encontrado enforcado com um lençol, em seu quarto. Ian faria 24 anos em dois meses; e deixou além da esposa uma filhinha. Numa nota sobre a cama, uma frase: “Não posso suportar mais”.

Diversas razões podem ser apresentadas para um ato tão extremo. Ian vivia nos últimos meses de sua vida uma profunda depressão, agravada pelo estafante trabalho com o JD (ele chegou a cogitar de desistir do grupo, o que talvez salvasse sua vida). No entanto, determinante para o suicídio de Ian foi a crise conjugal que ele e Deborah enfrentavam. O vocalista mantinha um relacionamento com uma jovem belga chamada Annik Honoré, a quem conheceu durante a turnê européia do JD e que passou a acompanhá-lo todo o tempo. Ian torturava-se de culpa por estar traindo Deborah, mas ao mesmo tempo não conseguia abandoná-la. A dilacerante letra de “Love Will Tear Us Apart” reflete bem o estado de espírito do cantor.

Em junho de 80, finalmente sairia Closer, o sucessor de Unknown Pleasures – e, que devido à tragédia que se abateu sobre a banda, tornou-se um dos álbuns mais ansiosamente aguardados de todos os tempos. Mais uma vez produzido por Martin Hannett, o grupo deixou seu som ficar ainda mais desolado e esparso. Sintetizadores e ritmos eletrônicos (“The Eternal”, “Decades”, “Isolation”) deram as caras, em meio à peculiar barragem sonora produzida pelo trio de instrumentistas (como em “Atrocity Exibition” ou “Colony”). O suicídio de Ian contribuiu para deixar o tom geral do disco ainda mais “down” e depressivo. O que não impediu que o grupo atingisse pela primeira vez o Top Ten inglês com Closer, e que o single de “Love Will Tear Us Apart” batesse na 13ª posição.

Já em 1981, a Factory lançaria o LP duplo Still, que compilava sobras de estúdio do quarteto num disco e no outro editava o agora mitológico concerto de 2/5/1980, o último do grupo. A intenção da gravadora foi barrar a fome dos piratas, que tinha atingido níveis estratosféricos após a morte de Curtis. Em 1988, a coletânea Substance 1977-1980 também reunia alguns lados-B e faixas raras, um repertório revisado em 95 com outra coletânea (Permanent, que incluía uma versão remix para “Love Will Tear Us Apart”). Mas todo o legado do Joy Division só teria seu “sarcófago” definitivo com o lançamento do box quádruplo Heart and Soul – oitenta faixas, juntando praticamente tudo o que o grupo registrou.

A história do JD acaba aqui. Mas há outra história que se inicia pouco depois da morte de Ian, mais exatamente no dia 29 de julho de 1980. Foi quando um trio de instrumentistas, remanescentes de um grupo que havia há pouco ficado sem vocalista, subiu ao palco pela primeira vez. O nome do novo grupo era New Order…


NEW ORDERA história do New Order começou no dia 18 de maio de 1980 – a data do suicídio de Ian Curtis, vocalista do Joy Division. Curtis se matou quando o grupo se preparava para sua primeira turnê norte-americana, e parecia ter um futuro brilhante à frente. Depois do choque com a tragédia, Bernard Albrecht, Peter Hook e Stephen Morris resolveram seguir adiante, mas já como uma nova banda, que continuaria afiliada à Factory Records.Foi em julho de 1980 que o trio estreou nos palcos, fazendo alguns shows sem muita divulgação no Norte da Inglaterra e cumprindo (já como New Order) algumas datas da turnê cancelada do Joy Division. Bernard – que resolveu trocar seu nome de Albrecht para Sumner, o sobrenome de solteira de sua mãe – assumiu, relutantemente, os vocais, depois de alguns ensaios com Morris e Hook cantando. Ele também seguiria como letrista principal.O nome do novo grupo foi sugerido por Rob Gretton (empresário do JD e que continuaria com o New Order até sua morte, em 1999). Gretton se inspirou num artigo de jornal que falava da “Nova ordem do povo de Kampuchea”, um país do Sudeste Asiático. O nome parecia adequado para um grupo que estava buscando uma nova direção depois de um tremendo baque.Curiosamente, New Order foi o nome escolhido pelos membros remanescentes dos Stooges, quando tentaram decolar sozinhos, sem Iggy Pop, nos anos 70. É bem provável que Albrecht, Hook e Morris, grandes fãs de Iggy, tivessem conhecimento do grupo. Outros nomes sugeridos foram Sunshine Valley Dance Band, The Eternal (nome de uma música do JD) e, como piada, Stevie and The JDs (na época em que Morris assumiu os vocais do grupo). Como já havia acontecido com o Joy Division, o nome New Order rendeu ao trio suspeitas de simpatias com o neonazismo – terminantemente negadas, sempre.

Na volta para a Inglaterra, ainda em 1980, a formação do New Order foi completada com a adesão de Gillian Gilbert, a jovem namorada de Stephen Morris. Rob Gretton foi quem sugeriu que a moça entrasse no grupo, pois – nas palavras de Stephen – “procurávamos alguém que soubesse tocar ainda menos que nós”. Gilliam entrou para tocar teclados e eventualmente guitarra. Isso foi providencial, pois Bernard ainda achava muito difícil tocar e cantar ao mesmo tempo.

Em março de 1981, a Factory soltou o primeiro single do New Order, composto por duas músicas remanescentes do Joy Division: “Ceremony” e “In a Lonely Place”. O single tinha sido gravado apenas por Sumner, Hook e Morris, durante a turnê nos EUA, e meses mais tarde seria relançado (com uma nova versão de “Ceremony”, já com Gillian na segunda guitarra). Enquanto o quarteto seguia fazendo shows pelo Reino Unido, tratava de trabalhar no primeiro álbum, Movement, produzido pelo mesmo Martin Hannett que gravou os discos do Joy Division. O disco foi lançado em setembro de 1981.

Tanto “Ceremony”/ “In a Lonely Place” quanto o álbum Movement mostravam um New Order ainda subjugado pela sombra do Joy Division. Canções como “Truth”, “Senses” e “Doubts Even Here” tinham vocais soturnos, melodias sincopadas e sombrias, e uma sonoridade ainda muito ligada ao som do Joy. A surpresa maior foi “Dreams Never End” – com Peter Hook nos vocais – que trazia uma pique mais pop. Apesar de conseguir relativo sucesso de vendas, o disco foi mal recebido pela crítica. O álbum marcou o fim do relacionamento do grupo com Martin Hannett; descontente com o resultado das gravações, o quarteto chegou até a pensar em refazer todo o disco, mas o custo seria proibitivo.

Entretanto, o mesmo Hannett também produziu o single “Everything’s Gone Green”, gravado ao mesmo tempo que Movement, mas que trazia um som bem diferente – já com o uso de sintetizadores e batidas programadas. O single, lançado ainda em 1981, dava pistas do interesse crescente do grupo pela cena eletrônica nova-iorquina (com o então nascente electro-funk de Africa Bambaataa, e o também engatinhante hip hop) e pelo technopop do Kraftwerk (que já influenciara o Joy Division também). Inesperadamente, “Everything’s Gone Green” tornou-se um hit nas pistas de dança americanas, mesmo sem conseguir grande sucesso nas paradas.

O New Order seguiu em 1982 fazendo sua primeira turnê européia, na qual cristalizaram sua imagem de “grupo difícil”. Nunca tocavam mais do que quarenta e cinco minutos, não davam bis (que consideravam “insultos à paciência do público”) e nem aceitavam pedidos de músicas – muito menos se fossem canções do Joy Division. Naquele ano, o grupo só lançaria um único single, o suficiente para redefinir sua carreira: de depressivos herdeiros do sombrio legado de Ian Curtis para um grupo pop e luminoso.

“Temptation” tinha uma melodia perfeita (incluindo, para horror dos fãs puristas do JD, um refrão!), uma batida dançante e misturava guitarras com linhas de sintetizadores. Aclamado pela crítica, o compacto também fez sucesso nas casas noturnas, deixando claro o potencial do NO para o pop dançante. Interessados no cenário pós-disco da noite nova-iorquina, o quarteto amigou-se com produtores e artistas da cena eletrônica americana, e voltou para Manchester cheio de idéias – a ponto de topar abrir, junto a Tony Wilson (da Factory) sua própria boate, o Hacienda. O clube existe até hoje, tendo tido seu auge de popularidade na época da acid house, em 1988-89 – e até hoje o NO é sócio da casa.

O ano de 1983 foi crucial para que o New Order se transformasse, ao mesmo tempo, na mais influente banda a unir rock e música eletrônica e também o mais importante grupo independente dos anos 80. O quarto single da banda, “Blue Monday”, acabou se tornando o elo perdido entre os primórdios do pop sintetizado (Kraftwerk) e o rock da década de 80, e é possivelmente a canção que mais influenciou o cenário eletrônico da época – dos criadores do techno e da house em Detroit, aos DJs ingleses que inventaram a acid house no fim dos anos 80.

O gozado é que a música nasceu de uma experiência/brincadeira que Stephen Morris estava fazendo com uma nova bateria eletrônica… O vocal “deadpan” de Bernard e o baixão agressivo de Hook, marca registrada do grupo, se mesclavam de forma surpreendente aos beats e aos timbres sintéticos fornecidos por Gillian. A “brincadeira” chacoalhou pistas de dança nos dois lados do Atlântico e até hoje permancece como o single de 12 polegadas (do tamanho de um LP normal, próprio para o mercado de DJs) mais vendido da história, com mais de três milhões de cópias passadas adiante.

As reações a “Blue Monday” foram ambíguas. Ao mesmo tempo em que a moçada clubber caiu de boca no disco e elegeu o New Order como a sensação da hora, a comunidade indie inglesa torceu o nariz. Dance music era palavrão para os filhotes do pós-punk, e alguns antigos fãs do JD se rasgaram de raiva ao ver o grupo se dando bem com um som “alegre” e “eletrônico”. Para complicar tudo, o New Order não tinha mudado sua postura pública em relação aos tempos do JD.

Continuavam avessos à superexposição, dando poucas entrevistas e mantendo uma imagem sóbria, misteriosa (“Blue Monday”, por exemplo, tinha uma capa toda preta, imitando uma embalagem de disquete de computador, sem qualquer crédito à banda). A fidelidade à gravadora Factory também tornou-se uma marca do grupo, que insistia em permanecer independente apesar do sucesso que batia à sua porta.

Ainda em 1983, o grupo lançou Power Corruption and Lies, seu segundo álbum, e o primeiro (quase) completamente livre da influência do Joy Division. Os temas soturnos das letras cederam lugar a observações mais informais e irônicas; as melodias estavam cada vez mais redondas; a voz de Barney, afinal mais confiante, tinha sido puxada para o primeiro plano na mixagem; e o uso de sintetizadores dominava os arranjos.

Músicas como “Age of Consent” e “586″ eram feitas de encomenda para a dança, mas a banda também arriscava uma belíssima balada eletrônica (“Your Silent Face”, inspirada abertamente na melodia de “Europe Endless”, do Kraftwerk) e passagens mais soturnas e “dark” (a sofrida “We All Stand”).

A incursão do New Order ao território inexplorado da dance music não se esgotaria apenas em “Blue Monday”. Ainda em 1983 o grupo se juntaria ao produtor nova-iorquino Arthur Baker para compor e produzir “Confusion”, outro hit mundial, fundindo o estilo melódico do grupo com uma intoxicante base electro-funk. Junto a Baker, o quarteto ainda faria outra canção, completamente diferente – “Thieves Like Us”, canção romântica movida a doces sintetizadores. Na turnê feita para promover Power Corruption and Lies, o New Order finalmente começou a tocar uma ou outra música do Joy Division (como “Love Will Tear Us Apart” e “Atmosphere”). A longa excursão manteria os rapazes longe da grande mídia, preparando-se para gravar seu terceiro álbum – o grupo já era notoriamente lento no estúdio, fazendo questão de deter-se nos mínimos detalhes.

O álbum que surgiria em 1985, Low-Life, era um grande passo adiante em relação a Power Corruption and Lies, e colocaria o grupo ainda mais perto do sucesso de massa. O New Order encontrava-se mais refinado do que nunca em seu terceiro álbum. Canções roqueiras de melodias trabalhadas e cativantes (“Sooner Than You Think”, “Love Vigilantes”) se alternavam a faixas experimentais, misturando eletrônica e rock (“The Perfect Kiss”, “Subculture”). O mesmo álbum incluiria a magnífica “Elegia”, climático instrumental de rara beleza. A capa do disco seria motivo de mais surpresa, pois trazia – pela primeira vez – fotos dos membros do grupo, em super close-up. Low-Life seria o primeiro disco do New Order a sair no Brasil, com dois anos de atraso.

O grupo lançaria também versões diferentes em single de “The Perfect Kiss” (esta com o dobro da duração da gravação original) e “Subculture” (incluindo vários remixes diferentes, em uma época na qual esse expediente ainda não era comum). Outros dois singles mirando as pistas de dança, “Shellshock” – que estourou nos EUA ao ser incluída na trilha do filme A Garota de Rosa-Shocking – e “State of The Nation” completariam a prolífica fase do grupo nos estúdios. No fim de 1986, eles soltariam o quarto álbum, Brotherhood.

Explicitamente dividido em uma metade roqueira e outra eletrônica, o disco trazia canções excelentes como “Paradise”, “As It Is When It Was” e “Way of Life”, a dançante “Angel Dust” e as climáticas “Every Little Counts” e “All Day Long”. Também inclusa no disco estava “Bizarre Love Triangle”, outro sucesso mundial. Na época do lançamento de Brotherhood, a crítica inglesa o comparou desfavoravelmente a Low-Life, e surgiram rumores que o álbum teria sido completado e lançado às pressas para cobrir a periclitante situação financeira da Factory.

Verdade ou não, o NO seguiu firme e forte, enigmático como sempre e mais dançante do que nunca. Conseguiram um novo hit com o single “True Faith” (produzido e composto em colaboração com Stephen Hague, parceiro dos Pet Shop Boys) e em 1987 finalmente atingiram seu primeiro disco de platina nos EUA (um milhão de cópias vendidas), com as vendas da compilação Substance. Originalmente um vinil duplo, o disco coleta em suas 12 faixas os lados-A dos singles da banda – ou seja, canções que nunca haviam aparecido em seus álbuns oficiais. O CD também é duplo e traz de bônus os respectivos lados-B dos compactos, num total de 24 faixas. A evolução do som do grupo fica clara ao ouvirmos a coletânea – do rock cru e dissonante de “Ceremony” ao límpido pop eletrônico de “True Faith”, seis anos de frutífera produção rolaram. A versão CD é indispensável, visto que os lados-B do grupo passam longe de serem apenas sobras de estúdio: canções excepcionais como “Procession” (1982), “The Beach” (1983) e “1963″ (1987, relançada como single em uma nova versão em 1994) provam isso.

Uma longa turnê pelos EUA, com o Echo & The Bunnymen, foi o meio encontrado pelo New Order para ajudar na divulgação de Substance. Àquela altura, o grupo já era o patrono indiscutível do rock indie inglês, abraçando alegremente o superestrelato que tinha sido recusado pelos Smiths. Ao vivo, o New Order se encontrava mais entrosado e à vontade que nunca, como pôde ser comprovado pelos brasileiros (o grupo esteve por aqui no final de 1988). O quinto álbum já estava todo gravado quando o NO tocou no Brasil, e foi precedido pelo lançamento de “Blue Monday’88″, versão renovada da música de 1983, remixada por Quincy Jones.

Technique saiu no começo de 1989 e logo foi aclamado pelos ingleses como o melhor trabalho do grupo. Muito influenciados pelo estouro da acid house e por suas passagens pela cena clubber de Ibiza (Espanha), Bernard, Hooky, Morris e Gillian dispararam petardos direto para as pistas (“Fine Time”, “Mr.Disco”, “Round and Round”) e reuniram uma bela coleção de canções acústicas (“All The Way”, “Love Less”, “Run”). O padrão de divulgação para o disco seguiu como sempre: uma longa turnê, mais singles (“Round and Round” e “Run” foram lançados) e passagens ocasionais pelo Hacienda, que fervia no auge da acid.

Apesar do grupo estar fazendo mais sucesso do que nunca, eles estavam precisando de novos horizontes. Isso gerou rumores sobre a iminente dissolução do grupo, que já haviam surgido antes do lançamento de Technique. Bernard Sumner já estava dando corda total a sua nova parceria com Johnny Marr (ex-Smiths): o duo Electronic. Enquanto Sumner e Marr compunham, discretamente, as músicas que estariam em seu primeiro álbum, o New Order reuniu forças com a seleção inglesa de futebol para gravar o single “World in Motion”, que serviu de tema oficial para o time britânico na Copa de 1990. O compacto foi o maior sucesso da carreira da banda (e a única vez em que chegaram ao número 1 da parada mainstream).

Logo após “World in Motion”, o New Order resolveu se separar, sem dissolver oficialmente o grupo. Foi cada um para um canto. Bernard e Marr lançaram o disco epônimo do Electronic, em 1991, com participação dos Pet Shop Boys e fazendo um som bem próximo do New Order de Technique.

Peter Hook formou o grupo Revenge, cantando e tocando baixo. A banda lançou também em 1991 o disco One True Passion (eles chegaram a tocar no Brasil, em 1993) – e que igualmente não se distanciava muito da sonoridade do NO, com um drive mais roqueiro. Gilian e Stephen assumiram o irônico pseudônimo The Other Two, soltando em 91 o álbum Tasty Fish e, em 93, Selfish. A dupla voltou-se para um lado eletrônico mais radical, mirando as pistas.

Afinal, em meados de 1992, o New Order se reuniu para registrar seu sexto LP. Por ironia do destino, enquanto o grupo gravava, junto a Stephen Hague, o que viria a ser o álbum Republic, a gravadora Factory quebrou – vitimada por um estilo “generoso” de administração, múltiplos prejuízos e, em grande parte, pelo hiato nos lançamentos do New Order, eternos campeões de vendas do selo. Não chegou a ser problema para o grupo arranjar uma nova gravadora; o selo London venceu a disputa pelo passe da banda e em abril de 1993 saía “Regret”, o primeiro single do New Order fora da Factory.

Republic logo se seguiu e o mundo provou que estava com saudade do grupo: o disco consagrou-se como o maior hit internacional da banda. A boa conjunção eletrônica + guitarras de Technique se repetiu, com uma maior ênfase nas programações (em faixas como “World”, “Everyone Everywhere” e “Spooky”). Logo após uma turnê pela Europa e EUA, mais uma vez cada qual voltou para seu canto. Novos rumores de conflitos internos deixaram os fãs aflitos, enquanto o grupo entrava em um longo período de férias.

Bernard seguiu com o Electronic, que se provou com o passar do anos ser tão “low profile” quanto o New Order. Depois do primeiro álbum, em 1991, o grupo só viria a lançar o segundo em 1996: Raise the Pressure, com participação do ex-Kraftwerk Karl Bartos. Um terceiro disco, Twisted Tenderness, chegaria às lojas em 99. O Revenge foi capengando – detonado pela crítica – até 1996, quando Peter Hook formou o Monaco. De modo nada surpreendente, o disco Music For Pleasure também se inspirava muito no New Order. Gilian e Morris casaram-se oficialmente em 1994 (consta que nem Bernard nem Hook foram convidados à cerimônia) e seguiram, como The Other Two, produzindo música para programas da TV inglesa.

Enquanto isso, o front do New Order viu o lançamento de duas coletâneas: The Best of…, em 1994 – com um repertório bem parecido com o de Substance – e The Rest of…, contendo remixes e versões alternativas. Em 1998 o grupo afinal se reuniu para as primeiras apresentações ao vivo, incluindo o famoso show no reveillon de 1999 em Londres. Em 2000, saiu a primeira gravação inédita do New Order desde 93: “Brutal”, incluída na trilha sonora do filme A Praia, de Danny Boyle (Trainspotting). E em 2001, a banda apresentou-se no Festival de Reading, com o ex-Smashing Pumpkins Billy Corgan (que nunca escondeu sua admiração pelo New Order) na guitarra.

DA AMAZÔNIA À URCA, VIA CALIFÓRNIA: AS AVENTURAS DE JOÃO DONATO

Maio 27, 2007

Publicado no Jornal Musical (03/04/2007).

É tempo de João Donato, mais uma vez. Aliás, é tempo de Donato há quase 60 anos, se pensarmos que o compositor, cantor, arranjador e multiinstrumentista tem como marco inicial de sua carreira profissional o ano de 1949. Ou antes ainda, se navegarmos mais longe no tempo, voltando à época em que, garoto em Rio Branco (AC), já arriscava os primeiros precoces dedilhados no acordeon. E também agora. Comprovando sua proverbial capacidade produtiva, Donato acaba de lançar simultaneamente dois discos bem diferentes. Uma tarde com Bud Shank & João Donato (Biscoito Fino) promove o reencontro do brasileiro com o saxofonista norte-americano Shank, 42 anos depois do lançamento de Bud Shank & his Brazilian friends (1965). E O piano de João Donato (Deckdisc) marca a estréia do músico no formato de piano solo, reinterpretando músicas que marcaram sua trajetória. Em um agradável fim de tarde, João abriu sua casa na Urca (Zona Sul do Rio de Janeiro) para falar do presente e do passado de sua carreira. E também para explicar como os dois novos discos se encaixam dentro de sua visão pessoal sobre a música – a qual, passados tantos anos, segue a mesma.

“Nesses anos todos meu método não mudou muito. Todas as músicas, na verdade, se parecem umas com as outras. Tem as sutilezas do desenho, os traços individuais de cada um, mas não saem muito desse esquema. Se ficar muito diferente, ninguém entende”, explica Donato, 72 anos. Tanto o disco de jazz que gravou com Bud Shank quanto o álbum de piano solo seguiram a lógica descontraída e improvisada que marca o trabalho do compositor. “Em 2004 reencontrei o Bud no festival Chivas Jazz, aqui no Rio. Desde os anos 60 nós só nos víamos esporadicamente. Perguntei na cara: ‘quer gravar um disco?’ Então tá, fomos lá. Ficamos um sábado e um domingo gravando, às pressas, de uma hora para outra. Tem faixas que não têm baixo nem bateria, porque não deu tempo de achar gente para nos acompanhar. Bud declarou que rememorou vários episódios de sua vida, fez umas viagens durante as gravações. Ele disse que nunca tinha ido tão longe. Foi muito animador”, narra Donato.

O piano… é um disco de memórias musicais, mas nem por isso Donato abdicou de seu approach espontâneo. “São músicas que eu gosto de ouvir, que acho bonitas. Há muito tempo, desde quando era adolescente, essas músicas me chamavam a atenção”, diz o compositor, referindo-se aos temas de autores como Stan Kenton, Neil Hefti e Horace Silver que estão no CD. “Eu chegava no estúdio e tocava o que me desse na telha. E depois não me lembro o que entrou e o que ficou de fora. Não foi um disco planejado. Não pensei ‘Ah, o que eu devo tocar?’ Eu dizia: ‘Vamos gravar ‘Manhã de carnaval’ e gravava. Tinha um cardápio de umas 20 canções, mas acabam entrando outras, algumas até que não existiam… Sempre gravei assim. Já no Muito à vontade (de 1963) tem várias músicas que eu fiz na hora no estúdio”.

A figura de Donato é tão associada ao piano que é difícil acreditar que só agora ele gravou um disco solo ao instrumento. Sucessos como “A rã” (com Caetano Veloso), “Bananeira” ou “Amazonas” (com o irmão Lysias Ênio) são tão conhecidos pela batida inconfundível do pianista quanto pela melodia vocal. Mais surpreendente é relembrar que, nos primeiros anos de sua carreira, Donato era especialista em acordeon. Mas, segundo ele mesmo lembra, o piano sempre esteve por ali, rondando. “Quando eu acordava de manhã – eu dormia em rede, no Acre, não tinha cama – ouvia minha irmã Eneyda tocando escalas no piano. E eu passava por ali e ficava brincando, passando a mão nas teclas”.

Além dos estudos da irmã, as possibilidades musicais eram rarefeitas – lembrem-se que estávamos nos confins da Amazônia, na década de 30 do século passado. “Eu comecei a tocar o acordeon porque era o que havia. No Acre a única referência era a banda do Exército, que tocava marchas militares, aos domingos, na praça. Eu ganhei de Papai Noel uma sanfoninha de brinquedo. Meu irmão (Lysias Ênio) também ganhou uma. Só que ele pegou a dele e abriu para ver de onde saia o som. E eu saí tocando. Tocava ‘Tatu subiu no pau’, ‘Ciranda cirandinha’. Se impressionaram com aquilo e foram me dando acordeons melhores”. Antes disso, Joãozinho brincava com flautas de bambu e batucava em panelas. Aos 11 anos, quando chegou ao Rio de Janeiro, já manejava um instrumento profissional, de 120 baixos, com o qual começou a tocar em festas da turma do colégio.

De acordeon em punho, mas cada vez mais interessado no piano (“O piano te dá a liberdade. Não é aquele trambolho pendurado no pescoço”, compara), Donato compatibilizava o amor por Luiz Gonzaga (“Meu maior ídolo, sempre foi e sempre será”) com as descobertas no campo do jazz e das big bands americanas, absorvidas no contato com as novas amizades cariocas. Entronizou-se no Sinatra-Farney Fan Club, núcleo proto-bossanovístico por onde passaram Johnny Alf, Paulo Moura, Dóris Monteiro e Nora Ney. Nessa época, virada dos anos 40 para os 50, abandonara os estudos (para horror do pai, major da Aeronaútica) e alternava a carreira de instrumentista profissional, na Rádio Guanabara, com uma incipiente boemia musical – formando os grupos Os Modernistas e, depois, os Namorados.

“Isso tudo foi antes da televisão…” lembra Donato. Em 1949, participa de sua primeira gravação. “O Altamiro Carrilho ia gravar seu primeiro 78 RPM. Nós eramos colegas, assistíamos os ensaios um do outro. Demos uma ensaiadinha e gravamos ‘Brejeiro’. É bonito até hoje. Tinha também o César (Faria) – o pai do Paulinho da Viola – no violão”. No começo da década de 50, já assinando como Donato & Seu Conjunto, mas sem deixar os Namorados, lançaria mais discos de 78 RPM; gravaria o primeiro álbum, Chá dançante, produzido por Tom Jobim, em 1956; e teria em “Minha saudade” a primeira composição sua a ser gravada, por Luís Bonfá.

Enquanto isso, sua reputação de inconformista (musicalmente e no comportamento) crescia no Rio. As noitadas que ele comandava na boate do Hotel Plaza, a partir de 1957, ficaram famosas. Mas a indisciplina de Donato e sua iconoclastia como músico – incorporando harmonias novas, dissonantes e síncopes que entortavam todos os gêneros, do baião ao samba – o tornaram um estranho no ninho, “Eu sempre gostei de música mais dissonante, mais exótica, sofisticada, sei lá como se qualifica. Aqui eu estava travado. Teve uma momento em que eu não conseguia mais nem dar canja em boate. Os gerentes diziam que minha música era anti-comercial. Mesmo depois do sucesso da bossa nova, o horizonte estava muito fechado”, considera.

Foi quando transferiu-se para a América do Norte. Em 1959, viajou para o México acompanhando o amigo Nanai (ex-Namorados) e de lá partiu para Los Angeles (EUA). Em três anos, correu o circuito das orquestras de música latina, onde trocou o acordeon e o piano pelo trombone. “Tinha ido para tocar jazz, melhorar minha técnica. Cheguei lá e procurei o jazz e cadê? Não tinha. Lugares para tocar jazz eram um ou dois, com centenas de músicos querendo um espaço… Então cada um tocava em uma orquestra latina, pra trabalhar. Não faltava emprego. O que eu ia fazer? Fui tocar com eles. Quando em Roma… (risos)” A temporada foi proveitosa, pois Donato incluiu mais uma influência – a dos sons afro-caribenhos – à sua musicalidade. “Fui para melhorar e melhorei, mas não do jeito que eu esperava. Eu já levava uma simpatia pela música cubana, quando eu a encontrei pessoalmente (risos) foi sopa no mel. Toquei com Mongo Santamaria, Tito Puente…”.

Nos anos 60, Donato viu a turma da bossa ganhar o mundo. Mas seu caminho era outro, sempre perseguindo suas revoluções pessoais. Gravou dois discos no Brasil (Muito à vontade e A bossa muito moderna de João Donato & seu trio) que ajudaram a definir o samba-jazz. De volta aos EUA, onde ficaria entre 1963 e 1972, finalmente seria aceito pela elite jazzística. “Corri várias companhias com o acetato do Muito à vontade, para ver se interessava a alguém. Ninguém queria meu disco, ninguém estava interessado naquele assunto – piano, baixo e bateria tocando coisas minhas, um brasileiro desconhecido. Até que fui à Pacific Jazz, por onde gravavam Chet Baker, Gerry Mulligan, Laurindo de Almeida. Lá houve empatia maior e o diretor da gravadora disse: ‘Gostei do seu trabalho, mas vai depender dos outros músicos te aceitarem. Não dá para ir lançando seu disco assim direto, do nada. E por acaso vou me encontrar com Bud Shank amanhã. Se ele gostar…” E o Bud gostou ele me aceitou e então gravei com ele meu primeiro disco nos EUA”.

Nos EUA e Europa, acompanhou os amigos João Gilberto, Tom Jobim, Sergio Mendes e Astrud Gilberto, e os ídolos Dorival Caymmi e Stan Kenton, entre muitos outros. Da nova aventura americana, sobraram os hoje cult Deodato Donato (unindo o piano do compositor aos arranjos de Eumir Deodato, em 1969) e A bad Donato (registrado com feras da vanguarda do jazz ianque, em 1970). O reecontro com o Brasil, em 1973, se deu com o primeiro álbum no qual Donato assumia os vocais, Quem é quem. “Eu fazia os meus teminhas, como sempre fiz. Mas nada de pensar em letra. Música para mim era o que eu gostava de ouvir, jazz instrumental, raramente tem cantor. Quando voltei ao Brasil o Agostinho (dos Santos, produtor) falou: ‘Cadê as letras? Sem letra ninguém canta’. Ai eu comecei a me preocupar com a canção propriamente dita. A gente pode fazer dezenas de temas em minutos, mas não quer dizer que são canções. Tem de ter uma bela letra e uma bela melodia, aí sim. Tem de ter uma certa capacidade de comunicação universal”, acredita o compositor.

“Quando comecei a cantar, foi um certo drama para mim. Mas segui o exemplo de Tom Jobim, Vinicius, Nelson Cavaquinho. cada um canta sua própria música com a voz que Deus lhe deu. Gente sem grande material vocal, mas com uma grande emoção. Foi um momento de mudança nos rumos da música, quando todo compositor passou a ser cantor também”, diz.

A experiência de Quem é quem se provou tão positiva que hoje Donato é um dos campeões absolutos em número de parceiros na história da MPB. “Comecei a fazer música com mais e mais gente. Um dos primeiros foi o Martinho da Vila. Aí vieram Gil, Caetano, Moraes Moreira, Abel Silva… até Baby Consuelo! Paulo Cesar Pinheiro, Chico Buarque, Cacaso, Marcos Valle, Ronaldo Bastos, Lô Borges, Aldir Blanc, João Bosco, Geraldo Carneiro e até o arisco João Gilberto estão entre as dezenas de figurões que já racharam canções com Donato, que prefere oferecer as melodias aos poetas a fazer o processo inverso. “É complicado botar música em letra. É mais fácil a música ficar passeando sozinha, tentando encontrar uma letra, deixar as palavras sairem da melodia”.

As décadas de 70 e 80 exibem um Donato de ímpeto mais domado. Entre 1975 e 1996, grava apenas três LPs. Um contraste tremendo com a explosão de sua produção de lá para cá: nos últimos 11 anos, o compositor lançou nada menos que 15 álbuns (cinco deles no mesmo ano, 2002) e seu primeiro DVD, Donatural (2005). “Tenho tido momentos de silêncio também – já passei, por duas vezes diferentes, dez anos sem gravar nada e já tive anos que lancei seis discos de uma vez. Não é plano, é coincidência, vou aceitando vários convites de vários lugares, já que não tenho contrato com uma gravadora só”, diz o músico, que congrega gerações em seus discos mais recentes – dividindo espaço com nomes como Marisa Monte, Marcelo D2, Davi Moraes e Arnaldo Antunes, todos fãs confessos. Além de fazer discos também com veteranos como Paulo Moura e Emílio Santiago.

Desses anos todos, Donato afirma não ter extraído filosofia alguma, a não ser um amor incondicional pela música. E conta mais uma historinha: “Sempre me perguntam se eu tenho uma fórmula, um método para fazer música. E eu não consigo entender quem pensa que é assim que a coisa funciona. Certa vez, nos EUA, comprei um livro – por 99 cents, num supermercado 24h – chamado How to write a song. Uma duzia de grandes autores dando conselhos sobre composição. Gente de categoria, Hoagy Carmichael, Johnny Mercer… Li aquilo tudo e não gravei nada. Só lembro do conselho do Duke Ellington. Ele disse: Quando tiver uma idéia interessante, grave ou anote na hora. Pode ser um verso, uma melodia… Se deixar pra depois, você esquece e some. E aquela poderia ter sido a melhor música que você iria fazer na vida”.

DRAINED – THE DESCENT

Maio 27, 2007

Em outubro último, tive a honra e o prazer de integrar o júri da Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema) no Festival do Rio. Foi uma tremenda maratona, tivemos pouco mais de uma semana para assistir, julgar e debater 22 longas-metragens latino-americanos (incluindo brasileiros). No fim das contas, o júri (liderado pelo venerando crítico escocês Derek Malcolm, do The Guardian e do Evening Standard) decidiu premiar O cheiro do ralo. E devo dizer que eu, fã assumido do filme de Heitor Dhalia, fiz o maior lobby com meus colegas jurados… Pois bem, além de deliberar sobre o filme escolhido, cada um de nós deveria escrever um texto sobre o Festival, e para mim coube a tarefa de redigir uma resenha sobre O cheiro, ou melhor, Drained, o título que o longa ganhou no mercado exterior. Escrevi direto em inglês, num ato de destemor, e o texto foi publicado sem maiores ressalvas no site da Fipresci (pra quem duvida: http://www.fipresci.org/festivals/archive/2006/rio/rio_drained.htm). Meu primeiro texto em inglês publicado, e justo num dos mais respeitados fóruns de crítica cinematográfica do mundo! Sorry, periferia.

Publicado no site da Fipresci, outubro de 2006.

Winner of the International Critics’ Award at the Festival do Rio (Rio de Janeiro International Film Festival), Heitor Dhalia’s Drained (O cheiro do ralo) could seem shocking to some, boring to others or simply way too sickening. None of those “quirks” weakens the subversive, dark humor of the picture, or its striking originality.

Lourenço Mutarelli, author of the novel from which the film was adapted, has not only an impressive record as a writer of graphic novels; he’s also struggled with mental disturbances, and been in and out of psychiatric institutions. His history runs vividly through Drained, which follows the life of the main character – named, not coincidentally, Lourenço.

Lourenço (played by Selton Mello, one the foremost names in Brazilian film acting these days) exploits poor and desperate people to earn his living – buying used objects for pennies, in order to re-sell them. The schizoid ambivalence of his feelings towards his “customers” is one of the main subjects of the film. Lourenço (the character, not the author) feels pleasure in taking advantage of the people who come to sell him stuff. But he also feels strangely attached to them, on an almost sadomasochistic level that compensates for his total alienation from human contact on a personal level.

Not only does our protagonist have to deal with this colorful collective of desperate folks, but two very distinct obsessions are growing increasingly larger in his life: He’s fixated on a waitress at the diner where he eats lunch – fixated, more specifically, on her behind. And he also can’t stop thinking about the awful smell that comes from the drain in his office restroom. Eventually, he comes to believe the stinking drain is, in fact, a portal leading to Hell.

This tale of moral – and physical, and psychological – decay is conducted with a deliberate, sometimes almost morose pace, by director Dhalia. The story could very well be the stuff of tragedy, but a surreal sense of humor pe rmeates the film, inviting the viewer to share the strange way Lourenço sees the world – even if it never encourages the audience to see him sympathetically.

Much as Lourenço regards his clients, we’re repulsed by this man’s behavior and his utter lack of humanity. But we also cannot help but be fascinated by the intricate (and, ultimately, funny) way his mind works. A wonderful cast of character actors helps Mello in this task – each one bringing, in succession, a pathetic and/or bizarre little drama to be crushed by Lourenço’s cynicism.

In one of the best scenes, a guy tries to sell to Lourenço a piece of dirty paper containing Steve McQueen’s autograph. Lourenço refuses to buy the autograph, saying he doesn’t care about movies. Yet, in the very same scene, among the piles of old and rejected stuff he accumulates on his deposit, lies a full-sized poster of Sam Peckinpah’s The Getaway, starring… Steve McQueen! The scene is a good example of the picture’s sometimes subtle, sometimes harsh, always striking humor: We get to laugh, but we can also sense the alienation and lack of purpose of the protagonist’s existence.

Dhalia’s screenplay, written in collaboration with screenwriter and novelist Marçal Aquino, manages to manipulate our emotions without ever presenting a character with whom we can identify – but always letting us sense the hollowness of the protagonist’s inner self.

Presenting itself in a very stark, sparse way – almost all the action occurs at Lourenço’s office – the film nevertheless conveys the same urban dread that dominates masterpieces like Scorsese’s Taxi Driver, inviting us to sense the loneliness, the lack of significant human contact and the grating feeling of being alone in the world, even when surrounded by a crowd. And when things start to fall apart, leading to a cathartic showdown of violence, we can almost feel sorry for Lourenço. But only almost.

O VERDADEIRO MANUAL DO CANDIDATO AO VESTIBULAR DE JORNALISMO!

Maio 27, 2007

Inédito, exclusivo para o t.d.v.

Certas frases que leio por aí, mesmo não sendo originalmente humorísticas, causam-me frouxos de riso. Gosto, por exemplo, de ler entrevistas com jornalistões velhos, veteranos. Percorro o texto com minha técnica improvisada de leitura dinâmica e, batata, lá está a bendita frase: “Um dia, bati à porta do jornal tal, pedi um emprego de repórter e consegui”. Uma pândega! Outro tipo de texto que sempre me diverte são reportagens sobre os vestibulares para comunicação social. Vejam só: este ano, na prova para a Unicamp, a relação candidato-vaga bateu nos 37 (candidatos) para uma (vaga). Na Universidade Federal Fluminense, a coisa chegou a 26/1 (quando ingressei na mesma instituição, há distantes 16 anos, era 16/1). Hilário!

Divirto-me lendo essas coisas ao constatar que tanto os veteranos do jornalismo quanto os aspirantes à mesma carreira se irmanam num ponto – eles não têm a mínima noção do que se passa nas redações hoje em dia. Vá você, meu caro estudante de comunicação, bater à porta de um grande jornal, em 2007 (ou em 2000, ou 1996, ou 1990…) para “pedir um emprego de repórter”. O mais provável é que você não ultrapasse a portaria. Se ultrapassasse (e vamos supor também que você saiba a quem pedir o tal emprego) verificaria que não há emprego. Há, no máximo, TRABALHO para repórter, o que é uma coisa bem diferente. Pergunte aos coleguinhas que têm de emitir nota fiscal para receber seus salários, quer dizer, seus pró-labores mensais, e eles te explicarão as diferenças.

Igualmente sem noção são o mancebo ou a moçoila que, sofregamente, enfiam a cara nos livros para vencer a dura corrida por uma vaga num curso de comunicação. Porque, meu filho, 37 para 1 não é bolinho não. O cara não pode brincar de estudar; tem que comer os livros mesmo. E pra quê? Para, ao final de quatro ou cinco anos, ser jogado na rua da amargura com um diploma de bacharel em comunicação social, tendo de enfrentar uma relação candidato/vaga (de emprego) mil vezes pior. A cada semestre, sei lá eu quantas centenas (milhares?) de bacharéis caem na vida, disputando encarniçadamente o direito a um posto de trabalho que, 99% das vezes, não existe. (Pausa para uma recomendação de leitura: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=359ENO001)

Porque, meu caro jornalistão velho, minha cara caloura do primeiro período, arrumar emprego em jornalismo não depende de preparação, de destemor ou de capacidade intelectual. Depende de uma série de fatores que não se apreendem na faculdade, nem no exercício da profissão. Jornalismo é oligarquia – às vezes, monarquia, aquela de direito divino, mesmo. Em oligarquia não existe espaço para edificantes historinhas de ascensão-pelos-próprios-méritos. E no mundo do jornalismo, fundamentado em uma oligarquia das mais estanques e impermeáveis, não é diferente.

Não seria bom se alguém avisasse isso aos incautos, na hora em que eles marcam a opção “Comunicação Social – Habilitação: Jornalismo” no formulário de inscrição no vestibular? Como saber as chances reais que esse mesmo incauto acima tem de vencer na selva das redações? Quais são as habilidades que ele deve desenvolver? Quais características ele deve procurar cultivar?

Pois é disso que este texto trata. Com vocês, sem mais delongas, segue…

O VERDADEIRO MANUAL DO CANDIDATO AO VESTIBULAR DE COMUNICAÇÃO

A seguir, deslindarei os talentos fundamentais que um aspirante a jornalista deve possuir para ir adiante na carreira. A apresentação das mesmas virá em ordem decrescente, da mais importante para a mais dispensável. Junto a cada descrição, aponto duas estimativas porcentuais sobre o futuro profissional do homem (ou mulher) de imprensa que possuir a tal característica: a primeira relativa à chance dele (dela) arrumar o primeiro emprego, a segunda sobre a capacidade que ele (ela) terá de se dar bem no ofício.

Desnecessário dizer que todos os exemplos que citarei nos tópicos a seguir são fictícios e postos no texto para mera ilustração de caráter humorístico. E não têm, em hipótese alguma, ligação com pessoas vivas, ou mortas, ou por nascer.

Lembre-se, o fato de não possuir uma, duas ou todas as características listadas abaixo não significa, necessariamente, que você não vai conseguir vencer no jornalismo. Vai ser mais difícil, diria eu quase impossível; as coisas vão andar muito mais lentamente para você do que para os outros. Mas, como eu aponto lá no final, perseverança também conta. Pouco, mas conta.

Para se dar bem no jornalismo, você deve ter os seguintes talentos (de preferência nesta ordem):

1. SER PARENTE DE ALGUM JORNALISTA CONSAGRADO
Chance de arrumar o 1° emprego: 100%
Chance de se dar bem na carreira: variável, mas em geral a partir de 90%

Em uma oligarquia, nada supera os laços sanguíneos. Capacidade, formação, experiência, preparo, pau grande; tudo isso fica em segundo plano, se você tiver que disputar uma vaga com o parente de algum figurão. Quanto mais proeminente na profissão (dono de jornal, bingo!; editor, editor-executivo, diretor de redação, OK; seu primo que acabou de virar estagiário, não OK) for seu ancestral, melhor. Quanto mais direto for o parentesco, melhor. Filho? Perfeito. Neto? Bom também. Sobrinho? Tá valendo, tá valendo. Aquele primo seu que você só conhece de ler o nome dele no jornal? Hmmmm, acho que não. Ser parente de um jornalista bem-posto na carreira é garantia certa de arrumar o primeiro emprego. Geralmente se começa por baixo – um estágio, uma vaguinha temporária, um frila meia-boca. Mas dado o impulso inicial, a bola passa a rolar rápida. Seu primeiro emprego pode não ser na mesma empresa em que seu parente importante trabalha. Na verdade isso é até comum, propositalmente comum; como em jornalismo todo mundo conhece todo mundo (veja o talento n°3), o que não falta é oportunidade para aquele parente-de-figurão. “Ô, fulano, quebra essa pra mim, arruma uma coisinha aí pro meu sobrinho. Ele tá começando agora, pode ser qualquer coisa…” Colocando você em outra empresa, seu ancestral influente não vai precisar se preocupar com as fofocas sobre nepotismo. Não se preocupe: sabendo quem é seu padrinho, as pessoas vão tratá-lo bem, não importa onde for. Faça o arroz-com-feijão, mantenha-se marginalmente acima do medíocre e relaxe. Cedo ou tarde seu nome será lembrado para cargos melhores. Geralmente os mais cobiçados, tipo colunista ou correspondente internacional (às vezes ambos ao mesmo tempo). Em caso eventual de desemprego, há a garantia de uma rápida recolocação. Vacilos pequenos ou até médios serão relevados, dependendo da importância de seu parente. Apenas evite as cagadas de grande porte – a menos que você seja filho único do dono de algum grande conglomerado de comunicação, aí vale tudo. O lado ruim dessa moleza é a já citada fofoca. Invariavelmente, você será alvo de comentários maldosos, que atribuirão sua posição profissional não à sua capacidade, mas à influência de seu padrinho (no sentido Mario Puzo do termo). Você, claro, deve cagar para os comentários e seguir impávido adiante.
Os casos práticos de aplicação deste talento são tantos que é difícil escolher um exemplo só. Lembre-se que boa parte das corporações de comunicação no Brasil são empresas familiares, nas quais há todo um incentivo para que as novas gerações substituam as antigas.

2. SE CASAR (OU NAMORAR, OU APENAS… VOCÊ SABE) COM ALGUM JORNALISTA INFLUENTE
Chance de arrumar o 1° emprego: 100%
Chance de se dar bem na carreira: muito instável, mas em geral alta.

Se você não nasceu nobre, sempre resta o recurso de atrair a nobreza para sua cama. Conseguir uma ligação amorosa, mesmo que efêmera e de caráter meramente carnal (A.K.A. “teste do sofá”) com um nome importante no jornalismo tem um poder incontestável de abrir portas. Quer subir rápido na carreira? Escolha um alvo, naturalmente alguém bem importante, e invista sem trégua. Uma vez conquistado o coração do(a) big shot, faça de tudo para agradá-lo(a) e prolongar a vida do relacionamento. Vale tudo: flores, bombons, pompoarismo, aquela gravidez não-planejada (me engana que eu gosto!)… Você verá como as coisas vão melhorar pro seu lado, de modo bem rápido. Em geral, à medida em que seu ente amado for ascendendo, você tende a ir no vácuo. São conhecidos casos de repórteres inexperientes que, depois de cederem aos encantos de seus chefes, ganharam promoções, postos de trabalho no exterior e até, vejam vocês, polpudas pensões alimentícias. Uma dica para quem demonstra vocação nesta área: não perca tempo com redações de veículos impressos. Parta logo para as emissoras de TV, onde o toma-lá-dá-cá carnal é mais franco e direto (e os salários são melhores). Este talento é mais disseminado entre as aspirantes do sexo feminino, uma vez que a maioria dos postos de direção nas empresas de comunicação é ocupado por homens. O que não quer dizer que os mancebos não devam arriscar seus galanteios pra riba das superiores. (E dos superiores também, por que não?) Claro que no caso da investida homem-contra-mulher, a coisa deve ser levada com um pouco mais de tato e delicadeza. Um flerte feminino pode ser interpretado como uma brincadeira charmosa. Um flerte masculino costuma dar em processo por assédio.
As vantagens e desvantagens deste talento são mais ou menos os mesmos do talento n°1. Quem trepa – perdão – sobe na carreira por conta da influência de seu cônjuge tem de aturar uma dose ainda maior de fofoca, o que pode ser especialmente cruel para com as mulheres. É preciso redobrar o cuidado com seu desempenho profissional, depois de arranjar o tão sonhado primeiro emprego. Lembre-se que se você for um jornalista medíocre, seu status vai durar apenas enquanto seu love affair estiver em vigência. Trabalhe direitinho, esforce-se, puxe os sacos certos, cumpra seus horários; assim, se o romance acabar de uma hora para a outra, você será lembrado por seus próprios méritos, e não apenas por ser a(o)-fulaninha(o)-que-deu(comeu)-pro-editor(a). Outra desvantagem radical é a possibilidade de você se enrabichar por um psicopata travestido de diretor de redação. É raro, mas já aconteceu e está documentado (http://multimidia.terra.com.br/jornaldoterra/interna/0,,OI69142-EI1038,00.html).

3. SABER COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS
Chance de arrumar o 1° emprego: 80%
Chance de se dar bem na carreira: fazendo o jogo direitinho, com paciência, 100%.

Num ramo profissional no qual as vagas rareiam e os candidatos abundam, a capacidade de criar um personal social networking é crucial. No jornalismo, mais que isso: se você não deu a sorte de nascer parente de algum figurão, ou não tem suficiente sangue-frio (ou os predicados físicos) para seduzir seus superiores, é IMPERATIVO que você faça o maior número possível de amigos. Não importam suas opiniões e preferências pessoais, sua personalidade ou seu temperamento. Você DEVE, repito, em maiúsculas novamente, DEVE ser tão cativante, confiável, simpático, agradável, espirituoso e gente-fina quanto possível. O objetivo é criar uma ampla rede de amizades que possam te levar adiante na profissão. Sem amigos, um jornalista não chupa nem um Chicabom. Subir na carreira então, nem pensar. Quanto mais amigos você tiver, de preferência em várias redações, maior é sua chance de conseguir o primeiro emprego e também de manter-se empregado. Porque, conforme já demonstrado na descrição dos dois primeiros talentos, não importa o que você sabe ou pode fazer e sim quem você conhece. Raciocine comigo: há uma vaga no jornal X, que tem de ser preenchida pela indicação do editor Y. Se Y não tiver algum parente (talento n°1) que se encaixe na vaga, nem um(a) namorada(o) aproveitável (talento n°2), vai sobrar quem para indicar? Os amigos, ora! E é aí que você entra.
Esse talento, diferente do primeiro (que envolve laços sanguíneos) e do segundo (que, sejamos claros, envolve beleza física), pode ser aprendido e desenvolvido por qualquer um. Mas a fina arte da brodagem tem meandros e sutilezas infindas. É preciso saber de quem se aproximar; evitar a fama de puxa-saco; avaliar quais amizades valem a pena cultivar e as dignas de dispensa; entender que é razoável passar por antipático diante de 20 colegas, se isso render a cumplicidade de um chefe; desviar da síndrome de arroz de festa, aquele chato que tenta desesperadamente ser amigo de todo mundo. É importante resistir à tentação de ficar “metido” assim que assumir um cargo importante. Eu sei, é irresistível assumir uma postura arrogante uma vez estando por cima da carne-seca. É a vingança, o desconto por anos de humilhação. Conselho de amigo: mantenha-se o mesmo camarada simpático de antes. Nunca se sabe o dia de amanhã. (Como era aquele ditado mesmo? “Seja legal com as pessoas que você encontra na subida, pois você as encontrará de novo na descida”. Ou algo assim.) Sua ascensão vai depender da solidez de suas amizades, da posição que seus amigos ocupam e, por último mas não menos importante, de sorte. Portanto, espere uma caminhada mais lenta e penosa rumo ao topo, em comparação com os coleguinhas que dispoêm dos talentos n°1 e/ou n°2. Mas a longo prazo, este talento pode ser mais vantajoso que o n°2. Se você mantiver a fama de cara maneiro, tenderá a manter os amigos para sempre (e ganhar outros com o tempo). Já os romances costumam ser muito mais instáveis que as amizades…

4. SER MEMBRO DE ALGUMA FAMÍLIA RICA E/OU INFLUENTE
Chance de arrumar o 1° emprego: 80%
Chance de se dar bem na carreira: 75%

Grana & poder nunca atrapalharam ninguém. Qualquer que seja seu projeto de vida, com dinheiro no bolso e/ou parentes influentes tudo se torna mais fácil. Dentro do jornalismo não é diferente. Um sobrenome bacanudo pode garantir uma vaga em redação, desde que você saiba onde procurar. O fato é que jornalista é uma raça bajuladora e interesseira por natureza; muitas vezes, filhos de famílias importantes têm precedência na hora de conseguir o primeiro emprego, porque a coisa vira um “favor pessoal” ao chefe do tal clã influente. Exemplo: um outrora importante (mas hoje um tanto caidaço) diário carioca é um verdadeiro cabide de empregos para os herdeiros da sociedade local. Não se trata de questionar os méritos dos moços e moças de origem chique que trabalham lá. Até porque, por serem ricos, eles tiveram chance de estudar em bons colégios, viajaram ao exterior, enfim, estão razoavelmente bem preparados. Mas a quantidade de filhos, netos e sobrinhos de granfinos realmente impressiona. Muitas das vantagens do talento n°1 são aplicáveis ao talento n°4. Você será bem-tratado e, de maneira geral, popular na redação. Uma vez empregado, suas chances de prosseguir bem na carreira são altas. Entretanto, sua fortuna pode ser uma faca de dois gumes. O repórter de família rica que exerce a profissão só por diletantismo, pelo mero prazer de ver seu nominho escrito no jornal, tem maiores possibilidades de prosseguir. Ele sabe que o trabalho em geral é pesado e estressante e que o salário nunca é condizente com a aporrinhação. Mas é o preço que se paga por um hobby não-convencional. Por outro lado, o jovem mais ambicioso logo ficará frustrado, ao perceber que em qualquer outra carreira ele estaria ganhando mais e trabalhando menos. Aí é só chamar papai/vovô/titio ao telefone que ele te arruma outro emprego, em alguma outra área.

5. SABER COMO INVENTAR PAUTAS MIRABOLANTES
Chance de arrumar o 1° emprego: N/A (só é aplicável por quem já está empregado)
Chance de se dar bem na carreira: 100%

Finalmente entramos na relação de talentos ligados especificamente ao exercício da profissão. Você, ingênuo aspirante, já deve ter constatado, estarrecido, que abstrações como “escrever bem” ou “estar sempre bem informado” são questões periféricas, secundárias, na carreira de um jornalista. Então vamos lá: se você não é filho de jornalista, não casou com jornalista, não é de família rica e ainda não formou sua network pessoal, o talento mais imporante a desenvolver é o de criar pautas interessantes. “Pauta”, não sei se você já sabe, é a idéia básica a partir da qual as reportagens são apuradas e escritas. Em todas as redações existe um sinistro ritual conhecido como “reunião de pauta”, no qual os amedrontados repórteres “cantam” (anunciam) suas sugestões de pauta para os editores. As sugestões que mais encantarem os chefes vão virar matérias reais, em geral apuradas e escritas pelo mesmo sujeito que anunciou a idéia. Mas quem não sugeriu nada – ou cantou alguma pauta que não tenha agradado – não vai ficar de braços cruzados; esses vão fazer as pautas impostas pelos próprios editores. Aprenda comigo: editores valorizam muito mais o repórter que cria a pauta do que o repórter que só a executa. Então não marque bobeira. Qualquer idéia que você tiver para uma matéria – QUALQUER uma, não importa o quão idiota ela soe – está valendo. Editores adoram repórteres que sugerem cinco, seis pautas por reunião. Mesmo que as matérias sejam impossíveis de se fazer ou simplesmente ridículas. Em alguns casos (principalmente nos jornais ditos “populares”), quanto mais ridícula, melhor! Esse talento é vital para os jornalistas free-lancers. O interessante é que, muitas vezes, dá para ganhar cartaz com os chefes só sugerindo as reportagens, sem sequer chegar a executá-las. Pautas são “derrubadas” o tempo todo no dia-a-dia das redações – faltou foto, Beltrano de Tal não falou, o evento X foi cancelado em cima da hora. Aí você, que sugeriu a matéria derrubada, não vai precisar fazê-la… mas não perde o crédito que ganhou por tê-la sugerido. Claro que é necessário um equilíbrio aqui. Tente sugerir apenas pautas que você seja capaz de apurar. Nada é pior que inventar uma idéia tresloucada, simplesmente não-factível, e se ver obrigado a apurar a matéria porque o editor adorou a sugestão. Seja criativo, mas mantenha o pé no chão.

6. SER (OU TER) CARA-DE-PAU
Chance de arrumar o 1° emprego: 75%
Chance de se dar bem na carreira: 50%

Este talento funciona muito bem em conjunto com os talentos n°3 e n°5 – na verdade, a cara-de-pau os potencializa. Manter a expressão séria enquanto se tenta convencer o editor de uma pauta totalmente idiota (mas chamativa) é fundamental em vários momentos na carreira de um repórter. E a a cara dura nunca atrapalhou ninguém a arrumar novos amigos e/ou contatos profissionais, muito pelo contrário. É necessário entender também que a cara-de-pau é básica para a função primordial do jornalista: abordar pessoas desconhecidas e chateá-las com perguntas. A cara-de-pau é fundamental para os repórteres de Geral (a editoria que cuida das notícias metropolitanas), pois são eles quem mais precisam manter contato com o povão na rua. Em Política e Esportes este talento é desejável, mas não tão necessário. Jornalistas de áreas como Economia, Cultura e Informática até podem se dar bem sem precisar da cara-de-pau (visto que a maioria das pautas chega via assessoria de imprensa, que arruma as fontes para o repórter na tranqüilidade). Mas ainda assim não deixa de ser recomendável. Ter esse talento também significa ser capaz de improvisar, “virar” uma pauta para outro lado se o resultado previsto anteriormente não foi confirmado pela apuração, enrolar o chefe quando a matéria está engasgada, convencer o entrevistado a soltar aquela frasesinha que apimenta a matéria… Este talento é ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEL, repito, ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEL a qualquer um que queira seguir carreira em fotografia. Sem cara-de-pau, um fotógrafo não chupa nem um Chicabom.

7. ESCREVER BEM
Chance de arrumar o 1° emprego: 0%
Chance de se dar bem na carreira: 50%, ou maior, se combinado com outros talentos acima

Quem não está por dentro das mumunhas da carreira pode se espantar com a baixa colocação deste talento nesta lista. Ora, mas escrever bem – saber passar uma idéia com clareza, elegância e concisão usando a escrita – não é, afinal de contas, o requisito primordial a qualquer um que deseje ser jornalista? Nem tanto, mestre, nem tanto. Primeiramente, “escrever bem”, em jornalismo, é um conceito bastante relativo. As cabriolas estilísticas de um Machado de Assis não cabem num colunão de polícia. Por outro lado, “Os sertões” foi concebido como uma reportagem, mas vá publicar aquilo num jornal hoje em dia! A internet liberou a criatividade de um porrilhão de escritores diletantes, uns com mais talento, outros com menos (e a grande maioria, com talento nenhum). Entretanto, caros blogueiros, o escrever jornalístico depende muito menos de inspiração e criatividade e muito mais da adequação do escritor ao formato do veículo e – principalmente – de agilidade, muita agilidade. Se a hora do fechamento não perdoou Hemingway, não é contigo que ela vai arregar.
Segundamente, o escrever de maneira correta em jornalismo é um ofício perfeitamente apreensível em faculdades e/ou cursos técnicos. Não tem mistério algum: lead, pirâmide invertida, ouvir os dois lados da questão, etc. Isso aí se aprende em seis meses. (Note bem, me refiro à maneira correta. Ninguém vai sair da aulinha de Técnica de Redação II, lá pelo quinto período da faculdade, pra escrever um “A sangue frio”. Aí sim entra em cena o tal do dom – e isso não se aprende na escola.) Portanto, neste quesito, estamos todos mais ou menos nivelados. Se o cara não é uma besta completa, ele sai da faculdade sabendo bater uma materinha de jornal.
Terceiramente, escrever bem hoje em dia não importa muito – pois não há muito o que escrever, de qualquer maneira. Os espaços para texto estão cada vez menores, subordinados primeiro à quantidade de anúncios e segundo ao tamanho das fotos da reportagem. Nos jornais diários, então, a centimetragem só encolhe, a olhos vistos. O melhor exemplo é o padrão telegráfico dos jornais populares do Rio, nos quais o que vale mesmo é um título bacana e um fotão estourado. Sendo assim, quem vai precisar de gênios da escrita na redação?
Mas calma, não se desespere. Saber escrever nunca atrapalhou jornalista algum. Na verdade, este talento é altamente desejável. A questão é que APENAS saber escrever não vai levá-lo muito longe. Muitos dos luminares da profissão, de hoje e de ontem, alcançaram os píncaros da glória sem saber posicionar uma vírgula corretamente. Mas eles sabiam o bê-a-bá (alguns, apenas isso) e, combinando um razoável dom com as palavras a um ou mais talentos mais importantes, progrediram na vida. Individualmente, este é o talento menos valorizado, mas talvez seja o melhor “talento secundário” para se ter. Conselho: se você já escreve direitinho, não perca tempo na faculdade prestando atenção nas bobagens dos professores. Tente fazer o máximo possível de amigos e vá lendo e escrevendo pra cacete nas horas vagas. Assim, quando um de seus muitos amigos te indicar para alguma vaga (lembre-se, só arruma emprego quem tem amigo/parente/conjuge no lugar certo), você vai fazer bonito e impressionar não apenas o camarada que te indicou, mas também seus superiores.

8.SER PERSEVERANTE
Chance de arrumar o 1° emprego: 100% (mas pode demorar um bocado)
Chance de se dar bem na carreira: variável. A longuíssimo prazo, tende a crescer, especialmente se combinado com outros talentos.

Quem espera sempre alcança. Será? Bem, no jornalismo essa é uma meia verdade, ou talvez 1/5 de verdade. Mesmo que você não disponha de ao menos um dos talentos descritos acima, a paciência, a insistência e o sangue de barata podem levá-lo longe na carreira. Comece já na faculdade fazendo todas as provas de estágio que pintarem. Provavelmente não vai passar de primeira. Nem de segunda… Mas aí o talento n°8 entra em cena. Não desista! Alguma hora você pega a manha da dinâmica de grupo. Ou saca o que exatamente deve colocar na prova escrita. Ou apenas dá a sorte de encontrar competidores (ainda) menos aptos que você mesmo. Se a faculdade acabou e você ainda não arrumou estágio, persevere mais. Mostre a cara, tente fazer amizades, fique moscando em volta de seus colegas que já decolaram na profissão. Mais cedo ou mais tarde (geralmente mais tarde) alguém vai te indicar pra alguma porra, nem que seja por pena.
Uma vez empregado, redobre seu estoicismo. Na certa você vai começar por baixo, num trabalho que será a) mal-remunerado, b) extenuante ou c) sem visibilidade alguma. Provavelmente, os três ao mesmo tempo. Mas sempre tenha em mente que jornalismo, especialmente nas redações, é um ramo de altíssima rotatividade empregatícia. A inércia está a seu favor, mesmo se você não for brilhante nem tiver algum dos talentos mais importantes acima descritos. Basta manter-se no mesmo lugar, suportando os baixos salários e as potenciais humilhações, que um dia só vai sobrar você como rosto conhecido na redação. Aí sim, podem pintar as promoções, os jabás, os aumentos… Lembre-se: se a perseverança é seu único talento, em alguns momentos a coisa parecerá preta. Vai testemunhar coleguinhas mais bem-relacionados e/ou apadrinhados e/ou mais safos subindo, enquanto você continua ali, marcando passo. Morda os lábios e siga em frente, impávido. À medida em que for desenvolvendo os talentos “adquiríveis” da lista (os de número 3, 5, 6 e 7), sua situação tende a melhorar. A grande, e talvez única vantagem deste talento é que todo mundo nasce com ele, em maior ou menor grau. Aproveite ao máximo – tirando a eventual boca-livre em coletivas de imprensa, pra jornalista nada costuma ser de graça.